sábado, 8 de maio de 2010

Para el fin del mundo el año nuevo - Lhasa de Sela.

This is Not a Film

"Ler devia ser proibido"

E agora José - Carlos Drummond de Andrade

'Via Crucis "

Aral Sea

Chavela Vargas - Un mundo raro

Migration to Misery

Gotan Project

Collateral Murder - Wikileaks - Iraq

Carmen Souza-Mar na Coraçon-Lisbon

Arquivo - Vinicius e Toquinho - Trama / Radiola

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Animated film noir short

Le "sage" Tzvetan Todorov: "Il n'y a pas de choc des civilisations"

Ela se sentou e se cobriu com o lençol. Que hora mais estranha de se ter pudor! Mas não era pudor, era medo, porque naquele dia ela estava nua. Não apenas seu corpo se mostrava inteiro àquele homem que a possuíra, mas sua alma estava despida, tocável, ao alcance de qualquer coração ou mente… Naquele momento de verdade absoluta, ela se via totalmente entregue e teve medo.



O que ele faria se a percebesse assim? Talvez o fim de todo mistério e a certeza da conquista o deixasse tomado de tédio e desejando um outro alguém ainda não desvendado nem conquistado. Ou talvez ele também se despisse para ela! Talvez ele entendesse aquele momento supremo da entrega total, não apenas de dois corpos mas a fusão de dois seres que se completam, quem sabe ele também baixasse a guarda, se tornasse humano, e seria tão bom…



Mas a cama já estava fria, a sensação mágica já o tinha abandonado, prova disso era o barulho do chuveiro e a melodia fora de tom que ele cantarolava no banheiro. Ele já estava de volta à sua realidade de “ser sozinho”, apenas ela ainda permanecia sentada, enrolada nos lençóis macios pulsando e pensando entre ser natural ou ser ideal. Mas o que ele espera? Ela se pergunta. Qual seria o próximo olhar ideal, o sorriso esperado que lhe traria mais momentos como aquele: de calor, prazer e dúvidas? O que daria a ele o desejo de ter mais? Mais daquela mulher, que o preenchia em seus desejos e lhe oferecia um quase amor e um abraço quase terno.



Olhando pela janela enquanto o sol nasce lá fora ela sorri e admite para si mesma: Ela o ama! Pronto! Está acabado! Ela o ama e talvez isso seja motivo suficiente para que tudo termine ali, de uma vez. E se terminasse também seria bom, ao menos seu sono seria mais leve, sua consciência estaria mais leve e sua vida teria peso e medidas corretas para caber no que chamam por aí de felicidade. Não existem finais felizes para histórias como essas. Afinal, não existem finais para histórias como essas e isso traz uma ferida que sangra sempre, sem remédio, sem paliativo, sem palavras…



O barulho do chuveiro acabou. Ela logo vai reencontrar seu algoz e seu amor, e rapidamente ela decide: Continuar fingindo. Fingindo casualidade, falta de compromisso e de amor. Ela se levanta, solta os lençóis deixando a mostra toda sua beleza, e lhe diz sem olhar em seus olhos:



“ Por que não me acordou? Preciso ir! Já estou atrasada…”



Cláudia Ferreira de Moura (1977) é paulistana, casada e tenho um filho. Além de dona de casa e estudante de pedagogia, escreve, como diz, “por que é assim que consigo organizar meu mundo. Amo as palavras e elas me completam”. Profere conferências sobre relacionamentos. Atualmente mora em Gravatal, Santa Catarina.

fonte : Blog Releituras
E-mail: feiapracaramba@yahoo.com.br

História do Olho, Georges Bataille

Georges Bataille é um autor que tem seus estudos reverberando mais no meio acadêmico do que sua literatura nas livrarias; e quando chega a elas, acaba recebendo o rótulo incompleto de “literatura erótica”. Há quem defenda que até essa denominação seja errônea: uma leitura superficial sobre um montador de histórias vastamente embasado em excelentes teorias próprias e narrador sagaz.

Bataille teve a chance de ver em vida três edições de História do Olho, todas sob o pseudônimo de Lord Auch. A primeira em 1928, a terceira em 1952. Mesmo esta última não passou da tiragem de 500 exemplares, mostrando que sua obra seria mais bem aproveitada por gerações futuras.

A grande magia já acontece no título: História do Olho. Não se trata de um olho, mas de vários olhos que estão interligados numa mesma história – mesmo que não participem dela, ou mesmo até mortos. É esse deleite de Bataille em lançar luz sobre o que está esquecido pela narrativa, apontando vida em todas as direções, outras possíveis histórias sendo escritas ao mesmo tempo.

O primeiro capítulo, por exemplo: «O olho do gato». No início, a personagem Simone senta-se nua em um prato de leite levando ao orgasmo o protagonista que observa tudo a certa distância. Sabemos que o prato de leite no corredor era deixado para o gato, mas o animal não aparece na cena. Quer dizer: com o título criado pelo autor, é possível sentir a presença do gato no mesmo recinto, mesmo que nenhuma palavra na narrativa tenha se preocupado em designar isso. E o livro vai se sucedendo desta maneira: a exploração do erotismo através desses personagens, utilizando-se de várias experiências – não somente sentindo, mas contextualizando, compreendendo, associando. Num fluxo narrativo claro e elegante, mesmo que palavrões apareçam constantemente no texto para identificar “porra”, “merda” ou “cu”. O contexto abarca uma suavidade e valorização das sensações físicas para a qual seria impossível o uso de uma linguagem que camuflasse essa vivência mais básica. E a nudez da linguagem torna-se extremamente original e delicada, em oposição à sexualidade quase etérea de Anaïs Nin ou o bruto descortinar de Sade – já que o nu em Sade é a humilhação; em Bataille, a liberdade. «O ser absurdo possui todos os direitos», nos afirma o autor no decorrer do livro.

O prefácio a esta edição, de Eliane Robert Moraes, deixa claro que esta curta narrativa tem muito de autobiográfico e que foi feita por recomendação do psicanalista de Bataille, para que seu paciente expelisse no papel fantasias sexuais e obsessões de infância. O término desta narrativa gerou no autor um nítido tipo de cura, onde suas lembranças só puderam tomar vida deformadas, irreconhecíveis; e assim se instaura uma obra de ficção.

Aí pode entender-se quando Bataille afirma no livro O Erotismo que «o sentido último do erotismo é a morte». O erotismo, embora se oponha à reprodução, é seu fundamento. A reprodução envolve a relação sexual entre dois seres descontínuos que trazem em si a continuidade. Por si só, o ser humano possui o que Bataille chama de «nostalgia da continuidade perdida». Essa nostalgia é a base das três formas de erotismo que defende: erotismo dos corpos, erotismo dos corações e erotismo sagrado.

Nessas três formas de experiência erótica existe a busca pela substituição do isolamento do ser, a substituição de sua descontinuidade por um sentimento de continuidade profunda. O erotismo dissimula a descontinuidade individual e será sempre violência, pois arrancar o ser da descontinuidade é um ato violento comparável com a morte que nos tira da nossa persistência em conservar o ser descontínuo que somos. Ao mesmo tempo em que buscamos a experiência da continuidade, a tememos, por ela simbolizar a morte. Tememos o aniquilamento da individualidade descontínua, pois a realização erótica visa a destruição.

O erotismo dos corações sempre tem origem no dos corpos, mas difere dele por alcançar uma estabilidade proveniente da afeição entre os amantes. Aqui também há violência, pois a paixão pode ser mais brutal do que o simples desejo, fazendo com que a felicidade anunciada seja facilmente perdida e a vida se transforme em não-presente, prisão. Trata-se da relação entre dois seres descontínuos que anseiam uma continuidade impossível, despertando desejos de morte quando da constatação dessa impossibilidade.

A transcendência do ser pode ser alcançada através da terceira forma de erotismo, o sagrado, e em torno disso gira História do Olho. Nesse caso a ação erótica é comparável ao sacrifício religioso: a morte ritualística quebra a descontinuidade por meio do retorno ao divino. A continuidade do ser não é conhecível, mas sua experiência é dada através da experiência mística. Para Bataille, esse erotismo representa um tipo de religião sem dogmas: uma experiência erótica interior verdadeira criando consciência, retorno à natureza.

por Enzo Potel

Blog Orgia Literária  http://www.orgialiteraria.com/


História do Olho
Georges Bataille
trad. Eliane Robert Moraes
Cosacnaify
2008