quinta-feira, 29 de novembro de 2012

É você aquela que eu estava esperando?


Nick Cave/ Tradução: Fernando Koproski
(are you the one that I’ve been waiting for?)

Conforme você se aproximava, menina, senti você chegando
Sei que você ia me encontrar, porque ansiava por você
Você é o meu destino? É assim que você vai aparecer?
Enrolada num casaco e chorando?
Ah, tira esse casaco, amor, e joga no canto
É você aquela que eu estava esperando?

Conforme você se move, com certeza na minha direção
Minha alma tem me encorajado e me garantido
Que com o tempo meu coração vai me recompensar
E que tudo ainda será revelado
Então me sentei e vi uma era glacial degelando
É você aquela que eu estava esperando?

Com tristeza mundos inteiros se fizeram
Com desejo grandes maravilhas foram quistas
São só pequenas lágrimas, amor, deixa elas caírem
E encosta teu rosto no meu ombro
Além da minha janela, uma guerra está começando
É você aquela que eu estava esperando?

Ah, nós saberemos, nós não vamos saber?
Estrelas nesse céu explodirão
Mas elas não vão, não é?
As estrelas têm seu momento e morrem então

Há um homem que dizia milagres mas jamais o conheci
Ele disse: “aquele que procura, encontrará, e quem bate na porta um dia será convidado”
Eu penso em você se movendo e o quão perto você está chegando
E como qualquer pequena coisa já te antecipa
Por todas as veias, meu coração profundo vem chamando:
É você aquela que eu estava esperando?


quarta-feira, 28 de novembro de 2012

AMOR E SEU TEMPO


O MELHOR DE DRUMMOND - VI

AMOR E SEU TEMPO

Amor é privilégio de maduros
estendidos na mais estreita cama,
que se torna a mais larga e mais relvosa,
roçando, em cada poro, o céu do corpo.

É isto, amor: o ganho não previsto,
o prêmio subterrâneo e coruscante,
leitura de relâmpago cifrado,
que, decifrado, nada mais existe

valendo a pena e o preço do terrestre,
salvo o minuto de ouro no relógio
minúsculo, vibrando no crepúsculo.

Amor é o que se aprende no limite,
depois de se arquivar toda a ciência
herdada, ouvida. Amor começa tarde.

http://soundcloud.com/raissa-zavatini/32-carlos-drummond-de-andrade
 
Carlos Drummond de Andrade

terça-feira, 27 de novembro de 2012


"...fluidificação dos significados – especialmente os relacionados com fronteiras, políticas ou estéticas, e o deslizamento das formas de compreensão de coisas e do mundo, o entrecruzar de saberes que se expandem. Cultura das Bordas, pensando de igual maneira nos espaços e impasses que, em suas implicações estão presentes."

Jerusa Pires Ferreira [Cultura das Bordas]

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Laura e Paul



Quando Karl Marx leu O direito à preguiça, sentenciou:
- Se isto for marxista, eu não sou marxista.
O autor, Paul Lafargue, parecia mais anarquista que comunista, e revelava uma suspeita tendëncia à loucura tropical.
Tampouco o agradava a ideia de ter como genro aquele cubano de cor não muito clara:
- A intimidade excessiva está fora de lugar - advertiu ele, por escrito, assim que Paul começou seus perigosos avanços sobre sua filha Laura, e solenemente acrescentou:
- E' meu dever interpor minha razão diante de seu temperamento nativo.
A razão fracassou.
Laura Marx e Paul Lafargue compartilharam a vida durante mais de quarenta anos.
E na noite de hoje do ano de 1911, quando a vida já não era vida, em sua cama de sempre viajaram, abraçados, a ultima viagem.

 Galeano - 26 de novembro

domingo, 25 de novembro de 2012


palavras de José Saramago, in 'Canarias7 (1994):

"Se o homem não for capaz de organizar a economia mundial de forma a satisfazer as necessidades de uma humanidade que está a morrer de fome e de tudo, que humanidade é esta? Nós, que enchemos a boca com a palavra humanidade, acho que ainda não chegámos a isso, não somos seres humanos. Talvez cheguemos um dia a sê-lo, mas não somos, falta-nos mesmo muito. Temos aí o espectáculo do mundo e é uma coisa arrepiante. Vivemos ao lado de tudo o que é negativo como se não tivesse qualquer importância, a banalização do horror, a banalização da violência, da morte, sobretudo se for a morte dos outros, claro. Tanto nos faz que esteja a morrer gente em Sarajevo, e também não devemos falar desta cidade, porque o mundo é um imenso Sarajevo. E enquanto a consciência das pessoas não despertar isto continuará igual. Porque muito do que se faz, faz-se para nos manter a todos na abulia, na carência de vontade, para diminuir a nossa capacidade de intervenção cívica. "

e assim vamos, em nossos mínimos dias, produzindo consumo sem o sumo da vida para o sustento de uma 'vida capital', vida sem sujeito!

Dia contra a violência doméstica



Na selva do Alto Paraná, as borboletas mais lindas se salvam se exibindo. Abrem suas asas negras, alegradas por pinceladas vermelhas ou amarelas, e de flor em flor borboleteiam sem a menor preocupação. Depois de milhares e milhares de anos de experiências, seus inimigos aprenderam que essas borboletas tem veneno. As aranhas, as vespas, as lagartixas, as moscas e os morcegos olham de longe, mantendo prudente distância.
No dia 25 de novembro de 1960, três militantes contra a ditadura do generalíssimo Trujillo foram espancadas e atiradas num abismo da República Dominicana. Eram as irmãs Mirabal. Eram as mais lindas, eram chamadas de borboletas.
Em sua memória, em memória de sua beleza indevorável, hoje é o Dia Mundial contra a Violência Doméstica. Ou seja: contra a violência dos trujilinhos que exercer a ditadura dentro de cada casa.

 Galeano - 25 de novembro