quinta-feira, 22 de novembro de 2012


by Mahmoud Darwish


I come from there and I have memories
Born as mortals are, I have a mother
And a house with many windows,
I have brothers, friends,
And a prison cell with a cold window.
Mine is the wave, snatched by sea-gulls,
I have my own view,
And an extra blade of grass.
Mine is the moon at the far edge of the words,
And the bounty of birds,
And the immortal olive tree.
I walked this land before the swords
Turned its living body into a laden table.

I come from there. I render the sky unto her mother
When the sky weeps for her mother.
And I weep to make myself known
To a returning cloud.
I learnt all the words worthy of the court of blood
So that I could break the rule.
I learnt all the words and broke them up
To make a single word: Homeland.


domingo, 18 de novembro de 2012

O Zorro nasceu quatro vezes



Em 1615, nasceu pela primeira vez. Se chamava William Lamport, era ruivo, e era irlandës.
E nasceu novamente quando mudou de nome e de pátria, e era Guillén Lombardo, espanhol, capitão da armada espanhola.
E pela terceira vez nasceu transformado em herói da independëncia do México, e no ano de 1659 foi condenado à fogueira, e se enforcou antes de morrer na desonra do fogo.
Ressuscitou no século XX. Chamou-se Diego de la Vega, que punha máscara e virava o Zorro, espadachim justiceiro dos desamparados, que marcava com um Z a sua passagem.
Douglas Fairbanks, Tyrone Power, Alain Delon e Antonio Banderas empunharam sua espada em Hollywood.


 Galeano - 18 de novembro


sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Quem não sabe a verdade, é apenas um imbecil
mas quem a sabe e a chama de mentira
é um criminoso.

B. Brecht.A Vida de Galileu .cena IX

Pelas Ruas

As camas de concreto ainda tem as marcas
dos sonhos mutilados pela força da lei (...)
O risco é tudo que lhes resta nesta vida
e a vida vale o preço da submissão.

Nadegueto.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Análise


Fernando Pessoa

Tão abstrata é a idéia do teu ser
Que me vem de te olhar, que, ao entreter
Os meus olhos nos teus, perco-os de vista,
E nada fica em meu olhar, e dista
Teu corpo do meu ver tão longemente,
E a idéia do teu ser fica tão rente
Ao meu pensar olhar-te, e ao saber-me
Sabendo que tu és, que, só por ter-me
Consciente de ti, nem a mim sinto.
E assim, neste ignorar-me a ver-te, minto
A ilusão da sensação, e sonho,
Não te vendo, nem vendo, nem sabendo
Que te vejo, ou sequer que sou, risonho
Do interior crepúsculo tristonho
Em que sinto que sonho o que me sinto sendo.

''Não podemos esperar nada de bom em vista dos fatos: só os divagadores crêem existir uma saída. O otimismo é covardia. Nascemos nesta época e temos de seguir galhardamente a senda que nos conduz ao fim inevitável. Não resta outro caminho. Nosso dever é mantermo-nos firmes até o nosso último reduto, sem motivo, sem esperança''

Oswald Spengler

(A Decadência do Ocidente)

   

Exemplo


 Wislawa Szymborska

A ventania
despiu todas as folhas das árvores na última noite
exceto uma
deixada
para brincar na solidão de um ramo nu

Com este exemplo
a Violência demonstra
que sim, -
às vezes ela gosta de se divertir.

 tradução Henryk Siewierski

Ontologia sumaríssima


 Paulo Henriques Britto

Umas quatro ou cinco coisas,
no máximo, são reais.
A primeira é só um gás
que provoca a sensação
de que existe no mundo
uma profusão de coisas.

A segunda é comprida,
aguda, dura e sem cor.
Sua única serventia
é instaurar a dor.

A terceira é redondinha,
macia, lisa, translúcida,
e mais frágil do que espuma.
Não serve para coisa alguma.

A quarta é escura e viscosa,
como uma tinta. Ela ocupa
todo e qualquer espaço
onde não se encontre a quinta
(se é que existe mesmo a quinta),
a qual é uma vaga suspeita
de que as quatro acima arroladas
sejam tudo o que resta
de alguma coisa malfeita
torta e mal-ajambrada
que há muito já apodreceu.

Fora essas quatro ou cinco
não há nada,
nem tu, leitor,
nem eu.