domingo, 19 de dezembro de 2010

Noite alta, céu risonho
a quietude é quase um sonho
o luar cai sobre a mata
qual uma chuva de prata(...)

Cândido das Neves.
in.Noite cheia de estrelas
na voz de Vicente Celestino
A tristeza entre o avô e o copo d'água
o avô conduz a dentadura
(sorriso portátil)
no bolso do paletó
e ao sorrir a boca murcha
não há um sorriso só
pois o outro se oculta
no bolso do paletó.
O avõ conduz a dentadura
(sorriso portátil)
e a introduz no copo d'água
há uma alegria na boca
e uma alegria afogada
mas uma certa tristeza
entre o avô e o copo d'água.

Sérgio de Castro pinto
in.A quatro mãos.p35

sábado, 18 de dezembro de 2010

Pessoa no Djone

Fernando Pessoa em Durban sentado e olhando o mar já nasceu o álvaro de campos. Aguarda a chegada da ode marítima o cansaço da noite antiquíssima e serena . Acende um charuto reflecte sobre esse estranho engenheiro que o liberta ]em navegação cosmopolita. Decerto na espreguiçadeira em que seu olhar se estende nada sabe de majonejones, nunca foi a um dumbanengue ,não conhece Maputo nem Tete,o fumo do charuto leva-o para outros lugares em que a névoa desponta a ocidente Poderia estar sentado no hotel Polana fazendo turismo ou pequenos burocráticos e acidentais negócios de passagem. Estrangeiro e incógnito com umbomcálice de cognac à sua frente espreita a máquina de escrever. Não vê gaivotas. Não sonha. Mas já usa óculos. É só um perfil com chapéu de palhinha branco na paisagem.Talvez quem sabe? o vulto inquieto do seu heterónimo bernardo soares folheando ausente umlivro do desassossego.

Ana Mafalda Leite.
fonte:Inimigo Rumor 17.p128

Neobarroso: in memoriam

"Hay
cadáveres"-canta néstor
perlongher e está
morrendo e canta
"hay..."seu canto de
pérolas-berrucas alambres bo-
quitas repintadas restos de unhas
lúnulas-canta-ostras desventradas um
olor de magnólias e esta espira
amarelo-marijuana novelando pensões
baratas e transas de michê(está
morrendo e canta)"hay..."
(madres de mayo heroínas-car-
pideiras vazadas em prata negra
lutuoso argento rioplatense plangem)
"...cadáveres" e está
morrendo e canta
néstor agora em go-
zoso portunhol neste bar paulista
que desafoga a noite-lombo-de fera
úmido-espessa de um calor serôdio e on-
de (o Sacro Daime éuma -já então-un-
ção quase extrema) canta
seu ramerrão(amaríssimo)portenho:"hay
(e está morrendo)cadáveres"

Haroldo de Campos
Homenagem de Haroldo de Campos a Néstor Perlongher .
Fonte:Nicolau.ano VII .número51.p30

"Meuscaminhos dehojesãoosmesmosde

"Meus caminhos de hoje
são os mesmos de ontem,
o que é novo em mim
é o jeito de caminhar. "
Thiago de Mello

Ecos

Passe através doespelho,
fraco de desejo antigo.
Queira de novo tudo,
não importa quem o amigo é.
Diga que sim aos lugares
desolados e vazios. Os palpites
foram o possível.
nenhum erro.

Robert Creeley
Trad :Luiza Franco Moreira

fonte :Inimigo Rumor17.p33
"A vida só pode ser compreendida olhando para trás;mas sópode ser vivida olhando para a frente."
Soren Kirkegaard

A Treva

Me escolhem osclaros do sono
engastados na madrugada,
a hora de Getsêmani
São cruas claras visões
às vezes pacificadas,
às vezes o terror puro
sem o suporte dos ossos,
que o dia pleno me dá.
A alma desce dos infernos,
a morte temseu festim.
Até que todos despertem
e eu mesma possa dormir,
o demônio come a seu gosto,
o que não é Deus pasta em mim.

Adélia Prado.
fonte:Folha de São Paulo.27/06/1982

Ode a Ártemis

Toco-te as rótulas, ó cervo temida
parte loira de Zeus, soberana
deferas infames,Ártemis.
De algum ponto, sobre os tufões de Leteu,
encaras agora comapreço a cidade
dos homens cardioudazes;
não apascentes homens grossos.

Anacreon
Trad:TrajanoVieira
fonte : Folhetim 09/03/1986.

XXVIII

La casa que reduce la noce a límites
y la hace llevadera
cuando el rugido de una bestia en el sueño
olas palabras que sin sentido
despiertan con todo ese extraño temor
surgen como restos de una oscura lengua
que desvela el origen y la amenaza
el techo que cubría un fuego manso
arderá
y entonces nada habrá seguro
y será necessário de nuevo cavar
hacer

Jose Manuel Arango

Frutos e apontamentos

Água apressada que corre – sem memória -,

que a terra distraída bebe,

duvida, só por um instante, na minha mão vazia,

lembra-te!

Claro e rápido amor, indiferença,

quase ausência que corre,

entre teu excesso de ficar e de partir,

tem arrepios de permanência.

Rainer Maria Rilke

in Frutos e Apontamentos

Relógio D´Água, 1996

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Penitentes da Lagoa, 1999.Barbalha, CE

Não estranhem os estrangeirismos

Com alguma regularidade, volta-se a discutir o que pensar a respeito do uso de palavras estrangeiras na língua portuguesa. Há mesmo um deputado com um projeto maluco pretendendo proibir estrangeirismos – a febre legislativa dessa gente é indomável.



O curioso é que a questão é apresentada como se fosse nova, algo que só atualmente, com a informática, os filmes americanos, a música pop, a linguagem dos técnicos em administração e economia, estivesse acontecendo.



Aí começa o equívoco, que acaba levando de arrasto uma série de discussões que se transformam num show (olha o estrangeirismo!) de desencontros. Basta uma olhada nas palavras que usamos para descobrir, com uma grande frequência, a intromissão de vocábulos de outras línguas. Coisa que não é nova.



Uma primeira coleção de palavras ingressou no português, vinda dos idiomas indígenas, talvez mais do que suspeitamos. Vejam só: o saboroso guaraná, a inocente paçoca, o Maracanã, a afoita perereca, etc. Sem falar no magnífico urubu. Além disso, nomes de lugares e de pessoas.



A seguir, palavras que vieram de línguas africanas. Começa pelo samba, a senzala, a batucada, o bafafá. E o esporte nacional, o fuxico. O quiabo e o dendê. Como contar a história do Brasil sem falar em cangaço e da música popular sem falar em berimbau? E a bagunça política? O menino pode ser guri ou moleque. O cachimbo, o macaco e a quitanda. E há a onipresente e imbatível – no bom sentido – bunda.



Todo esse vocabulário já está incorporado definitivamente ao falar e escrever brasileiro, embora exista quem pense que sejam portuguesas. Então, viria a pergunta: o que faremos com tais palavras, caso nos obstinarmos a espantar todo estrangeirismo?



Mas não é só. Antes do inglês, através dos dois impérios recentes – Grã-Bretanha e EUA –, o francês era bastante falado no Brasil (não por todas as classes, como é óbvio) e deixou pelo caminho muitas palavras e expressões que incorporamos há muitas décadas, na verdade há mais de um século. Lá vai: maiô, complô, batom, tricô, sutiã, guichê, metrô, vanguarda. E o indispensável garçom. Eu passei a infância chamando armário ou prateleira de “etagér” (étagère).



Depois veio o inglês, que tanta preocupação desperta nos puristas. Mas não é raro esquecermos contribuições, não desprezíveis, vindas das línguas faladas por imigrantes italianos, espanhóis, alemães etc. Influência, como todas as outras, que se dá não apenas no vocabulário, mas no próprio modo de produzir frases e expressões. Penso especialmente no italiano, de grande presença no linguajar popular brasileiro, mas também no texto literário, sobretudo de escritores paulistas, gaúchos, paranaenses e catarinenses. De Adoniran Barbosa a Sérgio Faraco, o italiano está sempre presente. De minha parte, lembro que usei vocábulos e formas de expressão com influência italiana quando escrevi o romance Os Dias do Demônio, que se passa no sudoeste do Paraná.



Essa falsa polêmica contra os estrangeirismos ignora o que ocorreu com a língua portuguesa quando veio ela própria transplantada para o Brasil. E é interessante lembrar que o “perigo” dos estrangeirismos é relativo e muito exagerado. Assim como certas palavras ou expressões foram incorporadas, outras sumiram depois de um sucesso momentâneo. Há algumas décadas, tudo que era grande, importante, admirável, marcante, era chamado de big – pois é, sumiu. Calça feminina, comprida, era chamada de eslaque (do inglês, slake) – hoje pode parecer ofensa.



O uso assimila ou rejeita certas modas. É tudo. E isso só faz enriquecer a língua. A língua que hoje falamos ou escrevemos, está muito longe daquela falada pelos primeiros portugueses que vieram para o Brasil, e também está distante da língua que se fala hoje em Portugal. Enfim, a língua é algo vivo, dinâmico, mutante e, como todo organismo vivo, assimila, rejeita ou transforma, conforme as circunstâncias, aquilo com que entra em contato.



Enfim, alguma paciência e certa dose de antropofagia, como queria Oswald de Andrade, poderiam colocar ordem nessa polêmica inútil.

Roberto Gomes
Fonte:Gazeta do Povo .05/12/2010



Romaria de Nossa Senhora Aparecida, 1999.Aparecida.SP

Fugindo de dezembro

Como faço todo fim de ano, também agora consegui uma semana de refúgio em dezembro, o mês alucinado – parece que algum tóxico se espalha na cidade e as pessoas enlouquecidas saem às ruas como formigas cujo formigueiro foi atacado. Os sentimentos em geral são bons, é preciso reconhecer – a fantasia de que o fim de ano é época de paz, amor, compreensão, tolerância e solidariedade é tão forte que as pessoas acabam acreditando nela, pelo menos no âmbito familiar. E o modo de demonstrar esses bons sentimentos é simples e direto: encher os shoppings e as sacolas e trocar presentes. Nada contra: é isso que faz mover a máquina do mundo. Mas para dizer que ainda tenho alguma metafísica na alma, sinto que há também uma certa percepção de um ciclo que se encerra e outro que se abre, simbolicamente poderosa, como se estivéssemos ainda vivendo sob a dura natureza ao sabor renovado das estações, aliás nítidas como nos filmes, e não embaralhadas como em Curitiba.



Saiba mais

A crise de sempreVaga (tecnológica) para idososPensamento chapadoTudo bem, mas como agora estou assumindo meu ansiado papel de velho esquisito, o que eu sempre quis ser desde criança, desci para o litoral, no deserto de Gaivotas, que no dezembro que antecede o Natal tem as características de um paraíso: não há nada a fazer, nada a ver, nada a pensar. Nem uma viva alma nas ruas – aqui e ali, raros, um ou outro operário trabalhando. O caminhão do lixo está mesmo passando de dois em dois dias, o que nos protege das moscas. E banho de mar, só para malucos – sou do tipo vampiro, dos que viram pó à luz do sol. Que, aliás, maravilha das maravilhas, praticamente não está aparecendo. Na dúvida, trouxe a caixa de ferramentas, para enfim fazer uma prateleirinha que venho planejando há uma década. Desta vez, abrindo o portão rangente, descubro que a única coisa que roubaram da casa – à falta de qualquer outro bem fungível além da geladeira, que é grande e pesada – foi a velha antena externa de televisão.



Tranquilo aqui na varanda, posso até ouvir a grama crescer. Mas algo extraordinário aconteceu, percebi acompanhando o dedo apontado do Felipe, meu filho: de uma toca do quintal saíram dois pterodáctilos, ou duas miniaturas de tiranossauros rex (não tão miniaturas: mais de meio metro cada), lagartões pré-históricos. Lentos, desconfiados, mimetizando cuidadosamente o mato em torno, saíram passo a passo da toca para o ar livre, arrastando os rabos imensos. Não pareceram malfeitores, concluí, depois do susto inicial. Invejei neles a capacidade de ficar imóveis, absolutamente imóveis, como monges do Tibete contemplando a neve da montanha.



E exigem silêncio, se queremos a companhia deles – o mínimo gesto brusco e ambos desaparecem no buraco como por mágica. Uma hora depois, desconfiança redobrada, voltam a mostrar as caras, testando a nossa capacidade de ficar quietos. E são poderosos – já estou praticamente domesticado por eles.


Cristovão Tezza.
Fonte:Gazeta do Povo.14/12/2010

Romaria de São Francisco das Chagas, 1999.Canindé, CE

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

La marcha de Afrodita

Por todas las tierras de Illarión, desde los valles y montañas coronadas con nieves perpetuas, hasta las poderosas colinas cuyo reflejo oscurece un mar tranquilo y tibio, estaban encendidos los antiguos fuegos verdes y amatistas del verano. Se aspiraban especias en el viento que azotaba el rostro de los montañeros al escalar los altos glaciares, y el más antiguo bosque de cipreses, que se deslizaba ceñudamente sobre una bahía de límpido cielo, estaba iluminado por las orquídeas de color escarlata... Pero el corazón del poeta Phaniol era una urna de negro jade fraguada por el amor con cenizas apagadas. Deseoso de olvidar por algún tiempo la socarronería de las zarzamoras, Phaniol caminaba solitario por el desierto que rodeaba a Illarión; era un lugar ennegrecido tiempo atrás por grandes hogueras, y que nunca había conocido los pinos, las violetas, los cipreses o las zarzamoras. Al caer la tarde llegó a un océano virgen, de aguas oscuras y estáticas bajo el sol poniente, exento del murmullo inmemorial propio de otros mares. Phaniol se paró y anduvo distraído por la costa cenicienta, soñando de cuando en cuando con ese mar llamado Oblivion .

Entonces, bajo el sol yacente cuya cegadora luz iluminaba su frente, apareció una barca que suavemente se deslizó hasta tierra; pero no había viento y los remos colgaban inertes sobre olas sin cresta espumosa. Phaniol advirtió que la barca estaba construida con madera de ébano, decorada con extraños anaglifos y lujosamente tallada con imágenes de dioses y bestias, sátiros, diosas y mujeres, siendo la figura principal la de un Eros negro, de serios labios carnosos y llenos, e implacables ojos de zafiro de mirada extraviada, como si estuviesen contemplando intensamente cosas innombrables o desconocidas. A bordo venían dos mujeres, una de ellas pálida como la luna polar, y la otra tan negra como una noche ecuatoriana. Ambas llevaban vestidos imperiales, y su talante era el propio de las diosas, o de quienes habitan con ellas. Sin pronunciar una sola palabra y sin un solo gesto, contemplaron a Phaniol, quien a pesar de su asombro preguntó:

-¿Qué buscan?

Entonces, con una voz que más parecía la voz del jardín de las Hespérides entre las palmeras, durante un anochecer en las islas Afortunadas, respondieron:

-Esperamos a la diosa Afrodita, quien presa de tristeza y desolación abandona Illarión, así como todos los países de este mundo de amores fugaces y mortales efímeros. Tú, puesto que eres poeta y has conocido la gran tiranía del amor, contemplarás su marcha. Pero ellos, los cortesanos, mercaderes y sacerdotes no recibirán ningún mensaje, ninguna señal de su partida, y en modo alguno podrán imaginarse que se ha marchado... Ahora, oh Phaniol, están próximos el tiempo, la diosa y la despedida.

Apenas habían terminado de hablar, cuando a través del desierto llegó Afrodita, y su llegada provocó una luz sobre las colinas, y por donde caminaba disminuían las sombras, y las arenas grises producían amapolas granates y el profundo verdor del césped que luciera cuando las reinas eran jóvenes, antes de que pasaran a formar parte de una oscura leyenda y los siglos las convirtieran en momias polvorientas. Llegó hasta la orilla y quedó en pie ante Phaniol, mientras la puesta del sol se extendía, llenando el cielo y el mar con un color aterciopelado de capullo recién abierto, y lo más profundo de la concha que en tiempos remotos le fuera consagrada se elevaba para recibirla. No llevaba ropajes, ni coronas, ni guirnaldas, arropada y coronada únicamente por el crepúsculo solar, tan hermosa como los sueños de un mortal, pero mucho más hermosa que todos los sueños. La diosa aguardaba, sonriente y tranquila, símbolo de la vida y de la muerte, de la desesperación y de la pasión, ensueño de carne y hueso para dioses y poetas y galaxias jamás conocidas. Pero también reflejaba el asombro del amor, de algo mucho más que el amor, y cuyo sentido no podía entender el poeta.

-¡Hasta siempre, oh Phaniol! -exclamó, y su voz recordaba el suspiro de aguas lejanas, el murmullo de aguas de plenilunio, arrullando no sin tristeza una orgullosa isla coronada de altas palmeras-. Me has conocido y adorado durante toda tu vida hasta este momento, pero ha llegado la hora de mi partida; me voy, y cuando me haya marchado me seguirás adorando, pero ya no me conocerás. Así es el destino, y estaba dispuesto que ningún hombre, ni ningún mundo, ni ningún dios me poseyera completamente hasta la eternidad. Cuando yo ya no exista regresarán el otoño y la primavera, el primero cuajado de hojas amarillas, y la segunda de violetas igualmente amarillas; los pájaros se refugiarán en las zarzamoras renovadas, y conocerás nuevos y fugaces amores. Jamás volverán a tus ojos o a los de cualquier otro mortal la perfecta imagen y el perfecto cuerpo de la diosa.

Finalizando así su despedida, saltó del muelle ceniciento a la oscura proa de la barca; y de la misma manera en que había llegado, sin necesidad del viento ni de los remos, la barca se hizo a la mar cuajada de los descoloridos pétalos del anochecer. Desapareció inmediatamente de la vista, mientras el desierto perdía las antiguas amapolas y el rico verdor que luciera de nuevo por unos instantes. La oscuridad se adueñó de Illarión, siguiendo furtivamente el camino trazado por Afrodita; las sombras retornaron a las colinas, y el corazón del poeta Phaniol seguía siendo una urna de negro jade fraguada por el amor con cenizas apagadas.


Clark Ashton Smith

FIN
 
Fonte: Ciudad Seva
Para que venham

Konstandinos Kavafis

Uma vela, mais não. A sua luz ténue

é mais adequada, mais brando te assombras

quando vierem do Amor, quando vierem as Sombras.

Uma vela, mais não. Para não ter hoje à noite

a alcova grande iluminação. Dentro do enleio inteiro

e da sugestão, e com a pouca luz -

assim no enleio hei-de ter visões

para que venham do Amor, para que venham as Sombras.

Konstandinos Kavafis

in Poemas e Prosas

Relógio d´Água, 1994

Tradução de Joaquim Manuel Magalhães

e Nikos Pratsinis

O Corvo

Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,

Vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais,

E já quase adormecia, ouvi o que parecia

O som de alguém que batia levemente a meus umbrais

«Uma visita», eu me disse, «está batendo a meus umbrais.

É só isso e nada mais.»

Ah, que bem disso me lembro! Era no frio dezembro,

E o fogo, morrendo negro, urdia sombras desiguais.

Como eu qu’ria a madrugada, toda a noite aos livros dada

P’ra esquecer (em vão) a amada, hoje entre hostes celestiais —

Essa cujo nome sabem as hostes celestiais,

Mas sem nome aqui jamais!

Como, a tremer frio e frouxo, cada reposteiro roxo

Me incutia, urdia estranhos terrores nunca antes tais!

Mas, a mim mesmo infundindo força, eu ia repetindo,

«É uma visita pedindo entrada aqui em meus umbrais;

Uma visita tardia pede entrada em meus umbrais.

É só isso e nada mais».

E, mais forte num instante, já nem tardo ou hesitante,

«Senhor», eu disse, «ou senhora, decerto me desculpais;

Mas eu ia adormecendo, quando viestes batendo,

Tão levemente batendo, batendo por meus umbrais,

Que mal ouvi…» E abri largos, franquendo-os, meus umbrais.

Noite, noite e nada mais.

A treva enorme fitando, fiquei perdido receando,

Dúbio e tais sonhos sonhando que os ninguém sonhou iguais.

Mas a noite era infinita, a paz profunda e maldita,

E a única palavra dita foi um nome cheio de ais —

Eu o disse, o nome dela, e o eco disse aos meus ais.

Isto só e nada mais.

Para dentro estão volvendo, toda a alma em mim ardendo,

Não tardou que ouvisse novo som batendo mais e mais.

«Por certo», disse eu, «aquela bulha é na minha janela.

Vamos ver o que está nela, e o que são estes sinais.»

Meu coração se distraía pesquisando estes sinais.

«É o vento, e nada mais.»

Abri então a vidraça, e eis que, com muita negaça,

Entrou grave e nobre um corvo dos bons tempos ancestrais.

Não fez nenhum cumprimento, não parou nem um momento,

Mas com ar solene e lento pousou sobre meus umbrais,

Num alvo busto de Atena que há por sobre meus umbrais.

Foi, pousou, e nada mais.

E esta ave estranha e escura fez sorrir minha amargura

Com o solene decoro de seus ares rituais.

«Tens o aspecto tosquiado», disse eu, «mas de nobre e ousado,

Ó velho corvo emigrado lá das trevas infernais!

Dize-me qual o teu nome lá nas trevas infernais.»

Disse-me o corvo, «Nunca mais».

Pasmei de ouvir este raro pássaro falar tão claro,

Inda que pouco sentido tivessem palavras tais.

Mas deve ser concedido que ninguém terá havido

Que uma ave tenha tido pousada nos seus umbrais,

Ave ou bicho sobre o busto que há por sobre seus umbrais,

Com o nome «Nunca mais».

Mas o corvo, sobre o busto, nada mais dissera, augusto,

Que essa frase, qual se nela a alma lhe ficasse em ais.

Nem mais voz nem movimento fez, e eu, em meu pensamento

Perdido, murmurei lento, «Amigo, sonhos — mortais

Todos — todos lá se foram. Amanhã também te vais».

Disse o corvo, «Nunca mais».

A alma súbito movida por frase tão bem cabida,

«Por certo», disse eu, «são estas vozes usuais.

Aprendeu-as de algum dono, que a desgraça e o abandono

Seguiram até que o entono da alma se quebrou em ais,

E o bordão de desesp’rança de seu canto cheio de ais

Era este «Nunca mais».

Mas, fazendo inda a ave escura sorrir a minha amargura,

Sentei-me defronte dela, do alvo busto e meus umbrais;

E, enterrado na cadeira, pensei de muita maneira

Que qu’ria esta ave agoureira dos maus tempos ancestrais,

Esta ave negra e agoureira dos maus tempos ancestrais,

Com aquele «Nunca mais».

Comigo isto discorrendo, mas nem sílaba dizendo

À ave que na minha alma cravava os olhos fatais,

Isto e mais ia cismando, a cabeça reclinando

No veludo onde a luz punha vagas sombras desiguais,

Naquele veludo onde ela, entre as sombras desiguais,

Reclinar-se-á nunca mais!

Fez-me então o ar mais denso, como cheio dum incenso

Que anjos dessem, cujos leves passos soam musicais.

«Maldito!», a mim disse, «deu-te Deus, por anjos concedeu-te

O esquecimento; valeu-te. Toma-o, esquece, com teus ais,

O nome da que não esqueces, e que faz esses teus ais!»

Disse o corvo, «Nunca mais».

«Profeta», disse eu, «profeta — ou demónio ou ave preta!

Pelo Deus ante quem ambos somos fracos e mortais,

Dize a esta alma entristecida se no Éden de outra vida

Verá essa hoje perdida entre hostes celestiais,

Essa cujo nome sabem as hostes celestiais!»

Disse o corvo, «Nunca mais».

«Que esse grito nos aparte, ave ou diabo!, eu disse. «Parte!

Torna à noite e à tempestade! Torna às trevas infernais!

Não deixes pena que ateste a mentira que disseste!

Minha solidão me reste! Tira-te de meus umbrais!»

Disse o corvo, «Nunca mais».

E o corvo, na noite infinda, está ainda, está ainda

No alvo busto de Atena que há por sobre os meus umbrais.

Seu olhar tem a medonha dor de um demónio que sonha,

E a luz lança-lhe a tristonha sombra no chão mais e mais,

E a minh’alma dessa sombra, que no chão há mais e mais,

Libertar-se-á… nunca mais!


Edgar Allan Poe

(tradução de Fernando Pessoa)