Obra máxima de Macedonio Fernández antecipa Borges
Seria um absurdo pretender descrever este livro de Macedonio Fernández (1874 – 1952), escritor/pensador argentino tido como o mestre “oculto” da literatura de seu país, com as usuais categorias da análise formal. Se, de qualquer jeito, assumíssemos essa empreitada, deveríamos dizer que o livro está composto de 20 capítulos precedidos de quase 60 textos introdutórios muitos deles com a precisa rubrica de “prólogo”. Assim sendo, quase dois terços do livro constituem o limiar dele. Personagem central: A Eterna, a quem o romance está dedicado. Ainda temos personagens de “fim de capítulo”, personagens “da Ausência” e até candidatos a personagens entre outros “protagonistas” não menos surpreendentes. O enredo(?): as reflexões metafísicas que levantam as ações de personagens que, se sabendo personagens, moram em “O romance”. Caso ainda não hajamos compreendido o teor do texto, atentemos para o incipit: “Com um Final de Morte Acadêmica: apresentação na arte, e na vida, de um uso sábio da Ausência, equivalência voluntária de adoçada morte”.
O que será este Museu? Museu das especulações metafísicas? Museu das experimentações narrativas? Ou o paradoxal Museu do romance, gênero da modernidade?
Estará enganado o leitor se pensa que este livro é produto de uma conscienciosa vanguarda. Antes do que isso é o resultado, segundo sustenta Julio Prieto (um dos leitores contemporâneos de Macedonio), do caráter mais bem excêntrico das vanguardas rio-platenses. De geração muito anterior àquela de Jorge Luis Borges (quem tinha 22 anos quando volta da Europa e reencontra quem fora o velho amigo de seu pai), Macedonio propõe um romance que é menos uma obra pronta que uma grande reflexão, como tantos contos do grande autor argentino, sobre as possibilidades da ficção. “O uso sábio da Ausência” parece ser, entre outros matizes desse conceito nuclear do texto, ausência ou invisibilidade do autor que, no “Prólogo final” intitulado “Ao que queira escrever este romance” oferece a sua “obra” ao público: “Deixo assim dados a teoria perfeita do romance, uma imperfeita peça de execução dele e um perfeito plano de execução”. Essa condição aberta do texto é ressaltada pela compacta mas bela edição da Cosac Naify que, ao engastar os diversos prólogos em curiosas molduras numeradas, colabora mais para um efeito de compilação do que para a organicidade tradicional da ideia de livro. Fica feito assim o convite para aquele “leitor salteado” procurado por Macedonio; um leitor salteado que, na sempre desembocada lógica macedoniana, advém o “leitor seguido” ao se deparar com um texto disperso: “Ao leitor salteado me acolho. Eis que leste todo o meu romance sem saber, te tornaste leitor seguido e descabido ao te contar tudo dispersamente e antes do romance. Comigo, o leitor salteado é o que tem mais chances de ler seguido”.
Na breve mas precisa introdução desta edição brasileira do Museu, Damián Tabarovsky nos lembra que Borges procurou deslocar o talento de seu precursor para a oralidade: “Creio que Macedonio, apesar de seus livros admiráveis, não está na escrita. Acredito que Macedonio estava em seu diálogo”. Contudo, ainda que reconhecendo certa intencional estratégia de ocultação do “mestre”, Jorge Luis Borges não deixa de dizer uma verdade: a figura de autor que Macedonio constrói é aquela de alguém despreocupado pela escrita e indiferente às exigências do mercado editorial. O Museu, escrito ao longo da vida de Macedonio, rotineiramente anunciado e até artesanalmente publicitado com papeizinhos que Macedonio dissimulava esquecer em mesas de café, ganhou uma edição definitiva em 1967, 15 anos depois da morte de seu autor e sob os cuidados de seu filho Adolfo de Obieta.
Significou essa reticência algum tipo de apagamento do projeto de Macedonio? Em absoluto. Pelo contrário, Macedonio, na sua rejeição da literatura como mera mimese de um pretenso mundo “real” entretece a literatura de Borges e antecipa – em seu projeto de romance “desencadernado” – O Jogo da Amarelinha, de Julio Cortázar. Sua pretensão de apagamento autoral chega, aliás, até o fascínio de Ricardo Piglia pelo anonimato, que suporia – tal como acontece em A Cidade Ausente – a escrita viabilizada por uma máquina e permeia, de forma geral, a literatura argentina no que ela tem de gosto por evidenciar que a literatura é feita, basicamente, de literatura.
Se a metafísica está para a filosofia como a poesia para a literatura, a escrita metafísica/poética de Macedonio supõe um enorme desafio para o tradutor. Nesse sentido, Gênese Andrade, a tradutora desta edição do Museu, tem sabido escrutar a sempre enganosa literalidade entre o português e o espanhol com uma tradução em permanente tensão com a singularidade do léxico e escrita macedoniana. Um dado: ler Macedonio em português evoca, por momentos, a escrita de Brás Cubas, seja pelos títulos dos prólogos (”Óbito do autor”, “O autor hesita”), seja por alguns sintomáticos gestos comuns (como, por exemplo, deixar páginas em branco para que sejam preenchidas pelo leitor).
Pablo Gasparini
Fonte : O Estado de São Paulo
PABLO GASPARINI É PROFESSOR DOUTOR DE LITERATURA HISPANO-AMERICANA DA USP E AUTOR DE EL EXILIO PROCAZ: GOMBROWICZ POR LA ARGENTINA (BEATRIZ VITERBO)
terça-feira, 8 de março de 2011
sábado, 5 de março de 2011
"Acreditava-se muito forte em diplomacia, a ciência daqueles que não possuem nenhuma outra, e que, por seu próprio vazio, mais profundos parecem; ciência, aliás, bastante cômoda(...) porque precisando de homens discretos ,ela permite aos ignorantes nada dizerem, fecharem-se em acenos de cabeça misteriosos; porque, enfim, o homem mais forte nesta ciência é aquele que nada, conservando a cabeça acima da onda dos acontecimentos que simula conduzir(...).Aí, como nas artes, se encontram mil mediocridades para um homem de gênio. "
M. de Châtelet .Ilusões Perdidas.
Balzac
M. de Châtelet .Ilusões Perdidas.
Balzac
Sonhei comigo
Sonhei comigo
esta noite
Vi-me ao comprido
Deitada
Tinha estrelas
nos cabelos
em meus olhos
madrugadas
Sonhei comigo
esta noite
como queria
ser sonhada
Senti o calor da mão
percorrendo uma guitarra
De longe vinha um gemido
uma voz desabalada
Havia um campo
de trigo
um sol forte
me abrasava.
E acordei
meio sonhando
procurando
me encontrar
Quando me vi
ao espelho
era teu
o meu olhar.
Eugénia Tabosa
esta noite
Vi-me ao comprido
Deitada
Tinha estrelas
nos cabelos
em meus olhos
madrugadas
Sonhei comigo
esta noite
como queria
ser sonhada
Senti o calor da mão
percorrendo uma guitarra
De longe vinha um gemido
uma voz desabalada
Havia um campo
de trigo
um sol forte
me abrasava.
E acordei
meio sonhando
procurando
me encontrar
Quando me vi
ao espelho
era teu
o meu olhar.
Eugénia Tabosa
Sete luas
Esta noite sete luas,
sete luas cheias,
rolaram juntas nos céus.
Dançaram nuas
sem pudor nem véus.
Vieram as estrelas,
as fadas e os anjos
deram-se as mãos
e fizeram roda
à roda da lua
sete vezes branca.
Vem, meu amor,
escuta seu canto.
Eugénia Tabosa
sete luas cheias,
rolaram juntas nos céus.
Dançaram nuas
sem pudor nem véus.
Vieram as estrelas,
as fadas e os anjos
deram-se as mãos
e fizeram roda
à roda da lua
sete vezes branca.
Vem, meu amor,
escuta seu canto.
Eugénia Tabosa
domingo, 27 de fevereiro de 2011
Rascunho do tempo
Rascunho essa memória
Contando estórias de meu pai.
Mergulho no mundo: abissal paisagem.
Viagem pelo barro: mistura fria.
Calor de tua mão.
Fogo do forno
Volto ao passado cuneiforme.
Extraio de mim a parte possível:
Sou a cerâmica esquecida
Durante as mudanças da vida.
Onde me debruço?
No patamar dessa escada
Ou no tempo a ser inscrito pelo meu corpo?
Nesse tempo — alguidar
Cheio da água jorrando esquecimentos
Preparo meus dias para o meu sempre
Mesmo sabendo o teu nunca
Vera Casa Nova – Escritoras Suicidas
Rascunho essa memória
Contando estórias de meu pai.
Mergulho no mundo: abissal paisagem.
Viagem pelo barro: mistura fria.
Calor de tua mão.
Fogo do forno
Volto ao passado cuneiforme.
Extraio de mim a parte possível:
Sou a cerâmica esquecida
Durante as mudanças da vida.
Onde me debruço?
No patamar dessa escada
Ou no tempo a ser inscrito pelo meu corpo?
Nesse tempo — alguidar
Cheio da água jorrando esquecimentos
Preparo meus dias para o meu sempre
Mesmo sabendo o teu nunca.
Vera Casa Nova
Fonte : Escritoras Suicidas
Contando estórias de meu pai.
Mergulho no mundo: abissal paisagem.
Viagem pelo barro: mistura fria.
Calor de tua mão.
Fogo do forno
Volto ao passado cuneiforme.
Extraio de mim a parte possível:
Sou a cerâmica esquecida
Durante as mudanças da vida.
Onde me debruço?
No patamar dessa escada
Ou no tempo a ser inscrito pelo meu corpo?
Nesse tempo — alguidar
Cheio da água jorrando esquecimentos
Preparo meus dias para o meu sempre
Mesmo sabendo o teu nunca
Vera Casa Nova – Escritoras Suicidas
Rascunho essa memória
Contando estórias de meu pai.
Mergulho no mundo: abissal paisagem.
Viagem pelo barro: mistura fria.
Calor de tua mão.
Fogo do forno
Volto ao passado cuneiforme.
Extraio de mim a parte possível:
Sou a cerâmica esquecida
Durante as mudanças da vida.
Onde me debruço?
No patamar dessa escada
Ou no tempo a ser inscrito pelo meu corpo?
Nesse tempo — alguidar
Cheio da água jorrando esquecimentos
Preparo meus dias para o meu sempre
Mesmo sabendo o teu nunca.
Vera Casa Nova
Fonte : Escritoras Suicidas
Moacyr Scliar
Médico, Scliar publicou primeiro livro em 1971
O escritor gaúcho Moacyr Scliar, que morreu hoje, aos 73 anos, publicou mais de 80 livros de diversos gêneros literários. Em 2003, entrou para a Academia Brasileira de Letras.
Scliar ganhou diversos prêmios Jabuti. Em 2009, o romance “Manual da Paixão Solitária” foi eleito livro do ano. Ele também emplacou dois na categoria romance, “Sonhos Tropicais” (1993) e “A Mulher que Escreveu a Bíblia” (2000), e um na categoria contos, “O Olho Enigmático” (1988). Em 1980, ele venceu o prêmio de literatura da APCA por “O Centauro no Jardim”.
Seus livros frequentemente abordam a imigração judaica no Brasil, mas também tratam de temas como o socialismo, a medicina e a vida da classe média. A obra de Scliar já foi traduzida para doze idiomas.
Dois deles ganharam adaptação para o cinema.
O primeiro foi o romance “Um Sonho no Caroço do Abacate”, sob o título “Caminho dos Sonhos”. Dirigido por Luca Amberg, o filme tinha a participação dos atores americanos Elliott Gould (Friends) e Talia Shire, além de Taís Araújo, Caio Blat, Mariana Ximenes, Fábio Azevedo e Edward Boggiss.
Em 2002, o romance “Sonhos Tropicais” foi adaptado sob a direção de André Sturm, com Carolina Kasting, Bruno Giordano, Flávio Galvão, Ingra Liberato e Cecil Thiré no elenco.
Scliar também escreveu crônicas e resenhas de livros. Era colunista da Folha.
Veja abaixo os principais livros de Scliar.
“A Guerra no Bom Fim” (1971)
“O Exército de um Homem Só” (1973)
“O Centauro no Jardim” (1980)
“Max e os Felinos” (1981)
“A Majestade do Xingu” (1997)
“A Mulher que Escreveu a Bíblia” (1999)
“Os Leopardos de Kafka” ( 2000)
“Sonhos Tropicais” (1992)
“Os Vendilhões do Templo” (2006)
“Manual da Paixão Solitária” ( 2008)
“Eu Vos Abraço Milhões” (2010)
VIDA
Nascido Moacyr Jaime Scliar em 23 de março de 1937 em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, ele foi alfabetizado por sua mãe, que era professora primária.
Scliar cursou medicina na Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, onde se formou em 1962. No mesmo ano, publicou seu primeiro livro, “Histórias de Médico em Formação”, coletânea de contos baseados em sua experiência como estudante. O escritor fez residência Santa Casa de Porto Alegre, se especializando médico sanitarista.
Em 1965, Scliar se casou com Judith Vivien Oliven. Três anos depois, publicou o livro de contos “O Carnaval dos Animais”, o qual considera de fato sua primeira obra. Em 1969, assumiu o cargo de chefe da equipe de educação em saúde da Secretaria da Saúde do Rio Grande do Sul.
No ano seguinte, iniciou um curso de pós-graduação em medicina comunitária no Instituto de Seguro Médico de Israel. Em 1971, o escritor lançou seu primeiro romance, “A Guerra no Bom Fim”.
O filho de Scliar, Roberto, nasceu em 1979
Fonte: Blog Leituras Favre
O escritor gaúcho Moacyr Scliar, que morreu hoje, aos 73 anos, publicou mais de 80 livros de diversos gêneros literários. Em 2003, entrou para a Academia Brasileira de Letras.
Scliar ganhou diversos prêmios Jabuti. Em 2009, o romance “Manual da Paixão Solitária” foi eleito livro do ano. Ele também emplacou dois na categoria romance, “Sonhos Tropicais” (1993) e “A Mulher que Escreveu a Bíblia” (2000), e um na categoria contos, “O Olho Enigmático” (1988). Em 1980, ele venceu o prêmio de literatura da APCA por “O Centauro no Jardim”.
Seus livros frequentemente abordam a imigração judaica no Brasil, mas também tratam de temas como o socialismo, a medicina e a vida da classe média. A obra de Scliar já foi traduzida para doze idiomas.
Dois deles ganharam adaptação para o cinema.
O primeiro foi o romance “Um Sonho no Caroço do Abacate”, sob o título “Caminho dos Sonhos”. Dirigido por Luca Amberg, o filme tinha a participação dos atores americanos Elliott Gould (Friends) e Talia Shire, além de Taís Araújo, Caio Blat, Mariana Ximenes, Fábio Azevedo e Edward Boggiss.
Em 2002, o romance “Sonhos Tropicais” foi adaptado sob a direção de André Sturm, com Carolina Kasting, Bruno Giordano, Flávio Galvão, Ingra Liberato e Cecil Thiré no elenco.
Scliar também escreveu crônicas e resenhas de livros. Era colunista da Folha.
Veja abaixo os principais livros de Scliar.
“A Guerra no Bom Fim” (1971)
“O Exército de um Homem Só” (1973)
“O Centauro no Jardim” (1980)
“Max e os Felinos” (1981)
“A Majestade do Xingu” (1997)
“A Mulher que Escreveu a Bíblia” (1999)
“Os Leopardos de Kafka” ( 2000)
“Sonhos Tropicais” (1992)
“Os Vendilhões do Templo” (2006)
“Manual da Paixão Solitária” ( 2008)
“Eu Vos Abraço Milhões” (2010)
VIDA
Nascido Moacyr Jaime Scliar em 23 de março de 1937 em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, ele foi alfabetizado por sua mãe, que era professora primária.
Scliar cursou medicina na Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, onde se formou em 1962. No mesmo ano, publicou seu primeiro livro, “Histórias de Médico em Formação”, coletânea de contos baseados em sua experiência como estudante. O escritor fez residência Santa Casa de Porto Alegre, se especializando médico sanitarista.
Em 1965, Scliar se casou com Judith Vivien Oliven. Três anos depois, publicou o livro de contos “O Carnaval dos Animais”, o qual considera de fato sua primeira obra. Em 1969, assumiu o cargo de chefe da equipe de educação em saúde da Secretaria da Saúde do Rio Grande do Sul.
No ano seguinte, iniciou um curso de pós-graduação em medicina comunitária no Instituto de Seguro Médico de Israel. Em 1971, o escritor lançou seu primeiro romance, “A Guerra no Bom Fim”.
O filho de Scliar, Roberto, nasceu em 1979
Fonte: Blog Leituras Favre
Madeleine, sinapses e neurônios
Já o tínhamos em quadrinhos, aqui editados pela Zahar, e na prateleira de autoajuda (Como Proust Pode Mudar Sua Vida, de Alain de Botton, traduzido pela Rocco); agora o temos até entre os livros de ciência: Proust Foi um Neurocientista, que a Best Seller acaba de lançar, com um subtítulo (Como a Arte Antecipa a Ciência) inexistente no original.
Na capa poderia estar o pintor Paul Cézanne ou o compositor Igor Stravinsky ou o poeta Walt Whitman ou as escritoras Virginia Woolf, Gertrude Stein e George Eliot, pois todos estes, mais o cozinheiro Auguste Escoffier, inventor do caldo de vitela, também anteciparam descobertas da neurociência, sacaram verdades (reais e tangíveis) sobre a mente humana que só agora a ciência está “redescobrindo”, segundo Jonah Lehrer, autor do livro. Acontece que Proust, o neurocientista destacado na capa, não só tem mais nome que os demais como inventou a mítica madeleine que o ligou para sempre aos estudos sobre a biologia da memória.
Lehrer não escreve para iniciados, mas nem seu mais invejoso desafeto acadêmico ousaria enquadrá-lo entre os proxenetas da divulgação científica. Doutorado em neurociência e literatura inglesa, por Columbia e Harvard, editor e colaborador de publicações de qualidade comprovada, já teve aqui traduzida outra obra provocativa, O Momento Decisivo, em que defendia o primado da intuição sobre a razão na tomada de determinadas decisões, e foi meio por acaso que chegou à tese de que alguns expoentes do modernismo foram mais adiante que a ciência do seu tempo na exploração do cérebro humano.
Para ocupar os tempos mortos de uma pesquisa de laboratório sobre os mecanismos do cérebro, que desenvolvia com a equipe do Nobel de Medicina Eric Kandel, Lehrer mergulhou na leitura de Em Busca do Tempo Perdido. Logo no primeiro volume deparou com uma resposta “intuitiva” às suas investigações sobre como a mente recorda e um conjunto de células pode estocar e gerenciar nosso passado. Proust previra suas experiências com um século de antecedência, ajudado tão somente por uma madeleine e uma colher de chá.
“Um segredo molecular se escondia em nossas densas fibras neuronais, esperando silenciosamente por um bolinho”, reconhece Lehrer, que não se esqueceu de aludir ao pioneiro trabalho da psicóloga Rachel Herz sobre a rentura da hipótese levantada por Proust, segundo a qual o paladar e o olfato serviam melhor à “convocação do passado” que os demais sentidos. Cientificamente falando, o paladar e o olfato são os únicos sentidos que se ligam diretamente ao hipocampo, o centro de longa memória do cérebro, ao passo que os sentidos da visão, do tato e da audição passam primeiro pelo tálamo, a origem da linguagem e a porta da consciência, e são muito menos eficientes quando se trata de evocar o tempo perdido.
“Nenhum mapa da matéria jamais explicará a materialidade de nossa consciência”, profetiza Lehrer. Os cientistas separam os pensamentos em partes anatômicas, descrevem nosso cérebro em detalhes físicos, reduzindo-o a uma tecelagem de células elétricas e espaços sinápticos, esquecidos de que não é assim que experimentamos o mundo. Ao expressar nossa experiência real, os artistas expõem a incompletude da ciência.
Na busca por novos tipos de expressão, explorando formas diferentes de lidar com mistérios que não conseguiam compreender, um punhado de artistas passou a “olhar para o interior”, criando assim uma arte primorosamente autoconsciente, cujo “assunto” era a nossa psicologia. Proust o fez deitado na cama, refletindo sobre seu passado; Cézanne olhando horas a fio uma maçã; Gertrude Stein brincando com as palavras; Stravinsky investindo nas constantes alterações dos neurônios no córtex auditivo.
Quando da primeira exposição de pintura pós-impressionista, em dezembro de 1910, os quadros de Cézanne foram vistos como aberrações patológicas, como distorções deliberadas da natureza. Acreditava-se então que os nossos sentidos eram reflexos perfeitos do mundo exterior, que o olho humano era uma máquina fotográfica a enviar imagens prontas para o cérebro. Pas de tout. Os pós-impressionistas descobriram que ver, só, não bastava: era preciso refletir; ou seja, as nossas impressões exigem interpretação. E como olhar é criar o que vemos, decidiram reproduzir a natureza em termos de iluminação, “entender a visão como uma soma da luz”. A neurociência demoraria cinco décadas para confirmar esse insight, provando em laboratório que o nosso olhar apenas capta borrões de cor indistinta, e que cabe ao cérebro criar a realidade interpretando as linhas da luz que ainda não foram transformadas em forma, permitindo que um puzzle de cores abstratas resulte numa pintura realista.
Virginia Woolf acreditava que a natureza humana se transformara de forma notável por volta de dezembro de 1910, não exatamente pelo exposto na mostra dos pós-impressionistas. Há quase 10 anos, o psicólogo Steven Pinker desautorizou a escritora; para ele, “a natureza humana não mudou em 1910, nem em qualquer ano depois”. Certo, mas Pinker, argumenta Lehrer, não percebeu a ironia por trás da observação de Woolf. Nem seu principal alvo: os romancistas pré-modernos que haviam se recusado a investigar o funcionamento interno da mente. Woolf queria escrever romances que refletissem a natureza humana e sua mente fragmentada. Conseguiu. Quem leu Mrs. Dalloway há de concordar. Foi esse romance, publicado em 1925, que lhe deu status de neurocientista.
SERGIO AUGUSTO, s.augusto@estadao.com.br
Fonte : O Estado de S.Paulo
Na capa poderia estar o pintor Paul Cézanne ou o compositor Igor Stravinsky ou o poeta Walt Whitman ou as escritoras Virginia Woolf, Gertrude Stein e George Eliot, pois todos estes, mais o cozinheiro Auguste Escoffier, inventor do caldo de vitela, também anteciparam descobertas da neurociência, sacaram verdades (reais e tangíveis) sobre a mente humana que só agora a ciência está “redescobrindo”, segundo Jonah Lehrer, autor do livro. Acontece que Proust, o neurocientista destacado na capa, não só tem mais nome que os demais como inventou a mítica madeleine que o ligou para sempre aos estudos sobre a biologia da memória.
Lehrer não escreve para iniciados, mas nem seu mais invejoso desafeto acadêmico ousaria enquadrá-lo entre os proxenetas da divulgação científica. Doutorado em neurociência e literatura inglesa, por Columbia e Harvard, editor e colaborador de publicações de qualidade comprovada, já teve aqui traduzida outra obra provocativa, O Momento Decisivo, em que defendia o primado da intuição sobre a razão na tomada de determinadas decisões, e foi meio por acaso que chegou à tese de que alguns expoentes do modernismo foram mais adiante que a ciência do seu tempo na exploração do cérebro humano.
Para ocupar os tempos mortos de uma pesquisa de laboratório sobre os mecanismos do cérebro, que desenvolvia com a equipe do Nobel de Medicina Eric Kandel, Lehrer mergulhou na leitura de Em Busca do Tempo Perdido. Logo no primeiro volume deparou com uma resposta “intuitiva” às suas investigações sobre como a mente recorda e um conjunto de células pode estocar e gerenciar nosso passado. Proust previra suas experiências com um século de antecedência, ajudado tão somente por uma madeleine e uma colher de chá.
“Um segredo molecular se escondia em nossas densas fibras neuronais, esperando silenciosamente por um bolinho”, reconhece Lehrer, que não se esqueceu de aludir ao pioneiro trabalho da psicóloga Rachel Herz sobre a rentura da hipótese levantada por Proust, segundo a qual o paladar e o olfato serviam melhor à “convocação do passado” que os demais sentidos. Cientificamente falando, o paladar e o olfato são os únicos sentidos que se ligam diretamente ao hipocampo, o centro de longa memória do cérebro, ao passo que os sentidos da visão, do tato e da audição passam primeiro pelo tálamo, a origem da linguagem e a porta da consciência, e são muito menos eficientes quando se trata de evocar o tempo perdido.
“Nenhum mapa da matéria jamais explicará a materialidade de nossa consciência”, profetiza Lehrer. Os cientistas separam os pensamentos em partes anatômicas, descrevem nosso cérebro em detalhes físicos, reduzindo-o a uma tecelagem de células elétricas e espaços sinápticos, esquecidos de que não é assim que experimentamos o mundo. Ao expressar nossa experiência real, os artistas expõem a incompletude da ciência.
Na busca por novos tipos de expressão, explorando formas diferentes de lidar com mistérios que não conseguiam compreender, um punhado de artistas passou a “olhar para o interior”, criando assim uma arte primorosamente autoconsciente, cujo “assunto” era a nossa psicologia. Proust o fez deitado na cama, refletindo sobre seu passado; Cézanne olhando horas a fio uma maçã; Gertrude Stein brincando com as palavras; Stravinsky investindo nas constantes alterações dos neurônios no córtex auditivo.
Quando da primeira exposição de pintura pós-impressionista, em dezembro de 1910, os quadros de Cézanne foram vistos como aberrações patológicas, como distorções deliberadas da natureza. Acreditava-se então que os nossos sentidos eram reflexos perfeitos do mundo exterior, que o olho humano era uma máquina fotográfica a enviar imagens prontas para o cérebro. Pas de tout. Os pós-impressionistas descobriram que ver, só, não bastava: era preciso refletir; ou seja, as nossas impressões exigem interpretação. E como olhar é criar o que vemos, decidiram reproduzir a natureza em termos de iluminação, “entender a visão como uma soma da luz”. A neurociência demoraria cinco décadas para confirmar esse insight, provando em laboratório que o nosso olhar apenas capta borrões de cor indistinta, e que cabe ao cérebro criar a realidade interpretando as linhas da luz que ainda não foram transformadas em forma, permitindo que um puzzle de cores abstratas resulte numa pintura realista.
Virginia Woolf acreditava que a natureza humana se transformara de forma notável por volta de dezembro de 1910, não exatamente pelo exposto na mostra dos pós-impressionistas. Há quase 10 anos, o psicólogo Steven Pinker desautorizou a escritora; para ele, “a natureza humana não mudou em 1910, nem em qualquer ano depois”. Certo, mas Pinker, argumenta Lehrer, não percebeu a ironia por trás da observação de Woolf. Nem seu principal alvo: os romancistas pré-modernos que haviam se recusado a investigar o funcionamento interno da mente. Woolf queria escrever romances que refletissem a natureza humana e sua mente fragmentada. Conseguiu. Quem leu Mrs. Dalloway há de concordar. Foi esse romance, publicado em 1925, que lhe deu status de neurocientista.
SERGIO AUGUSTO, s.augusto@estadao.com.br
Fonte : O Estado de S.Paulo
sábado, 26 de fevereiro de 2011
"Tão puro brilha o aço em cada torre
Que de nódoa ou ferrugem sempre é isento.
Noite e dia o ladrão as plagas corre
E depois acha ali forte aposento.
Debalde ao que ele preia alguém socorre
Com brados de blasfêmia ou de lamento.
Minha amada, meu próprio coração
Desespero livrar de tal prisão. "
Orlando Furioso, de Ludovico Ariosto,
Tradução de Pedro Garcez Ghirardi.
Ateliê Editorial.
Que de nódoa ou ferrugem sempre é isento.
Noite e dia o ladrão as plagas corre
E depois acha ali forte aposento.
Debalde ao que ele preia alguém socorre
Com brados de blasfêmia ou de lamento.
Minha amada, meu próprio coração
Desespero livrar de tal prisão. "
Orlando Furioso, de Ludovico Ariosto,
Tradução de Pedro Garcez Ghirardi.
Ateliê Editorial.
TERRITÓRIOS DA MÚSICA II
Canta-me um dos Lieder de Schubert,
um dos mais tristes,
Tränenregen, ou Der Lindenbaum,
pleno de florestas desamparadas,
inchado de rios transparentes,
transbordando de amores impossíveis.
Toca ao piano suavemente
e canta-me o mais triste Lied.
Abre espaço para o pobre Franz
junto ao fogo.
E se te acontecer cantares a palavra Herz,
certifica-te que lhe dás expressão, a modulação que requer,
pensa que somos Românticos
circa mil oitocentos e vinte e sete
e que um de nós tem uma doença incurável e impronunciável.
Porque ninguém vai compreender nunca
a nossa coragem, a nossa beleza.
RIKARDO ARREGI
Poesia & Ltda.
http://www.poesiailimitada.blogspot.com
um dos mais tristes,
Tränenregen, ou Der Lindenbaum,
pleno de florestas desamparadas,
inchado de rios transparentes,
transbordando de amores impossíveis.
Toca ao piano suavemente
e canta-me o mais triste Lied.
Abre espaço para o pobre Franz
junto ao fogo.
E se te acontecer cantares a palavra Herz,
certifica-te que lhe dás expressão, a modulação que requer,
pensa que somos Românticos
circa mil oitocentos e vinte e sete
e que um de nós tem uma doença incurável e impronunciável.
Porque ninguém vai compreender nunca
a nossa coragem, a nossa beleza.
RIKARDO ARREGI
Poesia & Ltda.
http://www.poesiailimitada.blogspot.com
segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011
Tempo
Em 6 anos você se olha
E não tem mais
a mesma cara
Em 6 meses você cura
Uma ferida
seja ela qual for
Em 6 dias você acumula
Mais tarefas
do que na semana passada
Em 6 horas
Você pode viver
um grande amor
60 minutos por hora
essa é a velocidade
que a sua vida acaba
6 segundos é o que vai te restar
Pra perdoar
aquilo que você nem lembra mais.
Estrela Leminski – Escritoras Suicidas
E não tem mais
a mesma cara
Em 6 meses você cura
Uma ferida
seja ela qual for
Em 6 dias você acumula
Mais tarefas
do que na semana passada
Em 6 horas
Você pode viver
um grande amor
60 minutos por hora
essa é a velocidade
que a sua vida acaba
6 segundos é o que vai te restar
Pra perdoar
aquilo que você nem lembra mais.
Estrela Leminski – Escritoras Suicidas
Até quando terás, minha alma, esta doçura
Cecília Meireles
Até quando terás, minha alma, esta doçura,
este dom de sofrer, este poder de amar,
a força de estar sempre – insegura – segura
como a flecha que segue a trajetória obscura,
fiel ao seu movimento, exata em seu lugar…?
Melhores Poemas, Global Editora, 1984 – S.Paulo, Brasil
Cecília Meireles
Até quando terás, minha alma, esta doçura,
este dom de sofrer, este poder de amar,
a força de estar sempre – insegura – segura
como a flecha que segue a trajetória obscura,
fiel ao seu movimento, exata em seu lugar…?
Melhores Poemas, Global Editora, 1984 – S.Paulo, Brasil
domingo, 20 de fevereiro de 2011
Eco depois de um mês em 68
Nós cansamos do velho
da intrépida múmia
com mofo aromático
E desespero tétrico.
Mas nunca do clássico
Pois esse não envelhece
Ganha a voz com o vento
E no tempo permanece.
Nós cansamos do que se basta
O que se rende à casta
Temem o que vem e se temem
Nunca se olham nem se desentendem
Nunca se afirmam e nem surpreendem.
Nós inventamos o futuro
E engolimos o modernismo
Nós devoramos a vanguarda
E transcendemos o partidarismo
mas isso,
é só
porque nascemos depois
que nasceu o pluralismo.
Eunice Boreal – Cronópios
da intrépida múmia
com mofo aromático
E desespero tétrico.
Mas nunca do clássico
Pois esse não envelhece
Ganha a voz com o vento
E no tempo permanece.
Nós cansamos do que se basta
O que se rende à casta
Temem o que vem e se temem
Nunca se olham nem se desentendem
Nunca se afirmam e nem surpreendem.
Nós inventamos o futuro
E engolimos o modernismo
Nós devoramos a vanguarda
E transcendemos o partidarismo
mas isso,
é só
porque nascemos depois
que nasceu o pluralismo.
Eunice Boreal – Cronópios
Dois
Dossiê
Eu sou uma mocinha. Mo-ci-nha. Adoro perfumes, cores, bebês e flores.
Mas me interessa igualmente o que me é diferente. O lado obscuro de tudo. Eu sou uma mocinha. Menina. Mas me atrai conhecer o avesso. Entendê-lo.
Por isso coleciono almas. Olho nos olhos, observo o entorno, busco desgasto derreto de cansaço. Vou até o fim.
Eu sou menina. Eu sou menino. Eu sou um espectro. Uma abelha. Uma agulha. Uma fagulha.
Uma história de dois lados.
Daniela Dias – Escritoras Suicidas
Eu sou uma mocinha. Mo-ci-nha. Adoro perfumes, cores, bebês e flores.
Mas me interessa igualmente o que me é diferente. O lado obscuro de tudo. Eu sou uma mocinha. Menina. Mas me atrai conhecer o avesso. Entendê-lo.
Por isso coleciono almas. Olho nos olhos, observo o entorno, busco desgasto derreto de cansaço. Vou até o fim.
Eu sou menina. Eu sou menino. Eu sou um espectro. Uma abelha. Uma agulha. Uma fagulha.
Uma história de dois lados.
Daniela Dias – Escritoras Suicidas
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