sábado, 6 de junho de 2015
ODE Á HÓSTIA
Luis Augusto Cassas
Sol branco de trigo e paz
iluminando o universo interior
Floresces no céu da boca
com gosto de mistério e de milagre
Como Agostinho em Óstia
dividido entre o amor sensual e o espiritual
dissolves-me o parco entendimento
e sinto o amor com a essência do amado
Menino ávido de aurora e luz
elevado nessa pura lei da gravidade
oferto os lábios à seara diária E floresço:
trigal de Deus hóspede do divino
Cada ceia acorda a sagrada família interior
e renasço em mim multiplicado em pães e peixes
Brasas ardentes povoam-me o coração!
Que o sol que me desce às entranhas
sarça branca fogo imaculado
é o próprio cordeiro transplantado
síntese solar da mais pura alquimia
que converte em ouro tudo que era chumbo
e faz do humano a passagem para o sagrado
do livro Liturgia da Paixão, Nórdica Editorial,1997
—Maranhão.
sexta-feira, 5 de junho de 2015
A servidão involuntária
Desde os primórdios da humanidade a luta pela dignidade do
trabalho tem sido prometeica. No Brasil, se o trabalho indígena foi um
exercício comunal, a saga europeia do colonizador nos impôs o trabalho
compulsório, inicialmente dos aborígenes e depois dos africanos.
Com a abolição da escravatura, o imigrante branco foi
escolhido para o mundo industrial, excluindo-se os negros que povoavam a produção
rural. E o trabalho negro, especialmente o das mulheres, foi empurrado para o
emprego doméstico, perpetuando a herança servil da nova casa-grande urbana.
Foi a partir de 1930 que a modernização capitalista do país
obrigou, depois de décadas de lutas operárias, a se pensar em uma legislação
social protetora do trabalho.
De modo conflituoso e contraditório, nasceu a CLT, que tinha
a aparência da dádiva, mas resultava de uma real impulsão operária.
Converteu-se na verdadeira constituição do trabalho no Brasil, ainda que seus
direitos excluíssem os assalariados do campo.
Hoje estamos à frente de um novo vilipêndio em relação aos
direitos do trabalho, cujo significado e consequência têm requintes comparáveis
à escravidão, ainda que em sua variante moderna. Descontentes com os direitos
conquistados pela classe trabalhadora, neste contexto de crise, os capitais
exigem a terceirização total, conforme consta do projeto de lei nº 4.330/04,
agora rebatizado no Senado como projeto de lei da Câmara nº 30/2015.
Em nome da falaciosa "melhoria da qualidade do produto
ou da prestação de serviço", o projeto elimina de uma só vez, a limitada
disjuntiva existente entre atividades-meio e atividade-fim.
Uma empresa poderá recorrer a outra, para contratar
trabalhadores, eliminando a relação direta entre empregador e assalariado. Como
na escravidão. Neste passe de mágica, todas as modalidades de trabalho poderão
ser terceirizadas. Até os pilotos de aeronaves.
Com um Congresso lépido e faceiro nas práticas negociais,
impulsionado pela lógica volátil do capital financeiro, uma nova servidão
involuntária está sendo urdida.
Dinheiro gerando mais dinheiro, na ponta fictícia do sistema
financeirizado global e respaldado em uma miríade de formas pretéritas de
trabalho (precarizado, flexibilizado, terceirizado, informalizado,
"cooperado", escravo e semiescravo) na base da produção.
As falácias presentes no projeto de lei são todas
conhecidas: em vez de criar empregos, ela desemprega, uma vez que os
terceirizados trabalham mais tempo e ainda percebendo menores salários.
Em vez de "qualificar" e "especializar",
temos o contrário, pois são nas atividades terceirizadas que se ampliam ainda
mais os acidentes, as mutilações, os adoecimentos, os assédios, as mortes e os
suicídios. Basta lembrar a indústria petrolífera e de energia elétrica.
Assim, o projeto de lei da Câmara não quer regulamentar os
terceirizados, mas de fato desregulamentar o trabalho em geral. Se o quisesse,
era só alterar seu o artigo 2º, eliminando a possibilidade de terceirização em
"qualquer de suas atividades" e mantendo a regulamentação dos
terceirizados que atuam nas atividades-meio. Simples assim, mas isso desmascara
o real objetivo do famigerado projeto de lei.
O que motiva os seus defensores é de fato a redução
salarial, de custos e de direitos da totalidade da classe trabalhadora,
pejotizando ainda mais as relações de trabalho.
Já está mais do que hora de dizer –em alto e bom som– que a
terceirização avilta o trabalho em todas as suas formas e deve, por essa razão,
ser combatida por todos.
É preciso acrescentar, porém, que o que está na pauta hoje é
o risco iminente da terceirização total, inclusive das atividades-fim, que deve
ser obstada para que não se gere ainda mais trabalho aviltado.
RICARDO ANTUNES, 62, é professor titular de sociologia da
Unicamp. É autor de "Riqueza e Miséria do Trabalho no Brasil III"
(Boitempo) e de "The Meanings of Work" (os sentidos do trabalho), publicado
na Índia pela editora Aakar Books
http://www1.folha.uol.com.br/…/1637855-ricardo-antunes-a-se…
Toda essa frenética luta de classes virtual mostra que
estamos numa autêntica democracia deliberativa, com atores inteiramente
orientados para os problemas da comunidade e dispostos a defender seus pontos
de vista com argumentos racionais. Tudo isso é muito bom. Só não entendi uma
coisa até agora: o que é que Amado Batista tem a ver com a diminuição da
maioridade penal? Algum geniozinho das redes sociais poderia me explicar,
please?
Sérgio Braga
A natureza antidemocrática do capitalismo
A liberalização financeira teve efeitos para muito além da
economia. Há muito que se compreendeu que era uma arma poderosa contra a
democracia. O movimento livre dos capitais cria o que alguns chamaram de
"parlamento virtual" de investidores e credores, que controlam de
perto os programas governamentais e "votam" contra eles, se os
consideram "irracionais", quer dizer, se forem em benefício do povo e
não do poder privado concentrado.
Por Noam
Chomsky, The Irish Times
O desenvolvimento de uma campanha presidencial
norte-americana simultaneamente ao desenlace da crise dos mercados financeiros
oferece uma dessas ocasiões em que os sistemas político e económico revelam
vigorosamente a sua natureza.
É possível que a paixão pela campanha eleitoral não seja
universalmente compartilhada, mas quase toda a gente pode sentir a ansiedade
desencadeada pela execução hipotecária de um milhão de residências, assim como
a preocupação com os riscos que correm os postos de trabalho, as poupanças e os
serviços de saúde.
As propostas iniciais de Bush para resolver a crise
cheiravam de tal maneira a totalitarismo, que não tardaram a ser modificadas.
Sob intensa pressão dos lóbis, foram reformuladas "para o claro benefício
das maiores instituições do sistema... uma forma de desfazer-se dos activos sem
terem de ir à falência ou quase", como descreveu James Rickards, que
negociou o resgate federal do fundo de risco (hedge fund) Long Term Capital Management
em 1998, lembrando-nos de que estamos a caminhar em terreno conhecido.
As origens imediatas do desmoronamento actual estão no
colapso da bolha imobiliária supervisionada pelo presidente do Federal Reserve,
Alan Greenspan, que sustentou a economia dos anos Bush, misturando os gastos de
consumo baseados em dívida, com a tomada de empréstimos no exterior. Mas as
razões são mais profundas. Em parte, residem no triunfo da liberalização
financeira dos últimos 30 anos, quer dizer, nas políticas consistentes de
libertar o máximo possível os mercados da regulação estatal.
Como era previsível, as medidas tomadas a esse respeito vão
aumentar a frequência e a profundidade dos grandes reveses económicos, e agora
estamos diante da ameaça de se desencadear a pior crise desde a Grande
Depressão.
Também era previsível que os poucos sectores que obtiveram
enormes lucros oriundos da liberalização apelassem à intervenção maciça do
Estado, para salvar as instituições financeiras em colapso.
Esse tipo de intervencionismo é um traço característico do
capitalismo de estado, ainda que na escala actual seja inesperado. Um estudo
dos investigadores em economia internacional Winfried Ruigrok e Rob van Tulder
descobriu, há 15 anos, que pelo menos 20 companhias entre as100 primeiras do
ranking da revista Fortune não teriam sobrevivido se não tivessem sido salvas
pelos seus respectivos governos, e que muitas, entre as 80 restantes, obtiveram
ganhos substanciais através dos pedidos aos governos para "socializarem as
suas perdas", como ocorre hoje com o plano de resgate nos EUA, financiado
pelo contribuinte. Tal intervenção pública "foi a regra, mais que a
excepção, nos dois últimos séculos", concluíram.
Numa sociedade democrática efectiva, uma campanha política
teria de abordar esses assuntos fundamentais, observar as causas e os remédios
para estas, e propor os meios através dos quais o povo que sofre as
consequências pudesse chegar a exercer um controlo efectivo.
O mercado financeiro "despreza o risco" e é
"sistematicamente ineficaz", como escreveram há uma década os
economistas John Eatwell e Lance Taylor, alertando para os gravíssimos perigos
que a liberalização financeira engendrava, e mostrando os custos em que se já
se tinha incorrido.
Além disso, propuseram soluções que, deve-se dizer, foram
ignoradas. Um factor de peso é a incapacidade de calcular os custos que recaem
sobre aqueles que não participam dessas transacções. Essas externalidades podem
ser enormes. A ignorância do risco sistémico leva a que se corram mais riscos,
o que não aconteceria numa economia eficiente, mesmo usando medidas mais
exigentes.
A tarefa das instituições financeiras é arriscar-se e, se
forem bem geridas, assegurar que as suas potenciais perdas sejam cobertas. A
ênfase está no "suas". Segundo as regras do capitalismo de estado,
não lhes cabe levar em conta os custos dos outros - as
"externalidades" de uma sobrevivência decente - se as suas práticas
levarem a crises financeiras, como regularmente acontece.
A liberalização financeira teve efeitos muito além da
economia. Há muito que se compreendeu que é uma arma poderosa contra a
democracia. O movimento livre dos capitais cria o que alguns chamaram de
"parlamento virtual" de investidores e credores que controlam de
perto os programas governamentais e "votam" contra eles, se os
consideram "irracionais", quer dizer, se forem em benefício do povo e
não do poder privado concentrado.
Os investidores e credores podem "votar" com a
fuga de capitais, com ataques às divisas e com outros instrumentos oferecidos
pela liberalização financeira. Essa é uma das razões pelas quais o sistema de
Bretton Woods, estabelecido pelos EUA e pela Grã-Bretanha depois da II Guerra
Mundial, instituiu o controlo de capitais e regulou as moedas 1.
A Grande Depressão e a Guerra despertaram poderosas
correntes democráticas radicais que iam da resistência antifascista às
organizações da classe trabalhadora. Essas pressões tornaram necessário que se
tolerassem políticas sociais democráticas. O sistema Bretton Woods foi, em
parte, concebido para criar um espaço no qual a acção governamental pudesse
responder à vontade pública, permitindo alguma democracia.
John Maynard Keynes, o negociador britânico, considerou que
a instituição do direito dos governos a restringir os movimentos de capitais
era a mais importante conquista estabelecida em Bretton Woods.
Num contraste espectacular, na fase neoliberal que se seguiu
ao colapso do sistema de Bretton Woods nos anos 70, o Tesouro norte-americano
passou a considerar a livre circulação de capitais um "direito
fundamental", diferente de alegados "direitos", como os
garantidos pela Declaração Universal dos Direitos Humanos: direito à saúde, à
educação, ao emprego decente, à segurança, e outros direitos de que as
administrações de Reagan e de Bush desdenharam como sendo "cartas ao Pai
Natal", "absurdos", meros "mitos".
Nos primeiros anos, as pessoas não tiveram maiores
problemas. Barry Eichengreen estudou as razões para que isso tivesse
acontecido, na sua história académica do sistema monetário. Ele explica que, no
século XIX, os governos ainda não estavam "politizados pelo sufrágio
universal masculino, pelo ascenso do sindicalismo e dos partidos trabalhistas
parlamentares." Por conseguinte, os graves custos impostos pelo parlamento
virtual podiam ser transferidos para a população em geral.
Mas, com a radicalização da população durante a Grande
Depressão e a guerra antifascista, o poder e a riqueza privados foram forçados
a privar-se desse luxo. Assim, no sistema de Bretton Woods "os limites da
democracia como fonte de resistência às pressões do mercado foram substituídos
por limites à mobilidade do capital."
O corolário óbvio é que, após o desmantelamento do sistema
do pós-guerra, a democracia foi restringida. Foi assim necessário controlar e
marginalizar de algum modo a população e a opinião pública, processos
particularmente evidentes nas sociedades mais avançadas no mundo dos negócios,
como os EUA. A gestão das extravagâncias eleitorais por parte da indústria de
relações públicas é disso uma boa ilustração.
"A política é a sombra dos grandes negócios sobre a
sociedade", concluiu o maior filósofo norte-americano do século XX, John
Dewey, e assim continuará a ser, enquanto o poder consistir "nos negócios
para benefício privado através do controlo privado da banca, das terras e da
indústria, reforçados pelo controlo da imprensa, dos jornalistas e de outros
meios de publicidade e propaganda."
Os EUA têm efectivamente um sistema de um só partido, o
partido dos negócios, com duas facções, republicanos e democratas. Há
diferenças entre eles. No seu estudo "A Democracia Desigual: a Economia
Política da Nova Era de Ouro", Larry Bartels mostra que durante as últimas
seis décadas "os rendimentos reais das famílias de classe média cresceram
duas vezes mais rápido sob administrações democratas que republicanas, enquanto
os rendimentos reais das famílias pobres da classe trabalhadora cresceram seis
vezes mais rápido sob os democratas que sob os republicanos".
Essas diferenças também podem ser detectadas nestas
eleições. Os eleitores deveriam tê-las em conta, mas sem ter ilusões sobre os
partidos políticos, e reconhecendo que, nos últimos séculos, a legislação
progressista e de bem-estar social sempre foi conquista das lutas populares,
nunca oferta dos de cima.
Estas lutas seguem ciclos de êxitos e de retrocessos. Hão de
ser travadas a cada dia, não só a cada quatro anos, e sempre com o objectivo de
criar uma sociedade genuinamente democrática, da cabine de voto ao posto de trabalho.
Noam Chomsky, professor de linguística no MIT -
Massachussets Institute of Technology
Tradução de Luis Leiria
1 O sistema de Bretton Woods de gestão financeira global foi
criado por 730 delegados de 44 nações aliadas na II Guerra Mundial, que
compareceram a uma Conferência Monetária e Financeira organizada pela ONU no
hotel Mont Washington, em Bretton Woods, New Hampshire, em 1944. Bretton Woods,
que entrou em colapso em 1971, era o sistema de normas, instituições e
procedimentos que regulavam o sistema monetário internacional e sob cujos
auspícios se criou o Banco Internacional para a Reconstrução e Desenvolvimento
(BIRD) - hoje uma das cinco instituições que compõem o Grupo do Banco Mundial-
e o Fundo Monetário Internacional (FMI), que passaram a funcionar em 1945. O
traço principal de Bretton Woods era a obrigação de todos os países de adoptar
uma política monetária que mantivesse dentro de valores fixos a taxa de câmbio
da sua moeda. O sistema entrou em colapso quando os EUA suspenderam a
convertibilidade do padrão ouro do dólar. Isso criou a insólita situação em que
o dólar chegou a converter-se em "moeda de reserva" para os outros
países que estavam em Bretton Woods.
Dossier:
Dossier 095: Crise Financeira Internacional (2008)
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