Rascunho essa memória
Contando estórias de meu pai.
Mergulho no mundo: abissal paisagem.
Viagem pelo barro: mistura fria.
Calor de tua mão.
Fogo do forno
Volto ao passado cuneiforme.
Extraio de mim a parte possível:
Sou a cerâmica esquecida
Durante as mudanças da vida.
Onde me debruço?
No patamar dessa escada
Ou no tempo a ser inscrito pelo meu corpo?
Nesse tempo — alguidar
Cheio da água jorrando esquecimentos
Preparo meus dias para o meu sempre
Mesmo sabendo o teu nunca
Vera Casa Nova – Escritoras Suicidas
Rascunho essa memória
Contando estórias de meu pai.
Mergulho no mundo: abissal paisagem.
Viagem pelo barro: mistura fria.
Calor de tua mão.
Fogo do forno
Volto ao passado cuneiforme.
Extraio de mim a parte possível:
Sou a cerâmica esquecida
Durante as mudanças da vida.
Onde me debruço?
No patamar dessa escada
Ou no tempo a ser inscrito pelo meu corpo?
Nesse tempo — alguidar
Cheio da água jorrando esquecimentos
Preparo meus dias para o meu sempre
Mesmo sabendo o teu nunca.
Vera Casa Nova
Fonte : Escritoras Suicidas
domingo, 27 de fevereiro de 2011
Moacyr Scliar
Médico, Scliar publicou primeiro livro em 1971
O escritor gaúcho Moacyr Scliar, que morreu hoje, aos 73 anos, publicou mais de 80 livros de diversos gêneros literários. Em 2003, entrou para a Academia Brasileira de Letras.
Scliar ganhou diversos prêmios Jabuti. Em 2009, o romance “Manual da Paixão Solitária” foi eleito livro do ano. Ele também emplacou dois na categoria romance, “Sonhos Tropicais” (1993) e “A Mulher que Escreveu a Bíblia” (2000), e um na categoria contos, “O Olho Enigmático” (1988). Em 1980, ele venceu o prêmio de literatura da APCA por “O Centauro no Jardim”.
Seus livros frequentemente abordam a imigração judaica no Brasil, mas também tratam de temas como o socialismo, a medicina e a vida da classe média. A obra de Scliar já foi traduzida para doze idiomas.
Dois deles ganharam adaptação para o cinema.
O primeiro foi o romance “Um Sonho no Caroço do Abacate”, sob o título “Caminho dos Sonhos”. Dirigido por Luca Amberg, o filme tinha a participação dos atores americanos Elliott Gould (Friends) e Talia Shire, além de Taís Araújo, Caio Blat, Mariana Ximenes, Fábio Azevedo e Edward Boggiss.
Em 2002, o romance “Sonhos Tropicais” foi adaptado sob a direção de André Sturm, com Carolina Kasting, Bruno Giordano, Flávio Galvão, Ingra Liberato e Cecil Thiré no elenco.
Scliar também escreveu crônicas e resenhas de livros. Era colunista da Folha.
Veja abaixo os principais livros de Scliar.
“A Guerra no Bom Fim” (1971)
“O Exército de um Homem Só” (1973)
“O Centauro no Jardim” (1980)
“Max e os Felinos” (1981)
“A Majestade do Xingu” (1997)
“A Mulher que Escreveu a Bíblia” (1999)
“Os Leopardos de Kafka” ( 2000)
“Sonhos Tropicais” (1992)
“Os Vendilhões do Templo” (2006)
“Manual da Paixão Solitária” ( 2008)
“Eu Vos Abraço Milhões” (2010)
VIDA
Nascido Moacyr Jaime Scliar em 23 de março de 1937 em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, ele foi alfabetizado por sua mãe, que era professora primária.
Scliar cursou medicina na Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, onde se formou em 1962. No mesmo ano, publicou seu primeiro livro, “Histórias de Médico em Formação”, coletânea de contos baseados em sua experiência como estudante. O escritor fez residência Santa Casa de Porto Alegre, se especializando médico sanitarista.
Em 1965, Scliar se casou com Judith Vivien Oliven. Três anos depois, publicou o livro de contos “O Carnaval dos Animais”, o qual considera de fato sua primeira obra. Em 1969, assumiu o cargo de chefe da equipe de educação em saúde da Secretaria da Saúde do Rio Grande do Sul.
No ano seguinte, iniciou um curso de pós-graduação em medicina comunitária no Instituto de Seguro Médico de Israel. Em 1971, o escritor lançou seu primeiro romance, “A Guerra no Bom Fim”.
O filho de Scliar, Roberto, nasceu em 1979
Fonte: Blog Leituras Favre
O escritor gaúcho Moacyr Scliar, que morreu hoje, aos 73 anos, publicou mais de 80 livros de diversos gêneros literários. Em 2003, entrou para a Academia Brasileira de Letras.
Scliar ganhou diversos prêmios Jabuti. Em 2009, o romance “Manual da Paixão Solitária” foi eleito livro do ano. Ele também emplacou dois na categoria romance, “Sonhos Tropicais” (1993) e “A Mulher que Escreveu a Bíblia” (2000), e um na categoria contos, “O Olho Enigmático” (1988). Em 1980, ele venceu o prêmio de literatura da APCA por “O Centauro no Jardim”.
Seus livros frequentemente abordam a imigração judaica no Brasil, mas também tratam de temas como o socialismo, a medicina e a vida da classe média. A obra de Scliar já foi traduzida para doze idiomas.
Dois deles ganharam adaptação para o cinema.
O primeiro foi o romance “Um Sonho no Caroço do Abacate”, sob o título “Caminho dos Sonhos”. Dirigido por Luca Amberg, o filme tinha a participação dos atores americanos Elliott Gould (Friends) e Talia Shire, além de Taís Araújo, Caio Blat, Mariana Ximenes, Fábio Azevedo e Edward Boggiss.
Em 2002, o romance “Sonhos Tropicais” foi adaptado sob a direção de André Sturm, com Carolina Kasting, Bruno Giordano, Flávio Galvão, Ingra Liberato e Cecil Thiré no elenco.
Scliar também escreveu crônicas e resenhas de livros. Era colunista da Folha.
Veja abaixo os principais livros de Scliar.
“A Guerra no Bom Fim” (1971)
“O Exército de um Homem Só” (1973)
“O Centauro no Jardim” (1980)
“Max e os Felinos” (1981)
“A Majestade do Xingu” (1997)
“A Mulher que Escreveu a Bíblia” (1999)
“Os Leopardos de Kafka” ( 2000)
“Sonhos Tropicais” (1992)
“Os Vendilhões do Templo” (2006)
“Manual da Paixão Solitária” ( 2008)
“Eu Vos Abraço Milhões” (2010)
VIDA
Nascido Moacyr Jaime Scliar em 23 de março de 1937 em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, ele foi alfabetizado por sua mãe, que era professora primária.
Scliar cursou medicina na Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, onde se formou em 1962. No mesmo ano, publicou seu primeiro livro, “Histórias de Médico em Formação”, coletânea de contos baseados em sua experiência como estudante. O escritor fez residência Santa Casa de Porto Alegre, se especializando médico sanitarista.
Em 1965, Scliar se casou com Judith Vivien Oliven. Três anos depois, publicou o livro de contos “O Carnaval dos Animais”, o qual considera de fato sua primeira obra. Em 1969, assumiu o cargo de chefe da equipe de educação em saúde da Secretaria da Saúde do Rio Grande do Sul.
No ano seguinte, iniciou um curso de pós-graduação em medicina comunitária no Instituto de Seguro Médico de Israel. Em 1971, o escritor lançou seu primeiro romance, “A Guerra no Bom Fim”.
O filho de Scliar, Roberto, nasceu em 1979
Fonte: Blog Leituras Favre
Madeleine, sinapses e neurônios
Já o tínhamos em quadrinhos, aqui editados pela Zahar, e na prateleira de autoajuda (Como Proust Pode Mudar Sua Vida, de Alain de Botton, traduzido pela Rocco); agora o temos até entre os livros de ciência: Proust Foi um Neurocientista, que a Best Seller acaba de lançar, com um subtítulo (Como a Arte Antecipa a Ciência) inexistente no original.
Na capa poderia estar o pintor Paul Cézanne ou o compositor Igor Stravinsky ou o poeta Walt Whitman ou as escritoras Virginia Woolf, Gertrude Stein e George Eliot, pois todos estes, mais o cozinheiro Auguste Escoffier, inventor do caldo de vitela, também anteciparam descobertas da neurociência, sacaram verdades (reais e tangíveis) sobre a mente humana que só agora a ciência está “redescobrindo”, segundo Jonah Lehrer, autor do livro. Acontece que Proust, o neurocientista destacado na capa, não só tem mais nome que os demais como inventou a mítica madeleine que o ligou para sempre aos estudos sobre a biologia da memória.
Lehrer não escreve para iniciados, mas nem seu mais invejoso desafeto acadêmico ousaria enquadrá-lo entre os proxenetas da divulgação científica. Doutorado em neurociência e literatura inglesa, por Columbia e Harvard, editor e colaborador de publicações de qualidade comprovada, já teve aqui traduzida outra obra provocativa, O Momento Decisivo, em que defendia o primado da intuição sobre a razão na tomada de determinadas decisões, e foi meio por acaso que chegou à tese de que alguns expoentes do modernismo foram mais adiante que a ciência do seu tempo na exploração do cérebro humano.
Para ocupar os tempos mortos de uma pesquisa de laboratório sobre os mecanismos do cérebro, que desenvolvia com a equipe do Nobel de Medicina Eric Kandel, Lehrer mergulhou na leitura de Em Busca do Tempo Perdido. Logo no primeiro volume deparou com uma resposta “intuitiva” às suas investigações sobre como a mente recorda e um conjunto de células pode estocar e gerenciar nosso passado. Proust previra suas experiências com um século de antecedência, ajudado tão somente por uma madeleine e uma colher de chá.
“Um segredo molecular se escondia em nossas densas fibras neuronais, esperando silenciosamente por um bolinho”, reconhece Lehrer, que não se esqueceu de aludir ao pioneiro trabalho da psicóloga Rachel Herz sobre a rentura da hipótese levantada por Proust, segundo a qual o paladar e o olfato serviam melhor à “convocação do passado” que os demais sentidos. Cientificamente falando, o paladar e o olfato são os únicos sentidos que se ligam diretamente ao hipocampo, o centro de longa memória do cérebro, ao passo que os sentidos da visão, do tato e da audição passam primeiro pelo tálamo, a origem da linguagem e a porta da consciência, e são muito menos eficientes quando se trata de evocar o tempo perdido.
“Nenhum mapa da matéria jamais explicará a materialidade de nossa consciência”, profetiza Lehrer. Os cientistas separam os pensamentos em partes anatômicas, descrevem nosso cérebro em detalhes físicos, reduzindo-o a uma tecelagem de células elétricas e espaços sinápticos, esquecidos de que não é assim que experimentamos o mundo. Ao expressar nossa experiência real, os artistas expõem a incompletude da ciência.
Na busca por novos tipos de expressão, explorando formas diferentes de lidar com mistérios que não conseguiam compreender, um punhado de artistas passou a “olhar para o interior”, criando assim uma arte primorosamente autoconsciente, cujo “assunto” era a nossa psicologia. Proust o fez deitado na cama, refletindo sobre seu passado; Cézanne olhando horas a fio uma maçã; Gertrude Stein brincando com as palavras; Stravinsky investindo nas constantes alterações dos neurônios no córtex auditivo.
Quando da primeira exposição de pintura pós-impressionista, em dezembro de 1910, os quadros de Cézanne foram vistos como aberrações patológicas, como distorções deliberadas da natureza. Acreditava-se então que os nossos sentidos eram reflexos perfeitos do mundo exterior, que o olho humano era uma máquina fotográfica a enviar imagens prontas para o cérebro. Pas de tout. Os pós-impressionistas descobriram que ver, só, não bastava: era preciso refletir; ou seja, as nossas impressões exigem interpretação. E como olhar é criar o que vemos, decidiram reproduzir a natureza em termos de iluminação, “entender a visão como uma soma da luz”. A neurociência demoraria cinco décadas para confirmar esse insight, provando em laboratório que o nosso olhar apenas capta borrões de cor indistinta, e que cabe ao cérebro criar a realidade interpretando as linhas da luz que ainda não foram transformadas em forma, permitindo que um puzzle de cores abstratas resulte numa pintura realista.
Virginia Woolf acreditava que a natureza humana se transformara de forma notável por volta de dezembro de 1910, não exatamente pelo exposto na mostra dos pós-impressionistas. Há quase 10 anos, o psicólogo Steven Pinker desautorizou a escritora; para ele, “a natureza humana não mudou em 1910, nem em qualquer ano depois”. Certo, mas Pinker, argumenta Lehrer, não percebeu a ironia por trás da observação de Woolf. Nem seu principal alvo: os romancistas pré-modernos que haviam se recusado a investigar o funcionamento interno da mente. Woolf queria escrever romances que refletissem a natureza humana e sua mente fragmentada. Conseguiu. Quem leu Mrs. Dalloway há de concordar. Foi esse romance, publicado em 1925, que lhe deu status de neurocientista.
SERGIO AUGUSTO, s.augusto@estadao.com.br
Fonte : O Estado de S.Paulo
Na capa poderia estar o pintor Paul Cézanne ou o compositor Igor Stravinsky ou o poeta Walt Whitman ou as escritoras Virginia Woolf, Gertrude Stein e George Eliot, pois todos estes, mais o cozinheiro Auguste Escoffier, inventor do caldo de vitela, também anteciparam descobertas da neurociência, sacaram verdades (reais e tangíveis) sobre a mente humana que só agora a ciência está “redescobrindo”, segundo Jonah Lehrer, autor do livro. Acontece que Proust, o neurocientista destacado na capa, não só tem mais nome que os demais como inventou a mítica madeleine que o ligou para sempre aos estudos sobre a biologia da memória.
Lehrer não escreve para iniciados, mas nem seu mais invejoso desafeto acadêmico ousaria enquadrá-lo entre os proxenetas da divulgação científica. Doutorado em neurociência e literatura inglesa, por Columbia e Harvard, editor e colaborador de publicações de qualidade comprovada, já teve aqui traduzida outra obra provocativa, O Momento Decisivo, em que defendia o primado da intuição sobre a razão na tomada de determinadas decisões, e foi meio por acaso que chegou à tese de que alguns expoentes do modernismo foram mais adiante que a ciência do seu tempo na exploração do cérebro humano.
Para ocupar os tempos mortos de uma pesquisa de laboratório sobre os mecanismos do cérebro, que desenvolvia com a equipe do Nobel de Medicina Eric Kandel, Lehrer mergulhou na leitura de Em Busca do Tempo Perdido. Logo no primeiro volume deparou com uma resposta “intuitiva” às suas investigações sobre como a mente recorda e um conjunto de células pode estocar e gerenciar nosso passado. Proust previra suas experiências com um século de antecedência, ajudado tão somente por uma madeleine e uma colher de chá.
“Um segredo molecular se escondia em nossas densas fibras neuronais, esperando silenciosamente por um bolinho”, reconhece Lehrer, que não se esqueceu de aludir ao pioneiro trabalho da psicóloga Rachel Herz sobre a rentura da hipótese levantada por Proust, segundo a qual o paladar e o olfato serviam melhor à “convocação do passado” que os demais sentidos. Cientificamente falando, o paladar e o olfato são os únicos sentidos que se ligam diretamente ao hipocampo, o centro de longa memória do cérebro, ao passo que os sentidos da visão, do tato e da audição passam primeiro pelo tálamo, a origem da linguagem e a porta da consciência, e são muito menos eficientes quando se trata de evocar o tempo perdido.
“Nenhum mapa da matéria jamais explicará a materialidade de nossa consciência”, profetiza Lehrer. Os cientistas separam os pensamentos em partes anatômicas, descrevem nosso cérebro em detalhes físicos, reduzindo-o a uma tecelagem de células elétricas e espaços sinápticos, esquecidos de que não é assim que experimentamos o mundo. Ao expressar nossa experiência real, os artistas expõem a incompletude da ciência.
Na busca por novos tipos de expressão, explorando formas diferentes de lidar com mistérios que não conseguiam compreender, um punhado de artistas passou a “olhar para o interior”, criando assim uma arte primorosamente autoconsciente, cujo “assunto” era a nossa psicologia. Proust o fez deitado na cama, refletindo sobre seu passado; Cézanne olhando horas a fio uma maçã; Gertrude Stein brincando com as palavras; Stravinsky investindo nas constantes alterações dos neurônios no córtex auditivo.
Quando da primeira exposição de pintura pós-impressionista, em dezembro de 1910, os quadros de Cézanne foram vistos como aberrações patológicas, como distorções deliberadas da natureza. Acreditava-se então que os nossos sentidos eram reflexos perfeitos do mundo exterior, que o olho humano era uma máquina fotográfica a enviar imagens prontas para o cérebro. Pas de tout. Os pós-impressionistas descobriram que ver, só, não bastava: era preciso refletir; ou seja, as nossas impressões exigem interpretação. E como olhar é criar o que vemos, decidiram reproduzir a natureza em termos de iluminação, “entender a visão como uma soma da luz”. A neurociência demoraria cinco décadas para confirmar esse insight, provando em laboratório que o nosso olhar apenas capta borrões de cor indistinta, e que cabe ao cérebro criar a realidade interpretando as linhas da luz que ainda não foram transformadas em forma, permitindo que um puzzle de cores abstratas resulte numa pintura realista.
Virginia Woolf acreditava que a natureza humana se transformara de forma notável por volta de dezembro de 1910, não exatamente pelo exposto na mostra dos pós-impressionistas. Há quase 10 anos, o psicólogo Steven Pinker desautorizou a escritora; para ele, “a natureza humana não mudou em 1910, nem em qualquer ano depois”. Certo, mas Pinker, argumenta Lehrer, não percebeu a ironia por trás da observação de Woolf. Nem seu principal alvo: os romancistas pré-modernos que haviam se recusado a investigar o funcionamento interno da mente. Woolf queria escrever romances que refletissem a natureza humana e sua mente fragmentada. Conseguiu. Quem leu Mrs. Dalloway há de concordar. Foi esse romance, publicado em 1925, que lhe deu status de neurocientista.
SERGIO AUGUSTO, s.augusto@estadao.com.br
Fonte : O Estado de S.Paulo
sábado, 26 de fevereiro de 2011
"Tão puro brilha o aço em cada torre
Que de nódoa ou ferrugem sempre é isento.
Noite e dia o ladrão as plagas corre
E depois acha ali forte aposento.
Debalde ao que ele preia alguém socorre
Com brados de blasfêmia ou de lamento.
Minha amada, meu próprio coração
Desespero livrar de tal prisão. "
Orlando Furioso, de Ludovico Ariosto,
Tradução de Pedro Garcez Ghirardi.
Ateliê Editorial.
Que de nódoa ou ferrugem sempre é isento.
Noite e dia o ladrão as plagas corre
E depois acha ali forte aposento.
Debalde ao que ele preia alguém socorre
Com brados de blasfêmia ou de lamento.
Minha amada, meu próprio coração
Desespero livrar de tal prisão. "
Orlando Furioso, de Ludovico Ariosto,
Tradução de Pedro Garcez Ghirardi.
Ateliê Editorial.
TERRITÓRIOS DA MÚSICA II
Canta-me um dos Lieder de Schubert,
um dos mais tristes,
Tränenregen, ou Der Lindenbaum,
pleno de florestas desamparadas,
inchado de rios transparentes,
transbordando de amores impossíveis.
Toca ao piano suavemente
e canta-me o mais triste Lied.
Abre espaço para o pobre Franz
junto ao fogo.
E se te acontecer cantares a palavra Herz,
certifica-te que lhe dás expressão, a modulação que requer,
pensa que somos Românticos
circa mil oitocentos e vinte e sete
e que um de nós tem uma doença incurável e impronunciável.
Porque ninguém vai compreender nunca
a nossa coragem, a nossa beleza.
RIKARDO ARREGI
Poesia & Ltda.
http://www.poesiailimitada.blogspot.com
um dos mais tristes,
Tränenregen, ou Der Lindenbaum,
pleno de florestas desamparadas,
inchado de rios transparentes,
transbordando de amores impossíveis.
Toca ao piano suavemente
e canta-me o mais triste Lied.
Abre espaço para o pobre Franz
junto ao fogo.
E se te acontecer cantares a palavra Herz,
certifica-te que lhe dás expressão, a modulação que requer,
pensa que somos Românticos
circa mil oitocentos e vinte e sete
e que um de nós tem uma doença incurável e impronunciável.
Porque ninguém vai compreender nunca
a nossa coragem, a nossa beleza.
RIKARDO ARREGI
Poesia & Ltda.
http://www.poesiailimitada.blogspot.com
segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011
Tempo
Em 6 anos você se olha
E não tem mais
a mesma cara
Em 6 meses você cura
Uma ferida
seja ela qual for
Em 6 dias você acumula
Mais tarefas
do que na semana passada
Em 6 horas
Você pode viver
um grande amor
60 minutos por hora
essa é a velocidade
que a sua vida acaba
6 segundos é o que vai te restar
Pra perdoar
aquilo que você nem lembra mais.
Estrela Leminski – Escritoras Suicidas
E não tem mais
a mesma cara
Em 6 meses você cura
Uma ferida
seja ela qual for
Em 6 dias você acumula
Mais tarefas
do que na semana passada
Em 6 horas
Você pode viver
um grande amor
60 minutos por hora
essa é a velocidade
que a sua vida acaba
6 segundos é o que vai te restar
Pra perdoar
aquilo que você nem lembra mais.
Estrela Leminski – Escritoras Suicidas
Até quando terás, minha alma, esta doçura
Cecília Meireles
Até quando terás, minha alma, esta doçura,
este dom de sofrer, este poder de amar,
a força de estar sempre – insegura – segura
como a flecha que segue a trajetória obscura,
fiel ao seu movimento, exata em seu lugar…?
Melhores Poemas, Global Editora, 1984 – S.Paulo, Brasil
Cecília Meireles
Até quando terás, minha alma, esta doçura,
este dom de sofrer, este poder de amar,
a força de estar sempre – insegura – segura
como a flecha que segue a trajetória obscura,
fiel ao seu movimento, exata em seu lugar…?
Melhores Poemas, Global Editora, 1984 – S.Paulo, Brasil
domingo, 20 de fevereiro de 2011
Eco depois de um mês em 68
Nós cansamos do velho
da intrépida múmia
com mofo aromático
E desespero tétrico.
Mas nunca do clássico
Pois esse não envelhece
Ganha a voz com o vento
E no tempo permanece.
Nós cansamos do que se basta
O que se rende à casta
Temem o que vem e se temem
Nunca se olham nem se desentendem
Nunca se afirmam e nem surpreendem.
Nós inventamos o futuro
E engolimos o modernismo
Nós devoramos a vanguarda
E transcendemos o partidarismo
mas isso,
é só
porque nascemos depois
que nasceu o pluralismo.
Eunice Boreal – Cronópios
da intrépida múmia
com mofo aromático
E desespero tétrico.
Mas nunca do clássico
Pois esse não envelhece
Ganha a voz com o vento
E no tempo permanece.
Nós cansamos do que se basta
O que se rende à casta
Temem o que vem e se temem
Nunca se olham nem se desentendem
Nunca se afirmam e nem surpreendem.
Nós inventamos o futuro
E engolimos o modernismo
Nós devoramos a vanguarda
E transcendemos o partidarismo
mas isso,
é só
porque nascemos depois
que nasceu o pluralismo.
Eunice Boreal – Cronópios
Dois
Dossiê
Eu sou uma mocinha. Mo-ci-nha. Adoro perfumes, cores, bebês e flores.
Mas me interessa igualmente o que me é diferente. O lado obscuro de tudo. Eu sou uma mocinha. Menina. Mas me atrai conhecer o avesso. Entendê-lo.
Por isso coleciono almas. Olho nos olhos, observo o entorno, busco desgasto derreto de cansaço. Vou até o fim.
Eu sou menina. Eu sou menino. Eu sou um espectro. Uma abelha. Uma agulha. Uma fagulha.
Uma história de dois lados.
Daniela Dias – Escritoras Suicidas
Eu sou uma mocinha. Mo-ci-nha. Adoro perfumes, cores, bebês e flores.
Mas me interessa igualmente o que me é diferente. O lado obscuro de tudo. Eu sou uma mocinha. Menina. Mas me atrai conhecer o avesso. Entendê-lo.
Por isso coleciono almas. Olho nos olhos, observo o entorno, busco desgasto derreto de cansaço. Vou até o fim.
Eu sou menina. Eu sou menino. Eu sou um espectro. Uma abelha. Uma agulha. Uma fagulha.
Uma história de dois lados.
Daniela Dias – Escritoras Suicidas
terça-feira, 15 de fevereiro de 2011
IMERECIMENTO
Adormeço
na
luz
dos
teus
olhos
vejo
Veneza
que
não
conheço
Ondulo
num
círculo
de
ondas
de
levitação
Confesso:
não
mereço
a
ternura
da
gôndola
acariciando
as
águas
onda
a
onda
Tony Tcheka
na
luz
dos
teus
olhos
vejo
Veneza
que
não
conheço
Ondulo
num
círculo
de
ondas
de
levitação
Confesso:
não
mereço
a
ternura
da
gôndola
acariciando
as
águas
onda
a
onda
Tony Tcheka
NOSTALGIA
Cinzento nicotina
serpenteia o meu quarto
argola o tempo que não passa
Tu não apareces
nada acontece….
O som sobe em 33 rotações
a voz sofrida de Ottis Reding
sustenta o calor de um canto soul
Emerges de uma nota de piano
por momentos bailas
na circunferência de uma bola de fumo
que se esquiva pela persiana
Fica o som dilatado do sax
a dar passagem a Ottis
a sentenciar “time is over”
Nada acontece…
Nicotino o espaço que se fecha
sobre mim sem ti
Tony Tcheka
serpenteia o meu quarto
argola o tempo que não passa
Tu não apareces
nada acontece….
O som sobe em 33 rotações
a voz sofrida de Ottis Reding
sustenta o calor de um canto soul
Emerges de uma nota de piano
por momentos bailas
na circunferência de uma bola de fumo
que se esquiva pela persiana
Fica o som dilatado do sax
a dar passagem a Ottis
a sentenciar “time is over”
Nada acontece…
Nicotino o espaço que se fecha
sobre mim sem ti
Tony Tcheka
E NÃO TE CHAMAS CRISTO
Tens o crucifixo de muitas chuvas
cravado na palma da mão
com que matizas a terra
em tempos de kebur
Tempo finado
tempo fincado no peito da dor
disputando a sobra do cuntango
Tempo enlutado
tempo anoitecido
no entardecer da esperança
Na curvatura
do tambor onde expias o desespero
fizeram do teu corpo sepultura do medo
Negam-te o pedaço da tua tabanca
dão-te uma vida assalariada
taxam-te uns tantos por cento
para a sobrevivência autorizada
E não te chamas Cristo
e só pregas com o arado
Tony Tcheka
cravado na palma da mão
com que matizas a terra
em tempos de kebur
Tempo finado
tempo fincado no peito da dor
disputando a sobra do cuntango
Tempo enlutado
tempo anoitecido
no entardecer da esperança
Na curvatura
do tambor onde expias o desespero
fizeram do teu corpo sepultura do medo
Negam-te o pedaço da tua tabanca
dão-te uma vida assalariada
taxam-te uns tantos por cento
para a sobrevivência autorizada
E não te chamas Cristo
e só pregas com o arado
Tony Tcheka
BATUCADA NA NOITE
Bissau cresce
quando o sol desce
vem com o fio da noite
e só adormece
quando amanhece
O álcool
e o week-end
inflamam corpos
cheios de adornos
Na noite
há insónias
e sónias de muitos nomes
não é só o mote
aqui há funky
há merengada
e antilhesas na madrugada
Lufadas de amor
moldam corpos
suarentos de ardor
há um saracoteio
permanente
na passarelle da noite
sedas flutuantes
coxas remexendo
num sincopado
que dá síncope
O odor
mastiga o ar
sem pudor mistura-se
confunde-se
catinga
chanel
paco rabane
água cheiro
suor
e dior
ça va comme ça…
O old scotch
dá o toque final
É fatal
afinal porque não…
A batucada cresce
abre o espaço
a cidade não dorme
Tony Tcheka
quando o sol desce
vem com o fio da noite
e só adormece
quando amanhece
O álcool
e o week-end
inflamam corpos
cheios de adornos
Na noite
há insónias
e sónias de muitos nomes
não é só o mote
aqui há funky
há merengada
e antilhesas na madrugada
Lufadas de amor
moldam corpos
suarentos de ardor
há um saracoteio
permanente
na passarelle da noite
sedas flutuantes
coxas remexendo
num sincopado
que dá síncope
O odor
mastiga o ar
sem pudor mistura-se
confunde-se
catinga
chanel
paco rabane
água cheiro
suor
e dior
ça va comme ça…
O old scotch
dá o toque final
É fatal
afinal porque não…
A batucada cresce
abre o espaço
a cidade não dorme
Tony Tcheka
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