quarta-feira, 28 de novembro de 2012

AMOR E SEU TEMPO


O MELHOR DE DRUMMOND - VI

AMOR E SEU TEMPO

Amor é privilégio de maduros
estendidos na mais estreita cama,
que se torna a mais larga e mais relvosa,
roçando, em cada poro, o céu do corpo.

É isto, amor: o ganho não previsto,
o prêmio subterrâneo e coruscante,
leitura de relâmpago cifrado,
que, decifrado, nada mais existe

valendo a pena e o preço do terrestre,
salvo o minuto de ouro no relógio
minúsculo, vibrando no crepúsculo.

Amor é o que se aprende no limite,
depois de se arquivar toda a ciência
herdada, ouvida. Amor começa tarde.

http://soundcloud.com/raissa-zavatini/32-carlos-drummond-de-andrade
 
Carlos Drummond de Andrade

terça-feira, 27 de novembro de 2012


"...fluidificação dos significados – especialmente os relacionados com fronteiras, políticas ou estéticas, e o deslizamento das formas de compreensão de coisas e do mundo, o entrecruzar de saberes que se expandem. Cultura das Bordas, pensando de igual maneira nos espaços e impasses que, em suas implicações estão presentes."

Jerusa Pires Ferreira [Cultura das Bordas]

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Laura e Paul



Quando Karl Marx leu O direito à preguiça, sentenciou:
- Se isto for marxista, eu não sou marxista.
O autor, Paul Lafargue, parecia mais anarquista que comunista, e revelava uma suspeita tendëncia à loucura tropical.
Tampouco o agradava a ideia de ter como genro aquele cubano de cor não muito clara:
- A intimidade excessiva está fora de lugar - advertiu ele, por escrito, assim que Paul começou seus perigosos avanços sobre sua filha Laura, e solenemente acrescentou:
- E' meu dever interpor minha razão diante de seu temperamento nativo.
A razão fracassou.
Laura Marx e Paul Lafargue compartilharam a vida durante mais de quarenta anos.
E na noite de hoje do ano de 1911, quando a vida já não era vida, em sua cama de sempre viajaram, abraçados, a ultima viagem.

 Galeano - 26 de novembro

domingo, 25 de novembro de 2012


palavras de José Saramago, in 'Canarias7 (1994):

"Se o homem não for capaz de organizar a economia mundial de forma a satisfazer as necessidades de uma humanidade que está a morrer de fome e de tudo, que humanidade é esta? Nós, que enchemos a boca com a palavra humanidade, acho que ainda não chegámos a isso, não somos seres humanos. Talvez cheguemos um dia a sê-lo, mas não somos, falta-nos mesmo muito. Temos aí o espectáculo do mundo e é uma coisa arrepiante. Vivemos ao lado de tudo o que é negativo como se não tivesse qualquer importância, a banalização do horror, a banalização da violência, da morte, sobretudo se for a morte dos outros, claro. Tanto nos faz que esteja a morrer gente em Sarajevo, e também não devemos falar desta cidade, porque o mundo é um imenso Sarajevo. E enquanto a consciência das pessoas não despertar isto continuará igual. Porque muito do que se faz, faz-se para nos manter a todos na abulia, na carência de vontade, para diminuir a nossa capacidade de intervenção cívica. "

e assim vamos, em nossos mínimos dias, produzindo consumo sem o sumo da vida para o sustento de uma 'vida capital', vida sem sujeito!

Dia contra a violência doméstica



Na selva do Alto Paraná, as borboletas mais lindas se salvam se exibindo. Abrem suas asas negras, alegradas por pinceladas vermelhas ou amarelas, e de flor em flor borboleteiam sem a menor preocupação. Depois de milhares e milhares de anos de experiências, seus inimigos aprenderam que essas borboletas tem veneno. As aranhas, as vespas, as lagartixas, as moscas e os morcegos olham de longe, mantendo prudente distância.
No dia 25 de novembro de 1960, três militantes contra a ditadura do generalíssimo Trujillo foram espancadas e atiradas num abismo da República Dominicana. Eram as irmãs Mirabal. Eram as mais lindas, eram chamadas de borboletas.
Em sua memória, em memória de sua beleza indevorável, hoje é o Dia Mundial contra a Violência Doméstica. Ou seja: contra a violência dos trujilinhos que exercer a ditadura dentro de cada casa.

 Galeano - 25 de novembro

sábado, 24 de novembro de 2012

Avó



Em 1974, seus ossos apareceram nas colinas pedregosas da Etiópia.
Seus descobridores a chamaram de Lucy.
Graças à tecnologia mais avançada, foi possivel calcular a sua idade, uns tres milhões cento e setenta e cinco mil anos, um dia a mais, um dia a menos, e tambem sua estatura: era baixinha, media um metro e pouco.
O resto foi deduzido, ou talvez adivinhado: tinha o corpo bastante peludo, já não caminhava de quatro mas se balançava em andanças de chimpanzé, com as mãos quase roçando o chão, e mais do que chão gostava mesmo era das copas das árvores.
Talvez tenha morrido afogada em algum rio.
Talvez fugisse de um leão ou de algum outro desconhecido que tenha se interessado por ela.
Havia nascido muito antes que o fogo e a palavra, mas talvez ja' falasse uma linguagem de gestos e ruídos que talvez dissessem, ou quisessem dizer, digamos,
sinto frio,
sinto fome,
não me deixem sozinha.

 Galeano - 24 de novembro -