domingo, 10 de março de 2013

A Polonia e os Ucranianos



Quanto aos rutenos, a nação Rutênia, acabou antes da criação do Reino da Polônia e portanto, não foi obra dos polacos a dissolvição do Principado Kievano (criado por Oleg - o Viking, que submeteu os rutenos que viviam naquelas estepes na Europa Central). Os rutenos foram dispersados pelas terras do Principado de Moscou e em seguida nos reino da Polônia e Ducado da Lituânia. Por mais de mil anos viveram nestes estados monárquicos. Até que os Bolcheviques soviéticos criassem em 1922 a República Socialista Soviética da Ucrânia (nome atual da Rutênia milenar).

A Polônia e os judeus



Dizer que numa sociedade multiétnica e multireligiosa não tenha havido conflitos seria mentir. Mas o alegado antissemitismo é pouco, ou de mínimo efeito diante de mais de mil anos de convivência, assimilação e adaptação dos vários povos, inclusive daqueles de origem judaica. O jardim dos justos em Tel Aviv comprova o quanto os polacos católicos ajudaram a salvar os polacos judeus, principalmente durante a segunda guerra mundial. Progrons aconteceram na Rússia Tzarista e não na Polônia.

Koenigsberg



Koenigsberg (Kaliningrad) na Prússia Oriental hoje território da Federação Russa, onde nasceu Kant... era terra polaca deste tempos imemoriais e que os cavaleiros teutônicos se apoderaram e colonizaram com saxões. E após a segunda guerra mundial ficou em mãos dos russos por obra de Stalin. Ou seja, Kaliningrado, está há mais de 200 anos em mãos estrangeiras...mas numa história de mais de mil anos ela sempre foi polaca.

A Polônia e seus vizinhos.



·  Numa história de mais de mil anos...a Polônia sempre despertou a ira e a inveja de vizinhos próximos e distantes. Quando um Papa desfez as cruzadas na idade média, uma delas, a dos cavaleiros teutônicos, não tendo mais nada a fazer, invadiram, seviciaram e dizimaram a população polaca das terras da Pomerânia. Ficaram ali cometendo todo tipo de atrocidade. Ainda não existia o Reino da Rússia, apenas a Cidade-Estado de Moscou e o principado de Kiev já havia desaparecido. Os Polacos, embora católicos apostólicos romanos, tinham sido invadidos pelos teutônicos católicos. Durante dezenas de anos, passou-se mais de um século até que os polacos, com a ajuda de lituanos, rutenos, ciganos e até tártaros conseguiram se reunir sob a liderança de um rei Polaco e na mais célebre batalha da idade média, a de Grunwald, a Polônia expulsou os saxões de suas terras. A união com a Lituânia conseguida com o casamento do Duque Jagiello da Lituânia e a "Rei" Jadwiga (Santa Edwirges) da Polônia nos anos de 1370....acabou por formar uma República Monárquica em 1453...essa união levou as fronteiras para lugares tão distantes como o Mar Negro, em Odessa. A Polônia nesse período que vai de 1453 a 1795 se fortaleceu junto com a Lituânia....era uma República poderosa, vingativa e expansionista. Ao mesmo tempo era multiracial, multiétnica e multireligiosa. Foi invadida ainda várias vezes, por suecos, tártaros, saxões e foi solicitada pelos seus algozes a ajudar na expulsão dos turcos otomanos da Europa. A república era a dos antigos senhores feudais, agora chamados de Congressistas, de Sármatas, de Magnatas... o rei era eleito e quase sempre era estrangeiro e sem forças contra o liberum veto do Sejm (Congresso da República). A famosa legião polaca de rei Jan Sobieski (o primeiro polaco em séculos a ser eleito rei da Polônia) era terrível, era impiedosa, aterrorizava e era uma máquina de matar. Foi assim que invadiu o principado de Moscou em 1612 e por pouco muito pouco não extermina o povo russo.... Estes conseguiram se reerguer e criar a partir de Moscou o Reino da Rússia. Passou-se pouco mais de um século e os vizinhos totalitários não suportavam a república e a corrupção polacas... e muito menos as diversas derrotas em guerras para a impiedosa Polônia....com a união do Império Austríaco, Reinos da Prússia e da Rússia e os traidores polacos da Confederação Targowica que apoiados por Catarina II da Rússia, que se opuseram à Constituição polaca de 3 de maio de 1791 (a primeira carta magna da Europa), que havia sido adotada pelo Sejm , especialmente para impor limites aos privilégios dos magnatas. As forças da Confederação Targowica derrotaram as forças leais à República, o Sejm e o Rei Stanisław August Poniatowski na Guerra em defesa da Constituição. Sua vitória precipitou a segunda divisão da Polônia e preparou o campo para a terceira e a dissolução final da República. Todo o mal que a Polônia tinha cometido nos últimos três séculos foram sendo cobrados dia a dia pelos proximos 150 anos... até 1945.

sábado, 9 de março de 2013

A MULHER (I)

JOÃO CABRAL DE MELO NETO - A MULHER (I)

ESTUDOS PARA UMA BAILADORA ANDALUZA

1

Dir-se-ia, quando aparece
dançando por siguiriyas,
que com a imagem do fogo
inteira se identifica.

Todos os gestos do fogo
que então possui dir-se-ia:
gestos das folhas do fogo,
de seu cabelo, sua língua;

gestos do corpo do fogo,
de sua carne em agonia,
carne de fogo, só nervos,
carne toda em carne viva.

Então, o caráter do fogo
nela também se adivinha:
mesmo gosto dos extremos,
de natureza faminta,

gosto de chegar ao fim
do que dele se aproxima,
gosto de chegar-se ao fim,
de atingir a própria cinza.

Porém a imagem do fogo
é num ponto desmentida:
que o fogo não é capaz
como ela é, nas siguiriyas,

de arrancar-se de si mesmo
numa primeira faísca,
nessa que, quando ela quer,
vem e acende-a fibra a fibra,

que somente ela é capaz
de acender-se estando fria,
de incendiar-se com nada,
de incendiar-se sozinha.


2

Subida ao dorso da dança
(vai carregada ou a carrega?)
é impossível se dizer
se é a cavaleira ou a égua.

Ela tem na sua dança
toda a energia retesa
e todo o nervo de quando
algum cavalo se encrespa.

Isto é: tanto a tensão
de quem vai montado em sela,
de quem monta um animal
e só a custo o debela,

como a tensão do animal
dominado sob a rédea,
que ressente ser mandado
e obedecendo protesta.

Então, como declarar
se ela é égua ou cavaleira:
há uma tal conformidade
entre o que é animal e é ela,

entre a parte que domina
e a parte que se rebela,
entre o que nela cavalga
e o que é cavalgado nela,

que o melhor será dizer
de ambas, cavaleira e égua,
que são de uma mesma coisa
e que um só nervo as inerva,

e que é impossível traçar
nenhuma linha fronteira
entre ela e a montaria:
ela é a égua e a cavaleira.


3

Quando está taconeando
a cabeça, atenta, inclina,
como se buscasse ouvir
alguma voz indistinta.

Há nessa atenção curvada
muito de telegrafista,
atento para não perder
a mensagem transmitida.

Mas o que faz duvidar
possa ser telegrafia
aquelas respostas que
suas pernas pronunciam

é que a mensagem de quem
lá do outro lado da linha
ela responde tão séria
nos passa despercebida.

Mas depois já não há dúvida:
é mesmo telegrafia:
mesmo que não se perceba
a mensagem recebida,

se vem de um ponto no fundo
do tablado ou de sua vida,
se a linguagem do diálogo
é em código ou ostensiva,

já não cabe duvidar:
deve ser telegrafia:
basta escutar a dicção
tão morse e tão desflorida,

linear, numa só corda,
em ponto e traço, concisa,
a dicção em preto e branco
de sua perna polida.


4

Ela não pisa na terra
como quem a propicia
para que lhe seja leve
quando se enterre, num dia.

Ela a trata com a dura
e muscular energia
do camponês que cavando
sabe que a terra amacia.

Do camponês de quem tem
sotaque andaluz caipira
e o tornozelo robusto
que mais se planta que pisa.

Assim, em vez dessa ave
assexuada e mofina,
coisa a que parece sempre
aspirar a bailarina,

esta se quer uma árvore
firme na terra, nativa,
que não quer negar a terra
nem, como ave, fugi-la.

Árvore que estima a terra
de que se sabe família
e por isso trata a terra
com tanta dureza íntima.

Mais: que ao se saber da terra
não só na terra se afinca
pelos troncos dessas pernas
fortes, terrenas, maciças,

mas se orgulha de ser terra
e dela se reafirma,
batendo-a enquanto dança,
para vencer quem duvida.


5

Sua dança sempre acaba
igual como começa,
tal esses livros de iguais
coberta e contracoberta:

com a mesma posição
como que talhada em pedra:
um momento está estátua,
desafiante, à espera.

Mas, se essas duas estátuas
mesma atitude observam,
aquilo que desafiam
parece coisas diversas.

A primeira das estátuas
que ela é, quando começa,
parece desafiar
alguma presença interna

que no fundo dela própria,
fluindo, informe e sem regra,
por sua vez a desafia
a ver quem é que a modela.

Enquanto a estátua final,
por igual que ela pareça,
que ela é, quando um estilo
já impôs à íntima presa,

parece mais desafio
a quem está na assistência,
como para indagar quem
a mesma façanha tenta.

O livro de sua dança
capas iguais o encerram:
com a figura desafiante
de suas estátuas acesas.


6

Na sua dança se assiste
como ao processo da espiga:
verde, envolvida de palha;
madura, quase despida.

Parece que sua dança
ao ser dançada, à medida
que avança, a vai despojando
da folhagem que a vestia.

Não só da vegetação
de que ela dança vestida
(saias folhudas e crespas
do que no Brasil é chita),

mas também dessa outra flora
a que seus braços dão vida,
densa floresta de gestos
a que dão vida a agonia.

Na verdade, embora tudo
aquilo que ela leva em cima,
embora, de fato, sempre,
continue nela a vesti-la,

parece que vai perdendo
a opacidade que tinha
e, como a palha que seca,
vai aos poucos entreabrindo-a.

Ou então é que essa folhagem
vai ficando impercebida:
porque terminada a dança
embora a roupa persista,

a imagem que a memória
conservará em sua vista
é a espiga, nua e espigada,
rompente e esbelta, em espiga.