domingo, 16 de agosto de 2015

Max Weber


Autor
Karl Emil Maximilian Weber (pronúncia em alemão: ˈmaks ˈveːbɐ; Erfurt, 21 de abril de 1864 — Munique, 14 de junho de 1920) foi um intelectual, jurista e economista alemão considerado um dos fundadores da Sociologia. Seu irmão foi o também famoso sociólogo e economista Alfred Weber. A esposa de Max Weber, Marianne Weber, biógrafa do marido, foi uma das alunas pioneiras na universidade alemã e integrava grupos feministas de seu tempo.

É considerado um dos fundadores do estudo moderno da sociologia, mas sua influência também pode ser sentida na economia, na filosofia, no direito, na ciência política e na administração. Começou sua carreira acadêmica na Universidade Humboldt de Berlim e, posteriormente, trabalhou na Universidade de Freiburg, na Universidade de Heidelberg, na Universidade de Viena e na Universidade de Munique. Personagem influente na política alemã da época, foi consultor dos negociadores alemães no Tratado de Versalhes (1919) e da comissão encarregada de redigir a Constituição de Weimar.

Grande parte de seu trabalho como pensador e estudioso foi reservado para o estudo do capitalismo e do chamado processo de racionalização e desencantamento do mundo. Mas seus estudos também deram contribuição importante para a economia.

Sua obra mais famosa são os dois artigos que compõem A ética protestante e o espírito do capitalismo, com o qual começou suas reflexões sobre a sociologia da religião. Weber argumentou que a religião era uma das razões não-exclusivas do porque as culturas do Ocidente e do Oriente se desenvolveram de formas diversas, e salientou a importância de algumas características específicas do protestantismo ascético, que levou ao nascimento do capitalismo, da burocracia e do estado racional e legal nos países ocidentais. Em outro trabalho importante, A política como vocação, Weber definiu o Estado como "uma entidade que reivindica o monopólio do uso legítimo da força física", uma definição que se tornou central no estudo da moderna ciência política no Ocidente. Em suas contribuições mais conhecidas são muitas vezes referidas como a "Tese de Weber".
Biografia[editar | editar código-fonte]


Max Weber e seus irmãos, Alfred e Karl, em 1879
O jovem Max foi o primeiro de sete filhos de Max Weber, advogado e político, membro do Partido Nacional Liberal, e de Helene Fallenstein, uma descendente de imigrantes huguenotes franceses. A família estimulou intelectualmente os jovens Weber desde a tenra idade. Seu irmão Alfred Weber, quatro anos mais jovem, também se tornaria sociólogo, mas, sobretudo, um economista, que também desenvolveu uma importante sociologia da cultura.

Em 1882, Max Weber matriculou-se na Faculdade de Direito da Universidade de Heidelberg, onde seu pai havia estudado, frequentando também cursos de economia política, história e teologia. Em 1884 voltou para casa paterna e se transferiu para a Universidade de Berlim, onde obteve em 1889 o doutorado em Direito e em 1891 a tese de habilitação, ambos com escritos da história do direito e da economia.

Depois de completar estudos jurídicos, econômicos e históricos em várias universidades, se distingue precocemente em algumas pesquisas econômico-sociais com a Verein für Sozialpolitik (associação fundada em 1872 pelos economistas associados à Escola historicista alemã de economia à qual Weber já tinha aderido em 1888.


Max Weber e sua esposa Marianne em 1894
Em 1893 casou-se com Marianne Schnitger, mais tarde uma feminista e estudiosa, bem como curadora póstuma das obras de seu marido. Atualmente, a publicação de sua correspondência íntima também revelou seus relacionamentos com Else von Richtoffen e Mina Tobler, levando muitos especialistas a revisarem a importância do amor e do erotismo em sua obra.

Foi nomeado professor de Economia nas universidades de Freiburg em 1894 e de Heidelberg em 1896. Entre 1897, ano em que seu pai morreu, e 1901 sofreu de uma aguda depressão, de modo que do final de 1898 ao final de 1902 não realizou atividades regulares de ensino ou científicas. Neste período ele esteve em alguns sanatórios e fez diversas viagens pela Europa tendo ficado vários meses na cidade de Roma onde recuperou as forças.

Curado, no Outono de 1903 renunciou ao cargo de professor e aceitou uma posição como diretor-associado do recém-nascido Archiv für Sozialwissenschaft und Sozialpolitik (Arquivos de Ciências Sociais e Política Social), com Edgar Jaffé e Werner Sombart como colegas: nesta revista publicaram em duas partes, em 1904 e 1905, o artigo-chave A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. Naquele mesmo ano, visitou os Estados Unidos. Graças a uma enorme renda privada derivada de uma herança em 1907, ainda conseguiu se dedicar livremente e em tempo integral aos seus estudos, passando da economia ao direito, da filosofia à história comparativa e à sociologia, sem ser forçado a retornar à docência. Sua pesquisa científica abordou questões teórico-metodológicas cruciais e tratou complexos estudos histórico-sociológicos sobre a origem da civilização ocidental e seu lugar na história universal.

Durante a Primeira Guerra Mundial, serviu como diretor de hospitais militares de Heidelberg e ao término do conflito, voltou ao ensino da disciplina de economia, primeiro em Viena e em 1919 em Munique, onde dirigiu o primeiro instituto universitário de sociologia na Alemanha. Em 1918 ele estava entre os delegados da Alemanha em Versalhes para a assinatura do tratado de paz e foi conselheiro para os redatores da Constituição da República de Weimar.

Encontra-se sepultado no Cemitério de Bergfriedhof de Heidelberg, em Baden-Württemberg na Alemanha.

Escritos e obras[editar | editar código-fonte]

A ética protestante e o espírito do capitalismo, 1ª edição, 1904
Dentre as influências que a obra de Weber manifesta, podemos enxergar também seu diálogo com filósofos como Immanuel Kant e Friedrich Nietzsche e com alguns dos principais sociólogos de seu tempo, como Ferdinand Tönnies, Georg Simmel e Werner Sombart, entre outros.

Dentre as principais obras do autor - organizadas postumamente pela sua esposa Marianne Weber - constam os seguintes títulos:

1889: A história das companhias comerciais na idade média
1891: O direito agrário romano e sua significação para o direito público e privado
1895: O Estado Nacional e a Política Econômica
1904: A objetividade do conhecimento na ciência política e na ciência social
1904: A ética protestante e o espírito do capitalismo
1905: A situação da democracia burguesa na Rússia
1905: A transição da Rússia a um regime pseudoconstitucional
1906: As seitas protestantes e o espírito do capitalismo
1913: Sobre algumas categorias da sociologia compreensiva
1917/1920: Ensaios Reunidos de Sociologia da Religião
1917: Parlamento e Governo na Alemanha reordenada
1917: A ciência como vocação
1918: O sentido da neutralidade axiológica nas ciências políticas e sociais
1918: Conferência sobre o Socialismo
1910/1921: Economia e Sociedade
Dentre seus escritos mais conhecidos destacam-se A ética protestante e o espírito do capitalismo (1904), a obra póstuma Economia e Sociedade (1920), A ciência como vocação (1917) e A política como vocação (1919) .

Primeiros trabalhos[editar | editar código-fonte]

Os primeiros textos acadêmicos de Weber estão ligados a trabalhos desenvolvidos em sua formação na estrutura universitária alemã. O primeiro estudo propriamente dito foi sua tese de doutoramento intitulada A história das companhias comerciais da idade média. Esta tendência para combinar análise jurídica com análise histórica continua com seu próximo trabalho (tese de habilitação), chamado A história agrária romana. Aqui ele analisa a estrutura da propriedade agrária de Roma em sua fase tardia e suas repercussões na legislação pública e privada. Ainda que seja um escrito bastante técnico, ele procura contextualizar sua pesquisa no âmbito histórico, o que já demonstra a preocupação social de suas investigações.

Durante seu período como professor universitário, Weber dedicou-se ao ensino da economia política e de questões agrárias, uma de suas especialidades. Como professor de economia, ele debateu os valores e limite das principais correntes de pensamento de seu tempo: a Escola Histórica de Economia, a Escola Marginalista (predominante na Áustria) e a Escola Marxista. Neste período Weber também publicou um texto introdutório chamado "A bolsa", para divulgar e promover o entendimento do funcionamento econômico do capital financeiro.

A aproximação com os temas sociais está ligada à pesquisa empírica de Weber na região do Leste do rio Elba. Analisando processo migratório de poloneses na fronteira da Alemanha, Weber destacou as tendências da introdução do capitalismo no campo e deu especial atenção às consequências políticas daquele processo. Aplicando diversos questionários e levantando inúmeros dados ele concluiu que o acelerado processo de modernização econômica da Alemanha estava minando a estrutura de poder da classe dirigente: a aristocracia agrária (denominada de classe Junker). Tal visão foi especialmente apresentada em uma Aula Inaugural pronunciada em 1895 e denominada O Estado Nacional e a Política Econômica. Neste período Weber notabilizou-se como um dos grandes especialistas de questões e problemas agrários, refletindo sobre as consequências com os reflexos do capitalismo na esfera rural.

Profundamente envolvido com a vida acadêmica, a produção de Weber sofre uma interrupção a partir de 1897. É somente depois desta fase que a produção sociológica de Weber começa a delinear-se.

A objetividade do conhecimento[editar | editar código-fonte]

Em 1903, junto com Werner Sombart e Edgar Jaffé, Weber funda o Arquivo para a Ciência Social e a Ciência Política. No texto que escreveu para a revista, intitulado A objetividade do conhecimento na ciência política e social (de 1904) ele apresentou sua posição na discussão sobre os métodos das ciências econômicas, polêmica que sacudia o mundo universitário da época.

A tradição alemã de filosofia social tinha suas origens em Immanuel Kant. Mas, a tentativa de fundamentar as ciências históricas com o pensamento kantiano inicia-se apenas com o trabalho de Wilhelm Dilthey, em 1883. A reivindicação fundamental do seu trabalho foi mostrar o estatuto ontológico diferenciado das ciências históricas e sociais diante das ciências da natureza. Na Alemanha este esforço continuou com os trabalhos de Wilhelm Windelband e Heinrich Rickert. No campo da economia, esta tendência também era representada por Gustav von Schmoller.

Max Weber não se enquadrava diretamente em nenhuma destas posições. Com a escola neo-kantiana, ele concorda com o fato de que as ciências humanas lidam com o fenômeno do valor. Só analisamos aqueles elementos da realidade que tem algum sentido para nós, a partir de nossas referências de valor. Tal posição fora retirada por Weber de Heinrich Rickert. Mas, nem por isso ele rejeitava o valor da imputação causal nas ciências humanas, pois eram um instrumento indispensável para a explicação dos mecanismos de entendimento da vida social. Em síntese, Weber propunha a unificação das ciências humanas integrando a "verstehen" (compreensão) e a "erklären" (explicação) em uma visão dual mas não dualista da ciência .

O principal problema desta posição, contudo, é que elas colocavam em questão o valor objetivo da ciência. Weber reconheceu que toda pesquisa tem um ponto de partida subjetivo (ligado a referência de valor do pesquisador), mas entendeu que este dado não destruía a objetividade da ciência. O valor cognitivo da ciência social reside na sua capacidade de controlar a pesquisa mediante métodos sistemáticos e padronizados de trabalho. O ponto de partida da investigação até pode ser subjetivo, mas seu ponto de chegada deverá ser rigorosamente objetivo.

Alicerçado na noção kantiana de a priori, Weber também desenvolveu a noção de tipo ideal . Tal conceito mostra que as categorias da ciência social são uma construção subjetiva do pesquisador, feita a partir de seus interesses. Como tais, eles selecionam na realidade, sempre complexa e caótica, certos elementos que serão aglutinados como um tipo idealmente perfeito. Conceitos não emanam diretamente da realidade (visão hegeliana), nem são formados apenas por abstração de elementos comuns e genéricos (visão aristotélica), pois eles implicam acentuar determinados elementos para que eles possam ser compreendidos. Trata-se de reunir o caos inesgotável da realidade em conceito compreensíveis.

Ainda que Weber não tenha defendido uma visão rigorosamente dualista da ciência, o escrito "A objetividade do conhecimento na ciência política e na ciência social" constitui ainda hoje o principal texto para quem defende uma visão não naturalista de ciência, ou seja, que defende a tese de que as ciências humanas são essencialmente diferenciadas das demais ciências de corte empírico-natural .

A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo[editar | editar código-fonte]

A ética protestante e o espírito do capitalismo[1] é considerada a grande obra de Max Weber e é o seu texto mais lido e conhecido. A primeira parte desta obra foi publicada em 1904 e a segunda veio a público em 1905, depois da viagem do autor e de sua esposa aos Estados Unidos. Uma segunda versão da obra, revisada pelo próprio Weber, com diversos acréscimos, foi publicada em 1920.

A temática das relações entre religião e capitalismo foi uma questão central do pensamento social alemão. Do ponto de vista da análise do capitalismo, o estudo de Weber foi precedido pela obra de Georg Simmel - A filosofia do dinheiro (1900) -, sem esquecer do escrito de Karl Marx, intitulado O Capital (1867). Dois anos antes da publicação do livro de Weber, seu colega Werner Sombart também publicou um livro sobre esse problema, intitulado O capitalismo moderno (1902) . Neste criativo e rico espírito acadêmico, Weber procurou mostrar que o protestantismo de caráter ascético dos séculos XVI e XVII tinha um influxo direto com o conceito de vocação profissional, base motivacional do moderno sistema econômico capitalista. Vejamos como a tese do livro é apresentada.

No capítulo introdutório, Weber mostra a preferência educacional dos católicos por uma formação humanista, enquanto os protestantes preferiam formação técnica. Ao mesmo tempo, mostrou as diferenças profissionais entre ambos os segmentos. Weber rejeita a explicação (superficial e aparente) de que a espiritualidade católica, fundada no ascetismo, predisporia o indivíduo para o estranhamento do mundo e, desta forma, para a indiferença para com os bens deste mundo; enquanto os protestantes seriam materialistas. Alega que os puritanos se caracterizavam pelo oposto da alegria para com o mundo. Ao contrário, ele sugere que há um íntimo parentesco entre estranhamento do mundo, ascese e participação na vida aquisitiva.

O capítulo posterior trata do objeto da pesquisa, ou seja, é neste momento que ele desenvolve o tipo ideal de "espírito do capitalismo", entendido como uma individualidade histórica. Tomando como exemplo máximas colhidas de escritos de Benjamin Franklin, tais como "tempo é dinheiro" ou "dinheiro gera mais dinheiro" ou ainda "o bom pagador é dono da bolsa alheia", Weber mostra que o espírito do capitalismo não é caracterizado pela busca desenfreada do prazer e pela busca do dinheiro por si mesmo. O espírito do capitalismo deve ser entendido como uma ética de vida, uma orientação na qual o indivíduo vê a dedicação ao trabalho e a busca metódica da riqueza como um dever moral. Weber acentua claramente que o 'espírito' do capitalismo não deve ser confundido com a 'forma' do capitalismo. Por forma, Weber entende o capitalismo enquanto sistema econômico, cujo centro é representado pela empresa capitalista, reunião de meios de produção, trabalho organizado e gestão racional. Ele esclarece que as variáveis tratadas no seu livro tem a ver com a moral protestante e a dimensão atitudinal (habitus) que serve de base ao sistema. O espírito do capitalismo só pôde triunfar ao vencer as formas tradicionalistas de comportamento econômico.

Passo seguinte, ele dedicou-se a analisar a contribuição do luteranismo. Na tradução de Martinho Lutero, ao contrário da concepção católica, "vocação" deixa de ter o sentido de um chamado para a vida religiosa ou sacerdotal e passa a ter o sentido do chamado de Deus para o exercício da profissão no mundo do trabalho. Com Lutero o ascetismo praticado pelos monges fora do mundo é transferido das celas dos mosteiros para o mundo secular, nasce daí o ascetismo intramundano. Todavia, o próprio Max Weber reconheceu que o luteranismo ainda possui uma visão tradicionalista da vida econômica: apesar da ênfase no trabalho, a vida aquisitiva ainda não possui um valor em si mesma e o indivíduo está acomodado no seu círculo social.

Após, Weber destaca que o ponto de partida da ética econômica subjacente ao capitalismo está no protestantismo pós-luterano, nas chamadas igrejas e seitas do protestantismo ascético, tanto na sua versão calvinista (derivada de João Calvino) quanto anabatista. Do calvinismo emana a célebre tese da predestinação, dogma que afirma que "apenas Deus escolhe - independente dos méritos do indivíduo - quem será salvo e quem será condenado". Diante da angústia religiosa sofrida pelo indivíduo, o trabalho e o sucesso na vida econômica surgem como compromissos do crente e como indícios (embora não meio) de certeza da salvação. Apesar desta rígida tese estar atenuada no pietismo e no metodismo, que são mais sentimentais, nas igrejas de origem calvinista a riqueza recebe uma sanção positiva da esfera religiosa. O mesmo processo pode ser verificado no âmbito das seitas que surgem do movimento anabatista (rebatizados) - como os batistas, menonitas e quakers, por exemplo - que, organizados em forma de seita, estimulam uma vida ordenada, disciplinada e regida por rígidas normas éticas.

Analisando todo o processo em seu conjunto, Weber verifica que dos dogmas e, em especial, dos impulsos morais do protestantismo, derivados após a reforma de Lutero, surge uma forma de vida de caráter metódico, disciplinado e racional. Da base moral do protestantismo surge não só a valorização religiosa do trabalho e da riqueza, mas também uma forma de vida que submete toda a existência do indivíduo a uma lógica férrea e coerente: uma personalidade sistemática e ordenada. Sem estes impulsos morais não seria possível compreender a ideia de vocação profissional, concepção que subjaz as figuras modernas do operário e do empresário. A moral específica dos círculos protestantes possuem uma relação de afinidade eletiva com o comportamento (espírito) que subjaz ao sistema econômico moderno e, ainda que este não derive apenas deste fator, trata-se de um impulso vital para o entendimento do mundo moderno contemporâneo.

No final da Ética Protestante, Weber destaca que, apesar de secularizada, ou seja, desprovida de fundamentos religiosos, a vida aquisitiva da economia moderna generalizou-se para todo conjunto da vida social: os puritanos queriam tornar-se monges, hoje todos temos que segui-los. Esta avaliação também ganha contornos críticos, pois Weber constata que a lógica da produção, do trabalho e da riqueza envolve o mundo moderno como uma "jaula de ferro " e se pergunta qual o destino dos tempos modernos: o ressurgimento de velhas ideias ou profecias ou uma realidade petrificada, até que a última tonelada de carvão fóssil seja queimada? Em tons que lembram Nietzsche, ele dirá ainda sobre os homens dos tempos atuais: especialistas sem espírito, gozadores sem coração !

Esta visão crítica do capitalismo encorajou certos pensadores marxistas (como Georg Lukács, Karl Löwith, Michael Löwy) a ressaltarem algumas afinidades do seu pensamento com a visão marxista, corrente que, sem menosprezar as sensíveis diferenças entre as duas formas de pensamento, foi sendo denominada de webero-marxismo .No entanto, diferentemente da visão marxista, que privilegia os fatores econômicos, Weber, coerente com uma visão multicausal dos fenômenos sociais, destaca seus fatores culturais e, mais tarde, enfatizará também a importância dos fatores materiais no surgimento das instituições modernas .

A ética econômica das religiões mundiais[editar | editar código-fonte]

Após a década de 1910, os estudos de Weber na área da sociologia da religião foram ampliados e ele passou a aprofundar seu conhecimento das religiões de caráter universal. Ao contrário de Durkheim, que partiu das religiões primitivas (totemismo), Weber dedica-se à análise do confucionismo e do taoismo, do hinduísmo e do budismo, do islamismo e do judaísmo, ou seja, dos grandes sistemas religiosos da humanidade. Conforme ele esclarece no Prólogo (Vorbemerkung) escrito para introduzir, em termos globais, seus Ensaios Reunidos de Sociologia da Religião, seu objetivo primordial consiste em entender os fenômenos centrais do racionalismo ocidental, como a ciência, a técnica, a universidade, a contabilidade, o direito, a gestão racional das empresas, a música, o Estado Burocrático e, em especial, o capitalismo moderno. Conforme explicou sua esposa Marinne Weber, a descoberta da especificidade do racionalismo moderno foi a grande inovação sociológica de Weber e ele procurou desvendar suas origens e características, destacando o papel da religião neste processo.

Introdução O estudo de Weber dedicado às religiões universais possui um escrito preliminar de caráter metodológico, no qual ele explica que, diferente do que fez na pesquisa sobre o protestantismo (em que contemplou apenas um lado da relação causal entre ideias e interesses), nestes estudos ele mostraria a vinculação existente entre fatores materiais e fatores ideais nos processos sociais. Por isso, ao analisar os grandes sistemas religiosos e suas diferentes teodiceias, ele levaria em conta também os interesses e o papel de suas principais camadas portadoras, sejam elas populares (camadas urbanas, rurais, etc.), sejam elites políticas (burocracias), religiosas (sacerdotes) ou mesmo guerreiros.

Confucionismo e Taoismo O primeiro grande sistema analisado por Weber é a milenar civilização chinesa. Ele revisa os pressupostos econômicos e político do mundo da China, o papel do imperador e das províncias e, em especial, a função dos mandarins (burocratas), o que introduz um caráter ritualista e tradicional no confucionismo, voltado para a culto dos antepassados familiares e do imperador: o universo é entendido como uma ordem eterna - Tao - que não pode ser contestada e ao qual o indivíduo se adapta. Na China desenvolveu-se uma tendência mística chamada taoismo, cujo fundador é Lao-Tsé, mas que foi tragada pela poderosa força da magia, razão pela qual a religião chinesa ficou imersa em um jardim mágico. Desta forma, ele não desenvolveu um potencial de racionalização prática das condutas.

Consideração Intermediária Após analisar a religião chinesa, Weber passa ao exame das religiões de salvação, nas quais existe uma relação de tensão com o mundo: daí a necessidade de um texto intermediário que explique as diferenças entre o misticismo (predominante do mundo oriental) e o ascetismo (predominante no mundo ocidental. Neste texto ele também examina as tensões entre a ordem religiosa (regida por normas) e as ordens sociais do mundo moderno que são regidas por uma racionalidade formal e que, portanto, possuem sua legalidade própria. As esferas analisadas por Weber são a economia, a política, a arte, o erotismo e a ciência.

Hinduísmo e Budismo O sistema de castas vigente na Índia demonstra que também se trata de uma religião - chamada de hinduísmo - com fortes elementos tradicionais. As castas criam uma ordem hierárquica, no topo da qual estão os sacerdotes brâmanes, seguidos pelos guerreiros, depois os comerciantes e agricultores e, por fim, os demais trabalhadores. O intercâmbio entre os grupos sociais não é permitido e a única forma de evoluir na escala social é a roda das encarnações. O caráter sagrado das castas indianas foi rompido pela pregação de Buda. O Budismo conservou a ideia de reencarnação, mas ela se torna completamente individual e voltada para a dissolução do eu. Tal crença difundiu-se por todo Oriente e constitui a grande matriz dos sistemas religiosos orientais, que possuem um componente acentuadamente místico.

O Judaísmo Antigo O grande processo de desencantamento religioso do mundo, ou seja, a eliminação da magia como meio de salvação, tem aqui o seu ponto de partida. O judaísmo é uma religião pária, ou seja, há um vínculo exclusivo entre o povo eleito e seu Deus Javé, isolando a religião judaica do contexto social mais amplo. A elaboração de uma lei sacerdotal, sistematizada pelos levitas e a pregação dos profetas, exigindo o cumprimento das normas, abriu caminho para uma religião de caráter prático e ético, expurgando o papel das crenças mágicas no sistema religioso. O judaísmo foi a fonte do racionalismo prático da dominação do mundo que permeia o mundo ocidental e suas diferentes instituições sociais.

Comparando estas diferentes religiões, Weber mostrou que existe diferentes formas de racionalismo. Assim, enquanto na China predomina um racionalismo prático que acomodação ao mundo, na Índia, ao contrário, temos um racionalismo teórico de fuga do mundo. Já o Ocidente, começando no Judaísmo Antigo e chegando no protestantismo ascético desenvolveu uma forma prática de racionalismo da dominação do mundo. Dessa forma Weber nos oferece uma descrição das diferentes formas que os processos de racionalização adquire no contexto de diferentes culturas.

Além disso, ao comparar diferentes civilizações, Max Weber pode ser considerado o precursor de uma sociologia que busca ir além do eurocentrismo. Apesar de seu trabalho estar centrado no horizonte do Ocidente Moderno, ele procura defini-lo a partir da comparação com outros modelos de cultura e de sociedade. Sua análise da modernidade, adota uma perspectiva cosmopolita. Esta sociologia comparada das civilizações vem sendo relida por pensadores preocupados em pensar o mundo globalizado, tais como Shmuel Eisenstadte Thomas Schwinn, entre outros.

Economia e Sociedade[editar | editar código-fonte]

Em 1913, Weber publicou um escrito intitulado "Sobre algumas categorias da sociologia compreensiva", primeiro esboço de seu método sociológico. Ele continuou a trabalhar sua visão de sociologia durante os próximos anos em escrito encomendado para uma ampla coleção de textos econômicos e que, por esta razão, recebeu o nome de "Economia e Sociedade". Weber trabalhou neste volume até o final de sua vida, mas ele só foi publicado postumamente por sua esposa, Marianne Weber. A versão mais conhecida deste volume póstumo e a quarta edição, organizada por Johannes Winckelmann, em 1956 .

No primeiro capítulo desta obra, aparece como conceito fundante da teoria sociológica de Weber - a categoria ação - , considerado por ele como o objeto da sociologia. Por essa razão sua teoria inaugura o chamado "individualismo metodológico", postura que entende que as formas coletivas de vida (ou mesmo a sociedade como totalidade social) deve ser explicada a partir de suas bases individuais, opondo-se, assim, ao "holismo metodológico".

A ação é um comportamento humano ao qual os indivíduos vinculam um significado subjetivo e a ação é social quando está relacionada com outro indivíduo. A análise da teoria weberiana como ciência tem como ponto de partida a distinção entre quatro tipos de ação social:

A ação instrumental com relação a um objetivo é determinada por expectativas no comportamento tanto de objetos do mundo exterior como de outros homens e utiliza essas expectativas como condições ou meios para alcance de fins próprios racionalmente avaliados e perseguidos. É uma ação concreta que tem um fim especifico, por exemplo: o engenheiro que constrói uma ponte.
A ação racional com relação a um valor é aquela definida pela crença consciente no valor - interpretável como ético, estético, religioso ou qualquer outra forma - absoluto de uma determinada conduta. O ator age racionalmente aceitando todos os riscos, não para obter um resultado exterior, mas para permanecer fiel a sua honra, qual seja, à sua crença consciente no valor, por exemplo, um capitão que afunda com o seu navio.
A ação afetiva é aquela ditada pelo estado de consciência ou humor do sujeito, é definida por uma reação emocional do ator em determinadas circunstâncias e não em relação a um objetivo ou a um sistema de valor, por exemplo, a mãe quando bate em seu filho por se comportar mal.
A ação tradicional é aquela ditada pelos hábitos, costumes, crenças transformadas numa segunda natureza, para agir conforme a tradição o ator não precisa conceber um objeto, ou um valor nem ser impelido por uma emoção, obedece a reflexos adquiridos pela prática.
Nos parágrafos seguintes Weber desenvolve ainda os conceitos de "relação social" e de "ordem social".

Na ótica weberiana, a sociologia é essencialmente hermenêutica, ou seja, ela está em busca do significado e dos motivos últimos que os próprios indivíduos atribuem as suas ações: é neste sentido que a sociologia é sempre "compreensiva" (verstehen). O principal objetivo de Weber é compreender o sentido que cada pessoa dá a sua conduta e perceber assim a sua estrutura inteligível e não a análise das instituições sociais como propunha Durkheim. A análise weberiana propõe que se deve compreender, interpretar e explicar respectivamente, o significado, a organização e o sentido, bem como evidenciar regularidade das condutas. Cabe a sociologia entender como acontecem e se estabilizam as relações sociais, os grupos organizados e as estruturas coletivas da vida social.

Com este pensamento, não possuía a ideia de negar a existência ou a importância dos fenômenos sociais globais, dando importância à necessidade de entender as intenções e motivações dos indivíduos que vivenciam essas situações sociais. Ou seja, a sua ideia é que a sociedade como totalidade social é o resultado das formas de relação entre seus sujeitos constituintes. Tomando como ponto de partida da compreensão da vida social o papel do sujeito, a teoria de Max Weber é denominada individualismo metodológico.

1. Sociologia Econômica Durante a maior parte de sua vida acadêmica, Max Weber foi docente de disciplinas da área econômica. Aliás, seu último livro, um conjunto de notas de aula publicados por seus alunos, chama-se justamente História Geral da Economia. Desta forma, não é surpresa que Weber elabore uma sofisticada abordagem sociológica da vida econômica. Por esta razão, há até teóricos que defendem que, em última instância, toda obra de Weber não passa de uma teoria econômica, qual seja, uma visão sócio-histórica da vida aquisitiva.

Na sua primeira fase, seguindo a tradição marxista, Weber tendia a ver o capitalismo como um fenômeno especificamente moderno. Já em sua " Ética Protestante" (de 1904), apesar de colocar em relevo os fatores culturais da gênese da conduta capitalista, era esta visão que predominava. Mas, nas décadas seguintes, ele romperá com estas noções. Em primeiro lugar, ele insere o capitalismo (na sua fase "moderna") em um amplo processo de racionalização da cultura e da sociedade. Ou seja, enquanto fenômeno social, o capitalismo é uma das expressões da vida racionalizada da modernidade Ocidental e é similar, em sua forma racional, ao campo da política, do direito, da ciência, etc. Outra mudança importante é que Weber rompe com a definição marxista de que o capitalismo é um fenômeno exclusivo da era moderna: daí a expressão capitalismo "moderno". Para Weber, o capitalismo é um fenômeno que atravessa a história, pois a busca do lucro já pode ser localizada nas sociedades primitivas e antigas, nas grandes civilizações e mesmo nas sociedade não-ocidentais. O núcleo estruturante da atividade capitalista é a ''empresa'', pois a separação da esfera individual da esfera impessoal da produção permite a racionalização da organização do trabalho e mesmo das atividades de gestão destas organizações.

Com base nestas premissas, Weber construiu diferentes tipos ideais de capitalismo, como a capitalismo aventureiro, o capitalismo de Estado, o capitalismo mercantil, capitalismo comercial, etc.

As principais análises de Weber sobre o campo econômico podem ser encontradas no segundo capítulo de Economia e Sociedade, tópico em que ele discute a ordem social econômica. Ali ele destaca que o processo de racionalização da atividade econômica também envolve a passagem de uma racionalidade material - na qual a vida econômica está submetida a valores de ordem ética ou política - para uma racionalidade formal, ou seja, na qual a lógica impessoal das atividades econômicas e e lucrativas se torna predominante.

Por estas razões, Max Weber é considerado, atualmente, um dos precursores da sociologia econômica, conjunto de autores que se recusa a entender a vida econômica como relacionada apenas com o mercado, concebido de forma abstrata, separado de suas condições históricas, culturais e sociais.

2. Sociologia Política Max Weber desenvolveu um importante trabalho de sociologia política através da sua teoria dos tipos de dominação .

Dominação é a possibilidade de um determinado grupo se submeter a um determinado mandato. Trata-se, portanto, de um tipo de relação social fundada na autoridade de um indivíduo sobre outros. Isso pode acontecer por motivos diversos, como as leis, admiração, costumes e tradição. Weber define três tipos de dominação que se distinguem pelo seu caráter (pessoal ou impessoal) e, principalmente, pela diferença nos fundamentos da legitimidade. São elas: legal, tradicional e carismática.

Dominação legal: a obediência está fundamentada na vigência e aceitação da validade intrínseca das normas e seu quadro administrativo é mais bem representado pela burocracia. A ideia principal da dominação legal é que deve existir um estatuto que pode ou criar ou modificar normas, desde que esse processo seja legal e de forma previamente estabelecido. Nessa forma de dominação, o dominado obedece à regra, e não à pessoa em si, independente do pessoal, ele obedece ao dominante que possui tal autoridade devido a uma regra que lhe deu legitimidade para ocupar este posto, ou seja, ele só pode exercer a dominação dentro dos limites pré-estabelecidos. Assim o poder é totalmente impessoal, onde se obedece à regra estatuída e não à administração pessoal. Como exemplo do uso da dominação legal podemos citar o Estado Moderno, o município, uma empresa capitalista privada e qualquer outra organização em que haja uma hierarquia organizada e regulamentada. A forma mais pura de dominação legal é a burocracia .
Dominação tradicional: Se dá pela crença na santidade de quem dá a ordem e de suas ordenações, sua ordem mais pura se dá pela autoridade patriarcal onde o senhor ordena e os súditos obedecem e na forma administrativa isso se dá pela forma dos servidores. O ordenamento é fixado pela tradição e sua violação seria um afronto à legitimidade da autoridade. Os servidores são totalmente dependentes do senhor e ganham seus cargos seja por privilégios ou concessões feitas pelo senhor, não há um estatuto e o senhor pode agir com livre arbítrio.
Dominação carismática: nesta forma de dominação os dominados obedecem a um senhor em virtude do seu carisma ou seja, das qualidades excepcionais que lhe conferem especial poder de mando. A palavra carisma é de inspiração religiosa e, no contexto cristão, lembra os dons conferidos pelo Espírito Santo aos cristãos. A palavra foi reinterpretada em sentido sociológico como dons e carismas do próprio indivíduo e, foi nesta forma que Weber a adotou. Weber considerou o carisma uma força revolucionária na história, pois ele tinha o poder de romper as formas normais de exercício do poder. Por outro lado, a confiança dos dominados no carisma do líder é volúvel e esta forma de dominação tende para a via tradicional ou legal.
A tipologia weberiana das formas de poder político diferente claramente da tradição clássica, orientada pela discussão da teoria das formas de governo, oriunda do mundo antigo (Platão e Aristóteles). Filiado à tradição realista de pensamento, Weber também rejeita os pressupostos normativos e éticos da teoria do poder e procura descrevê-lo em suas formas efetivas de exercício. Ao demonstrar que o exercício do poder envolve a necessidade de legitimação da ordem política e, ao mesmo tempo, sua institucionalização por meio de um quadro administrativo, Weber apresentou os fundamentos básicos da sociologia política da era contemporânea.

Além de uma rigorosa e sistemática sociologia política - alicerçada em seus tipos de dominação - Max Weber foi um dos mais argutos analistas da política alemã, que analisou durante o Segundo Império Alemão e durante os anos iniciais da República de Weimar. Crítico da política de Bismarck, líder que, ao monopolizar o poder, deixou a nação sem qualquer nível de sofisticação política, Weber sempre apontou a necessidade de reconstrução da liderança política. No escrito O Estado Nacional e a Política Econômica, de 1895, já mostrava como as diferentes classes sociais não se mostravam aptar a dirigir a nação, seja pela sua decadência social (caso dos Junkers), seja pela sua imaturidade política (caso da burguesia e do proletariado) .

3. Sociologia da estratificação social Estratificação social é a área da sociologia que se ocupa da pesquisa sobre a posição dos indivíduos na sociedade e explicitação dos mecanismos que geram as distinções sociais entre os indivíduos. Ao contrário de Marx, que explicava estas diferenças apenas com base em fatores econômicos, Weber mostrou que as hierarquias e distinções sociais obedecem à lógicas diferentes na esfera econômica, social e política. Sob o aspecto econômico as classes sociais são diferenciadas conforme as chances de oportunidades de vida, escalonando os indivíduos em grupos positiva ou negativamente privilegiados. Do ponto de vista social, indivíduos e agrupamentos sociais são valorizados conforme atributos de valor, dando origens a diversos tipos de grupos de status. Diferente também é a lógica do poder, em que os indivíduos agregam-se em diferentes partidos políticos. A análise weberiana demonstra que existem diferentes mecanismos sociais de distribuição dos bens sociais, como a riqueza (classe), a honra ou prestígio social (grupos de status) e o poder (partidos) e que cada um deles cria diferentes tipos de ordenamento, hierarquização e diferenciação social.

4. Sociologia do Direito Jurista de formação, a análise da esfera jurídica não ficou de fora das preocupações de Max Weber . Ele dedicou um amplo capítulo de Economia e Sociedade a este tema. O pano de fundo de toda sua reflexão sobre a esfera das normas jurídicas é a tese da racionalização da vida social, da qual o próprio direito é uma das expressões. Ao compreender historicamente a evolução do direito, Weber destaca o crescente processo de racionalização que lhe é inerente.

A racionalização do direito pode ser compreendida a partir de duas variáveis: seu caráter material ou formal ou seu caráter racional e irracional. São racionais todas as formas de legislação que seguem padrões fixos, ao contrário do caráter aleatório dos métodos irracionais. Por outro lado, o conteúdo do direito pode ser determinado por valores concretos, especialmente de caráter ético, ou obedecer a critérios de ordem interna, ligados a sistemática e ao processo jurídico em si mesmo, ou seja, a sua forma.

A apreciação weberiana do setor jurídico da vida social não se dedica apenas a entender esta esfera de forma isolada. O direito possui uma ligação direta tanto com a ordem política quanto com a ordem econômica. A evolução do direito formal é um aspecto essencial do progressivo processo de burocratização do Estado, bem como a estabilidade das normas jurídicas foi fundamental para a consolidação de uma economia de mercado, pois esta requer uma ordem de obrigações previsível. Direito, economia e política são ordens sociais de vida que estão conectados e entrelaçados de forma direta .

Como teórico da evolução sócio-histórica do direito, Weber é um dos precursores do chamado direito positivista, pois ele concebia o direito formal como a forma mais avançada historicamente do sistema jurídico. Desta forma, Max Weber está na raiz de importantes teóricos como o próprio Hans Kelsen, por exemplo, considerado o maior teórico do positivismo jurídico.

Neutralidade axiológica[editar | editar código-fonte]

Nos anos finais de sua carreira, uma nova discussão dividiu os membros da intelectualidade alemã no campo das ciências humanas: o papel dos valores na atividade científica. Para os partidários mais antigos da Escola Alemã de Economia, a ciência social deveria ser uma atividade orientada para a defesa de pontos de vista fundamentados em normas, capazes de orientar a política estatal e governamental. Para os membros mais jovens da escola econômica alemã, ao contrário, a ciência não poderia ser a base para a escolha de valores que, em última instância, são escolha dos próprios indivíduos.

Max Weber era partidário desta segunda posição e a defendeu no escrito intitulado O sentido da neutralidade axiológica nas ciências políticas e sociais. Embora a atividade científica esteja intrinsecamente ligada ao mundo dos valores - pois toda pesquisa nasce das escolhas pessoais do pesquisador - a autoridade da ciência não pode ser invocada para impor valores aos indivíduos. Na visão weberiana, a modernidade está atravessada por um conflito valorativo irredutível - a guerra dos deuses e o politeísmo de valores -. Seguindo a orientação neo-kantiana, Weber isola do Sein do Sollen - ou seja, diferencia a dimensão do ser da dimensão do dever ser - e entende que teoria e prática são domínios separados. Na pesquisa social, o cientista deve isolar seus pontos de vista subjetivos - seus juízos de valor - e orientar-se pela exposição dos fatos, qual seja, deve expor juízos de fato. A ciência social deve estar "livre de juízos de valores" (Wertfreiheit), termo alemão que costuma ser traduzido por "neutralidade axiológica" ou de valores, ainda que não seja esta sua tradução exata.

Separar pensamento e ação, contudo, não implica sacrificar o caráter crítico da atividade científica. Ao cientista social cabe mostrar a íntima vinculação de meios e fins, mostrando como os fins determinam a escolha dos meios e, no sentido inverso, certos meios assentam-se em juízos valorativos. Sem aderir a uma posição positivista (que sobre determina a dimensão da teoria) ou a uma posição marxista (que sobre determina a dimensão da prática), a ciência social na ótica weberiana respeita a autonomia da dimensão do saber e do fazer sem perder o caráter crítico do conhecimento científico-social.

A ciência como vocação[editar | editar código-fonte]

As análises de Weber também contemplam o papel do conhecimento científico no mundo moderno. Na famosa conferência A ciência como vocação , pronunciada em 7 de novembro de 1917, em Munique, o pensador entendeu que a ciência era um dos fatores fundamentais do processo de desencantamento do mundo.

Ele comparou a situação da universidade alemã com a realidade dos Estados Unidos e advertiu seus ouvintes de que no futuro haveria um processo de americanização da vida universitária, que seria cada vez mais parecida com empresas estatais: professores assalariados e separação entre o produtor e os meios de produção. De qualquer forma, a vida do cientista e suas chances de promoção profissional ainda são bastante determinadas pelo papel do acaso e da contingência. Ao mesmo tempo, os acadêmicos acabam sendo pressionados para conciliar a difícil vocação para a pesquisa e para o ensino, o que abre espaço para demagogos e diletantes.

Do ponto de vista pessoal, ele ressaltou que a vocação científica exige dedicação: quem não se especializa em alguma área jamais pode almejar sucesso. Contudo, mais do que dedicação, a vocação para a ciência também exige paixão (dedicação à causa) e, além disso, inspiração para fazer uma obra relevante. Somente quem vive voltado para a ciência pode ser chamado uma personalidade.

Do ponto de vista sociológico, Weber mostrou que a ciência faz parte de um processo histórico geral de racionalização e intelectualização da vida. Através da visão científica, a realidade é expurgada de seus elementos mágicos e o sentido último da realidade é retirado do mundo, ficando a cargo das religiões ou da própria consciência do indivíduo. Muitos autores apontam neste escrito os ecos da tese da morte de Deus, apresentada pelo filósofo Friedrich Nietzsche, embora a maioria dos comentadores reconheça que sua fonte de inspiração é a divisão das esferas de valores proposta por Kant. Para Weber, a modernidade achava-se dilacerada por um conflito de valores - na linguagem de Weber, pela guerra dos deuses - e a escolha do sentido último da vida era uma responsabilidade pessoal que não poderia ser credita à ciência. Ao saber científico cabe a explicação dos mecanismos de funcionamento do mundo, e não a determinação do ser verdadeiro, da verdadeira arte, da verdadeira natureza, do verdadeiro Deus ou mesmo da verdadeira felicidade.

Mas, apesar de retirar o sentido último do mundo, Weber destacou que a ciência contribui com a vida do indivíduo, ao oferecer-lhe meios de domínio prático da realidade, a capacidade de avaliar meios e fins e, acima de tudo, clareza: ou seja, meios para pensar de forma lógica, sistemática e clara.

O destino de nosso tempo é marcado pela intelectualização e pelo desencantamento do mundo. Diante desta realidade, cabe ao indivíduo escolher se quer permanecer imerso na esfera religiosa (o que exige o sacrifício do intelecto) ou se prefere arcar com as consequências de uma visão científica do mundo, na qual não existe qualquer sentido último para a vida, o mundo e o indivíduo. No mundo desencantando, o indivíduo deve dedicar-se às tarefas do dia e assumir suas responsabilidades diante da vida: esta é a única forma de dar sentido à própria existência.

Seguidores[editar | editar código-fonte]

Dentre os principais teóricos influenciados pelo pensamento weberiano, podemos citar:
Arnold Gehlen,Max Scheler,Karl Jaspers,Leopold von Wiese,Karl Mannheim,Alfred Schütz,Ervin Goffman,Norbert Elias,Ernest Gellner,David Landes,Anthony Giddens
Nos Estados Unidos, algumas obras de Weber foram traduzidas já na década de 30, pelo eminente sociólogo Talcott Parsons. Este pensador também incorporou algumas ideias weberianas em sua "teoria voluntarista da ação" (desenvolvida em 1937). Nas décadas posteriores, contudo, a leitura parsoniana de Weber foi sendo fortemente criticada, com destaque para a coletânea de textos existentes em From Max Weber (1946), organizada por Charles Wright Mills e Hans Gerth. Na França, o pensamento weberiano foi difundido por Raymond Aron e Julien Freund e, mais recentemente, uma estudiosa destacada é Catherine Colliot-Thélene.Na Alemanha, Jürgen Habermas concede a Weber um papel fundamental em sua "Teoria da ação comunicativa", descrevendo a sociologia weberiana da racionalização. Outro comentador especializado e com muitas obras dedicadas ao tema é Wolfgang Schluchter.

No Brasil, além de autores clássicos como Sérgio Buarque de Holanda e Raymundo Faoro, o pensamento weberiano é descrito por estudiosos como Gabriel Cohn, Maurício Tragtenberg, José Guilherme Merquior e, atualmente, Antônio Flávio Pierucci e Jessé Souza.

Cronologia
21 de Abril de 1864 - Max Weber nasce em Erfurt. Os pais são o jurista e mais tarde deputado do parlamento imperial (Reichstag) pelo partido nacional-liberal, Max Weber e Helene (nascida na família Fallenstein)
1882 - 1886 - estudos de Direito, Economia Nacional, Filosofia e História
1889 - doutoramento em Direito
1892 - habilitação em direito canônico romano e direito comercial (em Berlim)
1893 - obteve uma posição temporária na Universidade de Berlim. Casamento com Marianne Schnitger (1870 - 1954), que será mais tarde ativista pelos direitos da mulher e socióloga
1894 - assume a posição de professor de Economia na Universidade de Freiburg
1897 - professor de Economia Nacional na Universidade de Heidelberg
1898 - em virtude de uma crise familiar, Weber sofre um colapso nervoso e abandona o trabalho acadêmico, sendo internado periodicamente até 1903
1904 - regressa à atividade profissional. Atividade redatorial no jornal "Archiv für Sozialwissenschaft und Sozialpolitik", que se tornou o jornal líder da ciência social alemã. Weber fez neste ano uma viagem aos Estados Unidos, onde deu aulas
1907 - recebe uma herança que o liberta de quaisquer preocupações financeiras
1909 - é cofundador da sociedade Alemã de Sociologia
1914 - 1918 - Primeira guerra mundial, em 1914, Weber acolhe entusiasticamente o início da Guerra (um nacionalismo militarista muito comum na altura, partilhado entre outros por Thomas Mann). Inscreveu-se como voluntário no exército (Reichswehr). Em 1915 mudou de ideias, tornando-se um pacifista
1917 - nos Colóquios de Lauenstein apela à continuação da guerra, ao mesmo tempo defendendo o retorno ao parlamentarismo
1918 - cofundador do liberal Partido Democrático Alemão (Deutsch-Demokratische Partei; o DDP).
1919 - convocado como conselheiro para a delegação alemã na conferência do Tratado de Versalhes. Foi também nomeado professor de economia nacional na Universidade de Munique
14 de Junho de 1920 - morre em Munique vítima de uma pneumonia.
Referências

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↑ Max Weber (em inglês) no Find a Grave.
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↑ AMORIM, Aluízio Bezerra de. Elementos de sociologia do direito em Max Weber. Florianópolis: Insular, 2001.
↑ ARGÜELLO, Katie. Direito e política em Max Weber. São Paulo: Acadêmica, 1997.
↑ WEBER, Max. Ciência E Política: Duas Vocações. "A ciência como vocação", p 17.
↑ Max Weber and German Politics, 1890–1920. [S.l.]: University of Chicago Press. ISBN 978-0-226-53399-5 Página visitada em 28 agosto 2014.
O Wikiquote possui citações de ou sobre: Max Weber
Arnold Gehlen
Adolf von Harnack
Alfred Weber, irmão de Max Weber
Georg Simmel
Hermann Lübbe
Theodor Mommsen
Werner Sombart
Wilhelm Windelband
A ética protestante e o espírito do capitalismo
Escola histórica da Economia
Ação social
Tipo ideal
Bibliografia[editar | editar código-fonte]

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Ligações externas[editar | editar código-fonte]

Biografia extensa (em inglês)
Biografia na Cultura Brasil (em português)
PIERUCCI, Antônio Flávio de Oliveira. O desencantamento do mundo: todos os passos do conceito em Max Weber. São Paulo: Editora 34/ Programa de Pós-Graduação em Sociologia da USP, 2003
SOUZA, Jessé. Patologias da Modernidade: um diálogo entre Habermas e Weber. São Paulo: Anna Blume, 1997.
Os Economistas, Textos selecionados, M Weber
A ciencia como vocaçao, Max Weber
A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, Weber
Max Weber e Hans Kelsen: a sociologia e a dogmática jurídicas, Daniel Barile da Silveira, Rev. Sociol. Polit.


sábado, 15 de agosto de 2015

Stálin (Ossip V.D.)


"É muito simples: quer dizer que, se alguém se interessa por um problema específico na sociedade, é necessário utilizar as ferramentas apropriadas. É necessário procurar essas ferramentas, esses instrumentos, onde eles se encontram, que seja na filosofia, na psicologia, na economia, na sociologia, no direito, na politologia, é necessário procurar as ferramentas, onde elas se encontram. Porque, se fizermos o inverso, se começarmos pela ferramenta e aplicarmos a mesma ferramenta a todas as situações, não funcionará muito bem."

- Tout ressemble à un clou pour qui ne possède qu'un marteau.
- If all you have is a hammer, everything looks like a nail.

- Se você só tiver um martelo, tudo parecerá um prego.


Não importa a língua em que o provérbio for traduzido. Segundo o cientista político e social norueguês Jon Elster, ele sempre trará uma importante lição: a metodologia para a análise de questões sociais. Confira no vídeo.

Leia na íntegra os poemas de Girondo traduzidos por Claudio Daniel:



Gristenia

Noctivozmusgo insone
de mim a mim refluido para o gris já deserto tão duna
evidência
gorgogotejando nãos que preulceram o pensar
contra as sempre contras da pós-náusea obesa
tão plurinterroído por noctívagos eus em rompante ante
a garganta angústia
com seu sonhar rodado de oco sino dado de dado já tão dado
e seu eu só escuro de poço lodo adentro e microcosmo tinto
para a total gristenia

As portas

Absorto tédio aberto
ante a fossanoite inululada
que em seca greta aberta subsorri seu mais acre recato
aberto insisto insone a tantas mortenazes de incensosom
revôo
até um destempo imóvel de tão já amargas mãos
aberto ao eco cruento por costume de pulso não digo mal
por mero nímio glóbulo aberto ante o estranho
que em voraz queda enferruja circunrrói as costas parietais
abertas ao murmúrio da má sombra
enquanto se abrem as portas

Mito

Mito
mito meu
acorde de lua sem pijama
embora me firam teus psíquicos espinhos
mulher pescada pouco antes da morte
aspirosorvo até o delírio tuas magnólias calefacionadas
quanto decoro teu luxuosíssimo esqueleto
todos os acidentes de tua topografia
enquanto declino em qualquer tempo
tuas titilações mais secretas
ao precipitar-te
entre relâmpagos
nos tubos de ensaio de minhas veias

Baía anímica

Abra casa
de gris lava cefálica
e confluências de cúmulos memórias e luzpulsar cósmico
casa de asas de noite de rompante de enluarados espasmos
e hipertensos tantãs de impresença
casa cabala
cala
abracadabra
médium lívida em transe sob o gesso de seus quartos de
hóspedes defuntos travestidos de sopro
metapsíquica casa multigrávida de neovozes e ubíquos ecossecos
de afogados circuitos
clave demodivina que conhece a morte e seus compassos
seus tambores afásicos de gaze
suas comportas finais
e seu asfalto


Noite tótem

São os transfundos outros da in extremis médium
que é a noite ao entreabrir os ossos
as mitoformas outras
aliardidas presenças semimorfas
sotopausas, sossopros
da enchagada libido possessa
que é a noite sem vendas
são os grislumbres outros atrás esmeris pálpebras videntes
os atônitos gessos do imóvel ante o refluído
ferido interogante
que é a noite já lívida
são as crivadas vozes
as suburbanas veias de ausência de remansas omoplatas
as acrinsones dragas famintas do agora com seu limo de nada
os idos passos outros da incorpórea ubíqua também outra
escavando o incerto
que pode ser a morte com sua demente muleta solitária
e é a noite
e deserta

Destino

E para cá ou além
e desde aqui outra vez
e volta a ir de volta e sem alento
e do princípio ou término do precipício íntimo
até o extremo ou meio ou ressurrecto resto de este ou aquele
ou do oposto
e roda que te rói até o encontro
e aqui tampouco está
e desde acima abaixo e desde abaixo acima ávido asqueado
por viver entre ossos
ou do perpétuo estéril desencontro
ao demais
de mais
ou ao recomeço espesso de cerdos contratempos e destempos
quando não a bordo senão de algum complexo herniado em pleno
vôo
cálido ou gelado
e volta e volta
a tanta terça turca
para entregar-se inteiro ou de três quartos
farto já de metades
e de quartos
ao entrevero exausto dos leitos desfeitos
ou dar-se noite e dia sem descanso contra todos os nervos do
mistério
do além
daqui
enquanto se resta quieto ante o fugaz aspecto sempiterno do
aparente ou do suposto
e volta e volta fundido até o pescoço
com todos os sentidos sem sentido
no sufocotédio
com unhas e com idéias e poros
e porque sim não mais


*Claudio Daniel é poeta, professor de Literatura Portuguesa, colunista da revista Cult e colaborador do Portal Vermelho. Publicou, entre outros títulos, os livros de poesia Cadernos bestiais e Esqueletos do nunca (Lumme Editor, 2015)

http://www.vermelho.org.br/noticia/268991-368

Harmonia velha


O teu beijo resume
Todas as sensações dos meus sentidos
A cor, o gosto, o tato, a música, o perfume
Dos teus lábios acesos e estendidos
Fazem a escala ardente com que acordas o fauno encantador
Que, na lira sensual de cinco cordas,
Tange a canção do amor!
E o tato mais vibrante,
O sabor mais sutil, a cor mais louca,
O perfume mais doido, o som mais provocante
Moram na flor triunfal da tua boca!
Flor que se olha, e ouve, e toca, e prova, e aspira;
Flor de alma, que é também
Um acorde em minha lira,
Que é meu mal e é meu bem...
Se uma emoção estranha
o gosto de uma fruta, a luz de um poente -
chega a mim, não sei de onde, e bruscamente ganha
qualquer sentido meu, é a ti somente
que ouço, ou aspiro, ou provo, ou toco, ou vejo...
E acabo de pensar
Que qualquer emoção vem de teu beijo
Que anda disperso no ar...

- Guilherme de Almeida.

Woodstock 69 The Lost Performances The Band, Canned Heat, Joan Baez, Cr...

1953: Levante popular na antiga Alemanha Oriental


No dia 17 de junho de 1953, quatro anos após sua criação, a República Democrática Alemã estava à beira do colapso econômico, o que levou a violentos confrontos entre a população e o poder estatal.

Manifestantes jogam pedras contra tanque soviético em Berlim Oriental

Oito anos após o final da Segunda Guerra Mundial, a então República Democrática Alemã (RDA) ainda enfrentava graves problemas econômicos. Enquanto a Alemanha Ocidental era reconstruída com a ajuda dos Aliados ocidentais, o Alemanha Oriental, controlada pelos soviéticos, sucumbia sob uma grave crise de abastecimento.

Um ano antes, o secretário-geral do Partido Socialista Unitário (SED), Walter Ulbricht, havia anunciado a "construção planejada do socialismo" segundo o modelo soviético. Os pesados pagamentos de reparações de guerra e o estímulo à indústria pesada causaram uma crise de abastecimento, agravando a escassez de gêneros básicos como manteiga, carne, frutas e verduras, que só podiam ser adquiridos através de senhas de racionamento.

Evasão de cidadãos

O florescimento econômico da Alemanha Ocidental e a insatisfação com os rumos políticos no Leste alemão levaram muitos a voltarem as costas à RDA. Em 1952, 180 mil pessoas haviam deixado o país. No primeiro semestre de 1953, foram 226 mil.

Mesmo assim, o governo de Berlim Oriental não mudou o curso político e econômico. Em abril de 1953, ovos, carne e doces tiveram seus preços aumentados. O apogeu deste desrespeito aos cidadãos alemães-orientais aconteceu em maio de 1953, com a imposição ao trabalhador de produzir 10% a mais na mesma carga horária.

Novas lideranças – nova política

A morte do ditador soviético Josef Stalin em março de 1953 levou à insegurança e lutas pelo poder entre os líderes de vários países da Europa Oriental.

Otto Grotewohl

O próprio chefe de governo alemão-oriental na época, Otto Grotewohl, havia reconhecido a situação de seu país ao criticar que "quando pessoas se distanciam de nós, se além da brecha estatal e econômica também são dilaceradas as relações humanas entre os alemães, então esta política está errada".

Para atrair de volta os agricultores, comerciantes e trabalhadores que haviam emigrado para a Alemanha Ocidental, foi-lhes acenado com a possibilidade de devolução das propriedades.

A Justiça, cujas sentenças arbitrárias haviam levado à duplicação da população carcerária no período de um ano, seria encarregada de revisar suas decisões. Até mesmo com a Igreja os responsáveis pelo governo pretendiam entrar em acordo. Só o aumento salarial continuou tabu, o que foi interpretado como provocação pelos trabalhadores, que responderam com protestos.

Protestos pararam a Alemanha Oriental

Diante do prédio do governo em Berlim, no dia 16 de junho, os trabalhadores da construção civil convocaram uma greve geral para o dia seguinte. O apelo foi divulgado dentro da Alemanha Oriental e no estado vizinho, através da imprensa.


Manifestantes marcham através do Portão de Brandemburgo

O clima era de euforia, o regime já era visto como derrotado. Em alguns locais, os insurgentes chegaram a tomar o poder. Mais de um milhão de pessoas participaram de manifestações e greves em 700 cidades e comunidades da RDA.

A revolta por melhores salários transformou-se rapidamente em um levante pela liberdade, democracia e unidade da Alemanha. Em faixas e cartazes, os manifestantes reivindicavam melhores condições de vida, a renúncia do governo da RDA, eleições livres e a reunificação do país.

A chegada dos tanques

A liderança política da RDA já havia perdido o controle sobre a situação quando a força de ocupação soviética declarou estado de emergência. Tanques militares invadiram o principal ponto de concentração de manifestantes, na praça Potsdamer Platz, em Berlim.

Os acontecimentos foram narrados ao vivo pelos repórteres que acompanharam as dramáticas cenas de 17 de junho de 1953. A violência militar reprimiu o levante dos alemães-orientais, deixando um saldo de centenas de mortos e feridos. Cerca de dez mil manifestantes e membros do comitê de greve foram detidos. Mais de 1.600 participantes do levante cumpriram, em parte, longas penas de prisão.

Algumas semanas depois, o Bundestag (câmara baixa do Parlamento da República Federal da Alemanha) proclamou o dia 17 de junho como Dia da Unidade Alemã. Após a reunificação, em 1990, este feriado passou a ser comemorado em 3 de outubro.

Em busca de insurgentes

Para evitar futuras rebeliões e detectar eventuais insurgentes, a então Alemanha Oriental ampliou as competências de seu serviço secreto (Stasi), que passou a vigiar a vida dos alemães-orientais.

Demoraria 36 anos para que a população voltasse a reunir forças para se rebelar contra o regime. Desta vez, em 9 de novembro de 1989, derrubaria o Muro de Berlim. A diferença em relação a 1953 é que o poder em Moscou estava nas mãos do reformista Mikhail Gorbachov, que preferiu deixar os tanques nas casernas.

Com o fim da RDA, começou a derrocada do bloco socialista da Europa oriental, culminando com a dissolução da União Soviética.


Crônica dos acontecimentos de 17 de junho de 1953 
Autoria Marcel Fürstenau (rw)
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1952: Stalin propõe reunificar Alemanha


No dia 10 de março de 1952, Josef Stalin surpreendeu o Ocidente com uma sugestão de unificar a Alemanha, desde que esta não entrasse para a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).



Stalin pretendia acabar com a influência ocidental sobre a Alemanha

Entre os principais pontos da proposta apresentada pelo chefe de governo da antiga União Soviética estava o item de número 2: "Todas as tropas das forças de ocupação terão que se retirar do território alemão o mais tardar até um ano depois que o acordo de paz entrar em vigor. Ao mesmo tempo, serão fechadas todas as bases militares em território alemão."

E o item 7 dizia: "A Alemanha se compromete a não ingressar em nenhuma coalizão ou aliança militar, voltada contra qualquer outro Estado cujas tropas participaram da guerra contra a Alemanha."
Isso significaria a completa neutralidade política e militar de uma Alemanha reunificada. A Guerra Fria entre Leste e Ocidente atingia seu auge, e a crise na Coreia ameaçava inclusive transformar-se em terceira guerra mundial.

Estratégia da integração em alianças

As potências ocidentais, principalmente os Estados Unidos, tinham planos bem diferentes para o lado alemão ocidental. Eles queriam integrar a jovem República Federal da Alemanha em alianças militares e políticas. Discutia-se, por exemplo, a criação de uma comunidade europeia de defesa, que acabou fracassando por causa do veto francês.

Konrad Adenauer

A resposta indireta à sugestão de Stalin foi dada no dia 26 de maio de 1952, através da assinatura, em Bonn, do acordo que selava o ingresso da Alemanha nas alianças ocidentais.

Ao esclarecer sua importância diante do Parlamento alemão-ocidental, o então chefe de governo Konrad Adenauer destacou tratar-se da decisão sobre se a República Federal da Alemanha deveria ou gostaria de se integrar na Europa.

Não faltaram críticas da Alemanha Oriental, de regime comunista. Walter Ulbricht, presidente do Conselho de Estado da República Democrática Alemã, chegou a acusar o governo Adenauer de tornar-se "protetorado norte-americano e trair os interesses alemães".

Os adversários políticos de Adenauer na própria Alemanha Ocidental estavam convencidos de que em 1952 fora desperdiçada uma chance de reunificação. Esta aconteceria só quase 40 anos mais tarde, com a derrocada do comunismo no Leste Europeu.

Autoria Norbert Ahrens (rw)
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1970: Assinatura do Tratado de Moscou


Em 12 de agosto, Willy Brandt assinava com a União Soviética um tratado em que os dois países renunciavam à reivindicação de territórios, respeitando a integridade territorial de todos os países europeus.


Brandt (e) e Kossygin assinam o tratado no Kremlin

Noite de 28 de setembro de 1969. O Partido Social Democrata (SPD) sai fortalecido da eleição para o Bundestag, a câmara baixa do Parlamento alemão. O seu candidato a chanceler federal, Willy Brandt, convida por telefone o presidente do Partido Liberal Democrático (FDP), Walter Scheel, para formar uma coalizão que apresente novos rumos também para a política externa alemã.

Um mês depois, em 28 de outubro de 1969, pela primeira vez um chanceler alemão admite, em sua declaração de governo, a existência de dois Estados alemães. "Mesmo que existam dois Estados, eles não são entre si estrangeiros e o relacionamento entre eles só pode ser de um tipo especial", afirmou Brandt.

Reconhecimento da realidade pós-Guerra

Com isso, fica claro que o governo Brandt-Scheel reconhece a realidade política criada pela Segunda Guerra Mundial e empenha-se ao mesmo tempo na distensão e na reconciliação com o vizinho oriental.

O novo governo aplica a sua visão rapidamente. Em dezembro de 1969, iniciam-se as negociações para um acordo com Moscou e, em fevereiro de 1970, com Varsóvia. Brandt se encontra duas vezes com o primeiro-ministro da Alemanha Oriental, Willi Stoph: em março na cidade de Erfurt, e dois meses depois em Kassel.


Esboço de acordo e suspeitas de traição

Neste mesmo mês, fica pronto o núcleo de um esboço de acordo com a União Soviética, após duras negociações entre o ministro soviético das Relações Exteriores, Andrey Gromyko, e o secretário de Estado do gabinete da chanceleria federal da Alemanha, Egon Bahr. Pessoa de confiança de Willy Brandt, Bahr tinha extensos poderes e, mesmo sendo um astuto estrategista, vivenciou várias trocas da tática soviética de negociação.

Em Bonn, a oposição suspeita de traição do objetivo de reunificação do país e tenta provocar a opinião pública, acusando o governo de entreguismo dos interesses nacionais.

A assinatura

Em 12 de agosto de 1970, Brandt e o chefe de governo da União Soviética, Alexei Kossygin, assinam no Kremlin o acordo. Neste mesmo lugar, 31 anos antes, enviados de Hitler haviam acertado os termos para a invasão da Polônia, o que deflagrou a Segunda Guerra Mundial.

Na noite da assinatura do Tratado de Moscou, Willy Brandt dirige-se aos alemães em um discurso pela televisão, direto da capital soviética: "Amanhã fará nove anos que o Muro de Berlim foi construído. Hoje, assim eu espero confiante, demos um primeiro passo para que pessoas não tenham que morrer nas cercas de arame farpado, até que a separação do nosso povo algum dia possa ser superada."

Com o acordo, a República Federal da Alemanha e a União Soviética se comprometem a renunciar ao uso da violência, a respeitar a "integridade territorial de todos os Estados na Europa" e a abrir mão de reivindicações de território, também no futuro.

O primeiro acordo com o Leste

Em seu discurso na televisão, Brandt procurou tranquilizar os alemães, antes de tudo os desconfiados, os céticos e os críticos: "Com este acordo, não perdemos nada que já não nos tivesse escapado há tempos".
No fundo, o acordo foi um modelo e a base política para uma futura cooperação no âmbito europeu. Foi o primeiro dos acordos com o Leste e aplainou o caminho para a distensão política.

O que aconteceu na política interna alemã em seguida foi um confronto de quase dois anos, que sacudiu a República e ganhou, não poucas vezes, contornos de baixo nível.

Só depois da fracassada tentativa de derrubar Brandt com um voto de desconfiança, o Parlamento pôde ratificar os acordos com Moscou e Varsóvia. Estes entraram em vigor em 3 de junho de 1972, quando a política de distensão de Brandt já havia sido consagrada internacionalmente com o Prêmio Nobel da Paz, seis meses antes.


1969: Eleição de Willy Brandt na Alemanha 
1973: Willy Brandt em Israel 

Autoria Christa Kokotowski (ef)

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1961: Construção do Muro de Berlim


ALEMANHA 60 ANOS: ACONTECIMENTOS QUE MARCARAM A HISTÓRIA DO PAÍS1949:

Toma posse o primeiro presidente alemão1949: Promulgada a Lei Fundamental Alemã1949: Primeira Feira do Livro de Frankfurt1954: Alemanha ganha a Copa do Mundo1957: Equiparação dos direitos da mulher na Alemanha1957: Inauguração da Interbau em Berlim1961: Construção do Muro de Berlim1962: Fundação da Schaubühne de Berlim1963: Tratado da amizade franco-alemã1963: Começa "Julgamento de Auschwitz"1968: Atentado contra Rudi Dutschke1968: Atentados incendiários em Frankfurt1969: Willy Brandt vence as eleições federais 1971: Cineastas alemães criam cooperativa do filme1971: Tratado das Quatro Potências sobre Berlim1972: Beuys demitido da Academia de Belas Artes1972: Atentado na vila olímpica em Munique1974: Helmut Schmidt torna-se chanceler federal1975: Começa julgamento de líderes da RAF1976: Ulrike Meinhof é encontrada morta na prisão1977: Terroristas alemães se suicidam na prisão1982: Morre o cineasta alemão Fassbinder1983: Stern publica os "Diários de Hitler"1988: Daimler-Benz indeniza trabalhadores forçados sob o regime nazista1989: Bomba da RAF mata banqueiro Alfred Herrhausen 1989: A queda do Muro de Berlim1990: Kohl e Gorbatchov se reúnem no Cáucaso1990: Eleições livres para o Parlamento da Alemanha Oriental1991: Direitos iguais de sobrenome na Alemanha1992: Morre o ex-chanceler alemão Willy Brandt1993: Atentado incendiário xenófobo em Solingen1993: Restrições na lei de asilo político 1994: Christo pode empacotar o Reichstag1994: Condenado espião alemão-oriental 1998: Grupo terrorista alemão RAF anuncia dissolução2002: Morre primeiro ídolo do futebol alemão2007: Morre o fotógrafo Bernd Becher2008: Ano de grandes decisões e surpresas para cultura na Alemanha

Em 13 de agosto de 1961, guardas da Alemanha Oriental começaram a separar com arame farpado e concreto os lados oriental e ocidental de Berlim, isolando Berlim Ocidental dentro do território da Alemanha Oriental.


Início da construção do maior símbolo da Guerra Fria

O funcionário do Serviço de Defesa da Constituição de Berlim que estava de plantão no segundo final de semana de agosto de 1961 não esperava ocorrências extraordinárias. Mas já na madrugada de sábado para o domingo, dia 13, ele foi surpreendido à 1h54 pela notícia de que o tráfego de trens entre Berlim Ocidental e Berlim Oriental fora suspenso.

A abrangência do fato, porém, só ficou clara quando o dia amanheceu. A República Democrática Alemã (RDA) dera início à construção de um muro entre as duas partes de Berlim, cortando o acesso de 16 milhões de alemães ao lado ocidental. "A fronteira em que nos encontramos, com a arma nas mãos, não é apenas uma fronteira entre um país e outro. É a fronteira entre o passado e o presente", era a interpretação ideológica do governo alemão oriental.

Queda após 28 anos

A RDA via-se com razão ameaçada em sua existência. Cerca de 2 mil fugas diárias haviam sido registradas até aquele 13 de agosto de 1961, ou seja, 150 mil desde o começo do ano e mais de 2 milhões desde que fora criado o "Estado dos trabalhadores e dos camponeses". O partido SED puxou o freio de emergência com o auxílio de arame farpado e concreto, levantando um muro de 155 quilômetros de extensão que interrompia estradas e linhas férreas e separava famílias.

Ainda dois meses antes, Walter Ulbricht, chefe de Estado e do partido, desmentira boatos de que o governo estaria planejando fechar a fronteira: "Não tenho conhecimento de um plano desses, já que os operários da construção estão ocupados levantando casas e toda a sua mão de obra é necessária para isso. Ninguém tenciona construir um muro".

Nos bastidores, porém, corriam os preparativos, sob a coordenação de Erich Honecker e com a bênção da União Soviética. Guardas da fronteira e batalhões fiéis ao politburo encarregaram-se da tarefa. Honecker não tinha a menor dúvida: "Com a construção da muralha antifascista, a situação na Europa fica estabilizada e a paz, salvaguardada".

As potências ocidentais protestaram, mas nada fizeram. Para os berlinenses de ambos os lados da fronteira, a brutalidade do muro passou a fazer parte do cotidiano. Apenas 11 dias após a construção, morreu pela primeira vez um alemão-oriental abatido a tiros durante tentativa de fuga. A última vítima dos guardas da fronteira foi Chris Gueffroy, morto em fevereiro de 1989.
Reação às fugas
Até 1989, o Muro de Berlim foi o símbolo por excelência da Guerra Fria, da bipolarização do mundo e da divisão da Alemanha.

Ainda no início de 1989, Honecker, no poder desde 1971, manifestava confiança em sua estabilidade: "O muro ainda existirá em 50 ou em cem anos, enquanto não forem superados os motivos que levaram à sua construção".

Apenas dez meses depois, em 9 de novembro daquele ano, os habitantes de ambas as partes da cidade caíam incrédulos nos braços uns dos outros, festejando o fim da muralha que acabou sendo derrubada pouco a pouco e vendida aos pedaços como suvenir.

Menos de um ano depois, o país dividido desde o fim da Segunda Guerra foi unificado, mas a verdadeira integração entre as duas partes é um processo que ainda não terminou.
Bildergalerie - Grünes Band

DE CORTINA DE FERRO A CINTURÃO VERDE

A BT11, em Kühlungsborn, é uma torre de vigia da época da Alemanha Oriental. Entre 1973 e 1989, os guardas de fronteira subiam nela para achar possíveis fugitivos, cujo objetivo era alcançar a costa do estado ocidental de Schleswig-Holstein ou um navio que estivesse de passagem. Tombada como patrimônio histórico, a torre é uma das últimas das mais de 70 que existiam na costa do Mar Báltico.

1962: Peter Fechter morre vítima do Muro

No dia 17 de agosto de 1962, Peter Fechter, de 18 anos, foi assassinado ao tentar fugir para Berlim Ocidental atravessando o Muro. Baleado pelos soldados de fronteira da Alemanha comunista, Peter morreu de hemorragia na chamada "zona da morte" entre os lados Ocidental e Oriental de Berlim. 

De Cortina de Ferro a Cinturão Verde    
Autoria Doris Bulau (lk)
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1969: Festival de Woodstock

INSTANTÂNEOS: GERAÇÃO 19681967:

Conflitos raciais em Newark1967: Che Guevara assassinado1968: Dubcek eleito líder do Partido Comunista tcheco1968: Lançada sonda lunar Surveyor 71968: Atentados incendiários em Frankfurt1968: Martin Luther King é assassinado1968: Entra em vigor a nova Constituição da Alemanha Oriental1968: Atentado contra Rudi Dutschke1968: "Hair" estreia na Broadway 1968: Negociações de paz para o Vietnã1968: Primeiro cargueiro nuclear europeu1968: Tropas soviéticas ocupam Praga1968: Jacqueline casa-se com Onassis1968: o ano do cinema em transe1969: Lennon e Ono dormem pela paz1969: Estreia o filme "Sem Destino"1969: Festival de WoodstockHerança da geração de 68 é presente até hojeAlemães relembram 1968 como ano da Primavera de PragaÀ sombra da revolução, na defensivaO fascínio do mal: terroristas alemães viram ícones da cultura popCiência & TécnicaMúsica e músicosTerrorismo na Alemanha na década de 70Nazifascismo e 2ª Guerra MundialUnião Européia

Em 15 de agosto de 1969 começava ao norte de Nova York um festival de rock em que se apresentaram os mais conhecidos músicos do gênero. O evento entrou para a história como auge e crepúsculo da geração hippie.

Três dias de música e desconcentração no auge do movimento hippie
Ninguém tinha mais de 30 anos entre os 400 mil jovens que acamparam durante três dias, comendo, bebendo, dormindo e fazendo amor ao ar livre. E fumando maconha.

Quem esteve em Woodstock de 15 a 17 de agosto de 1969 afirma que foi a maior manifestação de paz de todos os tempos. Para as más línguas, a descontração foi resultado do enorme consumo de drogas praticado durante o evento pelos jovens representantes da "geração das flores".

O que estava planejado era algo totalmente diferente. Os quatro jovens de Bethel, no estado de Nova York, que alugaram para o festival de rock ao ar livre a propriedade rural de Max Yasgur, de 250 hectares, contavam com a participação de no máximo uns 80 mil hippies.

Mas, ainda antes de a festa começar, não parava de chegar gente para ouvir The Who, Jimmy Hendrix, Joan Baez, Crosby, Stills & Nash, Jefferson Airplane e muitos outros mais que haviam confirmado presença. Logo foi preciso desmontar as cercas da fazenda, o que ocorreu com toda a calma, porque o pessoal não era de arruaça.

Max Yasgur não cabia em si de contentamento: "Sou um simples camponês. Não sei como falar para tanta gente. Esta é a maior multidão que já se reuniu num lugar. Mas acho que vocês provaram uma coisa para o mundo: que é possível que meio milhão de pessoas se reúnam para ouvir música e se divertir durante três dias — só música e divertimento".

O festival em Woodstock não foi o primeiro a ser realizado ao ar livre em fins da década de 60. E, para os hippies de verdade, até hoje o festival de Monterey, realizado na Califórnia no verão setentrional de 1967, continua sendo o acontecimento. Mas a ele compareceram apenas 50 mil pessoas. Woodstock reuniu pelo menos oito vezes mais.

Protesto político e fim de uma era
Em 1969, na verdade, já tinha quase passado a grande euforia da rebelião. Os estudantes de Paris, Berlim e Berkeley tinham desmontado suas barricadas e retornado às salas de aula.

Na Casa Branca, estava instalado Richard Nixon, que incorporava os clichês do governante reacionário em velhos moldes. E o que Woodstock significou, no fundo, foi a rejeição dos Estados Unidos a tudo o que Nixon representava. Nada expressou tão bem essa rejeição quanto a guitarra de Jimi Hendrix, entoando o hino nacional entrecortado pelos sons de bombas. Um ano antes de sua morte, o astro consagrava-se como o maior guitarrista de rock de todos os tempos.

Hoje Woodstock tem a aura de um mito, provavelmente também por representar o crepúsculo do movimento hippie. No mesmo ano, o clã de Charles Manson havia cometido assassinatos bárbaros ao som de rock e no embalo das drogas, matando entre outras pessoas a atriz Sharon Tate, esposa do cineasta Roman Polanski.

Ainda no mesmo ano, o rock chegou ao fundo do poço num concerto dos Rolling Stones em Altamont, na Califórnia, em que os Hell's Angels apunhalaram um negro diante do palco.

O festival do amor e da paz rendeu lucros para seus organizadores, que ganharam com os áudios e vídeos produzidos sobre o evento. Na lembrança, permanece a imagem de um mar de lama preenchido pelo lixo deixado pelos participantes: a chuva que caiu em Woodstock só fez reforçar o mito.


1968: "Hair" estreia na Broadway
Outro marco da geração hippie lembrado em mais um artido da nossa série Calendário Histórico. 
Autoria Jens Thurau (lk)

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quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Daniel Mittelbach Posso estar completamente enganado, mas o que vi nos conglomerados midiáticos nos últimos dias foi apenas a solidificação da imagem do Temer como grande articulador dos interesses trabalho-capital e figura capaz de superar a crise política através de seu discurso unificador. Ou seja, nada além de continuar sedimentando o caminho do golpe tentando convencer a população de que tirar Dilma e colocar Temer não é trocar 6 por meia duzia...

Daniel Jorge Habib prá mim não houve desistência do golpe. Foi a tática de incitar a polícia jogando pedra, depois correr pro fundo dizendo que foram os outros...

André Castelo Branco Machado De certa forma, concordo. Incitaram para sangrar, como bem reconheceu o Aloysio Nunes. Para, quando o governo estivesse entregue, dai sentaram para negociar.
 ://m.oglobo.globo.com/.../mercadante-reconhece-erros-do...
Mercadante reconhece erros do governo, elogia PSDB e propõe \'acordo suprapartidário\'

Daniel Jorge Habib se eu pudesse dar uma opinião às executivas, seria sobre a necessidade de um novo pacto de governabilidade.
Tardiamente o partido reconheceu que os conteúdos das alianças com o pmdb foram demasiado anti-estratégicos, tanto em nível federal como genericamente as estaduais.
O mesmo se aplica à manutenção das alianças com o capital financeiro e adiamento da auditoria da dívida e da mídia, flexibilização do crédito bancário de altos juros à baixa renda, e os setores antinacionais do agronegócio, extrativismo, indústria e educação, sem a necessidade de citar nomes.
Esse novo pacto de governabilidade, mais uma vez na minha opinião, não visaria garantir a governabilidade do partido pelo/para o partido, mas sim a discussão, deliberação e construção de um projeto nacional, coisas que o PAC não fez e não será capaz de executar mesmo se for concluído.
Uma eventual renúncia ou destituição da presidência vai arruinar o que ainda resta de governabilidade no país, e creio firmemente que a tendência para os meses que seguem é ao caos generalizado, com risco de guerra civil de caráter etnológico e religioso, mais que político e econômico, cenário onde uma possível intervenção da otan não seria de todo descartada para os anos seguintes.
Temo pela governabilidade porque temo pelo futuro da nação brasileira, tanto quanto pelo país Brasil.

Ana Smolka Excelente avaliação. A nós, trabalhadores resta resistir e aprender definitivamente a votar!
Leandro de Paula Espero que o governo tenha uma carta na manga e que essa "trégua" seja uma retirada estratégica do campo de batalha para dar mais fôlego aos soldados. É inacreditável o poder da mídia. Incrível também é a forma como o capital internacional impõe sua vontade, passando por cima da soberania de qualquer país.

Flavio Vilmar Silva A mídia publica que a aceitação de Dilma é de sete por cento. Depois vejo pesquisa dizendo que a aceitação e confiança da mídia são míseros 4,8 por cento. Fico com quem ?
Odenir Colombo Concordo André, acredito que o ajuste está feito com a taxa de juros, quem manda na Globo é o Bradesco. Quem manda nos Frias e nos Mesquita é o Itaú. O restante é figuração. O cade vai aprovar a compra do HSBC e em breve novas medidas para contentar setores da economia via BB, Caixa e BNDS.

Gustavo Campos Zapelini Mudar a bitola com o trem andando não dá. A virada à esquerda perdeu-se no primeiro mandato do Lula. Seguiu-se o governo que deu pra fazer, atraído e traído por forças centrípetas do mercado. Que levam tudo a um grande buraco negro. Mas entrar no buraco acaba tudo. E pra que melhor negócio que a "crise"? Se não tem, se produz. Afinal é o mercado, essa besta fera que não tem dono, mas obedece a mão invisível dalguns. Agora, licenças macroeconômicas a parte, é como dizia Friedman: no free lunch.

Raphael Rieche Do meu ponto de vista, os ajustes econômicos são vitais para a manutenção do grau de investimento do país e, consequentemente, dos maciços volumes de recursos que grandes fundos de private equity americanos e europeus depositam em nosso mercado. Seria uma verdadeira tragédia para o país a volta do grau especulativo, literalmente quebraria grandes empresas nacionais, com muito desemprego e ainda mais confusão.

Raphael Rieche Não obstante, concordo que o ajuste poderia ser no tamanho de estado, com cortes drásticos no número de ministérios e de cargos comissionados, ao invés de penalizar somente a classe trabalhadora. Mas temos que lembrar que a classe empresarial também é duramente afetada pela nossa carga tributária e custo país. Não tá fácil pra ninguém.

Fabricio Renê Não há como negar, a crise é política, inflada pela grande mídia, que comanda a elite e a classe média numa pretensa cruzada pela moral e contra a corrupção... Vão colocar o PMDB, como "aliado", um partido que virou de vez quadrilha de chantagistas e aproveitadores e nem de longe o velho MDB que lutava contra a ditadura. Mas em troca da manutenção pelo poder, o PT vendeu a alma ao diabo e faz um governo neo-liberal, nos moldes da Tucanalha. Aí não dá!!! Ou o PT muda a agenda e volta ao socialismo, abre mão destas alianças satânicas e salva o governo ou este governo é um governo natimorto e refém de um congresso que não vale um vintém...

Flavius Lucilius Nunes Na Globo só se fala de crise, inflação e Lava Jato...Grande apoio... O país que se dane para eles...

Luiz Vitor Ferreira Ranieri Há muita coisa nesse "preço": democratização da mídia, sonegação de impostos, financiamento de campanha, imposto escalonado conforme riqueza... E por aí vai. O poder tem seu preço somente porque há pessoas e partidos dispostos a pagar. Millôr Fernandes disse: "O poder é um camaleão ao contrário, todos tomam sua cor"

Nelson Settanni É a calmaria antes da tempestade. Eles não honrarão acordo nenhum nem o seppuku do Pt.

André Castelo Branco Machado Também não confio em qualquer acordo. Mas o planalto procura um acordo desde o início e eles sabem disso.


Ana Smolka Helberth Avila... dá uma lida nesta avaliação do André Castelo Branco Machado, pois vai de encontro com seus medos, conforme publicou no grupo 'Unidade'.



Daniel Jorge Habib

Bom dia amigos,

venho fazer um relato, um breve relato, semelhante ao desabafo de um filósofo. Exercício da minha profissão.

No início de 2010 comecei a perceber umas movimentações estranhas no rearranjo geopolítico global, também em relação ao Brasil. Me perguntava por que certas coisas aparentemente desconectadas estavam acontecendo e dificilmente encontrava respostas em causalidade linear, felizmente disponho de algumas técnicas de diagnóstico de causalidade sistêmica recursiva e em rede. Com o passar dos meses uma espécie de "sombra" foi aparecendo e em meados do ano percebi que era algo próximo a um roteiro estruturado para nova conformação política do/no território brasileiro.

Três razões principais me levaram a essa conclusão:
1- o cenário global de mudanças climáticas combinado ao fluxo massivo de êxodo rural e concentração urbana, que vai expor a quase totalidade dos territórios brasileiros exploráveis para energia solar, além de água, minérios, biodiversidade e terras agricultáveis, com condição muito superior à daqueles países onde uma nova pequena era glacial irá tornar a vida urbana impraticável nas próximas décadas;
2- a oferta crescente de mão de obra tecnicamente qualificada mas filosófica, sociológica, antropológica, política, econômica e cientificamente emburrecida no país, condição extremamente favorável para repetidores de regras não pensadas e, claro, não questionadas;
3- o violento retrocesso percebido nos últimos anos nos atos administrativos entre os três poderes e nas três esferas, quanto ao respeito aos DHESCA (Direitos Humanos, Econômicos, Sociais, Culturais e Ambientais), que abrem caminho para justificar uma coalizão multisetorial e multilateral contra o governo e subgovernos brasileiros, apesar do reconhecimento de avanços em outras áreas.

Percebido esse cenário, pude fazer um exercício retrospectivo (uma espécie de regressão de fatos) que me levou até o processo que desmanchou o Programa Fome Zero, primeiro projeto nacional que se tentou levar a cabo desde o descobrimento, mas foi soterrado pelo próprio governo em acordos intestinos.
Passo a passo desde 2004 até 2010 notei que havia, de fato, uma linha lógica (de causalidade sistêmica, recursiva e em rede) com aquelas bases que mencionei, mas ainda não estava claro como se daria o processo de nova conformação política para o território brasileiro. Só nos primeiros meses de 2011 consegui concatenar os fatos e caminhos, na percepção de que haveria algo próximo ao seguinte roteiro:

1- a criação de um sentimento popular de desgosto e desgaste quanto a toda forma de governabilidade, devido principalmente à frustração pela facilidade de acesso ao crédito bancário sem base microeconômica para suprir as dívidas individuais dos menores estratos de renda (efeito da crise econômica = prejuízo das pessoas, lucro recorde dos bancos);
2- a inauguração de um movimento mundial de reconhecimento das violações de direitos humanos no Brasil, principalmente direitos indígenas (como foi e continua sendo o holocausto indígena no Brasil, que ganhou particular atenção nas redes sociais de todo o mundo com os terríveis episódios contra os Kaiowa no Mato Grosso do Sul);
3- a eclosão de um tipo de movimentação social engendrada com o perfeito fim de construir um sentimento popular de "o gigante acordou" (as marchas de 2013);
4- a descaracterização pública e ridicularização, pela mídia, desse sentimento de "o gigante acordou", fazendo com que se transformasse em revolta contida, fomentando a inflamação que antecede a fúria, aumentada ainda pela sensação de impotência particular e incompetência nacional (como por exemplo, o "evento 7x1");
5- o início da declaração de um golpe branco, onde o reconhecimento da autoridade governamental vai sendo minado aos poucos desde dentro da própria estrutura de governo (a luta fictícia contra o golpe comunista bolivariano);
6- a criação do poder gerador de uma guerra civil, uma luta fratricida, que é a cisão NÓS X ELES, de caráter político (esquerda X direita), religioso (Povo de Deus X Impuros), econômico (pobres x ricos), não culminada nas eleições gerais de 2014, mas em franca ascensão;
7- a expectativa popular de intervenção interna, apoiada e supervisionada por intervenções externas (pedidos públicos de intervenção militar);
8- a consolidação da transferência não constitucional de autoridade sobre o governo, seguida de apoio popular imediato, mas que logo será frustrado (impeachment);
9- o agravamento das condições que geraram a insatisfação popular, culminando no ponto de fúria (possível risco de guerra civil interna - MOMENTO ATUAL);
10- um movimento de coalizão multisetorial/multilateral para intervir politicamente e militarmente junto à população, tomando controle sobre o território, que será negado e rechaçado pela população, agora inflamada;
11- o prologamento da situação de instabilidade política interna, que por justificativa econômica validaria a intervenção multilateral;
12- o esfacelamento da idéia de "território contíguo", em pacto semelhante à partilha da África, constituindo finalmente a nova conformação geopolítica face às mudanças climáticas.


Compartilho essa percepção com vocês, na expectativa de que junto comigo possamos refletir sobre o futuro próximo e distante do nosso país, e também do próprio momento atual da civilização.

A linha editorial da defesa do impeachment


Achar que a Globo, o Estadão, a Folha e todas as demais mega empresas do ramo da notícia abandonaram a linha editorial da defesa do impeachment da Dilma porque tem uma "responsabilidade política com o país", por não quererem "deixar o Brasil nas mãos de um aventureiro", por defenderem a "via segura da institucionalidade" ou porque sentiram a "reação do governo e da sociedade para defender a Dilma", me desculpem os mais otimistas, mas acho tudo isso uma grande fantasia. Para mim é bem mais simples: chegaram no seu preço. E não digo aqui valores de verbas de publicidade. Isso seria, novamente, uma simplificação. O que se acerta nas altas cúpulas são interesses de classe e, desde o primeiro dia (ou até antes), o que estava em jogo era o "ritmo do ajuste". Não bastava somente a indicação do Levy, da Katia Abreu, do Armando Monteiro, manter o Tombini, aumentar as taxas de juros, cortar gastos sociais e mudar algumas regras previdenciárias. Tratava-se de apagar qualquer vestígio do petismo do governo. Sim, mesmo que uma fagulha daquele PT dos milhões que saíram às ruas para eleger a Dilma no segundo turno, que renovava sonhos e esperanças, precisava ser contido para atender às demandas do mercado. E mesmo que tenhamos visto muito pouco desse PT nos sete primeiros meses do governo, ainda assim vimos um evidente descompasso no ritmo das contra-reformas exigidas pelo mercado e as medidas adotadas pelo governo e a base petista no Congresso. Basta comparar a agressividade das medidas adotadas pelos governadores da oposição, muito mais brutais para a sociedade, em especial para os servidores públicos, para entender o que o mercado espera da Dilma. A grande preocupação, caso eu esteja certo (e todos os meus amigos otimistas com os motivos mais nobres que mudaram as manchetes dos jornais essa semana), é qual será o preço dessa "paz". Qual foi o acordo possível para acalmar os achacadores? A resposta, e espero que eu seja o errado nessa história, será conhecida nos próximos lances deste complexo jogo no tabuleiro da política.


 André Castelo Branco Machado
"Não se prende todo mundo. Prende-se apenas aqueles que podem interessar a uma narrativa ditada pela mídia. Há uma nítida seletividade política: tucanos podem ser flagrados com helicópteros portando meia tonelada de cocaína, podem comprar reeleição, podem receber propinas bilionárias de cartel de trens, podem cometer o crime de não expandir a infra-estrutura hídrica do estado mais populoso do país, podem dar centenas de bilhões para banqueiros incompetentes, podem segurar o câmbio para ganhar eleições e, com isso, secar nossas reservas internacionais, podem usar o BNDES para emprestar dinheiro a empresas estrangeiras comprarem nossas estatais, podem construir aeroportos em terras da família, podem fazer tudo, enfim."

 Miguel do Rosário

E aí?


http://www.ocafezinho.com/…/o-pt-e-o-paradoxo-do-republic…/…