segunda-feira, 10 de janeiro de 2011
De tarde
Naquele “pic-nic” de burguesas,
Houve uma cousa simplesmente bela,
E que, sem ter história nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarela.
Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de grão-de-bico
Um ramalhete rubro de papoulas.
Pouco depois, em cima duns penhascos,
Nós acampámos, inda o sol se via;
E houve talhadas de melão, damascos,
E pão-de-ló molhado em malvasia.
Mas, todo púrpuro, a sair da renda
Dos teus dois seios como duas rolas,
Era o supremo encanto da merenda
O ramalhete rubro das papoulas!
Manuel Jorge Marmelo
Houve uma cousa simplesmente bela,
E que, sem ter história nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarela.
Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de grão-de-bico
Um ramalhete rubro de papoulas.
Pouco depois, em cima duns penhascos,
Nós acampámos, inda o sol se via;
E houve talhadas de melão, damascos,
E pão-de-ló molhado em malvasia.
Mas, todo púrpuro, a sair da renda
Dos teus dois seios como duas rolas,
Era o supremo encanto da merenda
O ramalhete rubro das papoulas!
Manuel Jorge Marmelo
domingo, 9 de janeiro de 2011
Bucólica
O camponês sem terra
Detém a charrua
E pensa em colheitas
Que nunca serão suas.
José Paulo Paes.
seleção de Davi Arrigucci Jr.
Global.SP:1998
Detém a charrua
E pensa em colheitas
Que nunca serão suas.
José Paulo Paes.
seleção de Davi Arrigucci Jr.
Global.SP:1998
Notas num diário
Nada mais decorativo que a metafísica do silêncio
SOBRE O TEXTO
Este é o primeiro dos seis trechos do diário de Ricardo Piglia que serão publicados com exclusividade pela Ilustríssima. Autor de “Dinheiro Queimado” e professor na Universidade de Princeton, o escritor divide seu tempo entre a Argentina e os EUA. Seu novo livro, “Branco Noturno”, será lançado pela Cia. das Letras em junho.
RICARDO PIGLIA
tradução PAULO WERNECK
SEGUNDA Passo a noite internado no Hospital de Princeton. Enquanto espero o diagnóstico, sentado na sala de espera, vejo entrar um homem que mal consegue se locomover.
Descrevê-lo. Perguntam-lhe seus dados, mas ele vacila, pede desculpas, está bem desorientado, diz que não consegue assinar. É um ex-alcóolatra que teve uma recaída e passou dois dias perdido nos arredores de Trenton, dormindo na rua. Antes de despachá-lo para a clínica de reabilitação precisam desintoxicá-lo. Logo chega seu filho, vai até o balcão, preenche uns formulários.
O homem, a princípio, não o reconhece, mas por fim se ergue, pousa a mão na nuca do filho e fala com ele, e fala em voz baixa, bem de perto. O rapaz o escuta como se estivesse ofendido. O homem volta a sentar-se, muito abatido. Na dispersão idiomática típica desses lugares, um enfermeiro porto-riquenho explica a um padioleiro negro que o homem perdeu os óculos e não consegue enxergar. “The old man has lost his ‘espejuelos’”, diz, “and he cannot see nothing.” Extraviada, a palavra espanhola brilha feito uma luz na noite.
QUARTA Ele me contou que tinha sido preso por estelionato e me contou que seu pai era adestrador no hipódromo e que teve azar nas corridas. Dois dias depois, apareceu de novo e tornou a se apresentar, como se nunca tivesse me visto. Sofre de uma imperfeição indefinida que lhe afeta o sentido da realidade. Está perdido num movimento contínuo que o obriga a pensar para deter a confusão. Pensar não é lembrar, pode-se pensar mesmo tendo perdido a memória. (Venho sabendo disso por mim mesmo, já faz alguns anos: só lembro o que está escrito no Diário). Mesmo assim, não esquece a linguagem. O que precisa saber, encontra na web. A informação narrativa está fora da trama. Um novo tipo de romance seria então possível. “Precisamos”, dizia Gombrowicz, “de uma linguagem para nossa ignorância.” Essa poderia ser a epígrafe.
DOMINGO Até que enfim conheço um detetive particular. Ralph Anderson, Ace Agency. Kitty o contratou para encontrar sua mãe, que a abandonou aos seis anos. Ralph a localizou em Atlanta, na Geórgia. Tinha mudado de nome, morava no centro da cidade, trabalhava numa revista de moda. Kitty não se animou a ir vê-la, mas ficou amiga do detetive.
Muitos de seus clientes procuram parentes perdidos e depois decidem não ir encontrá-los. Ralph mora num apartamento perto de Washington Square. Embaixo, ao entrar no prédio, controle na porta, detector de metais, câmeras. Ralph está à nossa espera, na saída do elevador. Deve ter uns trinta anos, óculos redondos, cara de raposa. Mora num cômodo de pé-direito alto, quase vazio, com janelões dando para a cidade. Tem quatro computadores dispostos em círculo numa ampla escrivaninha, sempre ligados, com arquivos abertos e vários sites ativos. “Sair na rua já não faz mais falta”, diz. “O que precisamos buscar é isso aí.”
Fuma um “joint” atrás do outro, toma ginger ale, mora sozinho. Investiga a morte de três soldados negros de um batalhão de infantaria em serviço no Iraque; na maioria, oficiais e suboficiais texanos. Um agrupamento de parentes de soldados afro-americanos o contratou para investigar. Têm certeza de que foram assassinados. Se Ralph não conseguir provar, vão para a Justiça. Ele nos mostra as fotos dos jovens soldados negros, os três olham a câmera de frente, sem sorrir. Depois, fomos jantar num chinês.
QUINTA Curiosamente ninguém parece ter reparado que não foi T.W. Adorno o primeiro a estabelecer uma relação entre o futuro da literatura e os campos de extermínio nazistas. Em 1948, Brecht, em suas “Conversas com Jovens Intelectuais”, já havia formulado o problema. “Os acontecimentos em Auschwitz, no gueto de Varsóvia e em Buchenwald não admitem, indubitavelmente, descrição alguma, em nenhuma forma literária. Na verdade, a literatura não está preparada para tais acontecimentos, mas não desenvolveu nenhum meio para eles.”
Depois, Adorno se referiu ao mesmo assunto em seu ensaio de 1955 “Crítica da Cultura e Sociedade”, no qual, como se sabe, escreve: “A crítica cultural se encontra diante do último degrau da dialética de cultura e barbárie: depois do que aconteceu no campo de Auschwitz, escrever um poema é um ato de barbárie, e esse ato corrói até mesmo o conhecimento que indica por que hoje se tornou impossível escrever poesia.”
Brecht não apregoa a impossibilidade de seu trabalho nem aceita a culpa histórica que os críticos culturais sempre atribuem à literatura; apenas se refere às dificuldades técnicas que fundam as relações entre experiência e informação. Alguns anos antes, em seu “Diário de Trabalho”, em 16 de setembro de 1940, ele escreveu: “Seria incrivelmente difícil descrever o estado de ânimo com que sigo na rádio, de manhã, a batalha da Inglaterra, e depois vou escrever ‘Sr. Puntilla’. Esse fenômeno demonstra como é possível continuar a elaborar os trabalhos literários. De Puntilla não me importa quase nada; da guerra, tudo; sobre Puntilla posso escrever quase tudo; sobre a guerra, nada. Não quero dizer ‘não me é lícito’, quero propriamente dizer ‘no sono in grado’, não sou capaz. É interessante ver até que ponto a literatura, como atividade, como prática, está longe dos centros em que se desenrolam os acontecimentos dos quais tudo depende [...]“.
Como os “mass media” sempre estão dispostos a profetizar o fim da cultura, a tese de Adorno encontrou rápida difusão. Não há nada mais decorativo que a metafísica do silêncio e do fim da linguagem. Bertolt Brecht, por sua vez, tinha astúcia suficiente para fazer perguntas que não agradavam a ninguém e para escrever a melhor poesia lírica da língua alemã de sua época.
SEGUNDA Com a proliferação de romances encontrados entre os papéis -nos arquivos do computador- de famosos escritores mortos (Bolaño, Cabrera Infante, Nabokov etc.), um grupo de escritores decidiu ganhar a vida escrevendo romances póstumos. Depois de várias reuniões, decidiram escrever o romance póstumo de Samuel Beckett, “Moran”, uma continuação da trilogia.
Com o manuscrito, devem inventar uma forma como o livro tenha sido encontrado. Beckett levou o romance a seu psicanalista, Winnicott, que o aconselhou a não publicá-lo.
Aliviado, Beckett precipitou-se escada abaixo e esqueceu o manuscrito. Anos depois, um jovem pesquisador da Universidade da Califórnia em Irvine descobriu o romance no arquivo confidencial de Winnicott [em Londres]. Negociam diretamente com os agentes literários e, depois de combinar o adiantamento de direitos, entregam o livro etc.
SÁBADO Todo dia vejo o velho que sai de casa e caminha devagar pela neve até a beira da lagoa. A bruma de sua respiração é feito uma névoa no ar transparente. Conversamos várias vezes ao nos cruzarmos no caminho da entrada, ele mora sozinho, a mulher morreu no ano passado, lecionou física aqui em Princeton nos anos 50 e agora está aposentado, não tem filhos, chama-se Karl Unger e é um exilado alemão.
Quando chegam os patos selvagens, ouve-se primeiro um ruído tênue, como se alguém sacudisse um pano molhado no céu. Quase imediatamente começam-se a ouvir os grasnidos e veem-se os patos vindo, voando em fila indiana, depois formando um V no fundo do bosque. Dão duas voltas sobre a lagoa até lançarem-se na direção da água congelada, e, quando a tocam, patinam com as asas abertas e o pescoço contra o gelo. Voltam caminhando estabanados, arrastando-se, alguns permanecem quietos, com as patas feito ossos mortos na geada. Vivem no presente puro e a cada manhã se espantam ao se chocarem contra o gelo. Perderam o senso de orientação. Buscam as águas cristalizadas do lago de onde teriam que iniciar a migração para as terras cálidas.
Cada vez que vejo o professor sair do jardim e atravessar a neve para chegar até a lagoa e alimentar os patos selvagens que estão morrendo de frio, sei que começa outro dia, que será igual ao anterior
Fonte :Ilustríssima. folha de São Paulo 09/01/ 11
SOBRE O TEXTO
Este é o primeiro dos seis trechos do diário de Ricardo Piglia que serão publicados com exclusividade pela Ilustríssima. Autor de “Dinheiro Queimado” e professor na Universidade de Princeton, o escritor divide seu tempo entre a Argentina e os EUA. Seu novo livro, “Branco Noturno”, será lançado pela Cia. das Letras em junho.
RICARDO PIGLIA
tradução PAULO WERNECK
SEGUNDA Passo a noite internado no Hospital de Princeton. Enquanto espero o diagnóstico, sentado na sala de espera, vejo entrar um homem que mal consegue se locomover.
Descrevê-lo. Perguntam-lhe seus dados, mas ele vacila, pede desculpas, está bem desorientado, diz que não consegue assinar. É um ex-alcóolatra que teve uma recaída e passou dois dias perdido nos arredores de Trenton, dormindo na rua. Antes de despachá-lo para a clínica de reabilitação precisam desintoxicá-lo. Logo chega seu filho, vai até o balcão, preenche uns formulários.
O homem, a princípio, não o reconhece, mas por fim se ergue, pousa a mão na nuca do filho e fala com ele, e fala em voz baixa, bem de perto. O rapaz o escuta como se estivesse ofendido. O homem volta a sentar-se, muito abatido. Na dispersão idiomática típica desses lugares, um enfermeiro porto-riquenho explica a um padioleiro negro que o homem perdeu os óculos e não consegue enxergar. “The old man has lost his ‘espejuelos’”, diz, “and he cannot see nothing.” Extraviada, a palavra espanhola brilha feito uma luz na noite.
QUARTA Ele me contou que tinha sido preso por estelionato e me contou que seu pai era adestrador no hipódromo e que teve azar nas corridas. Dois dias depois, apareceu de novo e tornou a se apresentar, como se nunca tivesse me visto. Sofre de uma imperfeição indefinida que lhe afeta o sentido da realidade. Está perdido num movimento contínuo que o obriga a pensar para deter a confusão. Pensar não é lembrar, pode-se pensar mesmo tendo perdido a memória. (Venho sabendo disso por mim mesmo, já faz alguns anos: só lembro o que está escrito no Diário). Mesmo assim, não esquece a linguagem. O que precisa saber, encontra na web. A informação narrativa está fora da trama. Um novo tipo de romance seria então possível. “Precisamos”, dizia Gombrowicz, “de uma linguagem para nossa ignorância.” Essa poderia ser a epígrafe.
DOMINGO Até que enfim conheço um detetive particular. Ralph Anderson, Ace Agency. Kitty o contratou para encontrar sua mãe, que a abandonou aos seis anos. Ralph a localizou em Atlanta, na Geórgia. Tinha mudado de nome, morava no centro da cidade, trabalhava numa revista de moda. Kitty não se animou a ir vê-la, mas ficou amiga do detetive.
Muitos de seus clientes procuram parentes perdidos e depois decidem não ir encontrá-los. Ralph mora num apartamento perto de Washington Square. Embaixo, ao entrar no prédio, controle na porta, detector de metais, câmeras. Ralph está à nossa espera, na saída do elevador. Deve ter uns trinta anos, óculos redondos, cara de raposa. Mora num cômodo de pé-direito alto, quase vazio, com janelões dando para a cidade. Tem quatro computadores dispostos em círculo numa ampla escrivaninha, sempre ligados, com arquivos abertos e vários sites ativos. “Sair na rua já não faz mais falta”, diz. “O que precisamos buscar é isso aí.”
Fuma um “joint” atrás do outro, toma ginger ale, mora sozinho. Investiga a morte de três soldados negros de um batalhão de infantaria em serviço no Iraque; na maioria, oficiais e suboficiais texanos. Um agrupamento de parentes de soldados afro-americanos o contratou para investigar. Têm certeza de que foram assassinados. Se Ralph não conseguir provar, vão para a Justiça. Ele nos mostra as fotos dos jovens soldados negros, os três olham a câmera de frente, sem sorrir. Depois, fomos jantar num chinês.
QUINTA Curiosamente ninguém parece ter reparado que não foi T.W. Adorno o primeiro a estabelecer uma relação entre o futuro da literatura e os campos de extermínio nazistas. Em 1948, Brecht, em suas “Conversas com Jovens Intelectuais”, já havia formulado o problema. “Os acontecimentos em Auschwitz, no gueto de Varsóvia e em Buchenwald não admitem, indubitavelmente, descrição alguma, em nenhuma forma literária. Na verdade, a literatura não está preparada para tais acontecimentos, mas não desenvolveu nenhum meio para eles.”
Depois, Adorno se referiu ao mesmo assunto em seu ensaio de 1955 “Crítica da Cultura e Sociedade”, no qual, como se sabe, escreve: “A crítica cultural se encontra diante do último degrau da dialética de cultura e barbárie: depois do que aconteceu no campo de Auschwitz, escrever um poema é um ato de barbárie, e esse ato corrói até mesmo o conhecimento que indica por que hoje se tornou impossível escrever poesia.”
Brecht não apregoa a impossibilidade de seu trabalho nem aceita a culpa histórica que os críticos culturais sempre atribuem à literatura; apenas se refere às dificuldades técnicas que fundam as relações entre experiência e informação. Alguns anos antes, em seu “Diário de Trabalho”, em 16 de setembro de 1940, ele escreveu: “Seria incrivelmente difícil descrever o estado de ânimo com que sigo na rádio, de manhã, a batalha da Inglaterra, e depois vou escrever ‘Sr. Puntilla’. Esse fenômeno demonstra como é possível continuar a elaborar os trabalhos literários. De Puntilla não me importa quase nada; da guerra, tudo; sobre Puntilla posso escrever quase tudo; sobre a guerra, nada. Não quero dizer ‘não me é lícito’, quero propriamente dizer ‘no sono in grado’, não sou capaz. É interessante ver até que ponto a literatura, como atividade, como prática, está longe dos centros em que se desenrolam os acontecimentos dos quais tudo depende [...]“.
Como os “mass media” sempre estão dispostos a profetizar o fim da cultura, a tese de Adorno encontrou rápida difusão. Não há nada mais decorativo que a metafísica do silêncio e do fim da linguagem. Bertolt Brecht, por sua vez, tinha astúcia suficiente para fazer perguntas que não agradavam a ninguém e para escrever a melhor poesia lírica da língua alemã de sua época.
SEGUNDA Com a proliferação de romances encontrados entre os papéis -nos arquivos do computador- de famosos escritores mortos (Bolaño, Cabrera Infante, Nabokov etc.), um grupo de escritores decidiu ganhar a vida escrevendo romances póstumos. Depois de várias reuniões, decidiram escrever o romance póstumo de Samuel Beckett, “Moran”, uma continuação da trilogia.
Com o manuscrito, devem inventar uma forma como o livro tenha sido encontrado. Beckett levou o romance a seu psicanalista, Winnicott, que o aconselhou a não publicá-lo.
Aliviado, Beckett precipitou-se escada abaixo e esqueceu o manuscrito. Anos depois, um jovem pesquisador da Universidade da Califórnia em Irvine descobriu o romance no arquivo confidencial de Winnicott [em Londres]. Negociam diretamente com os agentes literários e, depois de combinar o adiantamento de direitos, entregam o livro etc.
SÁBADO Todo dia vejo o velho que sai de casa e caminha devagar pela neve até a beira da lagoa. A bruma de sua respiração é feito uma névoa no ar transparente. Conversamos várias vezes ao nos cruzarmos no caminho da entrada, ele mora sozinho, a mulher morreu no ano passado, lecionou física aqui em Princeton nos anos 50 e agora está aposentado, não tem filhos, chama-se Karl Unger e é um exilado alemão.
Quando chegam os patos selvagens, ouve-se primeiro um ruído tênue, como se alguém sacudisse um pano molhado no céu. Quase imediatamente começam-se a ouvir os grasnidos e veem-se os patos vindo, voando em fila indiana, depois formando um V no fundo do bosque. Dão duas voltas sobre a lagoa até lançarem-se na direção da água congelada, e, quando a tocam, patinam com as asas abertas e o pescoço contra o gelo. Voltam caminhando estabanados, arrastando-se, alguns permanecem quietos, com as patas feito ossos mortos na geada. Vivem no presente puro e a cada manhã se espantam ao se chocarem contra o gelo. Perderam o senso de orientação. Buscam as águas cristalizadas do lago de onde teriam que iniciar a migração para as terras cálidas.
Cada vez que vejo o professor sair do jardim e atravessar a neve para chegar até a lagoa e alimentar os patos selvagens que estão morrendo de frio, sei que começa outro dia, que será igual ao anterior
Fonte :Ilustríssima. folha de São Paulo 09/01/ 11
Adormecidos
Engraçado como tem gente que sente falta de si mesmo. Saudade vazia que nem mesmo o espelho do banheiro consegue acalmar. É uma sensação de ausência. Essa gente vive a procurar sinais que provem a existência, o violento transformar da alegria em tristeza, o acordar do tempo e a natureza que se faz assumida trem da vida e leva todos nós. É como se sentir anestesiado. O corpo existe, mas falha a voz e a verdade não passa de um contratempo. Como provar que ainda se está ali? Na sala de estar, no quarto do filho, na casa de amigos? Como voltar a se sentir vivo? Tonalizar fios brancos, enfeitar a casa para um bando e fazer digno o realçar das incertezas? Não há nada mais triste do que a busca de si mesmo e ver que tudo se foi. Já se partiu, corpo ausente e agora o ser que habita a gente não passa de uma obra decadente que o tempo esqueceu de enterrar. Melhor viver logo o dia de aniversário e se deixar envelhecer. A perda maior é o esquecer de si mesmo. A gente se esquece no rosto de alguém, vivendo outra vida, lavando calçadas ou apagando marcas, cauterizando outras dores enquanto há fome de tanto e por tudo que se sente. A gente precisa viver. À tortura ou à plena felicidade absurda. É bem melhor que se viva. Antes mesmo que o cenário mude e a saudade se torne moribunda. Não há saudade maior do que essa que a gente sente de si mesmo. A gente, de repente, se torna o produto com prazo vencido.
Letícia Palmeira
– Escritoras Suicidas
Letícia Palmeira
– Escritoras Suicidas
POEMAS ESCRITOS NA UNHA
Chuva de arame farpado.
Os céus
baixaram-se ao nosso nível.
Haverá garganta
para gritar mais tarde
o que agora calamos?
Engole a tua língua!
Com ela podes saciar-te:
mas somente uma vez.
Domingo de Ramos.
Burro temos, mas, de Cristo,
não temos o espírito.
Ó provincianismo!
Também Mefistófeles, de pé espalmado,
é funcionário público.
Cuidado com o passado!
Ele pode embebedar-te, nunca te saciará .
SÁNDOR KÁNYÁDI
Os céus
baixaram-se ao nosso nível.
Haverá garganta
para gritar mais tarde
o que agora calamos?
Engole a tua língua!
Com ela podes saciar-te:
mas somente uma vez.
Domingo de Ramos.
Burro temos, mas, de Cristo,
não temos o espírito.
Ó provincianismo!
Também Mefistófeles, de pé espalmado,
é funcionário público.
Cuidado com o passado!
Ele pode embebedar-te, nunca te saciará .
SÁNDOR KÁNYÁDI
sábado, 8 de janeiro de 2011
La alegría de los tristes
A Cocha y a todos los que vuelan con nosotros. Que los tristes estén alegres y dancen en lo infinito y sequen sus pupilas alegres en la distancia. Que los tristes vuelen con las cometas que hicimos bordadas en el viento cuando eramos niños. Que sean corazones palpitando en las estrellas. Que los tristes alumbren desde el cielo y nos miren desde lejos y que sepan que nosotros los tristes los miramos. Que los tristes estén alegres y nuestras sombras se miren al cruzar las noches.Y bailen en la oscuridad.Que siempre se queden en las mañanas. Que sus cuerpos azules sean pedacitos de cielo. Que sus risas nos toquen y se queden en nuestras siluetas tomadas de las manos y su calor con nuestro calor nos despierten rozando las mejillas con multitud de mariposas que vuelan y se alegran porque vencimos las ausencias.
Gregorio Riveros .´.
Pampanito. Trujillo (Venezuela).
http://pampanito.nireblog.com/
http://lapoesiavenezolana.nireblog.com/
Gregorio Riveros .´.
Pampanito. Trujillo (Venezuela).
http://pampanito.nireblog.com/
http://lapoesiavenezolana.nireblog.com/
sexta-feira, 7 de janeiro de 2011
Peça de museu
Voluptuosidad incomparable, inefable embriaguez,
Yo te canto
Paul Verlaine
JOSÉ MARÍA ÁLVAREZ
Um escultor, um dia – Augusto Clésinger
se chamava – entregou ao mundo
essa «mulher mordida por uma áspide»
que um museu hoje conserva.
Os turistas
passam junto dela; se um deles se detém
lê a inscrição e continua
a sua visita. Ou com frequência
são grupos de miúdos, dirigidos
por um professor que lhes explica
os efeitos da terrível mordedura,
como o autor captou a dor,
a angústia, o medo.
E contudo
bastar-lhes-ia contemplar o voo desses olhos,
esse rosto, escuta os suspiros
que saem da sua boca, desse peito
pelo amor dilatado, esse flanco que se curva,
essas coxas que cerra
o gozo,
para entenderem
que não é a Morte que toma
essa mulher, mas o prazer,
o êxtase, o absoluto
aniquilamento do orgasmo.
Se o bom Auguste Clésinger
se viu forçado pela censura do seu tempo
a inventar uma história trivial
que permitisse às suas fantasias
serem expostas no Salão de 47,
que subtil, sedutor, inteligente
foi, para nos legar essa beleza apaixonada:
o instante supremo
em que uma mulher entrega a sua carne
à História.
traduzido por Joaquim Manuel Magalhães e editado pela Relógio d’Água em “Poesia Espanhola de Agora."
Fonte:blog leituras favre
Yo te canto
Paul Verlaine
JOSÉ MARÍA ÁLVAREZ
Um escultor, um dia – Augusto Clésinger
se chamava – entregou ao mundo
essa «mulher mordida por uma áspide»
que um museu hoje conserva.
Os turistas
passam junto dela; se um deles se detém
lê a inscrição e continua
a sua visita. Ou com frequência
são grupos de miúdos, dirigidos
por um professor que lhes explica
os efeitos da terrível mordedura,
como o autor captou a dor,
a angústia, o medo.
E contudo
bastar-lhes-ia contemplar o voo desses olhos,
esse rosto, escuta os suspiros
que saem da sua boca, desse peito
pelo amor dilatado, esse flanco que se curva,
essas coxas que cerra
o gozo,
para entenderem
que não é a Morte que toma
essa mulher, mas o prazer,
o êxtase, o absoluto
aniquilamento do orgasmo.
Se o bom Auguste Clésinger
se viu forçado pela censura do seu tempo
a inventar uma história trivial
que permitisse às suas fantasias
serem expostas no Salão de 47,
que subtil, sedutor, inteligente
foi, para nos legar essa beleza apaixonada:
o instante supremo
em que uma mulher entrega a sua carne
à História.
traduzido por Joaquim Manuel Magalhães e editado pela Relógio d’Água em “Poesia Espanhola de Agora."
Fonte:blog leituras favre
Poemas de Julia Larré
Julia Larré – Escritoras Suicidas
envolto por cerca elétrica
Lâminas, pontas, estrelas de abismo
Chão.
Guerreia com a noite, suporta exausto
Aguenta a nefasta solidão.
Espectador de farpas, explosão.
Seccionado, metade.
Pulsa o necessário.
Não chama por nomes.
Envolto por cerca elétrica.
*
Minha casa
fica nua
muda
nos dias do
adeus.
quebra regras
impõe
desejos
desestrutura
as vigas
de mim.
*
Minha música
é minha manta
coberta de estrelas vagas
calcanhar tolo que anda
por muitas e mais calçadas
Todos andam à escuta
vesti-la é mesmo que nada
*
é que as horas
não me são
suficientes.
elas vêm
pintam meus dedos
fecham meus olhos
e o sono
não chega.
é que as horas
trazem
de volta
o tempo
que nem houve.
drag-queen
Teu nome soa
ecoa
em meu ventre.
Meu corpo sabe
teu reino
é esse.
Dorme
que o dia
começa
e teus sonhos
enchem
a noite.
0 (zero)
o homem caminha
por entre
nuvens
e
círculo
sabe de sua rota
olha o éter —
o eterno retorno —
corre o risco
de seguir
o caminho
desconhecido.
*
morte melhor
para que o corpo
permaneça
entreaberto
para que a alma fique —
eternidade —
nada é entristecedor
meu nirvana é o
caos
Julia Larré. Poeta, vive em Recife/PE
Fonte: Blog Escritoras Suicidas
envolto por cerca elétrica
Lâminas, pontas, estrelas de abismo
Chão.
Guerreia com a noite, suporta exausto
Aguenta a nefasta solidão.
Espectador de farpas, explosão.
Seccionado, metade.
Pulsa o necessário.
Não chama por nomes.
Envolto por cerca elétrica.
*
Minha casa
fica nua
muda
nos dias do
adeus.
quebra regras
impõe
desejos
desestrutura
as vigas
de mim.
*
Minha música
é minha manta
coberta de estrelas vagas
calcanhar tolo que anda
por muitas e mais calçadas
Todos andam à escuta
vesti-la é mesmo que nada
*
é que as horas
não me são
suficientes.
elas vêm
pintam meus dedos
fecham meus olhos
e o sono
não chega.
é que as horas
trazem
de volta
o tempo
que nem houve.
drag-queen
Teu nome soa
ecoa
em meu ventre.
Meu corpo sabe
teu reino
é esse.
Dorme
que o dia
começa
e teus sonhos
enchem
a noite.
0 (zero)
o homem caminha
por entre
nuvens
e
círculo
sabe de sua rota
olha o éter —
o eterno retorno —
corre o risco
de seguir
o caminho
desconhecido.
*
morte melhor
para que o corpo
permaneça
entreaberto
para que a alma fique —
eternidade —
nada é entristecedor
meu nirvana é o
caos
Julia Larré. Poeta, vive em Recife/PE
Fonte: Blog Escritoras Suicidas
terça-feira, 4 de janeiro de 2011
dentro da vida
Não estamos preparados para nada:
certamente que não para viver
Dentro da vida vamos escolher
o erro certo ou a certeza errada
Que nos redime dessa magoada
agitação do amor em que prazer
nem sempre é o que fica de querer
ser o amador e ser a coisa amada?
Porque ninguém nos salva de não ser
também de ser já nada nos resgata
Não estamos preparados para o nada:
certamente que não para morrer
Luis Maffei
Fonte :Poesia & Ltda
certamente que não para viver
Dentro da vida vamos escolher
o erro certo ou a certeza errada
Que nos redime dessa magoada
agitação do amor em que prazer
nem sempre é o que fica de querer
ser o amador e ser a coisa amada?
Porque ninguém nos salva de não ser
também de ser já nada nos resgata
Não estamos preparados para o nada:
certamente que não para morrer
Luis Maffei
Fonte :Poesia & Ltda
domingo, 2 de janeiro de 2011
Na praça
O país se moderniza.Clorindo estava ocupado.Tinha um bom emprego numa indústria paulista. Setor administrativo. Mas a fábrica foi vendida. Empresários japoneses. Novos padrões de exigência. "Turabário.Mais turabário." O dr. sakeda olhou para o empregado. " Sem cõrupo móri,Curorínudo."À tarde, o soninho.Clorindo fechou os olhos.Teve uma visão.O fantasma de um conhecido escritor baiano aparecia."A praça é do povo.E o povo unido jamais será vencido."Depois Clorindo foi tomar cafézinho. A secretária Gilvanka estava dando sopa.Um só beijo derreou a morenaça. Sakeda surpreendeu o casal. "Urúa. "Demissão dupla.Num banco de praça,eles agora vendem acarajé e curtem o amor juntinhos.Nada se perde quando há união.
Voltaire de Souza.in Vida Bandida.
FSP,10/08/01
UMA CANÇÃO DE BEBER
A DRINKING SONG
WINE comes in at the mouth
And love comes in at the eye;
That’s all we shall know for truth
Before we grow old and die.
I lift the glass to my mouth,
I look at you, and I sigh.
UMA CANÇÃO DE BEBER
O VINHO entra, é pela boca
E o amor entra pelo olhar;
É quanto temos por certo
Até crescer e expirar.
Elevo a minha taça à boca,
Olho-te, para suspirar.
WILLIAM BUTLER YEATS
WINE comes in at the mouth
And love comes in at the eye;
That’s all we shall know for truth
Before we grow old and die.
I lift the glass to my mouth,
I look at you, and I sigh.
UMA CANÇÃO DE BEBER
O VINHO entra, é pela boca
E o amor entra pelo olhar;
É quanto temos por certo
Até crescer e expirar.
Elevo a minha taça à boca,
Olho-te, para suspirar.
WILLIAM BUTLER YEATS
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