terça-feira, 21 de maio de 2013


A piedade supõe uma condição de superioridade e a gente só pode se compadecer de quem sofre mais do que nós"

- Rachel de Queiroz, in "Um alpendre, uma rede, um açude: 100 crônicas escolhidas", Editora Siciliano, 1994.

O Grande Medo de 1789, de Georges Lefebvre.


Por toda a França, corre o rumor de que os aristocratas vão atacar os pobres. Os pobres atacam preventivamente e queimam os registros de servidão. O tiro sai pela culatra. Mas tinha havido tiro?

Renato Janine Ribeiro

Bertrand Russell escreveu certa vez que a tarefa de uma educação liberal é '' criar um sentido de valor diferente do de dominação, ajudar a criar os cidadãos sábios de uma comunidade livre e, através da combinação de cidadania com liberdade no âmbito da criatividade individual, capacitar as pessoas para dar à vida humana o esplendor que alguns poucos têm se mostrado capazes de atingir''.

-Noam Chomsky, em introdução ao livro ''Problemas do conhecimento e da liberdade''

Magma


Reportagem

O trem estacou, na manhã fria,
num lugar deserto, sem casa de estação:
a parada do Leprosário...

Um homem saltou, sem despedidas,
deixou o baú à beira da linha,
e foi andando. Ninguém lhe acenou...

Todos os passageiros olharam ao redor,
com medo de que o homem que saltara
tivesse viajado ao lado deles...

Gravado no dorso do bauzinho humilde,
não havia nome ou etiqueta de hotel:
só uma estampa de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro...

O trem se pôs logo em marcha apressada,
e no apito rouco da locomotiva
gritava o impudor de uma nota de alívio...

Eu quis chamar o homem, para lhe dar um sorriso,
mas ele ia já longe, sem se voltar nunca,
como quem não tem frente, como quem só tem costas...

- João Guimarães Rosa

Velório sem defunto


Nos salões do sonho
Mas vocês não repararam, não?!
Nos salões do sonho nunca há espelhos...
Por quê?
Será porque somos tão nós mesmos
Que dispensamos o vão testemunho dos reflexos?
Ou, então
- e aqui começa um arrepio -
Seremos acaso tão outros?
Tão outros mesmos que não suportaríamos a visão daquilo,
Daquela coisa que nos estivesse olhando fixamente do outro lado,
Se espelhos houvesse!
Ninguém pode saber... Só o diria
Mas nada diz,
Por motivos que só ele conhece,
O misterioso Cenarista dos Sonhos!

- Mario Quintana, in: Velório sem defunto, 1990.

“O cientista virou um mito. E todo mito é perigoso, porque ele induz o comportamento e inibe o pensamento. Este é um dos resultados engraçados (e trágicos) da ciência. Se existe uma classe especializada em pensar de maneira correta (os cientistas), os outros indivíduos são liberados da obrigação de pensar e podem simplesmente fazer o que os cientistas mandam. Quando o médico lhe dá uma receita você faz perguntas? Sabe como os medicamentos funcionam? Será que você se pergunta se o médico sabe como os medicamentos funcionam? Ele manda, a gente compra e toma. Não pensamos. Obedecemos. Não precisamos pensar, porque acreditamos que há indivíduos especializados e competentes em pensar. Pagamos para que ele pense por nós. E depois ainda dizem por aí que vivemos em uma civilização científica... O que eu disse dos médicos você pode aplicar a tudo. Os economistas tomam decisões e temos de obedecer. Os engenheiros e urbanistas dizem como devem ser as nossas cidades, e assim acontece. Dizem que o álcool será a solução para que nossos automóveis continuem a trafegar, e a agricultura se altera para que a palavra dos técnicos se cumpra. Afinal de contas, para que serve a nossa cabeça? Ainda podemos pensar? Adianta pensar?”

ALVES, Rubem. Filosofia da ciência: introdução ao jogo e a suas regras. 6 ª ed. São Paulo: Loyola, 2002