quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Guerras caladas



Hoje é o Dia contra a Pobreza.
A pobreza não explode como as bombas, nem ecoa como os tiros.
Dos pobres, sabemos tudo: em que não trabalham, o que não comem, quanto não pesam, quanto não medem, o que não pensam, em quem não votam, em que não crêem.
Só nos falta saber por que os pobres são pobres.
Será por que sua nudez nos veste e sua fome nos da' de comer?

 Galeano - 17 de outubro -

Todo mundo gosta de um brincalhão, mas ninguém empresta dinheiro a ele.

Eu a amo muito, mas as nossas neuroses não combinam.

O ser humano deve moldar suas ferramentas para que elas não o moldem.

Talvez tudo que se possa fazer é esperar para acabar com os arrependimentos.

A maçã não pode ser presa de volta à Árvore do Conhecimento, uma vez que começamos, estamos condenados e desafiados a buscar a força para ver mais, não menos.

Sem alienação, não pode haver política.

Você não pode pegar o espírito de uma criança correndo atrás dela, você deve ficar parado para o amor dela em breve se voltar a você.

Você se especializa em alguma coisa até que um dia você acha que é especializado em você.

"Penso que eu se fosse uma magnólia, iria querer ser um laranjeira; se fosse um águia, iria querer ser um cavalo; se fosse um quadro, iria querer ser uma fotografia. Esqueço-me que devo ser o que sou. Pela evidência de ser o único que posso ser, só quando gostar disso é que posso sentir e passar felicidade. Fico pensando que perdemos tempo demais em querer dar laranjas, em galopar velozmente ou em ser o clarão de um instante supremo. Cada qual deve acabar por pegar a própria vida nos braços e beijá-la".

17/10/1915 – Arthur Miller, dramaturgo estadunidense.

domingo, 14 de outubro de 2012

Serenata




Íbamos a vivir toda la vida juntos.
Íbamos a morir toda la muerte juntos.
Adiós.

No sé si sabes lo que quiere decir adiós.
Adiós quiere decir ya no mirarse nunca,
vivir entre otras gentes,
reírse de otras cosas,
morirse de otras penas.
Adiós es separarse ¿entiendes?, separarse,
olvidando, como traje inútil, la juventud.

¡Íbamos a hacer tantas cosas juntos!
Ahora tenemos otras citas.
Estrellas diferentes nos alumbran en noches diferentes.
La lluvia que te moja me deja seco a mí.
Está bien: adiós.
Contra el viento el poeta nada puede.

A la hora en que parten los adioses,
el poeta sólo puede pedirle a las golondrinas
que vuelen sin cesar sobre tu sueño.

 Manuel Scorza. Perú

Uma derrota da Civilização



No ano de 2002 fecharam as portas os oito restaurantes McDonald's na Bolívia.
Apenas cinco anos durou essa missão civilizadora.
Ninguém a proibiu. Aconteceu simplesmente que os bolivianos lhe deram as costas, ou melhor, se negaram de dar-lhes a boca. Os ingratos se negaram a reconhecer o gesto da empresa mais exitosa do planeta, que desinteressadamente honrava o país com sua presença.
O amor ao atraso impediu que a Bolívia se atualizasse com a comida de plástico e os vertiginosos ritmos a vida moderna.
As empanadas caseiras derrotaram o progresso. Os bolivianos continuam comendo sem pressa, em lentas cerimônias, teimosamente apegados aos antigos sabores nascidos no fogão domiciliar.
Foi-se embora, para nunca mais, a empresa que no mundo inteiro se dedica dar felicidade para as crianças, a mandar embora os trabalhadores que se sindicalizam e a multiplicar os gordos.


 Galeano - 14 de outubro

"Amor é água que corre"



Amor é água que corre
Tudo passa, tudo morre
Que me importa a mim morrer
Adeus cabeçita louca
Hei-de esquecer tua boca
Na boca d´outra mulher

Amor é sonho, é encanto
Queixa, mágoa, riso ou pranto
Que duns lindos olhos jorre
Mas tem curta duração
Nas fontes da ilusão
Amor é água que corre

Amor é triste lamento
Que levado p´lo vento
Ao longe se vai perder
E assim se foi tua jura
Se já não tenho ventura
Que me importa a mim morrer

Foi efémero o desejo
Do teu coração que vejo
No bulício se treslouca
Onde nascer a indiferença
Há-de morrer minha crença
Adeus cabeçita louca

Tudo é vário neste mundo
Mesmo o amor mais profundo
De dia a dia se apouca
Segue a estrada degradante
Que na boca d´outra amante
Hei-de esquecer tua boca

Hei-de esquecer teu amor
O teu corpo encantador
Que minha alma já não quer
Hei-de apagar a paixão
Que me queima o coração
Na boca d´outra mulher

fado  de Alfredo Marceneiro

NÃO SE MATE





Carlos, sossegue, o amor
é isso que você está vendo:
hoje beija, amanhã não beija,
depois de amanhã é domingo
e segunda-feira ninguém sabe
o que será.

Inútil você resistir
ou mesmo suicidar-se.
Não se mate, oh não se mate,
reserve-se todo para as bodas
que ninguém sabe quando virão,
se é que virão.

O amor, Carlos, você telúrico,
a noite passou em você,
e os recalques se sublimando,
lá dentro um barulho inefável,
rezas,
vitrolas,
santos que se persignam,
anúncios do melhor sabão,
barulho que ninguém sabe
de quê,
pra quê.

Entretanto você caminha
melancólico e vertical.
Você é a palmeira, você é o grito
que ninguém ouviu no teatro
e as luzes todas se apagam.
O amor no escuro, não, no claro,
é sempre triste, meu filho, Carlos,
mas não diga nada a ninguém, ninguém sabe nem saberá.

 Carlos Drummond de Andrade