segunda-feira, 2 de janeiro de 2017



POEMA SEM TÍTULO


Digo ao chumbo:
por que você permitiu
ser moldado em bala?
Esqueceu os alquimistas?
Desistiu da esperança
de tonar-se ouro?
Ninguém responde.
Chumbo. Bala. Com nomes
como esses
o sono é longo e profundo.
.

[Charles Simic / Trad. Carlos Machado]




IX


Sou um guardador de rebanhos.
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.
Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.
Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de gozá-lo tanto,
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,
Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz.

~ “O Guardador de Rebanhos”. In Poemas de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa


domingo, 1 de janeiro de 2017

Alexandrov Ensemble (Red Army Choir) - Whole Concert

Alexandrov Ensemble (Red Army Choir) - Whole Concert

Alexandrov Ensemble (Red Army Choir) - Whole Concert

ODE À ALEGRIA


(Friedrich Schiller)

Ó, amigos, mudemos de tom!
Entoemos algo mais prazeroso
E mais alegre!
Alegria, formosa centelha divina,
Filha do Elíseo,
Ébrios de fogo entramos
Em teu santuário celeste!
Tua magia volta a unir
O que o costume rigorosamente dividiu.
Todos os homens se irmanam
Ali onde teu doce vôo se detém.
Quem já conseguiu o maior tesouro
De ser o amigo de um amigo,
Quem já conquistou uma mulher amável
Rejubile-se conosco!
Sim, mesmo se alguém conquistar apenas uma alma,
Uma única em todo o mundo.
Mas aquele que falhou nisso
Que fique chorando sozinho!
Alegria bebem todos os seres
No seio da Natureza:
Todos os bons, todos os maus,
Seguem seu rastro de rosas.
Ela nos deu beijos e vinho e
Um amigo leal até a morte;
Deu força para a vida aos mais humildes
E ao querubim que se ergue diante de Deus!
Alegremente, como seus sóis voem
Através do esplêndido espaço celeste
Se expressem, irmãos, em seus caminhos,
Alegremente como o herói diante da vitória.
Abracem-se milhões!
Enviem este beijo para todo o mundo!
Irmãos, além do céu estrelado
Mora um Pai Amado.
Milhões, vocês estão ajoelhados diante Dele?
Mundo, você percebe seu Criador?
Procure-o mais acima do Céu estrelado!
Sobre as estrelas onde Ele mora!


- Friedrich Von Schiller, Ode à Alegria (An die Freude), 1786 - tradução do original, tal como se canta na Nona Sinfonia de Ludwig Van Beethoven, 1824.

Meu Amor da Rua Onze




Tantas juras nós trocámos,
Tantas promessas fizemos,
Tantos beijos nos roubámos
Tantos abraços nós demos.
Meu amor da Rua Onze,

Meu amor da Rua Onze,
Já não quero
Mais mentir.
Meu amor da Rua Onze,
Meu amor da Rua Onze,
Já não quero
Mais fingir.

Era tão grande e tão belo
Nosso romance de amor
Que ainda sinto o calor
Das juras que nós trocámos.

Era tão bela, tão doce
Nossa maneira de amar
Que ainda pairam no ar
As vezes promessas, que fizemos.

Nossa maneira de amar
Era tão doida, tão louca
Qu´inda me queimam a boca
Os beijos que nos roubámos.

Tanta loucura e doidice
Tinha o nosso amor desfeito
Que ainda sinto no peito
Os abraços que nós demos.

E agora
Tudo acabou
Terminou
Nosso romance
Quando te vejo passar
Com o teu andar
Senhoril,
Sinto nascer
E crescer
Uma saudade infinita
Do teu corpo gentil
de escultura
Cor de bronze

Meu amor da Rua Onze.


Aires Almeida Santos nasceu em Bié,  Angola, em 1921, falecendo em 1992 na cidade de Benguela. Recebeu instrução primária em Benguela e secundária em Nova Lisboa e Sá de Bandeira. Esteve preso por atividades ligadas ao MPLA. Fixou-se em Luanda em 1961, trabalhando como contador de algumas empresas. Em 1970 ingressou no jornalismo. Foi co-fundador da União dos Escritores Angolanos - UEA.  Sua obra poética é constituída de dois únicos livros:  Meu Amor da Rua Onze (Lisboa: Edições 70, 1987) e  A Casa (Lubango: edição do autor, 1987). Seu poema mais conhecido, publicado pela primeira vez em Mákua - Antologia Poética, vol 3 (Sá da Bandeira: Publicações Imbondeiro, 1963), é justamente o que dá título ao seu primeiro livro. Meu Amor da Rua Onze não é, como muito da produção poética do período, nenhuma peça de vanguarda; tampouco pertence ao rol dos textos angolanos que buscavam, de alguma forma, denunciar o colonialismo ou tratar das injustiças do regime. É um poema de amor, simples e nostálgico, mas que tem como principal característica a musicalidade. Pois foi justamente este o elemento que motivou este post. Em uma busca aleatória por poemas musicados na web, deparei-me com esta versão em ritmo de semba feita pelos angolanos da Banda Maravilha. O vídeo contém legendas com a letra em Português e Inglês.

Eu ia postar uma foto de praia, emanar um axé bacana, e ponto. Mas lembrei de súbito, nesses últimos momentos de 2016, o quanto tudo foi difícil pra nós todos. Alegrias imensas também, claro, no âmbito artístico ( o que pra mim significa a região pessoal, a intima e a profissional unidas como siamesas condenadas ), mas a lembrança firme de um susto coletivo, um incômodo de jogo em xeque-mate, de uma traição profunda, uma Ré, com maiúsculo mesmo, me paralisou. Então fico querendo, para o ano, se deixarem, passar a limpo o que desejo pra nós, porque eu tenho a clareza de que só se é feliz se muitos estiverem felizes. E assim, como foi, não dá. Eu sei ser sozinho, mas não sei ser feliz sozinho.
PS - Gente é pra brilhar! Lembra ?



 Matheus Nachtergaele:

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

"Le ''ça ira''"

Versione della Fête de la Fédération (14 luglio 1790)

" Ah ça ira ça ira ça ira
Les aristocrates à la lanterne
Ah ça ira ça ira ça ira
Les aristocrates on les pendra
Et quand on les aura tous pendus,
On leur fichera la pelle au cul!

V'la trois cents ans qu'ils nous promettent
Qu'on va nous accorder du pain
V'la trois cents ans qu'ils donnent des fêtes
Et qu'ils entretiennent des catins
V'la trois cents ans qu'on nous écrase
Assez de mensonges et de phrases
On ne veut plus mourir de faim

Ah ça ira ça ira ça ira
Les aristocrates à la lanterne
Ah ça ira ça ira ça ira
Les aristocrates on les pendra
Et quand on les aura tous pendus,
On leur fichera la pelle au cul

V'la trois cents ans qu'ils font la guerre
Au son des fifres et des tambours
En nous laissant crever d'misère
Ça n'pouvait pas durer toujours
V'la trois cents ans qu'ils prennent nos hommes
Qu'ils nous traitent comme des bêtes de somme
Ça n'pouvait pas durer toujours

Ah ça ira ça ira ça ira
Les aristocrates à la lanterne
Ah ça ira ça ira ça ira
Les aristocrates on les pendra
Et quand on les aura tous pendus
On leur fichera la pelle au cul

Le châtiment pour vous s'apprête
Car le peuple reprend ses droits
Vous vous êtes bien payé nos têtes
C'en est fini Messieurs les rois
Il n' faut plus compter sur les nôtres
On va s'offrir maint'nant les vôtres
Car c'est nous qui faisons la loi

Ah ça ira ça ira ça ira
Les aristocrates à la lanterne
Ah ça ira ça ira ça ira
Les aristocrates on les pendra
Et quand on les aura tous pendus
On leur fichera la pelle au cul "


"Le ''ça ira''" por Edith Piaf (Google Play • iTunes)

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Ricardo Pedrosa Alves


vende-se ou aluga-se estonteante república de bananas, bois, grãos, açúcares e trabalhadores sem direito. investimento garantido: um dos maiores retornos financeiros do mercado. a aposta das próximas duas décadas! grandes áreas ainda por desmatar. inclui reservas de água, minério, petróleo e mão-de-obra domesticada e católica. segurança completa, não perca a oportunidade. o charme dos trópicos, com exotismo e espetáculos populares, tornam a experiência de ganhar dinheiro na propriedade um excelente investimento para o turismo sexual. negócio seguro, combinando a modernidade de uma legislação atualizada com a tradição de 516 anos no mercado.

Nos últimos dias a imprensa hegemônica do Brasil passou a divulgar as investigações do Departamento de Justiça dos EUA sobre a corrupção na Petrobrás. O que era apenas uma suspeita dos advogados do ex-presidente Lula, se confirmou como realidade cristalina.

Agora é possível entender porque Moro, muito zelosamente, sempre censurou as perguntas feitas pela defesa de Lula a delatores e testemunhas de acusação sobre a assinatura de acordos de colaboração com autoridades policiais e judiciais norte-americanas.

por Jeferson Miola


Por las calles de España...É a mesma equação: onde o neoliberalismo rapineiro avança, os direitos sociais minguam. A diferença é que, no Brasil, os grandes capitais representados pela corja corrupta que governa o país, estão agindo "a pedido" de centenas de milhares de verdeamarelos coxinhas que foram, repetidamente, às ruas e às panelas implorar para que a desgraça os atingisse.

Valéria Arias

sábado, 24 de dezembro de 2016

Quando os bares de rua de Curitiba entram em recesso é porque o ano realmente acabou. Aqui vai minha avaliação de 2016. Foi um ano excelente para o país. Finalmente as pessoas começaram a discutir ideias, já que a situação obrigou muitos a saírem de sua comodidade para não ficarem numa situação ainda pior. É com a discussão de ideias que colocamos nossas posições à prova. Pois coletivamente temos mais chances de perceber as falsidades e os erros. Não custa lembrar que foi com a discussão de ideias que a civilização e a ciência se desenvolveram com força.
A tão sonhada revolução nacional começou. E revoluções não acontecem de maneira tranquila e sem problemas. Elas exigem ainda mais atenção para não tomarmos caminhos errados, como o caminho da supressão dos direitos humanos e da democracia.

Thiago Melo