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quarta-feira, 4 de novembro de 2015

ESPELHO DE UM MOMENTO


Ele dissipa a claridade
Mostra aos homens as imagens sutis da aparência
Arrebata aos homens a possibilidade de se distraírem.
É duro quanto a pedra,
A pedra informe,
A pedra do movimento e da rua,
E seu brilho é tal que todas as armaduras, todas as
máscaras se deformam.
O que a mão tomou desdenha mesmo de tomar a forma da mão.
O que foi compreendido não existe mais,
A ave se confundiu com o vento,
O céu com sua verdade
O homem com sua realidade.

Paul Éluard

domingo, 14 de abril de 2013

Ao infinito



Ela surgia de suas semelhanças
E de seus contrários

Por vezes a víamos melhor mais publicamente
Do que ocultando os seios sob um coração materno

Poderá ela inspirar indiferença
Aquela que sou eu mesmo

Ela exalta meu irmão
Meu irmão a primeira imagem

O sol brilha através dele ele nasceu dela
E é por isso que tenho certeza que todos o amam

Ela surgiu do homem
E o homem surgiu dela
Ela surgiu do desejo do homem
De um homem
De mim
E de outro homem
E talvez também de uma mulher
De muitas mulheres desejáveis ideais
E de muitas mulheres sem atrativos

Surgiram infâncias vagas 
Dos sonhos mais belos em espirais coloridas
E de duras realidades
Corcundas debilitadas brancas e negras
Sonho e realidade e rosa e a roseira
A dor e seus muros a extensão de uma rua tranquila
A dor aceitável e o prazer possível

Seca
Dos pés à cabeça
Ela caminhava sobre os pântanos
E submergia nas dunas

Eu frio ou cálido
De vez em quando eu era seu leito
Seus lençóis alvos seus lençóis encardidos
E seu íntimo prazer

Seu sangue navegava a remar
Contornando a ilha de seu coração
Caçávamos os dois juntos o sono
Dois sóis se erguiam em nós. 


Paul Éluard - Corpo memorável (1948)
Últimos poemas de amor

Trad. Maria Elvira Braga Lopes e Gilson Maurity