quinta-feira, 25 de outubro de 2012


Opiniões biográficas & críticas sobre o poeta Bandeira Tribuzi

Bandeira Tribuzi é o nome literário de José Tribuzi Pinheiro Gomes, que nasceu em São Luís, Maranhão, Brasil, em 2 de fevereiro de 1927, cidade-ilha em que também morreu, no dia 8 de setembro de 1977, aos 50 anos. Filho do português Joaquim Pinheiro Ferreira Gomes e da maranhense Amélia Tribuzi Pinheiro Gomes.

Fonte: guesaerrante


Não quero meus versos
numa antologia.
Quero-os rolando
caminhos e dias
na boca do povo:
rosa da esperança
vermelha e florida.

Tribuzi, Bandeira.Maranhão

 Obra Poética. São Paulo: Ed. Siciliano, 2002, p.339-340

A Serenidade




A serenidade não é feita nem de troça nem de narcisismo, é conhecimento supremo e amor, afirmação da realidade, atenção desperta junto à borda dos grandes fundos e de todos os abismos; é uma virtude dos santos e dos cavaleiros, é indestrutível e cresce com a idade e a aproximação da morte. É o segredo da beleza e a verdadeira substância de toda a arte.
O poeta que celebra, na dança dos seus versos, as magnificências e os terrores da vida, o músico que lhes dá os tons de duma pura presença, trazem-nos a luz; aumentam a alegria e a clareza sobre a Terra, mesmo se primeiro nos fazem passar por lágrimas e emoções dolorosas. Talvez o poeta cujos versos nos encantam tenha sido um triste solitário, e o músico um sonhador melancólico: isso não impede que as suas obras participem da serenidade dos deuses e das estrelas. O que eles nos dão, não são mais as suas trevas, a sua dor ou o seu medo, é uma gota de luz pura, de eterna serenidade. Mesmo quando povos inteiros, línguas inteiras, procuram explorar as profundezas cósmicas em mitos, cosmogonias, religiões, o último e supremo termo que poderão atingir é essa serenidade.

Hermann Hesse, in 'O Jogo das Contas de Vidro'

quarta-feira, 24 de outubro de 2012


É um ignorante aquele que acredita que o criador pode sentir. Todo verdadeiro e sincero artista sorri da ingenuidade deste engano charlatão; melancólico, talvez, mas sorri. Pois aquilo que se diz nunca deve ser o essencial, mas tão-somente o material, indiferente em princípio, de que se compõe a criação estética numa leve e serena superioridade. Se der demasiado valor àquilo que tem a dizer, se o seu coração bater com calor demasiado por isso, pode estar certa de um completo fiasco. Você
torna-se sentimental, algo de pesado, de sério-desajeitado, sem ironia, desgovernado, sem tempero, monótono, banal se forma sob suas mãos, e o fim é nada mais que indiferença por parte das pessoas, nada mais que desilusão e lamentação de sua parte ... Pois, Lisavieta: o sentimento, o cálido e cordial sentimento é sempre banal e sem utilidade; artísticos são somente nossas irritações e os frios êxtases de nosso corrompido e artificioso sistema nervoso. É preciso que se seja algo fora da humanidade ou desumano, que se esteja para a humanidade numa relação estranhamente distante e indiferente, para ser-se capaz de interpretar ou mesmo sentir-se tentado a isso, interpretar para apresentar de modo efetivo e com gosto. O dom para o estilo, forma e expressão já pressupõe esta fria e descontente relação para com a humanidade. Pois o sentimento são e forte - isto está confirmado - não tem gosto. Morre o artista quando se torna homem e quando começa a sentir."


"Tonio Kröger", Thomas Mann, in: "Morte em Veneza e Tonio Kröger", Thomas Mann, p. p. 22 e 23, Abril Cultural, 1971


Vai passar, tu sabes que vai passar.
Talvez não amanhã, mas dentro de uma semana, um mês ou dois, quem sabe?
O verão está ai, haverá sol quase todos os dias, e sempre resta essa coisa chamada "impulso vital".
Pois esse impulso às vezes cruel, porque não permite que nenhuma dor insista por muito tempo, te empurrará quem sabe para o sol, para o mar, para uma nova estrada qualquer e, de repente, no meio de uma frase ou de um movimento te surpreenderás pensando algo como "estou contente outra vez".
Ou simplesmente "continuo", porque já não temos mais idade para, dramaticamente, usarmos palavras grandiloqüentes como "sempre" ou "nunca".
Ninguém sabe como, mas aos poucos fomos aprendendo sobre a continuidade da vida, das pessoas e das coisas.
Já não tentamos o suicídio nem cometemos gestos tresloucados. Alguns, sim - nós, não.
Contidamente, continuamos.
E substituímos expressões fatais como "não resistirei" por outras mais mansas, como "sei que vai passar".
Esse o nosso jeito de continuar, o mais eficiente e também o mais cômodo, porque não implica em decisões, apenas em paciência. (...)

Caio Fernando Abreu

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 24 de outubro
Os cientistas não o levaram a sério. Antonie van Leeuwenhock não falava latim, não tinha estudos, e seus descobrimentos eram frutos da casualidade.
Antonie começou ensaiando combinações de lupas, para ver melhor a trama dos tecidos que vendia, e de lupa em lupa inventou um microscópio de quinhentas lentes capaz de ver, numa gota d'água, uma multidão de bichinhos que corriam a toda velocidade.
Esse mercador de tecidos descobriu, entre outras trivialidades, os glóbulos vermelhos, as bactérias, os espermatozoides, as leveduras, o ciclo vital das formigas, a vida sexual das pulgas e a anatomia dos aguilhões das abelhas.
Na mesma cidade, em Delft, haviam nascido, no mesmo mës do ano de 1632, Antonie e Vermeer, o artista pintor. E na mesma cidade se dedicaram a ver o invisível. Vermeer perseguia as luzes que nas sombras se escondiam e Antonie espiava os segredos de nossos mais diminutos parentes no reino deste mundo.
 Galeano