domingo, 27 de fevereiro de 2011

Rascunho do tempo

Rascunho essa memória



Contando estórias de meu pai.



Mergulho no mundo: abissal paisagem.



Viagem pelo barro: mistura fria.



Calor de tua mão.



Fogo do forno



Volto ao passado cuneiforme.



Extraio de mim a parte possível:



Sou a cerâmica esquecida



Durante as mudanças da vida.



Onde me debruço?



No patamar dessa escada



Ou no tempo a ser inscrito pelo meu corpo?



Nesse tempo — alguidar



Cheio da água jorrando esquecimentos



Preparo meus dias para o meu sempre



Mesmo sabendo o teu nunca




Vera Casa Nova – Escritoras Suicidas

Rascunho essa memória



Contando estórias de meu pai.



Mergulho no mundo: abissal paisagem.



Viagem pelo barro: mistura fria.



Calor de tua mão.



Fogo do forno



Volto ao passado cuneiforme.



Extraio de mim a parte possível:



Sou a cerâmica esquecida



Durante as mudanças da vida.



Onde me debruço?



No patamar dessa escada



Ou no tempo a ser inscrito pelo meu corpo?



Nesse tempo — alguidar



Cheio da água jorrando esquecimentos



Preparo meus dias para o meu sempre



Mesmo sabendo o teu nunca.


Vera Casa Nova
Fonte : Escritoras Suicidas

Moacyr Scliar

Moacyr Scliar

Médico, Scliar publicou primeiro livro em 1971



O escritor gaúcho Moacyr Scliar, que morreu hoje, aos 73 anos, publicou mais de 80 livros de diversos gêneros literários. Em 2003, entrou para a Academia Brasileira de Letras.



Scliar ganhou diversos prêmios Jabuti. Em 2009, o romance “Manual da Paixão Solitária” foi eleito livro do ano. Ele também emplacou dois na categoria romance, “Sonhos Tropicais” (1993) e “A Mulher que Escreveu a Bíblia” (2000), e um na categoria contos, “O Olho Enigmático” (1988). Em 1980, ele venceu o prêmio de literatura da APCA por “O Centauro no Jardim”.



Seus livros frequentemente abordam a imigração judaica no Brasil, mas também tratam de temas como o socialismo, a medicina e a vida da classe média. A obra de Scliar já foi traduzida para doze idiomas.



Dois deles ganharam adaptação para o cinema.



O primeiro foi o romance “Um Sonho no Caroço do Abacate”, sob o título “Caminho dos Sonhos”. Dirigido por Luca Amberg, o filme tinha a participação dos atores americanos Elliott Gould (Friends) e Talia Shire, além de Taís Araújo, Caio Blat, Mariana Ximenes, Fábio Azevedo e Edward Boggiss.



Em 2002, o romance “Sonhos Tropicais” foi adaptado sob a direção de André Sturm, com Carolina Kasting, Bruno Giordano, Flávio Galvão, Ingra Liberato e Cecil Thiré no elenco.



Scliar também escreveu crônicas e resenhas de livros. Era colunista da Folha.



Veja abaixo os principais livros de Scliar.




“A Guerra no Bom Fim” (1971)

“O Exército de um Homem Só” (1973)

“O Centauro no Jardim” (1980)

“Max e os Felinos” (1981)

“A Majestade do Xingu” (1997)

“A Mulher que Escreveu a Bíblia” (1999)

“Os Leopardos de Kafka” ( 2000)

“Sonhos Tropicais” (1992)

“Os Vendilhões do Templo” (2006)

“Manual da Paixão Solitária” ( 2008)

“Eu Vos Abraço Milhões” (2010)



VIDA



Nascido Moacyr Jaime Scliar em 23 de março de 1937 em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, ele foi alfabetizado por sua mãe, que era professora primária.



Scliar cursou medicina na Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, onde se formou em 1962. No mesmo ano, publicou seu primeiro livro, “Histórias de Médico em Formação”, coletânea de contos baseados em sua experiência como estudante. O escritor fez residência Santa Casa de Porto Alegre, se especializando médico sanitarista.



Em 1965, Scliar se casou com Judith Vivien Oliven. Três anos depois, publicou o livro de contos “O Carnaval dos Animais”, o qual considera de fato sua primeira obra. Em 1969, assumiu o cargo de chefe da equipe de educação em saúde da Secretaria da Saúde do Rio Grande do Sul.



No ano seguinte, iniciou um curso de pós-graduação em medicina comunitária no Instituto de Seguro Médico de Israel. Em 1971, o escritor lançou seu primeiro romance, “A Guerra no Bom Fim”.



O filho de Scliar, Roberto, nasceu em 1979

Fonte: Blog Leituras Favre

Madeleine, sinapses e neurônios

Já o tínhamos em quadrinhos, aqui editados pela Zahar, e na prateleira de autoajuda (Como Proust Pode Mudar Sua Vida, de Alain de Botton, traduzido pela Rocco); agora o temos até entre os livros de ciência: Proust Foi um Neurocientista, que a Best Seller acaba de lançar, com um subtítulo (Como a Arte Antecipa a Ciência) inexistente no original.



Na capa poderia estar o pintor Paul Cézanne ou o compositor Igor Stravinsky ou o poeta Walt Whitman ou as escritoras Virginia Woolf, Gertrude Stein e George Eliot, pois todos estes, mais o cozinheiro Auguste Escoffier, inventor do caldo de vitela, também anteciparam descobertas da neurociência, sacaram verdades (reais e tangíveis) sobre a mente humana que só agora a ciência está “redescobrindo”, segundo Jonah Lehrer, autor do livro. Acontece que Proust, o neurocientista destacado na capa, não só tem mais nome que os demais como inventou a mítica madeleine que o ligou para sempre aos estudos sobre a biologia da memória.



Lehrer não escreve para iniciados, mas nem seu mais invejoso desafeto acadêmico ousaria enquadrá-lo entre os proxenetas da divulgação científica. Doutorado em neurociência e literatura inglesa, por Columbia e Harvard, editor e colaborador de publicações de qualidade comprovada, já teve aqui traduzida outra obra provocativa, O Momento Decisivo, em que defendia o primado da intuição sobre a razão na tomada de determinadas decisões, e foi meio por acaso que chegou à tese de que alguns expoentes do modernismo foram mais adiante que a ciência do seu tempo na exploração do cérebro humano.



Para ocupar os tempos mortos de uma pesquisa de laboratório sobre os mecanismos do cérebro, que desenvolvia com a equipe do Nobel de Medicina Eric Kandel, Lehrer mergulhou na leitura de Em Busca do Tempo Perdido. Logo no primeiro volume deparou com uma resposta “intuitiva” às suas investigações sobre como a mente recorda e um conjunto de células pode estocar e gerenciar nosso passado. Proust previra suas experiências com um século de antecedência, ajudado tão somente por uma madeleine e uma colher de chá.



“Um segredo molecular se escondia em nossas densas fibras neuronais, esperando silenciosamente por um bolinho”, reconhece Lehrer, que não se esqueceu de aludir ao pioneiro trabalho da psicóloga Rachel Herz sobre a rentura da hipótese levantada por Proust, segundo a qual o paladar e o olfato serviam melhor à “convocação do passado” que os demais sentidos. Cientificamente falando, o paladar e o olfato são os únicos sentidos que se ligam diretamente ao hipocampo, o centro de longa memória do cérebro, ao passo que os sentidos da visão, do tato e da audição passam primeiro pelo tálamo, a origem da linguagem e a porta da consciência, e são muito menos eficientes quando se trata de evocar o tempo perdido.



“Nenhum mapa da matéria jamais explicará a materialidade de nossa consciência”, profetiza Lehrer. Os cientistas separam os pensamentos em partes anatômicas, descrevem nosso cérebro em detalhes físicos, reduzindo-o a uma tecelagem de células elétricas e espaços sinápticos, esquecidos de que não é assim que experimentamos o mundo. Ao expressar nossa experiência real, os artistas expõem a incompletude da ciência.



Na busca por novos tipos de expressão, explorando formas diferentes de lidar com mistérios que não conseguiam compreender, um punhado de artistas passou a “olhar para o interior”, criando assim uma arte primorosamente autoconsciente, cujo “assunto” era a nossa psicologia. Proust o fez deitado na cama, refletindo sobre seu passado; Cézanne olhando horas a fio uma maçã; Gertrude Stein brincando com as palavras; Stravinsky investindo nas constantes alterações dos neurônios no córtex auditivo.



Quando da primeira exposição de pintura pós-impressionista, em dezembro de 1910, os quadros de Cézanne foram vistos como aberrações patológicas, como distorções deliberadas da natureza. Acreditava-se então que os nossos sentidos eram reflexos perfeitos do mundo exterior, que o olho humano era uma máquina fotográfica a enviar imagens prontas para o cérebro. Pas de tout. Os pós-impressionistas descobriram que ver, só, não bastava: era preciso refletir; ou seja, as nossas impressões exigem interpretação. E como olhar é criar o que vemos, decidiram reproduzir a natureza em termos de iluminação, “entender a visão como uma soma da luz”. A neurociência demoraria cinco décadas para confirmar esse insight, provando em laboratório que o nosso olhar apenas capta borrões de cor indistinta, e que cabe ao cérebro criar a realidade interpretando as linhas da luz que ainda não foram transformadas em forma, permitindo que um puzzle de cores abstratas resulte numa pintura realista.



Virginia Woolf acreditava que a natureza humana se transformara de forma notável por volta de dezembro de 1910, não exatamente pelo exposto na mostra dos pós-impressionistas. Há quase 10 anos, o psicólogo Steven Pinker desautorizou a escritora; para ele, “a natureza humana não mudou em 1910, nem em qualquer ano depois”. Certo, mas Pinker, argumenta Lehrer, não percebeu a ironia por trás da observação de Woolf. Nem seu principal alvo: os romancistas pré-modernos que haviam se recusado a investigar o funcionamento interno da mente. Woolf queria escrever romances que refletissem a natureza humana e sua mente fragmentada. Conseguiu. Quem leu Mrs. Dalloway há de concordar. Foi esse romance, publicado em 1925, que lhe deu status de neurocientista.

SERGIO AUGUSTO, s.augusto@estadao.com.br
Fonte : O Estado de S.Paulo

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Orlando Furioso

"Tão puro brilha o aço em cada torre
Que de nódoa ou ferrugem sempre é isento.
Noite e dia o ladrão as plagas corre
E depois acha ali forte aposento.
Debalde ao que ele preia alguém socorre
Com brados de blasfêmia ou de lamento.
Minha amada, meu próprio coração
Desespero livrar de tal prisão. "

Orlando Furioso, de Ludovico Ariosto,
Tradução de Pedro Garcez Ghirardi.
Ateliê Editorial.

Lazy Eye

TERRITÓRIOS DA MÚSICA II

Canta-me um dos Lieder de Schubert,

um dos mais tristes,

Tränenregen, ou Der Lindenbaum,

pleno de florestas desamparadas,

inchado de rios transparentes,

transbordando de amores impossíveis.



Toca ao piano suavemente

e canta-me o mais triste Lied.

Abre espaço para o pobre Franz

junto ao fogo.



E se te acontecer cantares a palavra Herz,

certifica-te que lhe dás expressão, a modulação que requer,

pensa que somos Românticos

circa mil oitocentos e vinte e sete

e que um de nós tem uma doença incurável e impronunciável.

Porque ninguém vai compreender nunca

a nossa coragem, a nossa beleza.

RIKARDO ARREGI

Poesia & Ltda.


http://www.poesiailimitada.blogspot.com

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Tempo

Em 6 anos você se olha

E não tem mais

a mesma cara



Em 6 meses você cura

Uma ferida

seja ela qual for



Em 6 dias você acumula

Mais tarefas

do que na semana passada



Em 6 horas

Você pode viver

um grande amor



60 minutos por hora

essa é a velocidade

que a sua vida acaba



6 segundos é o que vai te restar

Pra perdoar

aquilo que você nem lembra mais.

Estrela Leminski – Escritoras Suicidas
Até quando terás, minha alma, esta doçura


Cecília Meireles

Até quando terás, minha alma, esta doçura,

este dom de sofrer, este poder de amar,

a força de estar sempre – insegura – segura

como a flecha que segue a trajetória obscura,

fiel ao seu movimento, exata em seu lugar…?

Melhores Poemas, Global Editora, 1984 – S.Paulo, Brasil

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Eco depois de um mês em 68

Nós cansamos do velho

da intrépida múmia

com mofo aromático

E desespero tétrico.

Mas nunca do clássico

Pois esse não envelhece

Ganha a voz com o vento

E no tempo permanece.

Nós cansamos do que se basta

O que se rende à casta

Temem o que vem e se temem

Nunca se olham nem se desentendem

Nunca se afirmam e nem surpreendem.

Nós inventamos o futuro

E engolimos o modernismo

Nós devoramos a vanguarda

E transcendemos o partidarismo

mas isso,

é só

porque nascemos depois

que nasceu o pluralismo.

Eunice Boreal – Cronópios

Dois

Dossiê

Eu sou uma mocinha. Mo-ci-nha. Adoro perfumes, cores, bebês e flores.

Mas me interessa igualmente o que me é diferente. O lado obscuro de tudo. Eu sou uma mocinha. Menina. Mas me atrai conhecer o avesso. Entendê-lo.

Por isso coleciono almas. Olho nos olhos, observo o entorno, busco desgasto derreto de cansaço. Vou até o fim.

Eu sou menina. Eu sou menino. Eu sou um espectro. Uma abelha. Uma agulha. Uma fagulha.

Uma história de dois lados.

Daniela Dias – Escritoras Suicidas

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

IMERECIMENTO

Adormeço



na



luz



dos



teus



olhos



vejo



Veneza



que



não



conheço





Ondulo



num



círculo



de



ondas



de



levitação







Confesso:



não



mereço



a



ternura



da



gôndola



acariciando



as



águas



onda



a



onda

Tony Tcheka

NOSTALGIA

Cinzento nicotina



serpenteia o meu quarto



argola o tempo que não passa





Tu não apareces



nada acontece….





O som sobe em 33 rotações



a voz sofrida de Ottis Reding



sustenta o calor de um canto soul





Emerges de uma nota de piano



por momentos bailas



na circunferência de uma bola de fumo



que se esquiva pela persiana





Fica o som dilatado do sax



a dar passagem a Ottis



a sentenciar “time is over”





Nada acontece…



Nicotino o espaço que se fecha



sobre mim sem ti



Tony Tcheka

E NÃO TE CHAMAS CRISTO

Tens o crucifixo de muitas chuvas



cravado na palma da mão



com que matizas a terra



em tempos de kebur





Tempo finado



tempo fincado no peito da dor



disputando a sobra do cuntango



Tempo enlutado



tempo anoitecido



no entardecer da esperança





Na curvatura



do tambor onde expias o desespero



fizeram do teu corpo sepultura do medo





Negam-te o pedaço da tua tabanca



dão-te uma vida assalariada



taxam-te uns tantos por cento



para a sobrevivência autorizada





E não te chamas Cristo



e só pregas com o arado



Tony Tcheka

BATUCADA NA NOITE

Bissau cresce



quando o sol desce



vem com o fio da noite



e só adormece



quando amanhece





O álcool



e o week-end



inflamam corpos



cheios de adornos





Na noite



há insónias



e sónias de muitos nomes



não é só o mote



aqui há funky



há merengada



e antilhesas na madrugada



Lufadas de amor



moldam corpos



suarentos de ardor



há um saracoteio



permanente



na passarelle da noite



sedas flutuantes



coxas remexendo



num sincopado



que dá síncope





O odor



mastiga o ar



sem pudor mistura-se



confunde-se



catinga



chanel



paco rabane



água cheiro



suor



e dior



ça va comme ça…



O old scotch



dá o toque final



É fatal



afinal porque não…





A batucada cresce



abre o espaço



a cidade não dorme



Tony Tcheka