quarta-feira, 19 de janeiro de 2011
A carne e o espírito
O olhar do sociólogo francês Roger Bastide sobre a literatura e as artes
RESUMO
Livro ilustrado dedicado às artes e copioso volume que reúne textos sobre literatura brasileira e francesa mostram Roger Bastide como um crítico arguto e ardoroso, porém indulgente com autores menores. A ideia de “encarnação” permeia seu pensamento crítico e permite compreender sua visão sobre a literatura nos trópicos.
MARCELO COELHO
O SOCIÓLOGO FRANCÊS Roger Bastide (1898-1974) estudou e amou intensamente o Brasil, país onde passou 16 anos de sua vida (de 1938 a 1954), dando aulas na Universidade de São Paulo e fazendo pesquisas pioneiras, em especial sobre o candomblé.
Mas dizer que Bastide gostava do Brasil é dizer muito pouco, e incorrer em certa imprecisão. Na verdade, ele parecia gostar de qualquer coisa que aparecesse à sua frente.
Pelo menos esta é a impressão que deixam as mais de mil páginas da “Navette Literária França-Brasil” [Edusp, 1.348 págs., R$ 172 os dois volumes], coletânea de seus textos críticos para diversas publicações brasileiras e francesas (como “Anhembi”, “Diário de S. Paulo”, Folha, “Mercure de France”), organizada por Gloria Carneiro do Amaral.
Companheiro de atividade jornalística nos anos 1940, Antonio Candido conta ter repreendido Bastide pelo excesso de indulgência. “Eu não faço juízos de valor”, respondeu o francês, “eu faço juízos de realidade”
Ao longo de tantos artigos, alguns bastante circunstanciais, outros importantes, é difícil ver Bastide sem entusiasmo pelo que comenta; são raríssimas as frases negativas saídas de sua pena.
Companheiro de atividade jornalística nos anos 1940, Antonio Candido conta ter repreendido Bastide pelo excesso de indulgência. “Eu não faço juízos de valor”, respondeu o francês, “eu faço juízos de realidade.” E foi assim que se animou, no seu livro sobre “A Poesia Afro-Brasileira” (Martins, 1943), a colocar o simbolista Cruz e Souza no mesmo nível de Stéphane Mallarmé e Stefan George.
Já nas primeiras páginas do volume “Textos de Crítica Literária de Roger Bastide”, vemos o jovem professor tecendo elogios a obscuros escritores de província, como Pierre Calel, André Lamandé, Louis Gratias, Raoul Stéphan…
O que Bastide admira nesses nomes que a história literária francesa esqueceu é sobretudo a capacidade que tinham de retratar, ou “cantar”, as realidades regionais. O “solo místico, ardente” do Quercy é o que fascina Bastide ao ler um romance de Hélène Lémery. Os jogos de bocha e o “vinho ensolarado” do sul da França dão assunto, diz Bastide, aos poemas “saborosos ou crocantes, perfumados ou suculentos” de Eugène Grangié.
O elogio às descrições locais, com seus perfumes, comidas e lavouras, corresponde, na verdade, a um programa de sensualismo literário que serviria para Bastide como instrumento corretivo a outra preocupação constante em sua vida e seus escritos: a religião. Em especial a das montanhas das Cévennes de sua infância, onde o rigor moral protestante podia combinar-se, segundo Bastide, não com o puritanismo burguês, mas com o espírito de independência e de revolta.
Trata-se, grosso modo, do mesmo percurso seguido por André Gide (1869-1955), a cuja obra Roger Bastide dedicou um livro -e alguns artigos presentes na atual coletânea. Gide oscilou, como se sabe, entre as angústias religiosas de “A Sinfonia Pastoral”, por exemplo, e a descoberta transgressiva do prazer terreno, em outros romances como “O Imoralista” e “Os Frutos da Terra”.
Do espírito à carne, ou melhor, à “encarnação” do espírito no corpo: o tema, no qual o jovem Bastide via a verdade essencial do cristianismo, será a chave de seu interesse permanente por outros autores franceses, como François Mauriac, André Chamson e Pierre Jean Jouve, que aparecem várias vezes nas páginas do volume.
Mas os “frutos da terra”, que com tanto empenho foram procurados nas regiões rurais da França, haveriam de eclodir plenamente diante de seus olhos quando Bastide aportou no Brasil em 1938, convidado pela USP a substituir Claude Lévi-Strauss.
Estudando com raro apetite a literatura brasileira, Roger Bastide utiliza com frequência, e mesmo exagero, um procedimento que se poderia chamar de “crítica evocativa”.
Determinado autor (Graciliano Ramos, para citar um dos grandes, ou Dalcídio Jurandir, para citar um menos importante; ou ainda Jacques do Prado Brandão) escreve, por exemplo, sobre a seca, sobre a Amazônia, ou sobre o mar. É o bastante para que o crítico acenda seus fogos de artifício descritivos. Num livro, encontraremos “algas entre os cabelos da amada, fantasmas de mortos fosforescentes”; em outro, “ilhas verdes, madeiras cortadas, ervas de pajés, luzes de choupana”; em outro ainda, “plantas com espinhos que crescem [num] deserto de cascalho e terra queimada”.
Há muitas páginas assim ao longo do livro, o que torna especialmente admiráveis os momentos em que a crítica de Bastide revela seus poderes de análise, discernimento e proporção.
Bastide inovou a crítica machadiana ao notar que, longe de ser um autor blindado para o meio ambiente do Brasil, Machado de Assis fez com que a paisagem fosse absorvida na carne e no espírito de suas personagens
Em primeiro lugar, Bastide serviu, para os brasileiros de 1950, como um guia bastante seguro acerca das novidades intelectuais da França: Sartre, Camus, Ponge, Bachelard são apresentados em artigos informativos e criteriosos.
Mas é sobretudo nos textos mais longos, como o famoso “Machado de Assis, Paisagista”, ou o prefácio à tradução francesa de “A Morte e a Morte de Quincas Berro d’Água”, que essa descomunal coletânea de textos se mostra realmente indispensável.
Outra seleção de textos de Roger Bastide, agora principalmente sobre artes plásticas, sairá pela Imprensa Oficial neste ano.
Trata-se de “Impressões do Brasil” [no prelo], volume mais compacto e belamente ilustrado, com artigos que vão desde um texto meio antiquado (e, para variar, excessivamente elogioso) a propósito do pintor cubista André Lhotte (1885-1962) a esfuziantes análises sobre as portas de igrejas no barroco brasileiro e sobre a “estética” urbana em São Paulo.
Não por acaso, o texto sobre “Machado de Assis, Paisagista” reaparece no livro, organizado por Fraya Frehse e Samuel Titan Jr. Opera-se, nesse estudo, a mais surpreendente sintonia entre o que havia de preocupação pessoal, de fundo religioso e regionalista, por parte de Bastide, e a própria matéria do escritor.
Todo o risco de um fascínio exterior pela sensualidade e pela paisagem, que Roger Bastide não parecia capaz de superar afetivamente, surge resolvido na escrita de Machado de Assis. Sentindo o problema “na pele”, por assim dizer, Bastide inovou a crítica machadiana ao notar que, longe de ser um autor blindado para o meio ambiente do Brasil, Machado de Assis fez com que a paisagem fosse absorvida na carne e no espírito de suas personagens.
Também em Jorge Amado, que surpreendentemente Bastide considera mais “revolucionário” do que Graciliano Ramos ou José Lins do Rego, um fenômeno semelhante ocorreria. Não se trata, diz Bastide, de autor falando “sobre” o povo, mas de alguém que faz o povo falar através dele.
A escrita desses autores “incorpora”, portanto, o meio em que vivem. O termo “incorporação”, como chave para o pensamento de Bastide, foi destacado por Augusto Massi em outra antologia excelente de seus textos de crítica literária (”Poetas do Brasil”, Edusp, 1997), mais curta, e que a edição de Gloria Carneiro do Amaral não duplica.
Poderíamos também falar em “encarnação”, para manter viva a ideia de tensão religiosa que, graças a essa nova coletânea, revela-se presente o tempo todo na obra do sociólogo e do crítico literário francês.
Incorporação ou encarnação, o tema surge de outro ângulo quando Bastide prefigura as questões schwarzianas das “ideias fora do lugar”, ao propor o estudo dos mecanismos da aculturação ou do “transplante” para tratar da influência europeia sobre a literatura brasileira.
No capítulo das omissões, chama a atenção o desinteresse de Bastide por Vinicius de Moraes, justamente alguém que passou da angústia religiosa para a descontração popular.
A ausência de um índice remissivo é o pecado capital numa coletânea tão abrangente como a “Navette Literária”, que vem acompanhada de outro tomo, onde a organizadora traça um roteiro sintético dos artigos que coligiu
.
O olhar do sociólogo francês Roger Bastide sobre a literatura e as artes
RESUMO
Livro ilustrado dedicado às artes e copioso volume que reúne textos sobre literatura brasileira e francesa mostram Roger Bastide como um crítico arguto e ardoroso, porém indulgente com autores menores. A ideia de “encarnação” permeia seu pensamento crítico e permite compreender sua visão sobre a literatura nos trópicos.
MARCELO COELHO
O SOCIÓLOGO FRANCÊS Roger Bastide (1898-1974) estudou e amou intensamente o Brasil, país onde passou 16 anos de sua vida (de 1938 a 1954), dando aulas na Universidade de São Paulo e fazendo pesquisas pioneiras, em especial sobre o candomblé.
Mas dizer que Bastide gostava do Brasil é dizer muito pouco, e incorrer em certa imprecisão. Na verdade, ele parecia gostar de qualquer coisa que aparecesse à sua frente.
Pelo menos esta é a impressão que deixam as mais de mil páginas da “Navette Literária França-Brasil” [Edusp, 1.348 págs., R$ 172 os dois volumes], coletânea de seus textos críticos para diversas publicações brasileiras e francesas (como “Anhembi”, “Diário de S. Paulo”, Folha, “Mercure de France”), organizada por Gloria Carneiro do Amaral.
Companheiro de atividade jornalística nos anos 1940, Antonio Candido conta ter repreendido Bastide pelo excesso de indulgência. “Eu não faço juízos de valor”, respondeu o francês, “eu faço juízos de realidade”
Ao longo de tantos artigos, alguns bastante circunstanciais, outros importantes, é difícil ver Bastide sem entusiasmo pelo que comenta; são raríssimas as frases negativas saídas de sua pena.
Companheiro de atividade jornalística nos anos 1940, Antonio Candido conta ter repreendido Bastide pelo excesso de indulgência. “Eu não faço juízos de valor”, respondeu o francês, “eu faço juízos de realidade.” E foi assim que se animou, no seu livro sobre “A Poesia Afro-Brasileira” (Martins, 1943), a colocar o simbolista Cruz e Souza no mesmo nível de Stéphane Mallarmé e Stefan George.
Já nas primeiras páginas do volume “Textos de Crítica Literária de Roger Bastide”, vemos o jovem professor tecendo elogios a obscuros escritores de província, como Pierre Calel, André Lamandé, Louis Gratias, Raoul Stéphan…
O que Bastide admira nesses nomes que a história literária francesa esqueceu é sobretudo a capacidade que tinham de retratar, ou “cantar”, as realidades regionais. O “solo místico, ardente” do Quercy é o que fascina Bastide ao ler um romance de Hélène Lémery. Os jogos de bocha e o “vinho ensolarado” do sul da França dão assunto, diz Bastide, aos poemas “saborosos ou crocantes, perfumados ou suculentos” de Eugène Grangié.
O elogio às descrições locais, com seus perfumes, comidas e lavouras, corresponde, na verdade, a um programa de sensualismo literário que serviria para Bastide como instrumento corretivo a outra preocupação constante em sua vida e seus escritos: a religião. Em especial a das montanhas das Cévennes de sua infância, onde o rigor moral protestante podia combinar-se, segundo Bastide, não com o puritanismo burguês, mas com o espírito de independência e de revolta.
Trata-se, grosso modo, do mesmo percurso seguido por André Gide (1869-1955), a cuja obra Roger Bastide dedicou um livro -e alguns artigos presentes na atual coletânea. Gide oscilou, como se sabe, entre as angústias religiosas de “A Sinfonia Pastoral”, por exemplo, e a descoberta transgressiva do prazer terreno, em outros romances como “O Imoralista” e “Os Frutos da Terra”.
Do espírito à carne, ou melhor, à “encarnação” do espírito no corpo: o tema, no qual o jovem Bastide via a verdade essencial do cristianismo, será a chave de seu interesse permanente por outros autores franceses, como François Mauriac, André Chamson e Pierre Jean Jouve, que aparecem várias vezes nas páginas do volume.
Mas os “frutos da terra”, que com tanto empenho foram procurados nas regiões rurais da França, haveriam de eclodir plenamente diante de seus olhos quando Bastide aportou no Brasil em 1938, convidado pela USP a substituir Claude Lévi-Strauss.
Estudando com raro apetite a literatura brasileira, Roger Bastide utiliza com frequência, e mesmo exagero, um procedimento que se poderia chamar de “crítica evocativa”.
Determinado autor (Graciliano Ramos, para citar um dos grandes, ou Dalcídio Jurandir, para citar um menos importante; ou ainda Jacques do Prado Brandão) escreve, por exemplo, sobre a seca, sobre a Amazônia, ou sobre o mar. É o bastante para que o crítico acenda seus fogos de artifício descritivos. Num livro, encontraremos “algas entre os cabelos da amada, fantasmas de mortos fosforescentes”; em outro, “ilhas verdes, madeiras cortadas, ervas de pajés, luzes de choupana”; em outro ainda, “plantas com espinhos que crescem [num] deserto de cascalho e terra queimada”.
Há muitas páginas assim ao longo do livro, o que torna especialmente admiráveis os momentos em que a crítica de Bastide revela seus poderes de análise, discernimento e proporção.
Bastide inovou a crítica machadiana ao notar que, longe de ser um autor blindado para o meio ambiente do Brasil, Machado de Assis fez com que a paisagem fosse absorvida na carne e no espírito de suas personagens
Em primeiro lugar, Bastide serviu, para os brasileiros de 1950, como um guia bastante seguro acerca das novidades intelectuais da França: Sartre, Camus, Ponge, Bachelard são apresentados em artigos informativos e criteriosos.
Mas é sobretudo nos textos mais longos, como o famoso “Machado de Assis, Paisagista”, ou o prefácio à tradução francesa de “A Morte e a Morte de Quincas Berro d’Água”, que essa descomunal coletânea de textos se mostra realmente indispensável.
Outra seleção de textos de Roger Bastide, agora principalmente sobre artes plásticas, sairá pela Imprensa Oficial neste ano.
Trata-se de “Impressões do Brasil” [no prelo], volume mais compacto e belamente ilustrado, com artigos que vão desde um texto meio antiquado (e, para variar, excessivamente elogioso) a propósito do pintor cubista André Lhotte (1885-1962) a esfuziantes análises sobre as portas de igrejas no barroco brasileiro e sobre a “estética” urbana em São Paulo.
Não por acaso, o texto sobre “Machado de Assis, Paisagista” reaparece no livro, organizado por Fraya Frehse e Samuel Titan Jr. Opera-se, nesse estudo, a mais surpreendente sintonia entre o que havia de preocupação pessoal, de fundo religioso e regionalista, por parte de Bastide, e a própria matéria do escritor.
Todo o risco de um fascínio exterior pela sensualidade e pela paisagem, que Roger Bastide não parecia capaz de superar afetivamente, surge resolvido na escrita de Machado de Assis. Sentindo o problema “na pele”, por assim dizer, Bastide inovou a crítica machadiana ao notar que, longe de ser um autor blindado para o meio ambiente do Brasil, Machado de Assis fez com que a paisagem fosse absorvida na carne e no espírito de suas personagens.
Também em Jorge Amado, que surpreendentemente Bastide considera mais “revolucionário” do que Graciliano Ramos ou José Lins do Rego, um fenômeno semelhante ocorreria. Não se trata, diz Bastide, de autor falando “sobre” o povo, mas de alguém que faz o povo falar através dele.
A escrita desses autores “incorpora”, portanto, o meio em que vivem. O termo “incorporação”, como chave para o pensamento de Bastide, foi destacado por Augusto Massi em outra antologia excelente de seus textos de crítica literária (”Poetas do Brasil”, Edusp, 1997), mais curta, e que a edição de Gloria Carneiro do Amaral não duplica.
Poderíamos também falar em “encarnação”, para manter viva a ideia de tensão religiosa que, graças a essa nova coletânea, revela-se presente o tempo todo na obra do sociólogo e do crítico literário francês.
Incorporação ou encarnação, o tema surge de outro ângulo quando Bastide prefigura as questões schwarzianas das “ideias fora do lugar”, ao propor o estudo dos mecanismos da aculturação ou do “transplante” para tratar da influência europeia sobre a literatura brasileira.
No capítulo das omissões, chama a atenção o desinteresse de Bastide por Vinicius de Moraes, justamente alguém que passou da angústia religiosa para a descontração popular.
A ausência de um índice remissivo é o pecado capital numa coletânea tão abrangente como a “Navette Literária”, que vem acompanhada de outro tomo, onde a organizadora traça um roteiro sintético dos artigos que coligiu
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Histórias hilárias de Jorge Luis Borges
Livro lançado na Argentina relata situações pitorescas vividas pelo autor
Ariel Palacios – O Estado de S.Paulo
O escritor argentino Jorge Luis Borges poderia ter morrido atropelado em uma rua londrina por uma brincadeira do colega cubano Guillermo Cabrera Infante nos anos 70. Certa noite, os dois caminhavam na direção da Praça Berkeley quando Infante, suspeitando que o colega não era um cego verdadeiro, mas apenas um farsante para “emular Milton e Homero”, decidiu deixar Borges sozinho no meio de uma rua com intenso tráfego de automóveis. Os táxis e carros esquivavam o autor de O Aleph, enquanto ele, sozinho, continuava lentamente atravessando a rua. “Borges estava impassível, talvez devido à sua condição de discípulo do (bispo e filósofo George) Berkeley. Isto é, já que ele não via os carros, estes não existiam. Corri para resgatar Borges e o levei a um lugar seguro”, explicou posteriormente Cabrera Infante.
Este caso com outros 332 foram recopilados pelo escritor e jornalista argentino Mario Paoletti em O Outro Borges – Anedotário Completo, recém-lançado em Buenos Aires pela editora Emecé. A maior parte dos “causos” mostra as irônicas opiniões – e atitudes – de Borges sobre religião, literatura, política e religião, entre vários outros assuntos. Segundo Paoletti, nenhum outro escritor no mundo hispano-americano gerou tantas histórias como Borges. “Não é impossível que isto se transforme em um subgênero literário”, comenta.
CAUSOS
Blefe
No livro, Paoletti conta duas cenas presenciadas pelo escritor Blas Matamoros nos EUA com Borges. Na primeira, alguém disse ao argentino: “Borges, o senhor é um blefe”. Ele respondeu: “Sim, mas leve em conta que é involuntário…”. Na outra, um estudante contestador grita ao escritor: “Você está morto!”. Borges retrucou: “É verdade, só existe um erro nas datas”.
Lugar errado
Adolfo Bioy Casares, sua mulher Silvina Ocampo e Borges vão a um velório. Mas, não encontram a casa. Nem se lembram do nome do morto. Em outro dia, o trio vai a um lugar onde Borges terá de proferir uma palestra. Mas entram, por engano, na casa errada, onde é celebrado um casamento. Cumprimentam todas as pessoas e só percebem que a conferência não é ali quando os noivos aparecem.
Gastronomia
Paoletti relata que, em uma entrevista em Roma, um jornalista europeu tentava colocar Borges em uma situação constrangedora. Mas, como não conseguia, recorreu a uma pergunta que considerou ser muito provocante: “Em seu país ainda existem canibais?”. Borges, imediatamente, respondeu: “Já não existem mais. Devoramos todos eles”.
Livro lançado na Argentina relata situações pitorescas vividas pelo autor
Ariel Palacios – O Estado de S.Paulo
O escritor argentino Jorge Luis Borges poderia ter morrido atropelado em uma rua londrina por uma brincadeira do colega cubano Guillermo Cabrera Infante nos anos 70. Certa noite, os dois caminhavam na direção da Praça Berkeley quando Infante, suspeitando que o colega não era um cego verdadeiro, mas apenas um farsante para “emular Milton e Homero”, decidiu deixar Borges sozinho no meio de uma rua com intenso tráfego de automóveis. Os táxis e carros esquivavam o autor de O Aleph, enquanto ele, sozinho, continuava lentamente atravessando a rua. “Borges estava impassível, talvez devido à sua condição de discípulo do (bispo e filósofo George) Berkeley. Isto é, já que ele não via os carros, estes não existiam. Corri para resgatar Borges e o levei a um lugar seguro”, explicou posteriormente Cabrera Infante.
Este caso com outros 332 foram recopilados pelo escritor e jornalista argentino Mario Paoletti em O Outro Borges – Anedotário Completo, recém-lançado em Buenos Aires pela editora Emecé. A maior parte dos “causos” mostra as irônicas opiniões – e atitudes – de Borges sobre religião, literatura, política e religião, entre vários outros assuntos. Segundo Paoletti, nenhum outro escritor no mundo hispano-americano gerou tantas histórias como Borges. “Não é impossível que isto se transforme em um subgênero literário”, comenta.
CAUSOS
Blefe
No livro, Paoletti conta duas cenas presenciadas pelo escritor Blas Matamoros nos EUA com Borges. Na primeira, alguém disse ao argentino: “Borges, o senhor é um blefe”. Ele respondeu: “Sim, mas leve em conta que é involuntário…”. Na outra, um estudante contestador grita ao escritor: “Você está morto!”. Borges retrucou: “É verdade, só existe um erro nas datas”.
Lugar errado
Adolfo Bioy Casares, sua mulher Silvina Ocampo e Borges vão a um velório. Mas, não encontram a casa. Nem se lembram do nome do morto. Em outro dia, o trio vai a um lugar onde Borges terá de proferir uma palestra. Mas entram, por engano, na casa errada, onde é celebrado um casamento. Cumprimentam todas as pessoas e só percebem que a conferência não é ali quando os noivos aparecem.
Gastronomia
Paoletti relata que, em uma entrevista em Roma, um jornalista europeu tentava colocar Borges em uma situação constrangedora. Mas, como não conseguia, recorreu a uma pergunta que considerou ser muito provocante: “Em seu país ainda existem canibais?”. Borges, imediatamente, respondeu: “Já não existem mais. Devoramos todos eles”.
Movimentos no Escuro
José Miguel Silva
BRIEF ENCOUNTER – DAVID LEAN (1945) – (2005)
Quando duas almas, e digo bem,
se enamoram uma da outra,
estamos perante um caso fragrante
de romantismo inglês. A princesa,
o dragão e o senhor chapéu de coco:
tanto basta para um drama
em que o remorso é o artista
principal. São assim os infelizes,
não conseguem partir um prato
sem ficar tolhidos pelo sentimento
de culpa. E por isso, sentem eles,
o melhor é estar quieto na berma
do sofá, e ter medo de tudo,
de tudo menos da infelicidade.
de “Movimentos no Escuro”, Relógio d’Água, Lisboa,2005
José Miguel Silva
BRIEF ENCOUNTER – DAVID LEAN (1945) – (2005)
Quando duas almas, e digo bem,
se enamoram uma da outra,
estamos perante um caso fragrante
de romantismo inglês. A princesa,
o dragão e o senhor chapéu de coco:
tanto basta para um drama
em que o remorso é o artista
principal. São assim os infelizes,
não conseguem partir um prato
sem ficar tolhidos pelo sentimento
de culpa. E por isso, sentem eles,
o melhor é estar quieto na berma
do sofá, e ter medo de tudo,
de tudo menos da infelicidade.
de “Movimentos no Escuro”, Relógio d’Água, Lisboa,2005
O instante luminoso
Viveríamos apenas.
Os caminhos aceitariam os nossos passos,
e as florestas a nossa respiração.
Por vezes tirarias o vestido,
e caminharíamos nus
por entre as vozes pressentidas
dos carros e de outros nómadas.
Porque estou farto
de todo este engano,
desta reunião para fins de caridade,
que pouco a pouco e sem descanso
me recupera,
me torna apto
para chegar ao dia de amanhã,
o tempo enfim dos poros em putrefacção,
a minha morte.
É um adiamento
sem igual -
cada vez mais ímpar,
que só o homem podia inventar
na sua perturbação distraída,
no seu esforço.
Por isso a sociedade
às vezes ainda me irrita,
e eu a mim próprio mas cada vez menos.
Pois o que procuro é:
tão só um lugar, onde fôssemos
como animais lentos,
como objectos reencontrados.
Onde fosse comparável ao teu
o mapa das linhas da minha mão,
o tom desmaiado das minhas gengivas,
a trama inútil dos meus gestos.
PÉTER ZIRKULI
Os caminhos aceitariam os nossos passos,
e as florestas a nossa respiração.
Por vezes tirarias o vestido,
e caminharíamos nus
por entre as vozes pressentidas
dos carros e de outros nómadas.
Porque estou farto
de todo este engano,
desta reunião para fins de caridade,
que pouco a pouco e sem descanso
me recupera,
me torna apto
para chegar ao dia de amanhã,
o tempo enfim dos poros em putrefacção,
a minha morte.
É um adiamento
sem igual -
cada vez mais ímpar,
que só o homem podia inventar
na sua perturbação distraída,
no seu esforço.
Por isso a sociedade
às vezes ainda me irrita,
e eu a mim próprio mas cada vez menos.
Pois o que procuro é:
tão só um lugar, onde fôssemos
como animais lentos,
como objectos reencontrados.
Onde fosse comparável ao teu
o mapa das linhas da minha mão,
o tom desmaiado das minhas gengivas,
a trama inútil dos meus gestos.
PÉTER ZIRKULI
sábado, 15 de janeiro de 2011
Menina do Brasil
Era uma menina linda
Olhos cheios de esperança
Queria pouco da vida
Apenas uma criança
Era uma menina sapeca
Revestida de alegria
Só desejava uma boneca
Pra lhe fazer companhia
Era uma menina pura
Sonhava os contos de fadas
Alma cheia de ternura
Ainda brincava de mãos dadas
Era menina faceira
Coração doce e apaixonado
Só pensava em brincadeira
Vivia num mundo encantado
Era menina tão bela
Sorriso cheio de amor
Sonhava ser cinderela
Desabrochava em flor
Era menina da favela
Pés no chão, sonhos na lua
Triste sorte da bela
Só queria sair da rua
Era menina de tantos brasis
Filha do sertão e da cidade
Só queria ser feliz
Num lar sem frio e maldade
Era menina brasileira
Filha da desigualdade
Sonhava pra vida inteira
Apenas a felicidade
Era menina inocente
Acreditava nos homens
E tudo que tinha na mente
Era matar sua fome
Era menina esperança
Continuava a sonhar
Só queria ser criança
Sem fome poder brincar
Era menina do noticiário
Vendida por algum dinheiro
Por mais um salafrário
A um gringo estrangeiro
Era, agora, uma menina triste...
Sirlei L. Passolongo
Olhos cheios de esperança
Queria pouco da vida
Apenas uma criança
Era uma menina sapeca
Revestida de alegria
Só desejava uma boneca
Pra lhe fazer companhia
Era uma menina pura
Sonhava os contos de fadas
Alma cheia de ternura
Ainda brincava de mãos dadas
Era menina faceira
Coração doce e apaixonado
Só pensava em brincadeira
Vivia num mundo encantado
Era menina tão bela
Sorriso cheio de amor
Sonhava ser cinderela
Desabrochava em flor
Era menina da favela
Pés no chão, sonhos na lua
Triste sorte da bela
Só queria sair da rua
Era menina de tantos brasis
Filha do sertão e da cidade
Só queria ser feliz
Num lar sem frio e maldade
Era menina brasileira
Filha da desigualdade
Sonhava pra vida inteira
Apenas a felicidade
Era menina inocente
Acreditava nos homens
E tudo que tinha na mente
Era matar sua fome
Era menina esperança
Continuava a sonhar
Só queria ser criança
Sem fome poder brincar
Era menina do noticiário
Vendida por algum dinheiro
Por mais um salafrário
A um gringo estrangeiro
Era, agora, uma menina triste...
Sirlei L. Passolongo
Eu acho que
buscar a beleza das palavras
é uma solenidade de amor.
E pode ser instrumento de rir.
Aprendo a brincar de palavras
mais do que trabalhar com elas.
Comecei a não gostar de palavra engavetada.
Aquela que não pode mudar de lugar.
Aprendi a gostar mais das palavras pelo que
elas entoam do que pelo que elas informam.
Por depois ouvi um vaqueiro
a cantar com saudade :
Ai morena, não me escreve
que eu não sei a ler .
Aquele 'a' preposto ao verbo ler, ao mesmo ouvir,
ampliava a solidão do vaqueiro.
Manoel de Barros
buscar a beleza das palavras
é uma solenidade de amor.
E pode ser instrumento de rir.
Aprendo a brincar de palavras
mais do que trabalhar com elas.
Comecei a não gostar de palavra engavetada.
Aquela que não pode mudar de lugar.
Aprendi a gostar mais das palavras pelo que
elas entoam do que pelo que elas informam.
Por depois ouvi um vaqueiro
a cantar com saudade :
Ai morena, não me escreve
que eu não sei a ler .
Aquele 'a' preposto ao verbo ler, ao mesmo ouvir,
ampliava a solidão do vaqueiro.
Manoel de Barros
El collar
Era una de esas hermosas y encantadoras criaturas nacidas como por un error del destino en una familia de empleados. Carecía de dote, y no tenía esperanzas de cambiar de posición; no disponía de ningún medio para ser conocida, comprendida, querida, para encontrar un esposo rico y distinguido; y aceptó entonces casarse con un modesto empleado del Ministerio de Instrucción Pública.
No pudiendo adornarse, fue sencilla, pero desgraciada, como una mujer obligada por la suerte a vivir en una esfera inferior a la que le corresponde; porque las mujeres no tienen casta ni raza, pues su belleza, su atractivo y su encanto les sirven de ejecutoria y de familia. Su nativa firmeza, su instinto de elegancia y su flexibilidad de espíritu son para ellas la única jerarquía, que iguala a las hijas del pueblo con las más grandes señoras.
Sufría constantemente, sintiéndose nacida para todas las delicadezas y todos los lujos. Sufría contemplando la pobreza de su hogar, la miseria de las paredes, sus estropeadas sillas, su fea indumentaria. Todas estas cosas, en las cuales ni siquiera habría reparado ninguna otra mujer de su casa, la torturaban y la llenaban de indignación.
La vista de la muchacha bretona que les servía de criada despertaba en ella pesares desolados y delirantes ensueños. Pensaba en las antecámaras mudas, guarnecidas de tapices orientales, alumbradas por altas lámparas de bronce y en los dos pulcros lacayos de calzón corto, dormidos en anchos sillones, amodorrados por el intenso calor de la estufa. Pensaba en los grandes salones colgados de sedas antiguas, en los finos muebles repletos de figurillas inestimables y en los saloncillos coquetones, perfumados, dispuestos para hablar cinco horas con los amigos más íntimos, los hombres famosos y agasajados, cuyas atenciones ambicionan todas las mujeres.
Cuando, a las horas de comer, se sentaba delante de una mesa redonda, cubierta por un mantel de tres días, frente a su esposo, que destapaba la sopera, diciendo con aire de satisfacción: "¡Ah! ¡Qué buen caldo! ¡No hay nada para mí tan excelente como esto!", pensaba en las comidas delicadas, en los servicios de plata resplandecientes, en los tapices que cubren las paredes con personajes antiguos y aves extrañas dentro de un bosque fantástico; pensaba en los exquisitos y selectos manjares, ofrecidos en fuentes maravillosas; en las galanterías murmuradas y escuchadas con sonrisa de esfinge, al tiempo que se paladea la sonrosada carne de una trucha o un alón de faisán.
No poseía galas femeninas, ni una joya; nada absolutamente y sólo aquello de que carecía le gustaba; no se sentía formada sino para aquellos goces imposibles. ¡Cuánto habría dado por agradar, ser envidiada, ser atractiva y asediada!
Tenía una amiga rica, una compañera de colegio a la cual no quería ir a ver con frecuencia, porque sufría más al regresar a su casa. Días y días pasaba después llorando de pena, de pesar, de desesperación.
Una mañana el marido volvió a su casa con expresión triunfante y agitando en la mano un ancho sobre.
-Mira, mujer -dijo-, aquí tienes una cosa para ti.
Ella rompió vivamente la envoltura y sacó un pliego impreso que decía:
"El ministro de Instrucción Pública y señora ruegan al señor y la señora de Loisel les hagan el honor de pasar la velada del lunes 18 de enero en el hotel del Ministerio."
En lugar de enloquecer de alegría, como pensaba su esposo, tiró la invitación sobre la mesa, murmurando con desprecio:
-¿Qué haré yo con eso?
-Creí, mujercita mía, que con ello te procuraba una gran satisfacción. ¡Sales tan poco, y es tan oportuna la ocasión que hoy se te presenta!... Te advierto que me ha costado bastante trabajo obtener esa invitación. Todos las buscan, las persiguen; son muy solicitadas y se reparten pocas entre los empleados. Verás allí a todo el mundo oficial.
Clavando en su esposo una mirada llena de angustia, le dijo con impaciencia:
-¿Qué quieres que me ponga para ir allá?
No se había preocupado él de semejante cosa, y balbució:
-Pues el traje que llevas cuando vamos al teatro. Me parece muy bonito...
Se calló, estupefacto, atontado, viendo que su mujer lloraba. Dos gruesas lágrimas se desprendían de sus ojos, lentamente, para rodar por sus mejillas.
El hombre murmuró:
-¿Qué te sucede? Pero ¿qué te sucede?
Mas ella, valientemente, haciendo un esfuerzo, había vencido su pena y respondió con tranquila voz, enjugando sus húmedas mejillas:
-Nada; que no tengo vestido para ir a esa fiesta. Da la invitación a cualquier colega cuya mujer se encuentre mejor provista de ropa que yo.
Él estaba desolado, y dijo:
-Vamos a ver, Matilde. ¿Cuánto te costaría un traje decente, que pudiera servirte en otras ocasiones, un traje sencillito?
Ella meditó unos segundos, haciendo sus cuentas y pensando asimismo en la suma que podía pedir sin provocar una negativa rotunda y una exclamación de asombro del empleadillo.
Respondió, al fin, titubeando:
-No lo sé con seguridad, pero creo que con cuatrocientos francos me arreglaría.
El marido palideció, pues reservaba precisamente esta cantidad para comprar una escopeta, pensando ir de caza en verano, a la llanura de Nanterre, con algunos amigos que salían a tirar a las alondras los domingos.
Dijo, no obstante:
-Bien. Te doy los cuatrocientos francos. Pero trata de que tu vestido luzca lo más posible, ya que hacemos el sacrificio.
El día de la fiesta se acercaba y la señora de Loisel parecía triste, inquieta, ansiosa. Sin embargo, el vestido estuvo hecho a tiempo. Su esposo le dijo una noche:
-¿Qué te pasa? Te veo inquieta y pensativa desde hace tres días.
Y ella respondió:
-Me disgusta no tener ni una alhaja, ni una sola joya que ponerme. Pareceré, de todos modos, una miserable. Casi, casi me gustaría más no ir a ese baile.
-Ponte unas cuantas flores naturales -replicó él-. Eso es muy elegante, sobre todo en este tiempo, y por diez francos encontrarás dos o tres rosas magníficas.
Ella no quería convencerse.
-No hay nada tan humillante como parecer una pobre en medio de mujeres ricas.
Pero su marido exclamó:
-¡Qué tonta eres! Anda a ver a tu compañera de colegio, la señora de Forestier, y ruégale que te preste unas alhajas. Eres bastante amiga suya para tomarte esa libertad.
La mujer dejó escapar un grito de alegría.
-Tienes razón, no había pensado en ello.
Al siguiente día fue a casa de su amiga y le contó su apuro.
La señora de Forestier fue a un armario de espejo, cogió un cofrecillo, lo sacó, lo abrió y dijo a la señora de Loisel:
-Escoge, querida.
Primero vio brazaletes; luego, un collar de perlas; luego, una cruz veneciana de oro, y pedrería primorosamente construida. Se probaba aquellas joyas ante el espejo, vacilando, no pudiendo decidirse a abandonarlas, a devolverlas. Preguntaba sin cesar:
-¿No tienes ninguna otra?
-Sí, mujer. Dime qué quieres. No sé lo que a ti te agradaría.
De repente descubrió, en una caja de raso negro, un soberbio collar de brillantes, y su corazón empezó a latir de un modo inmoderado.
Sus manos temblaron al tomarlo. Se lo puso, rodeando con él su cuello, y permaneció en éxtasis contemplando su imagen.
Luego preguntó, vacilante, llena de angustia:
-¿Quieres prestármelo? No quisiera llevar otra joya.
-Sí, mujer.
Abrazó y besó a su amiga con entusiasmo, y luego escapó con su tesoro.
Llegó el día de la fiesta. La señora de Loisel tuvo un verdadero triunfo. Era más bonita que las otras y estaba elegante, graciosa, sonriente y loca de alegría. Todos los hombres la miraban, preguntaban su nombre, trataban de serle presentados. Todos los directores generales querían bailar con ella. El ministro reparó en su hermosura.
Ella bailaba con embriaguez, con pasión, inundada de alegría, no pensando ya en nada más que en el triunfo de su belleza, en la gloria de aquel triunfo, en una especie de dicha formada por todos los homenajes que recibía, por todas las admiraciones, por todos los deseos despertados, por una victoria tan completa y tan dulce para un alma de mujer.
Se fue hacia las cuatro de la madrugada. Su marido, desde medianoche, dormía en un saloncito vacío, junto con otros tres caballeros cuyas mujeres se divertían mucho.
Él le echó sobre los hombros el abrigo que había llevado para la salida, modesto abrigo de su vestir ordinario, cuya pobreza contrastaba extrañamente con la elegancia del traje de baile. Ella lo sintió y quiso huir, para no ser vista por las otras mujeres que se envolvían en ricas pieles.
Loisel la retuvo diciendo:
-Espera, mujer, vas a resfriarte a la salida. Iré a buscar un coche.
Pero ella no le oía, y bajó rápidamente la escalera.
Cuando estuvieron en la calle no encontraron coche, y se pusieron a buscar, dando voces a los cocheros que veían pasar a lo lejos.
Anduvieron hacia el Sena desesperados, tiritando. Por fin pudieron hallar una de esas vetustas berlinas que sólo aparecen en las calles de París cuando la noche cierra, cual si les avergonzase su miseria durante el día.
Los llevó hasta la puerta de su casa, situada en la calle de los Mártires, y entraron tristemente en el portal. Pensaba, el hombre, apesadumbrado, en que a las diez había de ir a la oficina.
La mujer se quitó el abrigo que llevaba echado sobre los hombros, delante del espejo, a fin de contemplarse aún una vez más ricamente alhajada. Pero de repente dejó escapar un grito.
Su esposo, ya medio desnudo, le preguntó:
-¿Qué tienes?
Ella se volvió hacia él, acongojada.
-Tengo..., tengo... -balbució - que no encuentro el collar de la señora de Forestier.
Él se irguió, sobrecogido:
-¿Eh?... ¿cómo? ¡No es posible!
Y buscaron entre los adornos del traje, en los pliegues del abrigo, en los bolsillos, en todas partes. No lo encontraron.
Él preguntaba:
-¿Estás segura de que lo llevabas al salir del baile?
-Sí, lo toqué al cruzar el vestíbulo del Ministerio.
-Pero si lo hubieras perdido en la calle, lo habríamos oído caer.
-Debe estar en el coche.
-Sí. Es probable. ¿Te fijaste qué número tenía?
-No. Y tú, ¿no lo miraste?
-No.
Se contemplaron aterrados. Loisel se vistió por fin.
-Voy -dijo- a recorrer a pie todo el camino que hemos hecho, a ver si por casualidad lo encuentro.
Y salió. Ella permaneció en traje de baile, sin fuerzas para irse a la cama, desplomada en una silla, sin lumbre, casi helada, sin ideas, casi estúpida.
Su marido volvió hacia las siete. No había encontrado nada.
Fue a la Prefectura de Policía, a las redacciones de los periódicos, para publicar un anuncio ofreciendo una gratificación por el hallazgo; fue a las oficinas de las empresas de coches, a todas partes donde podía ofrecérsele alguna esperanza.
Ella le aguardó todo el día, con el mismo abatimiento desesperado ante aquel horrible desastre.
Loisel regresó por la noche con el rostro demacrado, pálido; no había podido averiguar nada.
-Es menester -dijo- que escribas a tu amiga enterándola de que has roto el broche de su collar y que lo has dado a componer. Así ganaremos tiempo.
Ella escribió lo que su marido le decía.
Al cabo de una semana perdieron hasta la última esperanza.
Y Loisel, envejecido por aquel desastre, como si de pronto le hubieran echado encima cinco años, manifestó:
-Es necesario hacer lo posible por reemplazar esa alhaja por otra semejante.
Al día siguiente llevaron el estuche del collar a casa del joyero cuyo nombre se leía en su interior.
El comerciante, después de consultar sus libros, respondió:
-Señora, no salió de mi casa collar alguno en este estuche, que vendí vacío para complacer a un cliente.
Anduvieron de joyería en joyería, buscando una alhaja semejante a la perdida, recordándola, describiéndola, tristes y angustiosos.
Encontraron, en una tienda del Palais Royal, un collar de brillantes que les pareció idéntico al que buscaban. Valía cuarenta mil francos, y regateándolo consiguieron que se lo dejaran en treinta y seis mil.
Rogaron al joyero que se los reservase por tres días, poniendo por condición que les daría por él treinta y cuatro mil francos si se lo devolvían, porque el otro se encontrara antes de fines de febrero.
Loisel poseía dieciocho mil que le había dejado su padre. Pediría prestado el resto.
Y, efectivamente, tomó mil francos de uno, quinientos de otro, cinco luises aquí, tres allá. Hizo pagarés, adquirió compromisos ruinosos, tuvo tratos con usureros, con toda clase de prestamistas. Se comprometió para toda la vida, firmó sin saber lo que firmaba, sin detenerse a pensar, y, espantado por las angustias del porvenir, por la horrible miseria que los aguardaba, por la perspectiva de todas las privaciones físicas y de todas las torturas morales, fue en busca del collar nuevo, dejando sobre el mostrador del comerciante treinta y seis mil francos.
Cuando la señora de Loisel devolvió la joya a su amiga, ésta le dijo un tanto displicente:
-Debiste devolvérmelo antes, porque bien pude yo haberlo necesitado.
No abrió siquiera el estuche, y eso lo juzgó la otra una suerte. Si notara la sustitución, ¿qué supondría? ¿No era posible que imaginara que lo habían cambiado de intento?
La señora de Loisel conoció la vida horrible de los menesterosos. Tuvo energía para adoptar una resolución inmediata y heroica. Era necesario devolver aquel dinero que debían... Despidieron a la criada, buscaron una habitación más económica, una buhardilla.
Conoció los duros trabajos de la casa, las odiosas tareas de la cocina. Fregó los platos, desgastando sus uñitas sonrosadas sobre los pucheros grasientos y en el fondo de las cacerolas. Enjabonó la ropa sucia, las camisas y los paños, que ponía a secar en una cuerda; bajó a la calle todas las mañanas la basura y subió el agua, deteniéndose en todos los pisos para tomar aliento. Y, vestida como una pobre mujer de humilde condición, fue a casa del verdulero, del tendero de comestibles y del carnicero, con la cesta al brazo, regateando, teniendo que sufrir desprecios y hasta insultos, porque defendía céntimo a céntimo su dinero escasísimo.
Era necesario mensualmente recoger unos pagarés, renovar otros, ganar tiempo.
El marido se ocupaba por las noches en poner en limpio las cuentas de un comerciante, y a veces escribía a veinticinco céntimos la hoja.
Y vivieron así diez años.
Al cabo de dicho tiempo lo habían ya pagado todo, todo, capital e intereses, multiplicados por las renovaciones usurarias.
La señora Loisel parecía entonces una vieja. Se había transformado en la mujer fuerte, dura y ruda de las familias pobres. Mal peinada, con las faldas torcidas y rojas las manos, hablaba en voz alta, fregaba los suelos con agua fría. Pero a veces, cuando su marido estaba en el Ministerio, se sentaba junto a la ventana, pensando en aquella fiesta de otro tiempo, en aquel baile donde lució tanto y donde fue tan festejada.
¿Cuál sería su fortuna, su estado al presente, si no hubiera perdido el collar? ¡Quién sabe! ¡Quién sabe! ¡Qué mudanzas tan singulares ofrece la vida! ¡Qué poco hace falta para perderse o para salvarse!
Un domingo, habiendo ido a dar un paseo por los Campos Elíseos para descansar de las fatigas de la semana, reparó de pronto en una señora que pasaba con un niño cogido de la mano.
Era su antigua compañera de colegio, siempre joven, hermosa siempre y siempre seductora. La de Loisel sintió un escalofrío. ¿Se decidiría a detenerla y saludarla? ¿Por qué no? Habíéndolo pagado ya todo, podía confesar, casi con orgullo, su desdicha.
Se puso frente a ella y dijo:
-Buenos días, Juana.
La otra no la reconoció, admirándose de verse tan familiarmente tratada por aquella infeliz. Balbució:
-Pero..., ¡señora!.., no sé. .. Usted debe de confundirse...
-No. Soy Matilde Loisel.
Su amiga lanzó un grito de sorpresa.
-¡Oh! ¡Mi pobre Matilde, qué cambiada estás! ...
-¡Sí; muy malos días he pasado desde que no te veo, y además bastantes miserias.... todo por ti...
-¿Por mí? ¿Cómo es eso?
-¿Recuerdas aquel collar de brillantes que me prestaste para ir al baile del Ministerio?
-¡Sí, pero...
-Pues bien: lo perdí...
-¡Cómo! ¡Si me lo devolviste!
-Te devolví otro semejante. Y hemos tenido que sacrificarnos diez años para pagarlo. Comprenderás que representaba una fortuna para nosotros, que sólo teníamos el sueldo. En fin, a lo hecho pecho, y estoy muy satisfecha.
La señora de Forestier se había detenido.
-¿Dices que compraste un collar de brillantes para sustituir al mío?
-Sí. No lo habrás notado, ¿eh? Casi eran idénticos.
Y al decir esto, sonreía orgullosa de su noble sencillez. La señora de Forestier, sumamente impresionada, le cogió ambas manos:
-¡Oh! ¡Mi pobre Matilde! ¡Pero si el collar que yo te presté era de piedras falsas!... ¡Valía quinientos francos a lo sumo!...
FIN
Guy de Maupassant
Fonte: Ciudad Seva
No pudiendo adornarse, fue sencilla, pero desgraciada, como una mujer obligada por la suerte a vivir en una esfera inferior a la que le corresponde; porque las mujeres no tienen casta ni raza, pues su belleza, su atractivo y su encanto les sirven de ejecutoria y de familia. Su nativa firmeza, su instinto de elegancia y su flexibilidad de espíritu son para ellas la única jerarquía, que iguala a las hijas del pueblo con las más grandes señoras.
Sufría constantemente, sintiéndose nacida para todas las delicadezas y todos los lujos. Sufría contemplando la pobreza de su hogar, la miseria de las paredes, sus estropeadas sillas, su fea indumentaria. Todas estas cosas, en las cuales ni siquiera habría reparado ninguna otra mujer de su casa, la torturaban y la llenaban de indignación.
La vista de la muchacha bretona que les servía de criada despertaba en ella pesares desolados y delirantes ensueños. Pensaba en las antecámaras mudas, guarnecidas de tapices orientales, alumbradas por altas lámparas de bronce y en los dos pulcros lacayos de calzón corto, dormidos en anchos sillones, amodorrados por el intenso calor de la estufa. Pensaba en los grandes salones colgados de sedas antiguas, en los finos muebles repletos de figurillas inestimables y en los saloncillos coquetones, perfumados, dispuestos para hablar cinco horas con los amigos más íntimos, los hombres famosos y agasajados, cuyas atenciones ambicionan todas las mujeres.
Cuando, a las horas de comer, se sentaba delante de una mesa redonda, cubierta por un mantel de tres días, frente a su esposo, que destapaba la sopera, diciendo con aire de satisfacción: "¡Ah! ¡Qué buen caldo! ¡No hay nada para mí tan excelente como esto!", pensaba en las comidas delicadas, en los servicios de plata resplandecientes, en los tapices que cubren las paredes con personajes antiguos y aves extrañas dentro de un bosque fantástico; pensaba en los exquisitos y selectos manjares, ofrecidos en fuentes maravillosas; en las galanterías murmuradas y escuchadas con sonrisa de esfinge, al tiempo que se paladea la sonrosada carne de una trucha o un alón de faisán.
No poseía galas femeninas, ni una joya; nada absolutamente y sólo aquello de que carecía le gustaba; no se sentía formada sino para aquellos goces imposibles. ¡Cuánto habría dado por agradar, ser envidiada, ser atractiva y asediada!
Tenía una amiga rica, una compañera de colegio a la cual no quería ir a ver con frecuencia, porque sufría más al regresar a su casa. Días y días pasaba después llorando de pena, de pesar, de desesperación.
Una mañana el marido volvió a su casa con expresión triunfante y agitando en la mano un ancho sobre.
-Mira, mujer -dijo-, aquí tienes una cosa para ti.
Ella rompió vivamente la envoltura y sacó un pliego impreso que decía:
"El ministro de Instrucción Pública y señora ruegan al señor y la señora de Loisel les hagan el honor de pasar la velada del lunes 18 de enero en el hotel del Ministerio."
En lugar de enloquecer de alegría, como pensaba su esposo, tiró la invitación sobre la mesa, murmurando con desprecio:
-¿Qué haré yo con eso?
-Creí, mujercita mía, que con ello te procuraba una gran satisfacción. ¡Sales tan poco, y es tan oportuna la ocasión que hoy se te presenta!... Te advierto que me ha costado bastante trabajo obtener esa invitación. Todos las buscan, las persiguen; son muy solicitadas y se reparten pocas entre los empleados. Verás allí a todo el mundo oficial.
Clavando en su esposo una mirada llena de angustia, le dijo con impaciencia:
-¿Qué quieres que me ponga para ir allá?
No se había preocupado él de semejante cosa, y balbució:
-Pues el traje que llevas cuando vamos al teatro. Me parece muy bonito...
Se calló, estupefacto, atontado, viendo que su mujer lloraba. Dos gruesas lágrimas se desprendían de sus ojos, lentamente, para rodar por sus mejillas.
El hombre murmuró:
-¿Qué te sucede? Pero ¿qué te sucede?
Mas ella, valientemente, haciendo un esfuerzo, había vencido su pena y respondió con tranquila voz, enjugando sus húmedas mejillas:
-Nada; que no tengo vestido para ir a esa fiesta. Da la invitación a cualquier colega cuya mujer se encuentre mejor provista de ropa que yo.
Él estaba desolado, y dijo:
-Vamos a ver, Matilde. ¿Cuánto te costaría un traje decente, que pudiera servirte en otras ocasiones, un traje sencillito?
Ella meditó unos segundos, haciendo sus cuentas y pensando asimismo en la suma que podía pedir sin provocar una negativa rotunda y una exclamación de asombro del empleadillo.
Respondió, al fin, titubeando:
-No lo sé con seguridad, pero creo que con cuatrocientos francos me arreglaría.
El marido palideció, pues reservaba precisamente esta cantidad para comprar una escopeta, pensando ir de caza en verano, a la llanura de Nanterre, con algunos amigos que salían a tirar a las alondras los domingos.
Dijo, no obstante:
-Bien. Te doy los cuatrocientos francos. Pero trata de que tu vestido luzca lo más posible, ya que hacemos el sacrificio.
El día de la fiesta se acercaba y la señora de Loisel parecía triste, inquieta, ansiosa. Sin embargo, el vestido estuvo hecho a tiempo. Su esposo le dijo una noche:
-¿Qué te pasa? Te veo inquieta y pensativa desde hace tres días.
Y ella respondió:
-Me disgusta no tener ni una alhaja, ni una sola joya que ponerme. Pareceré, de todos modos, una miserable. Casi, casi me gustaría más no ir a ese baile.
-Ponte unas cuantas flores naturales -replicó él-. Eso es muy elegante, sobre todo en este tiempo, y por diez francos encontrarás dos o tres rosas magníficas.
Ella no quería convencerse.
-No hay nada tan humillante como parecer una pobre en medio de mujeres ricas.
Pero su marido exclamó:
-¡Qué tonta eres! Anda a ver a tu compañera de colegio, la señora de Forestier, y ruégale que te preste unas alhajas. Eres bastante amiga suya para tomarte esa libertad.
La mujer dejó escapar un grito de alegría.
-Tienes razón, no había pensado en ello.
Al siguiente día fue a casa de su amiga y le contó su apuro.
La señora de Forestier fue a un armario de espejo, cogió un cofrecillo, lo sacó, lo abrió y dijo a la señora de Loisel:
-Escoge, querida.
Primero vio brazaletes; luego, un collar de perlas; luego, una cruz veneciana de oro, y pedrería primorosamente construida. Se probaba aquellas joyas ante el espejo, vacilando, no pudiendo decidirse a abandonarlas, a devolverlas. Preguntaba sin cesar:
-¿No tienes ninguna otra?
-Sí, mujer. Dime qué quieres. No sé lo que a ti te agradaría.
De repente descubrió, en una caja de raso negro, un soberbio collar de brillantes, y su corazón empezó a latir de un modo inmoderado.
Sus manos temblaron al tomarlo. Se lo puso, rodeando con él su cuello, y permaneció en éxtasis contemplando su imagen.
Luego preguntó, vacilante, llena de angustia:
-¿Quieres prestármelo? No quisiera llevar otra joya.
-Sí, mujer.
Abrazó y besó a su amiga con entusiasmo, y luego escapó con su tesoro.
Llegó el día de la fiesta. La señora de Loisel tuvo un verdadero triunfo. Era más bonita que las otras y estaba elegante, graciosa, sonriente y loca de alegría. Todos los hombres la miraban, preguntaban su nombre, trataban de serle presentados. Todos los directores generales querían bailar con ella. El ministro reparó en su hermosura.
Ella bailaba con embriaguez, con pasión, inundada de alegría, no pensando ya en nada más que en el triunfo de su belleza, en la gloria de aquel triunfo, en una especie de dicha formada por todos los homenajes que recibía, por todas las admiraciones, por todos los deseos despertados, por una victoria tan completa y tan dulce para un alma de mujer.
Se fue hacia las cuatro de la madrugada. Su marido, desde medianoche, dormía en un saloncito vacío, junto con otros tres caballeros cuyas mujeres se divertían mucho.
Él le echó sobre los hombros el abrigo que había llevado para la salida, modesto abrigo de su vestir ordinario, cuya pobreza contrastaba extrañamente con la elegancia del traje de baile. Ella lo sintió y quiso huir, para no ser vista por las otras mujeres que se envolvían en ricas pieles.
Loisel la retuvo diciendo:
-Espera, mujer, vas a resfriarte a la salida. Iré a buscar un coche.
Pero ella no le oía, y bajó rápidamente la escalera.
Cuando estuvieron en la calle no encontraron coche, y se pusieron a buscar, dando voces a los cocheros que veían pasar a lo lejos.
Anduvieron hacia el Sena desesperados, tiritando. Por fin pudieron hallar una de esas vetustas berlinas que sólo aparecen en las calles de París cuando la noche cierra, cual si les avergonzase su miseria durante el día.
Los llevó hasta la puerta de su casa, situada en la calle de los Mártires, y entraron tristemente en el portal. Pensaba, el hombre, apesadumbrado, en que a las diez había de ir a la oficina.
La mujer se quitó el abrigo que llevaba echado sobre los hombros, delante del espejo, a fin de contemplarse aún una vez más ricamente alhajada. Pero de repente dejó escapar un grito.
Su esposo, ya medio desnudo, le preguntó:
-¿Qué tienes?
Ella se volvió hacia él, acongojada.
-Tengo..., tengo... -balbució - que no encuentro el collar de la señora de Forestier.
Él se irguió, sobrecogido:
-¿Eh?... ¿cómo? ¡No es posible!
Y buscaron entre los adornos del traje, en los pliegues del abrigo, en los bolsillos, en todas partes. No lo encontraron.
Él preguntaba:
-¿Estás segura de que lo llevabas al salir del baile?
-Sí, lo toqué al cruzar el vestíbulo del Ministerio.
-Pero si lo hubieras perdido en la calle, lo habríamos oído caer.
-Debe estar en el coche.
-Sí. Es probable. ¿Te fijaste qué número tenía?
-No. Y tú, ¿no lo miraste?
-No.
Se contemplaron aterrados. Loisel se vistió por fin.
-Voy -dijo- a recorrer a pie todo el camino que hemos hecho, a ver si por casualidad lo encuentro.
Y salió. Ella permaneció en traje de baile, sin fuerzas para irse a la cama, desplomada en una silla, sin lumbre, casi helada, sin ideas, casi estúpida.
Su marido volvió hacia las siete. No había encontrado nada.
Fue a la Prefectura de Policía, a las redacciones de los periódicos, para publicar un anuncio ofreciendo una gratificación por el hallazgo; fue a las oficinas de las empresas de coches, a todas partes donde podía ofrecérsele alguna esperanza.
Ella le aguardó todo el día, con el mismo abatimiento desesperado ante aquel horrible desastre.
Loisel regresó por la noche con el rostro demacrado, pálido; no había podido averiguar nada.
-Es menester -dijo- que escribas a tu amiga enterándola de que has roto el broche de su collar y que lo has dado a componer. Así ganaremos tiempo.
Ella escribió lo que su marido le decía.
Al cabo de una semana perdieron hasta la última esperanza.
Y Loisel, envejecido por aquel desastre, como si de pronto le hubieran echado encima cinco años, manifestó:
-Es necesario hacer lo posible por reemplazar esa alhaja por otra semejante.
Al día siguiente llevaron el estuche del collar a casa del joyero cuyo nombre se leía en su interior.
El comerciante, después de consultar sus libros, respondió:
-Señora, no salió de mi casa collar alguno en este estuche, que vendí vacío para complacer a un cliente.
Anduvieron de joyería en joyería, buscando una alhaja semejante a la perdida, recordándola, describiéndola, tristes y angustiosos.
Encontraron, en una tienda del Palais Royal, un collar de brillantes que les pareció idéntico al que buscaban. Valía cuarenta mil francos, y regateándolo consiguieron que se lo dejaran en treinta y seis mil.
Rogaron al joyero que se los reservase por tres días, poniendo por condición que les daría por él treinta y cuatro mil francos si se lo devolvían, porque el otro se encontrara antes de fines de febrero.
Loisel poseía dieciocho mil que le había dejado su padre. Pediría prestado el resto.
Y, efectivamente, tomó mil francos de uno, quinientos de otro, cinco luises aquí, tres allá. Hizo pagarés, adquirió compromisos ruinosos, tuvo tratos con usureros, con toda clase de prestamistas. Se comprometió para toda la vida, firmó sin saber lo que firmaba, sin detenerse a pensar, y, espantado por las angustias del porvenir, por la horrible miseria que los aguardaba, por la perspectiva de todas las privaciones físicas y de todas las torturas morales, fue en busca del collar nuevo, dejando sobre el mostrador del comerciante treinta y seis mil francos.
Cuando la señora de Loisel devolvió la joya a su amiga, ésta le dijo un tanto displicente:
-Debiste devolvérmelo antes, porque bien pude yo haberlo necesitado.
No abrió siquiera el estuche, y eso lo juzgó la otra una suerte. Si notara la sustitución, ¿qué supondría? ¿No era posible que imaginara que lo habían cambiado de intento?
La señora de Loisel conoció la vida horrible de los menesterosos. Tuvo energía para adoptar una resolución inmediata y heroica. Era necesario devolver aquel dinero que debían... Despidieron a la criada, buscaron una habitación más económica, una buhardilla.
Conoció los duros trabajos de la casa, las odiosas tareas de la cocina. Fregó los platos, desgastando sus uñitas sonrosadas sobre los pucheros grasientos y en el fondo de las cacerolas. Enjabonó la ropa sucia, las camisas y los paños, que ponía a secar en una cuerda; bajó a la calle todas las mañanas la basura y subió el agua, deteniéndose en todos los pisos para tomar aliento. Y, vestida como una pobre mujer de humilde condición, fue a casa del verdulero, del tendero de comestibles y del carnicero, con la cesta al brazo, regateando, teniendo que sufrir desprecios y hasta insultos, porque defendía céntimo a céntimo su dinero escasísimo.
Era necesario mensualmente recoger unos pagarés, renovar otros, ganar tiempo.
El marido se ocupaba por las noches en poner en limpio las cuentas de un comerciante, y a veces escribía a veinticinco céntimos la hoja.
Y vivieron así diez años.
Al cabo de dicho tiempo lo habían ya pagado todo, todo, capital e intereses, multiplicados por las renovaciones usurarias.
La señora Loisel parecía entonces una vieja. Se había transformado en la mujer fuerte, dura y ruda de las familias pobres. Mal peinada, con las faldas torcidas y rojas las manos, hablaba en voz alta, fregaba los suelos con agua fría. Pero a veces, cuando su marido estaba en el Ministerio, se sentaba junto a la ventana, pensando en aquella fiesta de otro tiempo, en aquel baile donde lució tanto y donde fue tan festejada.
¿Cuál sería su fortuna, su estado al presente, si no hubiera perdido el collar? ¡Quién sabe! ¡Quién sabe! ¡Qué mudanzas tan singulares ofrece la vida! ¡Qué poco hace falta para perderse o para salvarse!
Un domingo, habiendo ido a dar un paseo por los Campos Elíseos para descansar de las fatigas de la semana, reparó de pronto en una señora que pasaba con un niño cogido de la mano.
Era su antigua compañera de colegio, siempre joven, hermosa siempre y siempre seductora. La de Loisel sintió un escalofrío. ¿Se decidiría a detenerla y saludarla? ¿Por qué no? Habíéndolo pagado ya todo, podía confesar, casi con orgullo, su desdicha.
Se puso frente a ella y dijo:
-Buenos días, Juana.
La otra no la reconoció, admirándose de verse tan familiarmente tratada por aquella infeliz. Balbució:
-Pero..., ¡señora!.., no sé. .. Usted debe de confundirse...
-No. Soy Matilde Loisel.
Su amiga lanzó un grito de sorpresa.
-¡Oh! ¡Mi pobre Matilde, qué cambiada estás! ...
-¡Sí; muy malos días he pasado desde que no te veo, y además bastantes miserias.... todo por ti...
-¿Por mí? ¿Cómo es eso?
-¿Recuerdas aquel collar de brillantes que me prestaste para ir al baile del Ministerio?
-¡Sí, pero...
-Pues bien: lo perdí...
-¡Cómo! ¡Si me lo devolviste!
-Te devolví otro semejante. Y hemos tenido que sacrificarnos diez años para pagarlo. Comprenderás que representaba una fortuna para nosotros, que sólo teníamos el sueldo. En fin, a lo hecho pecho, y estoy muy satisfecha.
La señora de Forestier se había detenido.
-¿Dices que compraste un collar de brillantes para sustituir al mío?
-Sí. No lo habrás notado, ¿eh? Casi eran idénticos.
Y al decir esto, sonreía orgullosa de su noble sencillez. La señora de Forestier, sumamente impresionada, le cogió ambas manos:
-¡Oh! ¡Mi pobre Matilde! ¡Pero si el collar que yo te presté era de piedras falsas!... ¡Valía quinientos francos a lo sumo!...
FIN
Guy de Maupassant
Fonte: Ciudad Seva
Touradas em Madrid
Olé, abre-se as porteiras,solta-se o touro
O toureiro abre a muleta bordada de ouro e vermelho
Acenando para o touro
O vermelho aguça os sentidos do touro
No bufa,bufa,luta pela própria vida
O homem grita, olé,gladiando na arena, infla a platéia insana
O tempo no tempo parou,na "Plaza de toros"
Só se ouve o Olé os ídulos brilham com uma orelha nas mãos,
Na dança da morte, o triunfo do toureiro
.
Dora Dimolitsas
O toureiro abre a muleta bordada de ouro e vermelho
Acenando para o touro
O vermelho aguça os sentidos do touro
No bufa,bufa,luta pela própria vida
O homem grita, olé,gladiando na arena, infla a platéia insana
O tempo no tempo parou,na "Plaza de toros"
Só se ouve o Olé os ídulos brilham com uma orelha nas mãos,
Na dança da morte, o triunfo do toureiro
.
Dora Dimolitsas
Divaga em meio à noite um anjo desconhecido
Como um vento no litoral, sem rumo certo
Que afaga com seu carinho quente e amigo
O sono dos que dormem, sempre por perto
Nas curvas da vida, avalanches e temporais
Sofrendo, ele arranca os espinhos dos caminhos
E seus olhos vão pousando sobre os mortais
Que se entregam à fé nos dons divinos
Se por vezes neste mundo deixam cair
Pungentes e cortantes lágrimas ácidas
O anjo trata de as enxugar e, de fininho, sair
Constrói auras de douta proteção
Enche-as com a energia do coração
Faz as vidas repousarem, plácidas
Tania Montandon
Como um vento no litoral, sem rumo certo
Que afaga com seu carinho quente e amigo
O sono dos que dormem, sempre por perto
Nas curvas da vida, avalanches e temporais
Sofrendo, ele arranca os espinhos dos caminhos
E seus olhos vão pousando sobre os mortais
Que se entregam à fé nos dons divinos
Se por vezes neste mundo deixam cair
Pungentes e cortantes lágrimas ácidas
O anjo trata de as enxugar e, de fininho, sair
Constrói auras de douta proteção
Enche-as com a energia do coração
Faz as vidas repousarem, plácidas
Tania Montandon
Cançoneta
Um colarzinho de contas no pescoço,
as mãos sumindo num amplo regalo.
Os olhos passeiam em torno distraídos
e já não têm mais com que chorar.
A seda, que é quase violeta,
faz o rosto parecer mais pálido.
A franja, de cabelos tão lisinhos,
já chega até quase as sobrancelhas.
Não se parece em nada com um voo
esse jeito lento de andar
como se numa jangada pisasse
e não nas pranchas firmes do assoalho.
A boca pálida, entreaberta,
o fôlego cansado, ofegante…
contra o peito treme o ramalhete
deste encontro contigo que não houve.
Anna Akhmatova
as mãos sumindo num amplo regalo.
Os olhos passeiam em torno distraídos
e já não têm mais com que chorar.
A seda, que é quase violeta,
faz o rosto parecer mais pálido.
A franja, de cabelos tão lisinhos,
já chega até quase as sobrancelhas.
Não se parece em nada com um voo
esse jeito lento de andar
como se numa jangada pisasse
e não nas pranchas firmes do assoalho.
A boca pálida, entreaberta,
o fôlego cansado, ofegante…
contra o peito treme o ramalhete
deste encontro contigo que não houve.
Anna Akhmatova
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