domingo, 26 de julho de 2015

§f.1


luto pelo o que sou, declaro-me insensato
o meu coração, de raça ímpia e vadia, admite o excesso, a efusão da força
que amor é esse que nos une?
estás dentro de mim, confio em ti; mostra-me como te posso amar; mostra-me o caminho jamais revelado
ainda há réstias desse ar que me dá fôlego, e que se enraíza no meu corpo, respiro o teu espaço e a tua virtude contamina-me por dentro
porque no fundo de um homem o amor é frontal e duradoiro.

M.L. Continentino


Leiria, 26 de Julho de 2015



Salário é que nem menstruação: vem todo mês, dura cinco dias e dá uma tpm...

Otto Leopoldo Winck

Precariado



"Identificamos o precariado com a fração mais mal paga e explorada do proletariado urbano e dos trabalhadores agrícolas, localizada no coração do próprio modo de produção capitalista. A precariedade é uma dimensão intrínseca ao processo de mercantilização do trabalho e não subproduto da crise do neoliberalismo. A dimensão histórica e relacional desse grupo é parte integrante da classe trabalhadora, e não uma amálgama intergeracional e policlassista que assumiria de maneira progressiva a aparência de uma nova classe".

Ruy Braga 

Há 95 anos nascia Celso Furtado

26 de julho 
"Os impulsos mais fundamentais do homem, gerados pela necessidade de auto-identificar-se no universo, impulsos que são a matriz da atividade criativa: a reflexão filosófica, a meditação mística, a invenção artística e a pesquisa científica básica, de uma ou outra forma foram subordinados ao processo de transformação do mundo físico requerido pela acumulação."

- Celso Furtado, em "Criatividade e dependência na civilização industrial". Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978, p.84.



sábado, 25 de julho de 2015

Dialogo com Guimarães Rosa

O sertão
"...no sertão fala-se a língua de Goethe, Dostoievski e Flaubert, porque o sertão é o terreno da eternidade, da solidão, onde Inneres und Ausseres sina nicht mehr zu trennen, segundo o Westöstlicher Divon . No sertão, o homem é o eu que ainda não encontrou um tu; por isso ali os anjos ou o diabo ainda manuseiam a língua. O sertanejo, (...) “perdeu a inocência no dia da criação e não conheceu ainda a força que produz o pecado original.”

- João Guimarães Rosa, em entrevista a Günter Lorenz - "Dialogo com Guimarães Rosa".

O vendedor de passados

"A memória é uma paisagem contemplada de um comboio em movimento. Vemos crescer por sobre as acácias a luz da madrugada, as aves debicando a manhã, como a um fruto. Vemos os lagos plácidos onde nadam os patos, os rios de águas pesadas onde os elefantes matam a sede. São coisas que ocorrem diante dos nossos olhos, sabemos que são reais, mas estão longe, não as podemos tocar. Algumas estão já tão longe, e o comboio avança tão veloz, que não temos a certeza de que realmente aconteceram. Talvez as tenhamos sonhado. Já me falha a memória, dizemos, e foi apenas o céu que escureceu."

- José Eduardo Agualusa, em "O vendedor de passados". Rio de Janeiro: Gryphus, 2004. p. 153.

O nascimento dum Império

“Ora, as versões são contraditórias [...] São ideológicas?
[...] Então, não tenho direito, eu também, de inventar a
minha própria versão? Quem te garante que é mais falsa
que a que tu escreverias?A tua também seria ideológica ....”

- Lu, em "Lueji - O nascimento dum Império", de Pepetela. Lisboa: Dom Quixote, 1997.

Os poemas possíveis

Diz tu por mim, silêncio
Não era hoje um dia de palavras,
Intenções de poemas ou discursos,
Nem qualquer dos caminhos era nosso.
A definir-nos bastava um acto só,
E já que nas palavras me não salvo,
Diz tu por mim, silêncio, o que não posso.


- José Saramago, em "Os poemas possíveis". 3ª ed., Lisboa: Editorial Caminho, 1981.

Flor de maricá

Flor de maricá
Este perfume tão fino
é a saudade de um perfume
e parece que resume
o amor de um poeta menino.
Era um doce desatino
era este mesmo perfume
e em meu peito um vivo lume,
um nome, um segredo, um hino!
Mas onde estás, poeta louro?
E onde está o teu tesouro
de amor, de mágoa e queixume?
De tudo aquilo, ficou-me
o vago aroma de um nome
e a saudade de um perfume.

- Augusto Meyer, em “Poesias (1922-1955)". Rio de Janeiro: Livraria São José, 1957.

Les règles de l'art

"O sucesso imediato tem algo de suspeito: como se ele reduzisse a oferenda simbólica de uma obra sem preço ao simples dar e receber em troca de um intercâmbio comercial."

(Do livro "Les règles de l'art", de Pierre Bourdieu)

O contexto da obra literária

"A condição do escritor é sempre um debate entre a integração e a marginalidade [...]
Diferentemente das profissões 'tópicas', as que proporcionam uma renda previsível a uma posição determinada do aparelho social, o dinheiro tirado da criação está sujeito ao acaso. Não existe método garantido para se ter acesso à glória literária. O escritor que pretende fazer uma obra singular está condenado a inventar à medida que percorre a estrada pela qual caminha, a desconfiar de qualquer carreira previamente traçada. Não pode visar a riqueza, pois, visando-a, arrisca-se a se tornar um escritor medíocre. Pior: o sucesso é um sinal ambíguo, que muitas vezes revela uma conformidade inquietante a uma moda transitória e não garante qualquer glória sólida."


(Do livro "O contexto da obra literária", de Dominique Maingueneau)
ZIZEK, hoy Sábado en Página/12:
El ex Ministro Varoufakis dice que:
"‘Bueno, el Eurogrupo no existe legalmente, no hay un tratado que haya convocado a este grupo’. Así que lo que tenemos es un grupo inexistente que tiene el mayor poder para determinar la vida de los europeos. No le tiene que rendir cuentas a nadie, dado que legalmente no existe y es confidencial. Así que ningún ciudadano sabe lo que se dice ahí adentro dentro. Estas son decisiones casi de vida y muerte, y ningún miembro tiene que rendir cuentas ante nadie.”
y PERRY ANDERSON, que dice que:
"Si Syriza hubiera elaborado desde su acceso al poder un plan B de impago organizado –preparando el control de capitales, la impresión de una moneda paralela y otras medidas transitorias aplicables en 24 horas para evitar el desorden– y amenazado a la UE con aplicarlo, habría dispuesto de una baza de negociación. Si hubiera declarado que en caso de una prueba de fuerza retiraría a Grecia de la OTAN, hasta Berlín se lo habría pensado dos veces antes de imponer un tercer programa de austeridad, debido al temor que suscita en EE UU semejante perspectiva.
Al llamar a votar No y exigir un Sí dócil una semana después, Syriza ha cambiado de chaqueta con la misma rapidez con que la socialdemocracia alemana votó los créditos de guerra en 1914, aunque esta vez una minoría del partido ha salvado su honor."
Fuentes:
Zizek, "El coraje de la desesperanza", en: http://www.pagina12.com.ar/…/elmun…/4-277849-2015-07-25.html
Anderson, "El error de Tsipras", en:

Entrevista: Claude Lévi-Strauss, aos 90

Revista de Antropologia
Print version ISSN 0034-7701
Rev. Antropol. vol.42 n.1-2 São Paulo  1999

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-77011999000100002
Entrevista: Claude Lévi-Strauss, aos 90

Beatriz Perrone Moisés
Professora do Departamento de Antropologia – USP
Esta entrevista foi realizada a 10 de novembro de 1998. A rapidez e a gentileza com que Lévi-Strauss respondeu à consulta feita pelo Departamento de Antropologia quanto à possibilidade de realizá-la, confirmaram informações de várias pessoas que já o conheciam pessoalmente: de fato, é muito disposto e receptivo. Recebeu-me em seu escritório no Laboratório de Antropologia Social, onde continua indo, religiosamente, duas vezes por semana.

Também vários entrevistadores haviam mencionado a extrema cortesia de seus gestos e palavras, e o bom humor, que às vezes irrompe, inesperado, no riso discreto (como quando eu lhe disse que tínhamos a honra de considerá-lo como um "herói civilizador"...). Também já tinha sido comentada a precisão das palavras, as respostas exatas, claras, bem construídas. No mês em que completaria 90 anos, Claude Lévi-Strauss mantinha intacta a limpidez do raciocínio, sendo inclusive capaz de retomar frases no mesmo ponto em que as deixara, depois de inserir comentários, observações ou precisões. Fala com carinho da juventude, anima-se com a lembrança das expedições, mas reluta em falar do presente. As palavras em itálico, em suas respostas, são as que ele disse em português.
Beatriz: No início do "Prólogo" a Saudades do Brasil o senhor se refere a uma memória olfativa das expedições pelo interior. De que outros odores o senhor se lembra?
Lévi-Strauss: "Como se sabe, na época em que fui para o Brasil [1935], viajávamos de navio, não havia aviões, e os navios eram também cargueiros, e faziam muitas escalas [o navio em que veio Lévi-Strauss partiu de Marselha e fez escala em Barcelona, Cádiz, Argel, Casablanca e Dakar antes de aportar em Santos]. Nunca me esquecerei que, ao chegar — estávamos em alto mar havia dezenove dias, acho — e a primeira percepção que tivemos do Novo Mundo — ainda não se podia ver a costa — foi um cheiro. Um cheiro difícil de descrever, porque as associações são fáceis demais: cheiro de tabaco, cheiro de pimenta... enfim, tudo isso está ligado ao Novo Mundo, não sei se é exatamente isso. Mas é sem dúvida uma das dimensões da natureza brasileira, que não é apenas visual, ou tátil, é também olfativa".



Beatriz: E quais seriam esses "odores do Brasil"?
Lévis-Strauss: "Há muitos outros odores, que emergem ao acaso. Lembro-me, por exemplo, que depois dos Nambikwara, estávamos indo na direção do Madeira, e ainda não era a floresta amazônica, era mais o campo, uma espécie de floresta seca, e de repente, montado no cavalo, vi no solo um campo de abacaxis selvagens. Bastava inclinar-se bem baixo, sem desmontar, para arrancar os frutos e comê-los. É uma das sensações gustativas e olfativas que ficaram porque não era como o abacaxi que conhecemos, era um abacaxi com um cheiro de framboesa absolutamente extraordinário. Há muitos e muitos outros cheiros, mencionei esse apenas como um exemplo... há ainda o cheiro do fumo, cheiro de fumo de rolo em toda parte. Aliás, era o que eu fumava, em folhas de milho, que davam ao tabaco um sabor e um cheiro muito muito particulares, que também ficou. Há também a pinga..."



Beatriz: O senhor gostava de pinga?
Lévi-Strauss: "Ah, sim, gostava muito! E me lembro também, da fabricação, uma vez por semana, da rapadura, nas fazendas do interior, para o consumo dos peões, de seus filhos e de suas famílias, isso também tinha um cheiro e um gosto muito especiais".



Beatriz: Durante as expedições, o senhor comia como os brasileiros, como a população regional?
Lévi-Strauss: "Na verdade, não havia população regional... enfim, havia, durante algum tempo, e depois, mais ninguém. Tínhamos feito grandes provisões: arroz e feijão, claro, e algo que chamavam de bolachas, que também constituem uma lembrança bem clara... ficavam duras como pedra… E também caçávamos..."



Beatriz: O senhor era bom caçador?
Lévi-Strauss:"Tenho vergonha de dizer, porque atualmente sou um opositor radical da caça, mas não era um mau caçador... e, o que é ainda mais lamentável, eu gostava disso".



Beatriz: No ano anterior a essas expedições, o senhor deu aulas na então recém-criada Universidade de São Paulo, integrando a segunda leva de professores estrangeiros. O que significam hoje para o senhor os laços com a Universidade de São Paulo?
Lévi-Strauss: "Sabe, é difícil dizer, porque sentimentos de tipos diferentes se mesclam. Era o tempo de minha juventude e, naturalmente, as pessoas são muito apegadas a seus anos de juventude. Para mim, o Brasil, São Paulo são completamente indissociáveis de meus anos de juventude, e eu já não saberia separar as coisas.
Mas, enfim, eu diria que para jovens professores, que eram praticamente iniciantes na carreira universitária, era antes de mais nada uma oportunidade extraordinária e uma experiência única, porque além de sermos novos na carreira, tínhamos viajado pouquíssimo, por causa dos exames, concursos e coisas desse tipo. De modo que, através de São Paulo, através do Brasil, era um pouco o mundo inteiro que se revelava, ou pelo menos uma face diferente do mundo. Assim, tudo isso representa um conjunto tão rico, tão farto, que eu não saberia o que destacar..."



Beatriz: A idéia de viajar para tão longe era, em si, atraente?
Lévi-Strauss: "Eu tinha vontade de ver o mundo, de ir para bem longe. Já na infância e na adolescência, eu montava várias pequenas expedições no campo francês... eu queria aventura, onde quer que a encontrasse... naturalmente, quanto mais longe eu fosse, melhor..."



Beatriz: Apesar da famosa declaração de Tristes trópicos ["Odeio as viagens e os exploradores."], o senhor gostava, então, de viajar?
Lévi-Strauss: "Ah, sim! Naquela época eu gostava de viajar. É preciso lembrar que Tristes trópicos foi escrito quinze anos depois de minha volta do Brasil, e eu não pensava nas viagens daquela época, mas nas viagens que poderia fazer no momento em que escrevia".



Beatriz: O fato de o Brasil ser, desde o século XVI, uma destinação, digamos, privilegiada pelos franceses, fazia alguma diferença?
Lévi-Strauss: "De certo modo, senti uma espécie de sensação de segurança, sabendo... É claro que eu não sabia de nada disso muito antes de ir para o Brasil, aprendi tudo isso nos meses que precederam minha partida, já que os nomes de Thevet, Léry, evidentemente, não constavam do programa de licenciatura em Filosofia. Assim, foi depois... Mas, eu dizia, uma sensação de segurança, por saber que meus passos seguiam os passos de grandes ancestrais. E a sensação é duradoura, porque há uns trinta anos, minha mulher e eu compramos uma casa no campo e depois de a comprarmos, descobrimos que se encontra a uns poucos quilômetros da casa onde nasceu Jean de Léry."



Beatriz: Thevet e Léry, o senhor dizia, não constavam do programa. Mas Montaigne sim…
Lévi-Strauss: "Ah, sim! Mas não precisava estar no programa para ser lido [risos]. Ainda hoje é assim… continua no programa."



Beatriz: O Brasil era, então, de certo modo, mais próximo do que outras regiões…
Lévi-Strauss:"Sim, muito mais, certamente… além do mais, com a quantidade de palavras de origem tupi que passaram para o francês…"



Beatriz: Os Tupi, justamente, forneceram à Europa os elementos básicos para a construção do Selvagem. Bom ou mau, é o ameríndio que, desde então, figura como o selvagem: o que explicaria o fato de serem os ameríndios os Outros por excelência do pensamento europeu?
Lévi-Strauss: "Há uma resposta simples, simplista, até, afinal, eles ocupavam metade do mundo, e não algumas ilhotas dispersas. Uma presença maciça. E, além disso, os primeiros autores, não apenas franceses, como os mencionados, mas também ingleses, alemães e outros, que se interessaram pelo exotismo, começaram pela América, porque era a América que acabava de ser descoberta, no final do século XV, e que dominaria todo o pensamento do Renascimento. Trata-se de uma série de acasos objetivos, que fizeram com que os ameríndios fossem, para o Ocidente, o Outro por excelência".



Beatriz: Nenhuma outra razão explicaria sua permanência nesse papel, até hoje?
Lévi-Strauss: "Parece-me que há dois casos no mundo, no século XX, em que modos de vida tradicionais se mantiveram por mais tempo: a América do Sul e Nova Guiné, as montanhas da Nova Guiné, que foram descobertas em 1930-35, ao passo que o contato com a América se manteve constante desde o século XVI. O contato com os ameríndios nunca foi interrompido, de modo que é natural que ocupem, no pensamento do Ocidente, um lugar privilegiado."



Beatriz: Razões históricas, portanto, ou "acasos objetivos", como o senhor disse há pouco… os americanistas não teriam contribuído para a permanência dessa imagem, no modo como apresentam as culturas ameríndias?
Lévi-Strauss: "Bem, em parte, sim, mas apenas se generalizarmos… de fato, não se pode dizer o mesmo dos oceanistas ou dos especialistas em Nova Guiné, portanto, há aí algo de específico…"



Beatriz: O senhor já disse, em várias entrevistas, que optou pela etnologia como reação contra a escola sociológica francesa, contra Durkheim, especificamente. Gostaria de pedir-lhe que falasse, mais uma vez, dessa relação…
Lévi-Strauss: "Quando eu era estudante, no início de minha carreira, insurgi-me contra a escola... enfim, contra Durkheim, porque na mesma época descobria a etnologia anglo-americana e, é claro, eu era especialmente sensível à diferença entre o teórico e pessoas que falavam de coisas que tinham ido ver em campo. Como eu mesmo tinha um grande gosto pela aventura, sentia-me mais próximo deles. Mas creio que, posteriormente, compreendi bem melhor e retornei, em grande parte, à tradição durkheimiana.
Eu nunca fui aluno de Mauss, já que nunca tinha feito etnologia antes de partir para o Brasil, mas de qualquer modo, antes de partir, fui ver Mauss e também fui ver Lévy-Bruhl. Eles me deram conselhos, quando eu retornava à França, ia vê-los. Não houve, portanto, uma ruptura... Foi mais, digamos, uma passagem inconstante e, posteriormente, um retorno muito profundo ao pensamento durkheimiano e ao de Mauss".



Beatriz: Mauss teve uma influência especial?
Lévi-Strauss: "Pessoalmente, conheci pouco Mauss. Devo lhe ter feito umas... três visitas, e não foram longas. Foi muito antes, pela obra, que eu fui cativado. Porque no pensamento de Durkheim havia algo de fulgurante, era uma bela construção, monumental... Mauss… era uma noite toda atravessada por clarões... E houve um outro que também me influenciou muito, mais tarde: [Marcel] Granet, que considero como da mesma grandeza que Mauss e Durkheim ou talvez até, em certos aspectos, ainda maior".



Beatriz: Os autores anglo-americanos que o senhor mencionou há pouco….
Lévi-Strauss: "Foram Lowie e Firth. O primeiro livro de teoria etnológica que li foi Primitive Society, de Lowie. A primeira monografia foi We, the Tikopia. Por acaso".



Beatriz: E tudo isso o levou à etnologia…
Lévi-Strauss: "Acho que já contei isso algumas vezes. Eu era professor de Filosofia num liceu do interior, e não podia conceber passar a vida toda dando um curso de Filosofia, talvez aperfeiçoado ano após ano, mas que de qualquer modo seria sempre o mesmo. Naquela época, a Etnologia estava se constituindo como disciplina na França — o Instituto de Etnologia foi fundado em 1925, creio, e o Museu do Homem, para a Exposição Universal de... 1937, acho — e o recrutamento era feito em grande parte entre os jovens filósofos. O exemplo mais notável foi o de [Jacques] Soustelle, que era mais novo do que eu e que, desde muito jovem, tinha certeza absoluta de que se tornaria mexicanista e que, logo depois de concluída a licenciatura, voltou-se para o Museu do Homem e para a Etnologia. De modo que era uma via de saída... escolhi-a por isso. E também porque tinha vontade de ver o mundo".



Beatriz: Ver de perto, para ver de longe…O olhar distanciado que, segundo o senhor, caracteriza o antropólogo, é algo que se aprende, que se constrói? É vocação ou treinamento?
Lévi-Strauss:"A expressão é de Hami, que era um grande autor dramático japonês. Ele dizia que, para ser um bom ator, era preciso olhar para si mesmo, o tempo todo, com os olhos afastados do espectador. Acho que o olhar distanciado pode ser aprendido, mas acho também que é algo que se pode possuir desde o nascimento, uma espécie de característica da personalidade de cada um. No meu caso, creio que se trata da segunda hipótese".



Beatriz: Se esse olhar é indispensável para fazer antropologia, é melhor que seja uma vocação?
Lévi-Strauss: "Acho que há muitos modos de ser antropólogo, e de tornar-se antropólogo... e há muitas moradas na casa do Senhor... A vocação é um dos modos, há provavelmente outros".



Beatriz: Falemos então sobre os seus modos de fazer antropologia ou, mais precisamente, análises de mitos. O senhor mencionou algumas vezes que trabalhava com fichas e, ao longo da elaboração das Mitológicas, as espalhava às vezes sobre a mesa, onde elas de certo modo assumiam configurações que lhe revelavam relações. Como são essas "fichas de mitos"? Posso ver algumas?
Lévi-Strauss: "Eu não trabalhava exatamente com fichas de mitos, esse é meu modo de trabalhar em geral. Faço muitas fichas. Meus ficheiros estão em casa, não tenho nenhuma ficha aqui… Mas não há nada de especial em minhas fichas. Algumas contêm referências, outras uma ou várias frases que li num livro e que chamaram minha atenção, ou uma idéia que tive e transcrevi numa ficha. Podem ser acerca de mitos, ou de livros, podem ser acerca de um objeto que vi, ou de uma idéia que me ocorreu. Em relação aos mitos, podem conter versões completas, às vezes há páginas dobradas no formato de uma ficha, colocadas nos ficheiros, às vezes são resumos... Nada de organizado.
Quando me falta inspiração, quando estou sem idéias, pego um monte de fichas — eu deveria colocar isso no imperfeito, porque se refere ao tempo em que eu trabalhava — e, só de espalhá-las, misturá-las, agrupá-las ao acaso, às vezes me vem uma idéia".



Beatriz: Não se pode então falar num método de fazer fichas, ou de utilizá-las…
Lévi-Strauss: "Não, nenhum. Ao contrário, eu diria que as fichas, para mim, são exatamente o oposto de um método, são o meio de ter idéias imprevistas".



Beatriz: Mas a redação das Mitológicas terá exigido muita disciplina, sem dúvida.
Lévi-Strauss: "Durante uns dez anos, não pensei noutra coisa, das seis da manhã às seis da tarde... Sempre tive em mente o exemplo de Saussure, que dedicou parte de sua vida a mitos, os Nibelungen, e que nunca os publicou, nunca conseguiu pô-los em ordem, e dizia a mim mesmo que, se continuasse assim, repetiria essa desventura, e precisava decidir que teria um fim. Na verdade, o quarto volume, O homem nu, contém a matéria de três livros... Mas eu me proibi de escrevê-los. Disse a mim mesmo: é esse, e será o último. Finalmente, não foi o último, já que depois vieram A via das máscaras, A oleira ciumenta e História de Lince... Mas, de qualquer modo, eu queria fazer algo que formasse um todo".



Beatriz: História de Lince, o último, pode ser considerado como uma espécie de balanço de todo o trajeto das Mitológicas?
Lévi-Strauss: "Para mim, pessoalmente, há o que eu chamo de ‘grandes mitológicas’, os quatro volumes, e os três outros, que constituem as ‘pequenas mitológicas’... estas não são, de modo algum, um balanço em relação às outras. São simplesmente questões que me pareceram interessantes e que não tinham lugar... eu tinha feito alusão a elas diversas vezes... mas elas não se encaixavam exatamente no desenrolar da argumentação. Assim, eu dizia a mim mesmo: um dia, talvez, eu retome tudo isso."



Beatriz: Qual é seu ritmo de trabalho, atualmente?
Lévi-Strauss: "Já não trabalho muito... não haverá mais nenhum livro".



Beatriz: Pena!
Lévi-Strauss: "Não, não é nenhuma pena, porque eles já não seriam bons... supondo que algum dia o tenham sido… Não…escrevo coisas pequenas, artigos, prefácios..."



Beatriz: Então o senhor continua escrevendo...
Lévi-Strauss: "Sim, escrevo e leio… muito menos…"



Beatriz: O que o senhor lê?
Lévi-Strauss: "Ah, leio coisas variadas, aquilo que me mandam, principalmente, os livros para os quais devo escrever um prefácio. A Academia Francesa dá prêmios, é preciso ler os livros... de modo que é em parte, digamos, literatura, e em parte profissional".



Beatriz: O senhor contou, certa vez, que lia regularmente revistas científicas, acompanhando o que se faz nas ciências exatas e biológicas — que, aliás, forneceram imagens muito poderosas à sua obra. O senhor continua lendo essas revistas?
Lévi-Strauss: "Bem, nunca li tanto assim… sempre me inteirei dessas questões através de revistas de vulgarização científica, para grande público… Enfim, continuo lendo regularmente a Scientific American, a Recherche... tento ter uma idéia muito vaga e muito ingênua do que está acontecendo".



Beatriz: As pesquisas arqueológicas e paleontológicas têm mostrado uma história do continente americano cada vez mais complexa. Certa vez, comparando seu trabalho ao de Dumézil, o senhor disse que, de certo modo ao contrário dele, que tratava de demonstrar uma história comum que não era dada, o senhor partia de uma unidade da América que lhe era dada pela história…
Lévi-Strauss: "Sabemos que houve várias levas de povoamento na América. A história americana é provavelmente muito mais antiga do que se dizia até recentemente — mais antiga, em todo caso, do que se afirma ainda nos Estados Unidos —, e não se deve imaginar várias levas de povoamento com gente que chegou, instalou-se e permaneceu no mesmo lugar. Creio que as várias levas de povoamento são o início de uma história extremamente complicada, e que ficaríamos totalmente incapacitados de compreender as culturas americanas se não supuséssemos que, durante milênios, as pessoas circularam, deslocaram-se dentro do continente, e lançaram a base de ... bem, uma unidade, seria exagero... enfim, de uma homogeneidade relativa de todas as culturas ameríndias. É claro que elas diferiram e divergiram enormemente, mas todas elas têm algo em comum. E o fato de terem algo em comum seria totalmente incompreensível se não supuséssemos que os povos circularam, não apenas do norte para o sul, mas também do sul para o norte, que houve uma grande quantidade de deslocamentos. Enfim, temos tendência a achatar a história americana, e a não conceber que durante um milênio, para falar de apenas um milênio, houve uma enormidade de acontecimentos dos quais não temos a menor idéia, infelizmente..."



Beatriz: Em seu discurso de recepção à Academia Francesa, em 1974, o senhor declarou que a cultura francesa estava abalada, talvez até condenada. O senhor diria o mesmo hoje?
Lévi-Strauss: "Sim, creio que a cultura francesa está muito ameaçada... continua muito ameaçada…"



Beatriz: A ponto de correr o risco de desaparecer?
Lévi-Strauss: "As culturas não desaparecem nunca, elas se misturam com outras, e dão origem a uma outra cultura. Mas... bem... aquela que me formou e que me foi ensinada, na escola e em casa, é uma cultura à qual sou muito apegado, e não posso deixar de me entristecer ao vê-la se perder e se transformar em outra coisa... o que certamente acontecerá... mas digo a mim mesmo que, felizmente, não estarei mais aqui..."



Beatriz: Seria possível definir os princípios dessa cultura francesa?
Lévi-Strauss: "Não, não creio que se possa aplicar a análise estrutural nessa escala. Há variáveis demais. Por isso pessoas como Foucault nunca foram estruturalistas... eles mesmos o disseram, não é portanto nenhuma crítica..."



Beatriz: E as culturas ameríndias, estão condenadas?
Lévi-Strauss: "Hesito muito em formular uma opinião, porque, afinal, faz... sessenta anos (é isso?) que vi os ameríndios pela última vez. Quando se é etnólogo, é preciso se abster de fazer afirmações acerca de sociedades que não se viu viver, que não se observou... É evidente que elas estão ameaçadas, que se transformam... mas até que ponto conseguirão salvar algo de original e fazer com que isso se torne um elemento importante daquilo que será sua cultura no futuro... para ter uma opinião quanto a isso seria preciso ir a campo. Eduardo Viveiros de Castro, Manuela Carneiro da Cunha …, vocês, podem falar disso".



Beatriz: Já em Raça e História (1961) o senhor alertava para a necessidade de preservar a diversidade das culturas humanas e para a importância do intercâmbio cultural. Posteriormente, demonstrou diversas vezes o temor de que um "excesso de comunicação" pudesse levar a uma homogeneização paralisante. Apesar de tudo, não lhe parece que as culturas humanas têm demonstrado uma grande vitalidade no sentido de criar diferenças?
Lévi-Strauss: "Eu diria que é a única esperança que nos resta, a de que elas saibam refazer diferenças, o que permitirá aos antropólogos existir. Creio que isso acontecerá ou, pelo menos, espero que sim. Este é um período crítico e, sinceramente, espero que não dure. Fissuras haverão de ser reproduzidas... naturalmente não onde estavam antes, e certamente não onde poderíamos supor que surgissem. De qualquer modo, creio que a humanidade permanecerá diversa, essa é sua única chance".



Beatriz: Que mensagem o senhor enviaria aos antropólogos brasileiros?
Lévi-Strauss: "Sei que já não falo com aqueles que foram meus alunos, porque eles também estão aposentados [risos], é com os que foram alunos de meus alunos e, talvez, até alunos dos alunos de meus alunos... são várias gerações, e sinto-me algo como um trisavô... Mas gostaria de dizer que após meus primeiros contatos com jovens que tinham um amor ao saber e um desejo de conhecimento totalmente extraordinários, e que tinham praticamente a mesma idade que meus colegas e eu, não foi apenas uma relação entre professor e alunos, mas quase uma relação de camaradagem. E como eles evidentemente sabiam muito mais acerca do Brasil do que eu, foi também uma espécie de troca. Eles nos ensinavam o Brasil e nós procurávamos ensinar-lhes o que podíamos, mas eu jamais poderia supor, na época, o que aconteceria realmente no Brasil na minha área, isto é, que rapidamente nasceria uma antropologia brasileira. Não digo que não existisse uma antropologia brasileira, mas era muito antiquada, tradicional, ainda muito marcada pelo espírito do século XIX, ao passo que a que estava para nascer mostrou muito rapidamente que estava na ponta da pesquisa antropológica, e situou-se imediatamente no nível dos países que se tornaram famosos nessa área — a Inglaterra, os Estados Unidos, .. .a França. Assim, sinto que tive participação num tipo de evento que certamente não tem termo de comparação — ou poucos — na história universitária mundial.
Aos jovens antropólogos brasileiros, eu diria — mas não preciso dizer-lhes isso, seu exemplo o demonstra — que não esqueçam a etnologia tal como é praticada desde o seu nascimento. Numa época em que, seja na Inglaterra, nos Estados Unidos ou na França, se percebe um certo desânimo entre os jovens, que precisam encontrar novos objetos — ou sujeitos, se preferirem falar nesses termos — porque aqueles que estudavam tradicionalmente não existem mais, ou se transformam rápido demais, felizmente, no Brasil, a grande etnologia ainda existe... e desejo que continue existindo por muito tempo".

*

*             *
Depois de encerrada a entrevista, notei ao meu lado algo que me parecia uma árvore em miniatura, cujas folhas eram pedacinhos de papel com anotações, colados em "galhos" revirados e perfeitamente simétricos. Olhei mais de perto, e percebi que o objeto, protegido por uma redoma de vidro (foto), é a estrutura, em três dimensões, de um grupo de mitos, cuja representação gráfica se encontra à página 81 de L’origine des manières de table (Mitológicas III). A própria página, unida à página 80 do livro, constitui um "fundo" para a "árvore" de mitos, dentro da redoma (reproduzidas a seguir a partir da 1ª edição, de L'origine des manières de table, Paris, Plon, 1968). Evidentemente fascinada pelo objeto, perguntei a Lévi-Strauss se costumava construir assim estruturas míticas. Respondeu-me que sim, que as construia conforme as percebia nos mitos, com os pedaços de papel, barbante, tesoura e cola que sempre tinha à mão. Alguns desses objetos, continuou, "eram como móbiles à la Calder", e ficavam pendurados pelo laboratório de antropologia. Mas eram muito frágeis, e logo se destruíram. Finalmente, tinha sobrado apenas aquela. "Mas então o senhor é um bricoleur também no sentido primeiro do termo [que remete, como se sabe, a trabalhos manuais]?" Sorrindo, respondeu-me que sim, gostava de usar as mãos para construir coisas desde a infância…
Paris, 1998

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terça-feira, 21 de julho de 2015

Carregando a Literatura nas Costa


Em uma cidade do interior de São Paulo, não lembro o nome, entrei em uma barbearia tradicional, o barbeiro afiando a navalha veio ao meu encontro, eu com meu livro na minha mão ao encontro dele. Antes de apresentar minha literatura, ele rindo falou:
-Você nem imagina quem passou por aqui com um livrinho na mão, igual a você, há uns trinta anos.
-Quem'?
- Plínio Marcos.
-Que honra. O senhor comprou o livro com dedicatória
Ele secamente:
-Não comprei o livro e ele não cortou o cabelo. E você o que pretende mesmo?
Sem titubear, sentei na cadeira e falei:
-Apenas as pontas.


JD

Mário Vargas Llosa é o Lobão da literatura moderna.

Otto Leopoldo Winck........Mário Vargas Llosa é o Lobão da literatura moderna.

Vânia Farhat O que significa?

Otto Leopoldo Winck Virou um reaça ranzinza.

Narinha Oliveira Não concordo...mas, cada um com sua ótica.

Ennio Santos Filho Só me importa que é um grande escritor. Céline por exemplo era um sujeito considerado de posições políticas reacionárias e foi um escritor excepcional. Não adianta ser politicamente correto e escrever porcarias.

Otto Leopoldo Winck Sim, mas o cara pode ser um grande escritor e como ser humano ser um pessoa desprezível. Como escritor beleza. Como pessoa, eu não apertaria a mão de Celine.Mas acho que o Llosa não não é grande escritor desde "A guerra do fim do mundo."

Ennio Santos Filho Como disse me importa o escritor, o artista. Não quero apertar a mão de ninguém.
Só por "Conversa na Catedral" o seu legado como escritor seria suficiente.

Otto Leopoldo Winck Isso é verdade. Os livros dele dos anos 60 e 70 são fodásticos.

Dori Carvalho Porém, o Lobobão não tem o talento nem o conhecimento do Llosa.

Otto Leopoldo Winck Haha, isso lá é verdade!

Julio Urrutiaga Almada II O Vargas LLosa apresenta claramente na literatura sua ideologia e teve posicionamentos reais na vida politica peruana que não deixa margem a duvidas. O lobão é um serviçal oportunista que serve ao reacionarismo assim como daqui a pouco quando a "crise" passar pode servir a um governo popular e até pedir desculpas. Ele é humano e pode errar...

Chico Lopes Avaliar um escritor pela ideologia é uma fria. O que sobraria do exageradamente religioso e tzarista Dostoiévski, se procedêssemos assim? E também não podemos dizer isso de "tudo bem, bom escritor, mas não gostaria de conhecê-lo como pessoa". Ora, a maior parte (enorme parte!) dos escritores que conhecemos, conhecemos como escritores, jamais teremos acesso a eles como pessoas, e temos que levar em conta que poderiam perfeitamente, caso lhe fôssemos apresentados, não simpatizar nada conosco. Independente disso, seus livros nos ofereceram momentos fecundos de prazer estético e reflexão e temos que ser gratos a isso. Simpatias ideológicas não garantem nada, pois um sujeito que compartilha a nossa ideologia pode ser, além de escritor medíocre, bastante antipático.

Otto Leopoldo Winck Sim, Chico, mas no meu comentário sobre Mario V. Llosa eu não entrei nestes méritos, mas fiz uma brincadeira de que, com o discurso anti-bolivariano dele, ele lembra muito o nosso Lobão...

Chico Lopes Gosto do Llosa, não tanto quanto gosto de Borges (que dizer da ideologia deste?) e de outros latino-americanos de esquerda, direita ou centro. Ele é um homem muito culto e implica com os caudilhos sul-americanos, com o atraso mental desses ditadores e seus apaniguados. No que tem minha aprovação.
Que esse Lobão é uma desgraça, Deus me livre. Tenho certeza (e aí é que entra o que vinha dizendo sobre ideologias) que um diálogo entre ele e Llosa seria impossível e daria engulhos neste.


Laura Domingues Coitado do Lobão, se formos pensar em talento, quem sabe daqui umas 5 encarnações.

La puerta de bronce



Manuel Romero de Terreros

Sentado en un amplio sillón de velludo carmesí, al lado de ancha ventana, el Cardenal de Portinaris estaba dictando su testamento. A la primera cláusula que contenía su profesión de Fe, había logrado dar un giro distinto del acostumbrado, de manera que a la par de un compendio de la Religión Católica resultaba un verdadero opúsculo literario. El Prelado, muy satisfecho, prosiguió a enumerar cada uno de sus bienes, y al hacerlo, parecía que iban arrancándose las más hermosas páginas de la historia del arte. El notario escribía a toda prisa y, a pesar de estar muy acostumbrado a ese género de trabajos, se fatigaba en grado sumo, y gruesas gotas de sudor aparecían sobre su calva frente.

Terminadas las cláusulas preliminares, el Cardenal hizo una pausa y dirigió la mirada vagamente a través de la ventana de su estudio. La Plaza del Duque era un hervidero de gente, y el Prelado seguía con la vista el ir y venir de carruajes y peatones. Transcurrió algún espacio de tiempo; el notario se pasó el pañuelo por la frente varias veces, y por fin observó tímidamente:

-¿Sí, Eminencia?

Pero el Cardenal permanecía callado.

-¿Si, Eminencia? -insinuó de nuevo el letrado.

La verdad era que el Cardenal Diácono de la Basílica de Santa María de las Rosas estaba perplejo; no encontraba a quién nombrar heredero. Miembro de una de las más esclarecidas familias de Toscana, con él terminaba su ilustre progenie: su único sobrino, el Conde Fabricio de Portinaris, se había marchado a América hacía quince años y no se había vuelto a tener noticia de él. Ministros diplomáticos y agentes consulares, por más averiguaciones que hicieran, no habían podido proporcionar ningún informe, y todo el mundo consideraba que el Conde había muerto. Desde sus primeros años, don Fabricio había dado pruebas de un carácter indomable, su bolsillo fue siempre un pozo sin fondo, y no era secreto para nadie que sus locuras habían conducido a su madre a un sepulcro prematuro.

Los ojos del Cardenal se empañaron de lágrimas y durante largo tiempo estuvo pensando a quién nombrar heredero. Sabía que las llamadas obras de beneficencia poco podrían aprovecharse de una fortuna que consistía mas bien en objetos de arte que en bienes materiales, y dolíale el alma al pensar que éstos fueran a parar a manos del anónimo e insípido personaje que se llama el Estado.

Decidió por fin legar todo su caudal a algún amigo, y resolvió hacerlo a favor del Príncipe de Sant' Andrea, prócer bondadoso y magnánimo Mecenas.

-Instituyo por mi único y universal heredero -empezaba a dictar el Cardenal, cuando sonó un leve toque en una puerta.

-¡Adelante! -exclamó el Prelado, y apareció en el umbral un sirviente vestido de negro. Adelantose éste y presentó en una salvilla de plata una tarjeta, que el Príncipe de la Iglesia tomó con cierto gesto de enfado. Si al leer en ella: "El Conde Fabricio de Portinaris" experimentó alguna sorpresa, pudo dominarla en seguida, pues con tono tranquilo dijo al notario-: Ramponelli, mañana terminaremos. Puede Vd. retirarse.

El notario recogió sus papeles, metiolos dentro de un cartapacio, y con éste bajo el brazo, fue a besar el anillo cardenalicio, y salió de la estancia después de hacer profunda reverencia.

En seguida ordenó a su camarero:

-¡Que pase el Conde!

Don Fabricio de Portinaris rayaba en los cincuenta años. Era extraordinariamente delgado y bajo de cuerpo; tenía la nariz aguileña, el cabello entrecano y el rostro tan lleno de arrugas, que a primera vista aparecía estar sonriendo continuamente.

Al verlo entrar en el estudio, su tío ni se inmutó ni se puso de pie: sólo dijo secamente, dirigiendo involuntaria mirada al retrato de César Borgia que pendía en uno de los muros.

-No esperaba veros más, sobrino. Creí que habíais muerto.

-Aun vivo, Eminencia -repuso el Conde sonriendo, e hizo ademán de besar la mano del Prelado, pero éste la retiró disimuladamente indicando con ella una butaca cercana. Tomó asiento el Conde, y después de unos instantes de embarazoso silencio, dijo:

-He llegado esta mañana, y creí de mi deber, antes que nada, saludar a vuestra Eminencia.

-Os lo agradezco -contestó el Cardonal, tomando polvos de su tabaquera de oro-. Y, decidme -prosiguió-, ¿encontrasteis en el Nuevo Mundo todas aquejas cosas que aquí echabais de menos? ¿Aquella libertad, aquella cuantiosa fortuna, aquella igualdad encantadora entre los hombres, aquella (aquí sonrió el Cardenal) verdadera democracia?

-Encontré en el Nuevo Mundo, Eminencia, lo mismo que en Europa. Quince años he vivido una vida angustiosa, y hoy vengo a impetrar vuestro perdón y a morir en mi país.

Fue tal su acento de sinceridad, que el Cardenal se puso de pie solemnemente y bendijo a don Fabricio de Portinaris. Era la hora del ocaso y los rayos del sol que se ponía hacían más intensa la roja vestidura del prócer.

Al principio el regreso del Conde fue escasamente comentado en la Ciudad, porque había casi desaparecido su memoria. Pero pronto volvió a hablarse de él, porque el Cardenal de Portinaris, a pesar de su robusta salud y no avanzada edad, decaía notablemente, y un mes después se hallaba al borde del sepulcro. No faltó quien hablase en voz baja de sutiles venenos traídos de América y alguien recordó, en plena tertulia, que los Portinaris descendían de César Borgia. Al fallecer el Prelado y abrirse su testamento, se supo que había legado todos sus bienes a Don Fabricio.

El nuevo Príncipe se ausentó enseguida de la Capital, y estableció su residencia en una villa cercana, en donde llevó una vida retirada y tranquila. A las pocas personas con quienes trataba, refería que estaba escribiendo sus memorias.

Pero pasados algunos meses, decidió regresar a la Corte y allí se dijo que pensaba dar grandes recepciones en su palacio, pues deseaba contraer matrimonio y llevar la vida que correspondía a su clase.

No viene al caso hacer una reseña del Palacio de Portinaris, porque ha sido descrito mil veces. En toda obra referente al Arte del Renacimiento ocupa preferente lugar, y es conocidísimo aún de las personas que jamás han visitado la Ciudad Ducal. Baste recordar que, entre las innumerables obras de arte que encierra, quizá sea la más notable la hermosa reja de entrada, labrada en bronce con tal maestría, que todos están acordes con atribuirla al autor de las puertas del bautisterio florentino. En los tableros inferiores se destaca, en alto relieve, la historia de aquel Hugo de Portinaris que, después de defender heroicamente la fortaleza del Borgo, fue degollado, junto con su mujer y sus dos hijas, por el victorioso y sanguinario Orlando Testaferrata. Gruesos, pero exquisitamente labrados, barrotes abalaustrados sostienen el medio punto que la remata, en cuyo centro campea orgullosamente la puerta que constituye las armas parlantes de la familia, mientras que coronas, tiaras, espadas y llaves cruzadas, pregonan por doquier los grandes honores que ésta ha gozado desde tiempo inmemorial.

Llegó el Príncipe a su palacio con las primeras sombras de la noche. Al ascender la escalera de honor, sintió un desmayo y hubiera caído al suelo, si no se apoyara en el pedestal de una estatua, que decoraba el primer descanso. Repúsose enseguida, y atravesó con paso rápido la larga galería del Poniente, seguido de su mayordomo, y entró en la cámara, llamada del Papa Calixto, que había sido dispuesta para su dormitorio. Era amplísima y, a diferencia de las demás estancias del palacio, relativamente sobria. Pocos pero ricos muebles la exornaban y el techo carecía de plafond alegórico, motivo por el cual el Príncipe la prefirió a las demás, pues, como dijo sonriendo al mayordomo, no quería estar viendo los ángeles y mujeres desnudas de Julio Romano desde su lecho.

Aquella noche, don Fabricio tomó ligerísima comida, y después se instaló en su gabinete, a escribir, hasta hora muy avanzada. El vasto edificio estaba sumido en el más profundo silencio, pues toda la servidumbre se había retirado a descansar, y sólo podía oírse el rasguear de la pluma sobre el papel. Larga fue la carta que escribió el Príncipe, y bastante tiempo tomó en leerla y hacerle algunas correcciones. Por fin la dobló cuidadosamente, y después de haberla metido dentro de un sobre grande, la dirigió a una persona de vulgar apellido, residente en la República del Pánuco. Se disponía a lacrarla y sellarla, cuando se dibujó en su rostro una expresión de sorpresa y de miedo. El gabinete se hallaba contiguo al estudio que había sido del Cardenal, y al alzar el Príncipe la cabeza en busca del sello, notó que por debajo de la puerta de comunicación con aquella estancia, se veía una brillante raya de luz.

Don Fabricio, pasados algunos instantes de sobresalto, logró dominarse y hasta sonreír; y levantose de su asiento para ir a apagar la luz, que inadvertidamente habría dejado algún criado encendida en el estudio. Abrió la puerta resueltamente... y ¡se heló su sangre! Sentada en el sillón, con su tabaquera abierta en la mano derecha, y los dedos de la izquierda en ademán de tomar unos polvos, hallábase la prócer figura del Cardenal de Portinaris.

-No esperaba veros más -dijo lentamente-. Creí que habíais muerto, sobrino.

Presa del mayor terror, don Fabricio huyó, llamando en alta voz al mayordomo y otros sirvientes; pero nadie acudía en su auxilio, y recorrió las galerías dando voces que retumbaban en las bóvedas de la señorial mansión.

-¡Antonio, Bernardo, Julio, Gilberto! -gritaba, pero nadie quería contestar, y con verdadero pavor bajó, puede decirse que rodó, la escalera, y corrió a llamar al conserje. Grandes golpes dio en su puerta con ambas manos, pero nadie oía sus desesperadas voces de terror.

Acercose a la entrada de palacio y quiso abrir la puerta de bronce que la cerraba; pero por más esfuerzos que hizo, no pudo lograr moverla un milímetro, y por fin, en su desesperación, concibió la idea de salir por entre los barrotes, pues a toda costa quería abandonar aquella casa. Como hemos dicho, don Fabricio era extremadamente delgado, y decidió intentar pasar el cuerpo por aquella parte de la reja, en que los barrotes eran más esbeltos y, por consiguiente había mayor espacio entre ellos.

A la madrugada siguiente, enorme concurso de curiosos se aglomeraba a la entrada del palacio. La cabeza del Príncipe, amoratada y descompuesta, se hallaba presa entre dos barrotes, y los ojos, saltándosele de las órbitas, parecían mirar con terror el tablero, en el cual Ghiberti había cincelado magistralmente la degollación de Hugo de Portinaris por el despiadado Orlando Testaferrata.

FIN

La puerta de bronce y otros cuentos, 1922




Biblioteca Digital Ciudad Seva
Двадцать первое. Ночь. Понедельник.
Очертанья столицы во мгле.
Сочинил же какой-то бездельник,
Что бывает любовь на земле.
И от лености или от скуки
Все поверили, так и живут:
Ждут свиданий, бояться разлуки
И любовные песни поют.
Но иным открывается тайна,
И почиет на них тишина…
Я на это наткнулась случайно
И с тех пор все как будто больна.


Анна Ахматова.

Russians turn to their Slavic roots for inspiration and identity



July 21, 2015 Anastasia Maltseva, special to RBTH

As more and more Russians seek solace in patriotism, many are turning to their ancient past and reviving pagan traditions. Apart from various festivities, Slavic traditions are being revived in songs, clothing, martial arts and even psychotherapy. According to sociologists, this interest in the past is becoming a trend in Russia.
 
CELEBRATION

Russians turn to their Slavic roots for inspiration and identity

Enthusiasts celebrating the Perun's Day pagan festival at the Gamayunshchina pagan temple in Kaluga, 2009. Source: Iliya Pitalev / RIA Novosti
It doesn’t appear on the official state calendar as a holiday, but on July 20 groups of Russians around the country gathered to celebrate one of the nation’s oldest festivals by lighting fires, dancing and fighting.
July 20 is known in Russia as Perun’s Day – an ancient Slavic holiday dedicated both to the eponymous Slavic god of thunder and to warriors. The holiday, which used to be one of the most important events in the Slavic tradition, persists in modern Russia.
Perun’s Day (named after the Slavic god of thunder and ruler of the pantheon) is dedicated to warriors. It is believed that on this day, Slavic men used to sacrifice a rooster or a bull in order to wash their weapons in the animal’s blood. Of course, nothing of the sort happens today, said Yelizaveta Timoshkina, co-founder of the Slavic culture reenactment club Bely Bars (“White Leopard”).
“I remember someone bringing a lamb to the festival once,” she said. “The idea was to slaughter it in the evening and cook some shashlyk (a form of shish kebab popular in Russia) or a stew. Some guys from the camp then went to celebrate, and others remained there to cook. When everyone came back in the evening, they saw the lamb strolling cheerfully next to the tents. It turned out none of the reenactors was capable of killing an animal.”
The modern rendition of Perun’s Day involves lighting big fires, after which men start fighting one on one, explained Timoshkina. The victors are rewarded with special talismans – badges made of brass, copper or silver, with designs being based on amulets found by archeologists during excavations of ancient burial mounds. As soon as it gets dark, all the men present form a khorovod (circle dance) around one of the fires and start circling it while holding hands. They try reaching maximum speed without falling into the fire, which is supposed to show their strength and agility.
“If I had to name the five most popular Slavic holidays still observed today, I’d say the most popular one is Maslenitsa – the day when everyone eats pancakes, says goodbye to the winter and invites the spring in. The Slavs celebrated it around March 20,” said Timoshkina. “There is also Ivan Kupala Day (July 24) which is the celebration of the summer solstice, Karachun which marks the winter solstice (celebrated December 12 to 22, depending on the year), Perun’s Day and Veles’ Day, the midwinter holiday (February 11).”

Shows of force
Of course, the re-enactments of ancient holidays are simply inconceivable without reproducing traditional national pastimes – including bare-knuckle boxing. According to martial arts historian Alexei Leshachkov, while the Slavs did not have martial arts as such – or at least, no such system is mentioned in written accounts – they did enjoy bare-knuckle boxing. Boys would start learning to fight at an early age, engaging in various fighting games like “Wall to Wall” (a competition between two groups of fighters trying to push their opponents away from a certain zone) or “King of the Hill” (when someone tried to stay on top of a hill while others pushed him away in an effort to become the new “King”).
Nevertheless, there are some schools of the “Russian martial art” in the country. “Those schools showcase this technique as the traditional Slavic martial art, but this is just a marketing ploy,” said Leshachkov. “In fact, this form of combat was invented in the end of the 20th century.” According to the historian, the “Russian martial art” is an amalgamation of boxing, sambo and karate techniques.

Weeping à la russe
The revival of Slavic traditions is finding some use in modern applied psychology. For instance, the Moscow-based Ladoga coaching center actively employs the rites of the past in its activities. Psychologist Olga Kolyada, one of the center’s managers, says traditional culture contains the secrets of how to live happily.
“We discover the ways of our ancestors. For example, we revive the traditional Slavic singing. The Slavs used their voice to get through grief – the weeping of women during funerals come to mind. We use those techniques today to help people endure traumatic events through their voice,” she explained.
According to Kolyada, an adherence to the traditional world view helps modern people to escape depression. “The customs of Ancient Russia went like this: Spring was for dreaming and preparing to create, summer was for acting and taking risks, fall was when one reaped the fruits, and winter was the time to concentrate on one’s inner world,” she said. “Once people find out about that and start living according to the rhythm of nature, and not their vacation schedule, they are able to get a lot of things in their lives right.”

Maintaining identity through symbolism
Alexei Levinson, a sociology professor at the Higher School of Economics in Moscow, says the revival of traditions represents a recent but growing trend. “This is an international trend – similar processes are happening in England, Scotland and Scandinavia,” he said. “Societies need symbolic resources to maintain their identity.”
However, Levinson believes the appeal to Slavic traditions in popular culture is mostly superficial, and those who treat it seriously are few. “Being patriotic is currently a very fashionable thing in Russia, and the appeal to the culture of the past gives people an opportunity to be a part of the trend,” he said. “Besides, young people simply like to put on some elements of traditional Slavic clothing – it is pretty and uncommon, after all.”



- http://rbth.com/society/2015/07/21/russians_turn_to_their_slavic_roots_for_inspiration_and_identity_47921.html)

Entrevista com Leyla Perrone Moysés

"Traduzir Barthes foi uma forma de fidelidade a ele"

“A inspiração barthesiana sempre esteve presente em minha fundamentação teórica”, confessa Leyla Perrone-Moisés, que se consagrou como um dos principais nomes da crítica literária brasileira e que durante boa parte de sua trajetória intelectual e afetiva manteve uma relação de fidelidade com Roland Barthes – a obra e o homem. O interesse da pesquisadora e professora pelas ideias do pensador francês a levou a Paris, onde o conheceu pessoalmente e desenvolveu a amizade que se tornou fundamental para a ampliação da recepção de Barthes no Brasil. Leyla assinou várias traduções de sua obra, perseguiu seu pensamento em ensaios e livros de temáticas plurais e é a responsável pela “Coleção Roland Barthes”, da editora Martins Fontes, atualmente com vinte volumes.


Nesta entrevista, Leyla fala como pesquisadora, leitora e amiga do homem que lhe deu provas vivazes de amor pela literatura e de generosidade humana. “Pessoalmente ele era tão fascinante quanto por escrito: discretamente sedutor, desprovido de pose e provido de um grande senso de humor”, diz Leyla sobre aquele que também experimentou a arte para além da escrita – foi músico e pintor amador. Aquele que negava a “imortalidade desagradável” por abominar a repetição e por se permitir, apesar das críticas, atravessar fases diversas de um pensamento de amplitude monumental. Um homem plural por si.

Qual foi o primeiro contato da senhora com a obra de Roland Barthes, e de que forma a obra dele se reconfigurou quando vocês dois passaram a conviver juntos?

Soube da existência de Barthes em 1960, quando resenhei o livro de Maurice Blanchot, Le livre à venir, no Suplemento literário de O Estado de S. Paulo. Blanchot falava dele de um modo que despertou meu interesse. Na mesma época, eu escrevia no Suplemento sobre o nouveau Roman e me correspondia com alguns romancistas dessa tendência, entre eles Claude Simon, futuro Prêmio Nobel. Numa de suas cartas, Claude Simon citava um trecho de Barthes sobre a crítica literária. Comecei então a ler Barthes, e a citá-lo em meus artigos. Em dezembro de 1968, conheci-o em Paris. Foi o início de uma relação que durou até a sua morte, em 1980. Pessoalmente, ele era tão fascinante quanto por escrito: discretamente sedutor, desprovido de pose e provido de um grande senso de humor.

Ao longo de sua trajetória intelectual, Barthes foi criticado por “não prezar por uma coerência”, ideia expressa através das diferentes fases de sua obra. Sua flexibilidade de posicionamentos e a forma como defendia sua liberdade para mudar (o repúdio à tal “imortalidade desagradável”) foram, de algum modo, fundamentais para a compreensão que temos hoje da vivacidade do seu pensamento e da variedade de objetos que percorreram seu trabalho?

A trajetória intelectual de Barthes foi marcada por sucessivos deslocamentos. Ele detestava a repetição, e sempre que um tipo de discurso começava a “pegar” ele o abandonava para inventar outro. Isso foi explicado por ele mesmo, em sua obra. Era um procedimento dialético, que se desenvolvia de modo não linear, mas em espiral, sem uma síntese final. Através de todas as suas mudanças, uma coisa se manteve estável: seu amor pela literatura, a forma de linguagem que, segundo ele, é capaz de alcançar o mais alto teor de significação.

Em entrevistas, Barthes chegou a afirmar que as viagens lhe interessavam bastante, mas que esse interesse decaiu à medida que ele envelhecia. Não chegou a concretizar uma viagem ao Brasil, apesar de várias tentativas da senhora em realizá-la. A sempre apontada “pluralidade” do olhar e do debate de Barthes se ampliou a cada viagem? O encanto com o Japão, que gerou O império dos signos (1970), pode ser apontado como seu grande momento fora da França, no sentido de uma “revelação”?

Sim, suas duas viagens ao Japão foram momentos jubilatórios, tanto do ponto de vista pessoal quanto do escritural. O império dos signos é um de seus mais belos livros. O mesmo não aconteceu com a China, que ele conheceu em 1974, em plena “revolução cultural”. Ele desconfiou da vigilância então exercida sobre os estrangeiros e aborreceu-se com os estereótipos da propaganda maoísta. À medida que os anos passaram, ele viajou menos, por preocupação com a saúde de sua mãe, com quem vivia, mas também porque as viagens interrompiam seu trabalho de escrita.

O cinema se alia à publicidade, à fotografia e à moda no âmbito de linguagens visuais que interessaram à reflexão de Barthes. As imagens para o crítico francês eram “lidas” como um texto. Pode-se estabelecer algum paralelo entre a produção prática do pintor e desenhista amador Barthes e sua percepção teórica sobre a linguagem visual?

Seu talento de pintor amador o predispunha a uma percepção especial das artes visuais. Mas sua paixão maior era a linguagem verbal, e foi nesta que ele soube transpor suas observações visuais, recriando com palavras poéticas o que ele via e ajudando o leitor a ver mais e melhor.

Obras como Mitologias (1957), Sistema da moda (1967) e O grão da voz (1981) ainda são hoje referência para estudos que versam sobre temas que ainda sofrem algum preconceito em certos círculos acadêmicos, como música popular massiva, cultura de celebridades e star system. No entanto, temas como os citados têm atraído jovens pesquisadores no âmbito da comunicação e das ciências sociais. Como a senhora percebe a recepção da obra de Barthes pelos jovens no meio acadêmico? Há um interesse que se renova de algum modo?

O recente colóquio Barthes plural, realizado em São Paulo no último mês de junho, atraiu jovens pesquisadores de todo o Brasil. É um interesse crescente. São tantos os aspectos de sua obra que cada um escolhe um tema de sua preferência para analisar. Na verdade, a cultura pop só lhe interessou como objeto de estudo sociológico. Ele não gostava de música popular e, menos ainda, do star system, que ameaçava integrá-lo na categoria de “celebridade”. Mas não era um preconceito acadêmico, era um gosto pessoal. Como músico amador, ele só ouvia e tocava música clássica, Schumann e Schubert em especial.

Sobre o colóquio Barthes plural, eu gostaria que a senhora falasse um pouco sobre a conferência de abertura que a senhora realizou, intitulada “A palavra calma”. Há projeto para que os trabalhos apresentados no evento sejam publicados em alguma plataforma?

As comunicações do colóquio estarão disponíveis na internet nos próximos meses. Em minha conferência, tratei de um aspecto da personalidade de Barthes: sua gentileza, que transparece em sua obra. Ele propunha a palavra calma em todos os contatos humanos: no cotidiano, no ensino e nas discussões intelectuais em geral. Elogiava o “princípio de delicadeza” e desejava a “doçura” na linguagem. Detestava os discursos de poder, no ensino e na política. Nos últimos anos, sentia afinidade com o taoísmo e o budismo zen, que aconselham o desapego e a suspensão do sentido. Mas temia, por outro lado, que esse pacifismo pudesse resultar numa alienação. Existe uma contradição entre seu desejo de doçura e o caráter provocador de sua obra. Em seu diário, ele apontava essa oposição que o fazia sofrer.

Seu projeto de tradução da obra de Barthes surgiu ainda no início do relacionamento de vocês, no final dos anos 1960. Desde então a senhora foi responsável pela tradução de diversas obras, ao mesmo tempo em que seu trabalho como pesquisadora se tornou referência para os estudos literários e sociais brasileiros. A tradução e a pesquisa nascem de uma fonte em comum?

Embora eu tenha tratado de temas variados, ao longo de minha carreira, a inspiração barthesiana sempre esteve presente em minha fundamentação teórica. Traduzir Barthes foi uma forma de fidelidade a ele e à sua obra.

Pela editora Martins Fontes, a senhora coordena a Coleção Roland Barthes, hoje com 20 títulos – alguns deles, inclusive, já esgotados. Como está este trabalho atualmente? Há previsão de ampliar a coleção?

A coleção continua em aberto. Se a Martins Fontes conseguir comprar os direitos de outras obras ou de inéditos, ela pode ser ampliada. Estamos tratando disso.

No âmbito particular, mas também político, a senhora foi prova da generosidade de Barthes, quando ele contribuiu para que seu irmão, o ex-deputado Fernando Perrone, cassado pelo AI-5 e exilado no Chile, conseguisse ir à França desenvolver seu doutorado. Qual o legado humano que Barthes lhe deixou como amigo?

Muitos contemporâneos de Barthes o censuravam por não ser um militante marxista. Ele não gostava da arrogância dos militantes, e preferia a subversão à revolução. Mas ele sempre foi um pensador de esquerda, e pessoalmente era solidário com os marxistas perseguidos. Em 1974, encontrei-o na embaixada de Portugal em Paris, festejando a “Revolução dos Cravos”. Em seus seminários, acolheu numerosos fugitivos das ditaduras sul-americanas dos anos 1960 e 1970. Ajudou meu irmão exilado a inscrever-se na universidade e a obter, assim, os documentos necessários para permanecer em Paris, onde ele residiu até a anistia. Como amigo, sua generosidade era imensa. Participou da banca de tese de meu irmão como voluntário, e me agradecia constantemente por traduzir e divulgar sua obra no Brasil. As cartas dele, incluídas em meu livro Com Roland Barthes, comprovam sua delicadeza e sua afetividade.

Para um leitor que tem interesse em adentrar o universo de Barthes, quais leituras a senhora apontaria como fundamentais para um início? Por quê?

Aos professores e críticos de literatura, eu aconselharia a leitura de Crítica e verdade e do conjunto de ensaios que se encontram em O rumor da língua. Aos profissionais das artes visuais, A câmara clara e O óbvio e o obtuso. Aos não especializados, que buscam o prazer da leitura, aconselharia as Mitologias, que são inteligentes e engraçadas, O império dos signos, que dá vontade de ir ao Japão e de comer comida japonesa, e os Fragmentos de um discurso amoroso, que consolam, com humor, todos os que estão ou já estiveram apaixonados. A todos que desejarem ter uma visão de conjunto de suas propostas, eu aconselharia a Aula, que permanece como seu testamento intelectual.

Suplemento Pernambuco


domingo, 19 de julho de 2015

“O surpreendente princípio desse “moralista” acaba pelo dizer: tudo é permitido [...]. Sim, na ordem da particularidade, tudo é permitido, pois, se as diferenças constituem o material do mundo, é simplesmente para que a singularidade do sujeito de verdade, ela própria contida no devir do universal, cave trincheira nesse material. Não é necessário por isso, muito pelo contrário, pretender julgá-lo ou reduzi-lo.
[...]
Evidentemente, Paulo combate todos aqueles que gostariam de submeter a universalidade pós-acontecimento à particularidade judaica.
[...]
Judeu entre os judeus, e feliz de sê-lo, Paulo quer apenas lembrar que é absurdo achar-se proprietário de deus e que um acontecimento, em que a questão em pauta é o triunfo da vida sobre a morte, quaisquer que sejam as formas comunitárias de uma e de outra, estimula o “para todos” em que o Um do monoteísmo se sustenta.
[...]
A técnica de Paulo é, então, o que se poderia chamar a simetrização segunda.
[...]

No fundo, o que Paulo tenta fazer e que é justo considerar ser, afinal de contas, uma invenção progressista, é passar o igualitarismo universalizante por meio da reversibilidade de uma regra desigualitária. O que lhe permite, ao mesmo tempo, não entrar em controvérsias sem saída relativas à regra (que ele assume inicialmente) e dispor a situação global de tal modo que a universalidade possa ser recuperada nas diferenças particularizantes, na circunstância da diferença dos sexos.” (Badiou, Universalidade e travessia das diferenças, In: A fundação do universalismo, pp. 118-122).
“Essa é a razão pela qual Paulo, apóstolo das nações, não só se recusa a estigmatizar as diferenças e os costumes, mas aceita a eles se dobrar de tal modo que através delas, e nelas, passe o processo de abandono subjetivo delas. É exatamente a busca de novas diferenças, de novas particularidades onde expor o universal, que transporta Paulo para além do local do acontecimento propriamente dito (o local judaico), que o leva a deslocar a experiência, histórica, geográfica, ontologicamente. Daí uma característica militante muito reconhecível, que combina a apropriação das particularidades e a invariabilidade dos princípios, a existência empírica das diferenças e a sua inexistência essencial, não por meio de uma síntese amorfa, mas de acordo com uma série de problemas a resolver.
[...] comunistas chineses [...] “a linha de massas” [...]

Para compreendê-las, no entanto, também é preciso que a própria universalidade não se apresente com as características de uma particularidade. Somente é possível transcender as diferenças se a benevolência em relação aos costumes e às opiniões apresentar-se como uma indiferença tolerante às diferenças, a qual tem como prova material apenas poder, e saber, como narra Paulo, autopraticar as diferenças. Por isso, Paulo desconfia muito de qualquer regra, qualquer rito que possa afetar a militância universalista, designando-a, por sua vez, como portadora de diferenças e articularidades.” 
(Badiou, Universalidade e travessia das diferenças, In: A fundação do universalismo, pp. 116-117).

Milho de pipoca que não passa pelo fogo continua a ser milho para sempre!


(Rubem Alves)

Assim acontece com a gente.
As grandes transformações acontecem quando passamos pelo fogo.
Quem não passa pelo fogo, fica do mesmo jeito a vida inteira.
São pessoas de uma mesmice e uma dureza assombrosa.
Só que elas não percebem e acham que seu jeito de ser é o melhor jeito de ser.
Mas, de repente, vem o fogo.
O fogo é quando a vida nos lança numa situação que nunca imaginamos: a dor.
Pode ser fogo de fora: perder um amor, perder um filho, o pai, a mãe, perder o emprego ou ficar pobre.
Pode ser fogo de dentro: pânico, medo, ansiedade, depressão ou sofrimento, cujas causas ignoramos.
Há sempre o recurso do remédio: apagar o fogo!
Sem fogo o sofrimento diminui. Com isso, a possibilidade da grande
transformação também.
Imagino que a pobre pipoca, fechada dentro da panela, lá dentro cada vez mais quente, pensa que sua hora chegou: vai morrer. Dentro de sua casca
dura, fechada em si mesma, ela não pode imaginar um destino diferente para si.
Não pode imaginar a transformação que está sendo preparada para ela.
A pipoca não imagina aquilo de que ela é capaz.
Aí, sem aviso prévio, pelo poder do fogo a grande transformação acontece:
BUM!
E ela aparece como uma outra coisa completamente diferente, algo que ela
mesma nunca havia sonhado.
Bom, mas ainda temos o piruá, que é o milho de pipoca que se recusa a estourar.
São como aquelas pessoas que, por mais que o fogo esquente, se recusam a mudar.
Elas acham que não pode existir coisa mais maravilhosa do que o jeito delas serem.
A presunção e o medo são a dura casca do milho que não estoura.
No entanto, o destino delas é triste, já que ficarão duras a vida inteira.
Não vão se transformar na flor branca, macia e nutritiva.
Não vão dar alegria para ninguém.


Extraído do livro "O amor que acende a lua" de Rubem Alves

sábado, 18 de julho de 2015

Владимир Высоцкий - Баллада о времени

DICIONÁRIO_ANGOLANO


Mãe --- Mamoite*
Pai --- Papoite**
Amigo --- Kamone*
Festa --- Boda*
Carro --- Ruca*
Casa --- Mbanje, Biva*
Namorada --- Mboa, biolo*
Fome --- Dioba*
Comida --- Piteu*
Burro --- Bolo*
Luta --- Bilo, balo*
Igreja --Nguele*
Camisola --- Bibera, mbila,bibe*
Tele móvel --- Báica, telelé,Buba*
Televisão --- Teipe*
Tudo bem? --- Inuvé!?, fala camoni*
Ir --- Bazar, Tirar o pé, Se Chotar*
irmão-- cassulé, puto*
Estás bem?-- stas numa?
Roubar--- tramancar, pinar*
prisão---cuzu
Escola--school*
Cunhado-----nha do*
Cigarro------ Naite *

Assim Falamos em Angola......... ..

Traiano livra a cara de Beto Richa e arquiva pedidos de Impeachment no Paraná



Traiano et caterva não caíram da privada do Altíssimo, foram eleitos . Uma parte substancial desse fedor , o qual vem lá da ALEP e do Palácio é coisa digerida com gosto pelos paranaenses. Nostra Culpa, Nostra Máxima Culpa.E desgraçadamente essa alma sebosa que é a politica de compadrio será atualizada pondo nos sacrossantos troninhos da Alep e do palácio a parentalha dos Mesmos. Nossa República dinástica e seu aristocrata cínico como autocrata .Quem crê ainda em utopias são poetas. A ação é não votar em Nenhum cão e no dono do canil , que não é o povo , posto que essa casa de tolerância representa os interesses patrimonialistas dos cleptocratas ora no Poder e no seu entorno.

Wilson Roberto Nogueira

В.С. Высоцкий. Подборка видеонарезок.flv

Sobre a Calúnia

 “A calúnia é um ventinho, um arzinho muito gentil que, insensível e sutil, ligeira e docemente, começa a sussurrar. Pouco a pouco, no assoalho rastejando sibilante, vai escorrendo, vai zumbindo nos ouvidos das pessoas, entra com destreza; E as cabeças e os cérebros atordoa e faz inchar. Boca afora vai saindo, cacareja e vai crescendo: ganha força pouco a pouco, corre canto a canto, qual trovão, e temporal que, no seio da floresta, assobia resmungando e faz de horror gelar. Afinal, derrama-se, volátil, esparramada e duplicada, em perfeita explosão, como a de um canhão, em terremoto, em vendaval, num tumulto geral que faz o ar chicotear. E o pobre caluniado, ofendido, repisado, em público flagelado, por bom motivo, sucumbe.”

(Fala de D. Basilio, em "O barbeiro de Sevilha")

filosofia religiosa de Dostoievski

Crítica típica de um espírito ocidentalista e materialista, incapaz de penetrar na essência metafísica e profundamente religiosa da obra de Dostoievski. Já o li e quase vomitei o tempo todo. Mikhailovski nunca compreendeu a Ortodoxia, nunca buscou compreender a Ortodoxia e a ligação que ela, na Rússia, mantinha com o povo, com o destino da nação, com um entendimento sobrenatural da caminhada do povo russo, do caráter de profecia da imersão de Dostô na espiritualidade do Monte Athos, no hesicasmo, na busca pela transfiguração do homem.

Homens como Mikhailovski idolatram a imanência, sendo que a base da filosofia religiosa de Dostoievski é uma só: não há salvação ou esperança na imanência. Não há esperança debaixo do céu nem verdade. Tudo se transcende a si mesmo no Espírito e só no Cristo tem seu fundamento, validade, onticidade.
Foi assim que Dostoievski me converteu à Ortodoxia, sem nenhuma pregação, com o dissecamento de almas atormentadas pelo fogo do encontro, do diálogo no infinito, onde a essência divina do homem se manifesta, ali, no inferno, no abismo.
A única crueldade no escritor está na forma impiedosa em como retrata o sofrimento humano EXATAMENTE na sua intenção artística e ideológica de apresentar tal abismo na sua crueza, para demonstrar a completa vacuidade da imanência, a total insuficiência dos saberes, ciência, civilização, valores morais do homem pretensamente livre diante da terrível liberdade incriada que a criatura 'jogada no abismo da existência' (veja Heidegger aqui) compartilha com o Deus que não só a cria e salva, como sofre juntamente com ela.

Não é uma crueldade desnecessária, niilista, é um recurso essencial, estético, para que sua visão artística pudesse ser explorada na sua máxima clareza e intensidade. A visão: o homem jogado necessita de Deus, da transcendência, mesmo que nunca a encontre (Svidrigailov, Stavróguin, Smierdiakov).

Caio Alves Cordeiro 

Três anos e meio de muito sofrimento pela frente.

Lana Yorkshire A única sensibilidade que a elite tem é no próprio bolso.

João Vitor Vasques Dutra Elite? Essa é a cultura do brasileiro, ou a sensibilidade do povo nas ruas é diferente? Não!! Esse é o país onde quase todos gostam de levar vantagem. O cara que mete o pau no político é o mesmo que molha a mão do guarda de trânsito ou fica com o troco a mais. Ou não?

Giancarlo Roger Hilario Não to criticando aqui somente o Richa, gente. Nem o Estado brasileiro, que mesmo sendo hoje de centro esquerda, tem conchavo com a burguesia até a tampa . Esses ninguém tem duvida que são uns baitas safados. Mas, a atitude medrada e medíocre dos professores e funcionários do Paraná que votaram em um histórico 2015 pra acabar com a greve num momento em que tínhamos a opinião publica nacional ao nosso favor... Da tese de doutorado tamanho o paradoxo. Foi ridícula. Não é porque o Richa (em cujo fdp eu não votei, jamais votaria porque não sou otário.) fode a escola até não querer mais com seu ridículo pacote fascista de malvadezas, que eu vou prostituir minha consciência e me tornar num acovardado ridículo e idiota pior do que ele. O que é isso, servidão voluntaria a la Etienne de la Boete? Ele sim, o Richa, coerentemente ta defendendo os interesses da classe social a que pertence. E os professores que depois de uma greve que não teve nenhuma conquista e que durou quase 80 dias votaram pra voltar pra sala de aula com os rabos entre as pernas com muitos hematomas, com 8 bilhões confiscados de nossa previdência e com a vergonhosa promessa de 3,45 % de reajuste para outubro? Vamos voltar um pouco: pedimos 13%, ele disse não, abaixamos pra 8%, ele ofereceu 5%, recusamos e ele abaixou pra 3,45% e nós acabamos com a greve nesse instante, o que significa aceitar. Tínhamos a mídia, a opinião estadual e publica nacional e ate o psdb a nosso favor. E resolvemos acabar com a greve.  Com esse posicionamento e atitude acovardados perdemos não só a vergonha na cara, a dignidade e o respeito, mas especialmente o poder de barganha com o estado, que nos vê agora como uma categoria sem categoria, bastando ameaçar fazer careta e os fessorzinhos se borram todos e acabam, obedientes, com a greve.
 Tem gente, lana, que não é da elite e também não tem nenhuma sensibilidade, a não ser com o próprio bolso. Senão vejamos, fazem uma greve, não to falando a nossa de 2015, e colocam um rol bastante extenso de reivindicações. Mas, na medida em que o patrão concede a questão salarial, acabam com a greve. Na educação escolar a coisa é pior, porque as repercussões de desastrosas atitudes como a que citei e como o desfecho desventuroso da greve nossa de 2015, tem repercussões terríveis nos rumos não so da escola publica em nosso estado e em nosso pais mas na própria esperança de dias melhores para o ja tao sofrido povo brasileiro.

Lana Yorkshire Mas é o que eu digo e repito: todos reclamam, esbravejam, fazem o maior auê em função da "sociedade" ou "segmento social" não tomar uma atitude. Só que esquecem que a sociedade ou o segmento social, sou eu, você, o José, a Maria. Não assumir a própria responsabilidade e transferir a culpa dos problemas para o vizinha é sempre mais fácil.Eu fiz a minha parte nessa merda que estamos atolados: não votei no relincha. Agora sofro as consequências juntamente com todos os que também não votaram, e os que votaram. E muito me admira a classe dos educadores se rebelar e soltar o verbo depois de terem em grande número, ajudado a eleger esse facínora. Sou à favor da prevenção e não do tratamento. E nesse caso, o tratamento está sendo paliativo porque a cura, só com impeachment. Ainda temos três anos e meio de muito sofrimento pela frente.