sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Todo apoio aos técnicos e servidores ! Todos devem lutar agora pela universidade !

Nunca vi nenhum honrado dirigente universitário democraticamente eleito trair o seu compromisso com os princípios e bases da universidade pública. Nenhum reitor, diretor, chefe ou gestor anterior, desde que minimamente progressista, jamais entregou voluntariamente listas sobre participantes de movimentos grevistas em defesa das universidades. Ninguém ético e responsável deve obedecer irracionalmente ordens autoritárias e ilegítimas vindas de golpistas criminosos. Hannah Arendt já escreveu muito sobre se um gestor de boa fé deve apenas obedecer à hierarquia desconhecendo ordens da banalidade do mal, ordens ilegítimas e arbitrárias, de instâncias superiores. Negociar, sim, enfrentar, sim, dedurar, jamais. Cumprir ordens injustas e ilegítimas sem questioná-las apenas para subir na carreira burocrática, ou agradar os momentaneamente superiores, sempre terá consequências pessoais pesadas. Sempre ocorreram pressões de governos descompromissados com a educação e sempre foram derrotados no final. As universidades públicas sempre foram bastiões da mais alta qualidade acadêmica, da democracia e das lutas sociais pela inclusão. Há 35 anos como estudante e docente no sistema federal, desde a crise final da ditadura militar, conheço bem os espaços de resistência e como cientista social observo as greves, legítimas e legais, como manifestações essenciais da vida universitária contra a falta de recursos, o desmonte, a privatização e a tirania de políticos irresponsáveis em Brasília. Finalmente estamos entrando em um novo ciclo de lutas esperadas e necessárias para a sobrevivência das instituições universitárias. Quem tem mais de 20 anos de universidade se lembra do famigerado ministro Paulo Renato do impopular final de governo de FHC, do PSDB, quando Gilmar Mendes era da AGU, e como tentaram cortar o ponto de toda comunidade e quem teve que tirar habeas corpus preventivo foi o ministro tucano da deseducação. Hoje o nível da justiça brasileira é muito pior do que há 20 anos, mas as lutas e resistências ocorrerão. Vão ter que afastar todos os dirigentes democráticos de base e não terão a quem colocar nos lugares, ainda mais em um desgoverno golpista com a mais alta impopularidade e em clima de final de feira e de xepa desses golpistas. Todo apoio aos técnicos e servidores ! Todos devem lutar agora pela universidade !

RCO


1890: Criação da primeira central sindical da Alemanha


Após anos de proibição, em 1890 o imperador Guilherme 2º liberou a atividade sindical. Em 17 de novembro daquele ano, líderes operários aprovaram a criação de uma união sindical, fundada dois anos mais tarde.



No ano de 1878, o chanceler Otto von Bismarck promulgou as chamadas leis antissocialistas, após dois atentados contra o imperador Guilherme 1º e por temer uma revolução. Embora a validade dessa "lei contra os perigosos propósitos da socialdemocracia" tenha sido em princípio limitada a dois anos, sua vigência acabou por ser prorrogada diversas vezes.
Nesse período, foram proibidas também todas as atividades sindicais no país. Quem não podia ou não queria atuar ilegalmente, estava fadado ao exílio. Este foi o caso de Adolph Johannes von Elm, um exemplo típico de sindicalista social-democrata alemão do século 19. Ele emigrou para os Estados Unidos, onde viveu por 12 anos.

Fim da ilegalidade

Em 1890, a situação política na Alemanha mudou radicalmente em poucos meses. O novo imperador, Guilherme 2º, não estava mais disposto a tolerar um chanceler que pretendesse dar curso a sua própria política e promulgou, contra a vontade de Bismarck, leis de proteção ao trabalhador nos chamados Decretos de Fevereiro. Pouco depois, a 20 de março de 1890, quando a vigência das leis antissocialistas não foi mais prorrogada, Bismarck renunciou ao cargo.
Com a queda dessas leis, ficou relegado ao passado o tempo de ilegalidade dos sindicatos e das perseguições aos líderes operários. Mesmo assim, a discriminação social era grande em relação aos sindicalistas e social-democratas. Ainda no início do século 20, eles eram considerados na Alemanha "cidadãos sem amor à pátria". Apesar de sua atitude, o imperador não tinha qualquer simpatia pelo movimento trabalhista, o que ficava claro em seus pronunciamentos.

Em 1891, Guilherme 2º discursou aos recrutas de um regimento de guarda em Potsdam: "Há para vocês apenas um inimigo, e este é meu inimigo. Considerando as manobras socialistas em curso, pode acontecer que eu venha a ordenar que vocês atirem em seus parentes, irmãos ou pais. Que Deus não permita que isso aconteça, mas se for o caso vocês têm que obedecer sem reclamar".
Congresso de sindicalistas

O ano de 1890 foi o ano da arrancada da social-democracia e do sindicalismo na Alemanha. Pela primeira vez na história, sindicalistas puderam trabalhar livremente e sem medo de perseguições. Como vários outros, também Adolph Johannes von Elm voltou do exílio e retomou suas atividades políticas, tendo participado do primeiro congresso de sindicatos livres, realizado em novembro daquele ano na Alemanha.

Nos anos da ilegalidade, eram pequenas representações locais que lutavam pelos direitos dos trabalhadores. Essas associações de torneiros, marceneiros e pedreiros, entre outros, enviaram seus representantes para o primeiro congresso de sindicalistas, que aconteceu em Berlim. Também o movimento das mulheres trabalhadoras esteve presente ao encontro, através de sua representante Emma Ihrer, da cidade de Velten.

O principal ponto de discórdia girava em torno da estrutura da futura união sindical. Questionava-se se o melhor seria continuar trabalhando em pequenas associações locais de profissionais, ou se a melhor alternativa seria unir-se em uma grande organização central. No dia 17 de novembro, quando o congresso chegou a uma resolução final, os defensores da união haviam prevalecido.

A resolução definia: "Considerando que a organização local não corresponde mais às relações de produção e que a situação econômica de emergência dos trabalhadores requer a concentração de todas as forças, a conferência declara que a forma de organização centralizada apresenta-se no momento como a correta. A conferência aconselha por isso todas as associações locais a unirem-se à organização central em questão".

No entanto, a disputa entre centralistas e defensores das estruturas descentralizadas não foi com isso encerrada. Dé cadas se passaram até que fosse aceita a posição de que exatamente uma associação de trabalhadores necessita de uma união nacional forte e unida.

Para finalizar o encontro, foi formada uma comissão, que passou a ser responsável pela organização do próximo congresso: "A conferência elege uma comissão de sete membros que deverá elaborar as premissas do próximo congresso, definir seu local e data, bem como convocar os trabalhadores para dele participarem".

Entre esses sete membros, estava o representante dos trabalhadores em fábricas de cigarros, Adolph Johannes von Elm, e o presidente da Associação Nacional de Torneiros, Carl Legien, que se tornaria dois anos mais tarde presidente da primeira união sindical alemã.
LEIA MAIS

1892: Primeiro Congresso Sindical Alemão

No dia 14 de março de 1892, começou em Halberstadt, o Primeiro Congresso Sindical Alemão.
1878: A lei anti-socialista de Bismarck

No dia 18 de outubro de 1878, o chanceler imperial Otto von Bismarck aprovou uma lei proibindo os partidos social-democrata, socialista e comunista

Autoria Dirk Kaufmann (sv)


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quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Las cañas




Subías por el cañaveral
Tu cabello entrenzado
Tus ojos morunos
Tu boca de grana

Yo escondido entre las cañas
Miraba tus andares de sultana
El aire me envolvía con tu gracia sevillana
Nos abrazábamos, juntado tu mirada y mi mirada

Escondidos entre las cañas
Tus manos mis cabellos acariciaban
Yo satisfecho feliz contigo gozaba
Nuestra fuerza sexual compensada

Después nos bañábamos en el Guadalquivir
Sevilla nos embrujaba su cielo nos contemplaba
Sombreaban las cañas enamoradas
El rio alegre cantaba mientras nos acariciaba

Tú partías a tu casa tus hijos y marido te esperaban
En mi camino mis hijos aguardaban al colegio los acercaba
Así paso nuestra vida con pasión no apagada
Un día te espere con tu ausencia quede

Moría de dolor sin verte, de valor me arme
A tu casa me acerque, vestida de negro te encontré
La vergüenza me hizo bajar la cabeza
Sin palabras quede, gire la espalda, marche

Subía el sendero hacia mi casa ahogado de dolor
En la puerta, Elvira mi mujer con dulzura me abrazo
Me arrodillé y a sus pies solloce, ella me levanto
Me beso, me acompaño al portal, allí me confeso

Siempre te he amado Marcos has sido mi Dios
Mire sus ojos en lagrimados sin reproches
Los míos turbados indignos de su amor
Mi sangre negra como el carbón pedía perdón

Por la mañana me levante en el espejo me mire
Mis cabellos plateaban mis manos temblaban
Mi alma atormentada, toda una vida, Elvira engañada
Se terminó mi egoísmo era Elvira el ángel que se quedaría conmigo

Dolores Jurado 

DJ martes, 02 de agosto de 2011 9:45 h


segunda-feira, 13 de novembro de 2017

A quem representam e de quem recebem

A grande mídia brasileira recruta, produz e financia verdadeiras aberrações profissionais, políticas e éticas. Tipos como Waack e agora um tal de Mario Vitor Rodrigues, ilustre desconhecido antes de ameaçar matar Lula ! Mais um crime da mídia semanal, a mesma que premiou as aberrações do judiciário, legislativo e executivo golpistas no ano passado. Como a teoria do nepotismo sempre explica quase tudo na nefasta política brasileira, o Mario Vitor Rodrigues é neto do jornalista Nelson Rodrigues, que pelo menos foi teatrólogo iconoclasta antes de virar a múmia reacionária de que se orgulharia. Cada semana um absurdo criminoso, preconceituoso, racista, excludente, violento, vindo da mídia golpista no Brasil, uma das pérfidas colunas de sustentação do "status quo" do golpe. A velha música dos Titãs, "bichos escrotos", explica a disputa na extrema direita entre jornalistas, publicitários e gente da mídia lutando diariamente para continuarem bem remunerados no "circo dos horrores" do Brasil golpista. Eles têm a desvantagem de não poderem aparelhar o judiciário e mamarem acima do teto, nem a caneta do orçamento, como as aberrações no legislativo e no executivo, logo devem ganhar, mês a mês, semana a semana, a vida pela sua capacidade de rasgar a ética do jornalismo e da vida social, para sempre internalizarem os valores e falas dos "podres poderes", a quem representam e de quem recebem muito dinheiro.
RCO


sexta-feira, 3 de novembro de 2017

And my soul from out that shadow that lies floating on the floor shall 
be lifted - nevermore!

E a minha alma, de fora, a sombra que flutua no chão, será levantada, nunca mais!

Edgard Allan Poe

Lament for Syria

 by Amineh Abou Kerech

Syrian doves croon above my head
their call cries in my eyes.
I’m trying to design a country
that will go with my poetry
and not get in the way when I’m thinking,
where soldiers don’t walk over my face.
I’m trying to design a country
which will be worthy of me if I’m ever a poet
and make allowances if I burst into tears.
I’m trying to design a City
of Love, Peace, Concord and Virtue,
free of mess, war, wreckage and misery.

*

Oh Syria, my love
I hear your moaning
in the cries of the doves.
I hear your screaming cry.
I left your land and merciful soil
And your fragrance of jasmine
My wing is broken like your wing.

*

I am from Syria
From a land where people pick up a discarded piece of bread
So that it does not get trampled on
From a place where a mother teaches her son not to step on an ant at the end of the day.
From a place where a teenager hides his cigarette from his old brother out of respect.
From a place where old ladies would water jasmine trees at dawn.
From the neighbours’ coffee in the morning
From: after you, aunt; as you wish, uncle; with pleasure, sister…
From a place which endured, which waited, which is still waiting for relief.

*

Syria.
I will not write poetry for anyone else.

*

Can anyone teach me
how to make a homeland?
Heartfelt thanks if you can,
heartiest thanks,
from the house-sparrows,
the apple-trees of Syria,
and yours very sincerely.

https://www.theguardian.com/books/2017/oct/01/the-13-year-old-syrian-refugee-prizewinning-poet-amineh-abou-kerech-betjeman-prize

The hollow men

Somos homens vazios
Somos homens empalhados
uns nos outros apoiados
cabeça cheia de palha, ai !
Forma sem feitio, sombra sem cor,
Paralisada força, gesto sem ação...

T.S. Elliot

Passeio a primeira neve

Passeio a primeira neve,
No coração os lírios forças inflamam,
A noite fixa azul
única estrela no caminho
Não sei se luz ou trevas ?
vento ou galo vibra adágio a floresta?
Em vez talvez do inverno nos campos
Serão cisnes tingindo verdes prados
Bonito que és, branco espelho de neve !
ferve-me o sangue a leve geada.
Desejo de apertar contra a pele
O seio em carne viva das bétulas
Ò bruma espessa da floresta !
Ó fresta dos trigais em neve !
Desejo de possuir pelo braço
o selvagem quadril das tílias.

Serguei A Essênin

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Eu achava que a política era a segunda profissão mais antiga. Hoje vejo que ela se parece muito com a primeira.


Ronald Reagan
Afirma-se que o pós-modernismo tem nos Shopping Centers as suas catedrais; suas igrejas são as Bolsas de Valores; os Bancos, suas capelas. Seus rituais são os grandes , multitudinários e milhardários concertos de rock. Seu latim é o inglês. Seus celebrantes são os cantores-instrumentistas, ajudados pelos coroinhas-engenheiros de som e luz. Seus mecenas são as grandes empresas multinacionais. Seus santos são Madonna e São Michael Jackson e Santa Lady Gaga. Esperam-se milagres para santificar a padroeira dos drogados, Santa Amy do Vinho Sagrado.


Raul Machado   

CRAVEIRA



Não deixa amor que o meçam, antes mede,
Incorrupto juiz que tudo afere
Na craveira da sua desmedida.
Chamados todos somos: só elege
Quantos de nós soubermos converter
Em chama vertical a hora consumida,
Em mãos de dar os dedos de reter.

José Saramago

fragmento 166

166. (Bernardo Soares, heterônimo de Fernando Pessoa)

"Se considero com atenção a vida que os homens vivem, nada encontro nela que a diference da vida que vivem os animais. Uns e outros são lançados inconscientemente através das coisas e do mundo; uns e outros se entretêm com intervalos; uns e outros percorrem diariamente o mesmo percurso orgânico; uns e outros não pensam para além do que pensam, nem vivem para além do que vivem. O gato espoja-se ao sol e dorme ali. O homem espoja-se à vida, com todas as suas complexidades, e dorme ali. Nem um nem outro se liberta da lei fatal de ser como é. [...]

"Serei sempre, em verso ou prosa, empregado de carteira. Serei sempre no místico ou no não-místico, local e submisso, servo das minhas sensações e da hora em que as ter. Serei sempre, sob o grande pálio azul do céu mudo, pajem num rito incompreendido, vestido de vida para cumpri-lo, e executando, sem saber porquê, gestos e passos, posições e maneiras, até que a festa acabe, ou o meu papel nela, e eu possa ir comer coisas de gala nas grandes barracas que estão, dizem, lá em baixo ao fundo do jardim."


trecho do fragmento 166, do seu "Livro do desassossego", sob a alcunha de Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa:
"Não acredito em literatura latino-americana, acho este termo muito colonialista. Mas cada país do continente tem sua literatura, muito boa, por sinal."


Obs.: Quando de sua participação no júri do prêmio União Latina, em 1991. [ Jorge Amado ]

Eu, petista? Deus me livre!



O Temer baixou uma portaria que facilita o trabalho escravo, mas se você reclamar é petista. O Dória quer dar ração para crianças em creches e escolas, mas se questionar é petista. O Aécio disse que ia matar e foi salvo, mas é claro, se achar ruim é petista. As terras da Amazônia sendo entregues para os gringos e se for contra? Petista! Greve de professores? Greve dos correios? Dos bancários? Defesa da reforma agrária? Direitos das mulheres? Defesa da aposentadoria, então? Tudo petista.

Primeiro criaram o ódio ao PT, depois associaram o exercício da cidadania, o direito de questionar, de protestar e reclamar a "coisa de petista". Agora, fazem o que querem, roubam e compram deputados com bilhões e bilhões de reais do povo tranquilamente, legalizam a escravidão, perdoam dívidas de bancos e fazendeiros, entregam o petróleo, ferram com os trabalhadores sem nenhum pudor, pois no final das contas, ninguém quer ser "petista".

Diney Lenon


Acordo Sykes-Picot na origem do caos no Oriente Médio


Divisão entre franceses e britânicos de territórios do antigo Império Otomano firmada há cem anos, durante a Primeira Guerra Mundial, gerou tensões e conflitos que só se agravaram com a passagem das décadas.

Os cem anos do acordo Sykes-Picot

Há exatos cem anos, em 16 de maio de 1916, em plena Primeira Guerra Mundial, a França e o Reino Unido partilharam entre si vastas áreas do Império Otomano, já antecipando a própria vitória e sem qualquer consulta aos habitantes da região. O tratado secreto dessa partilha ficou conhecido como Sykes-Picot, em alusão aos diplomatas que o negociaram, o inglês Mark Sykes e o francês François Georges-Picot.

Aos franceses caberia um território do sudeste da atual Turquia até o Líbano, passando pelo norte do Iraque e pela Síria. Os britânicos regeriam o sul e o centro do Iraque. As terras contidas entre esses dois territórios – englobando a atual Síria, a Jordânia, o Iraque ocidental e o nordeste da Península Árabe – seriam um reino árabe sob mandato anglo-francês.

Também a Alemanha desempenhou um papel pouco louvável nessa negociata. Aliada do Império Otomano, ela queria enfraquecer por meios militares os seus inimigos na Primeira Guerra. Juntamente com o califa de Istambul, autoridade religiosa suprema dos sunitas, os alemães conclamaram os árabes à jihad, a "guerra santa" contra os britânicos.

Estes, em contrapartida, selaram uma aliança com o xarife Hussein bin Ali, segunda maior autoridade religiosa depois do califa, na qualidade de guardião das cidades sagradas de Meca e Medina, na atual Arábia Saudita.

Domínio anglo-francês sob fachada árabe

Em outubro de 1915, Henry McMahon, alto comissário da Grã-Bretanha no Egito, fez uma oferta sedutora ao xarife Hussein: se os árabes apoiassem seu país, este os ajudaria a fundar seu próprio reino. "A Grã-Bretanha está pronta a reconhecer e apoiar a independência dos árabes dentro dos territórios nos limites e fronteiras propostos pelo xarife de Meca", declarava McMahon numa carta.

A aliança foi firmada. O líder dos árabes era o filho do xarife, Faiçal bin Hussein. Apoiado pelo agente britânico Thomas Edward Lawrence – conhecido como "Lawrence da Arábia" – ele conseguiu forçar a retirada dos otomanos.

Após o fim da Primeira Guerra, a nova ordem geopolítica no Oriente Médio foi negociada na Conferência de Paz de Paris, em 1919. Engajado pela causa árabe, Faiçal comentaria: "Estou confiante de que as grandes potências colocarão o bem-estar do povo árabe acima de seus próprios interesses materiais."
No entanto, ele se enganava. A França e a Grã-Bretanha se aferraram à divisão territorial já acordada: deveria haver Estados árabes, sim, mas sob influência anglo-francesa.

Como comentou o então ministro do Exterior britânico, George Curzon, a questão era ocultar os interesses econômicos de seu país atrás de uma "fachada árabe", "governada e administrada sob direção britânica, controlada por um maometano nato e, se possível, por uma equipe árabe".


 Mapa original do acordo secreto Sykes-Picot


Novos Estados, futuros conflitos

A importância dos pactos firmados durante a Conferência de Paris foi abrangente e de longo alcance. Além de resultar na fundação da Síria e do Iraque, um mandato da Liga das Nações ratificado em 1923 confirmava a criação de um novo Estado, o Líbano.
Outro mandato previa "o estabelecimento de um Lar Nacional para o povo judaico na Palestina", base para o futuro Estado de Israel. Em Paris, Faiçal declarara: "Eu asseguro que nós, árabes, não guardamos qualquer ressentimento étnico ou religioso contra os judeus, como o que infelizmente predomina em outras partes do mundo." Contudo, essa boa vontade logo fracassaria diante de uma realidade cruel.

Também em 1923, a Grã-Bretanha separou a Transjordânia da Palestina, criando as bases para a atual Jordânia. Já em 1899 os ingleses haviam transformado o Kuwait em seu protetorado. Após o fim da Primeira Guerra, o declararam "emirado independente sob proteção britânica".

Reflexos atuais

O resultado final de tais reviravoltas geopolíticas na região foi a série de guerras e conflitos que perdura até hoje: a crescente tensão entre israelenses e palestinos, ocasionalmente explodindo em guerras; a guerra civil libanesa de 1975 a 1990; a Guerra do Golfo; os choques, igualmente com características bélicas, nos territórios curdos da Turquia e do Iraque, mais tarde também na Síria.

Tudo isso culminou na fatal invasão do Iraque pelos Estados Unidos, em 2003. A má gestão que se seguiu endureceu os fronts de caráter religioso, redundando no nascimento da organização terrorista "Estado Islâmico" (EI). Além de ocupar territórios iraquianos, o EI se alastrou para a Síria, dilacerada pela guerra civil.

A rigor, nem todos esses desdobramentos remontam exclusivamente à divisão do Oriente Médio no início da década de 1920. No entanto, nessa época foi lançado o fundamento de uma nova ordem regional que se mostrou solo fértil para tensões geopolíticas, revoltas e guerras.



1917: Apoio britânico ao movimento sionista


Na chamada Declaração de Balfour, de 2 de novembro de 1917, o governo britânico dá aos representantes do judaísmo sionista apoio para a constituição de uma "pátria nacional" judaica na Palestina.


 Frankreich Geschichte Weltkrieg Friedensvertrag von Versailles (ullstein bild - histopics)

"Caro Lorde Rothschild, alegro-me em poder comunicar-lhe, em nome do governo de Sua Majestade, a seguinte declaração de simpatia pelo movimento judaico-sionista, apresentada e aprovada pelo gabinete oficial: A construção de uma pátria para os judeus na Palestina é vista pelo governo de Sua Majestade com bons olhos.

Sua Majestade fará tudo o que for de seu alcance para facilitar os caminhos rumo a esse objetivo. Deve-se ressaltar, no entanto, que nada deve ser feito no sentido de prejudicar os direitos civis e religiosos dos povos não judeus que vivem na Palestina, ou de prejudicar os direitos e a situação política de judeus em algum outro país."

Esta carta, datada de 2 de novembro de 1917 e assinada pelo então ministro britânico do Exterior, Arthur James Balfour, prevê uma série de consequências para o Oriente Médio. Mas Lorde Rothschild e outros dirigentes da comunidade judaica, entre eles principalmente os sionistas no Reino Unido, esperavam ainda mais.

Há, no mínimo, 19 anos – desde o Congresso dos Sionistas em Basileia, em 1898 – eles ansiavam por uma promessa que assegurasse aos judeus o direito a seu próprio Estado, como havia planejado Theodor Herzl no seu livro O Estado Judeu.

Povo, não apenas comunidade religiosa

O sionismo político idealizado por Herzl partia do princípio de que os judeus são um povo e não apenas uma comunidade religiosa e de que as repetidas perseguições, pressões e desvantagens sofridas por esse povo poderiam ser evitadas com a fundação de um Estado judeu.

A localização desse Estado era ainda considerada de segunda ordem: cogitava-se a hipótese de enviar os judeus à Argentina, ou o chamado Projeto Uganda, que previa a fundação de um Estado judeu no território da Uganda, então administrado pelo Reino Unido.

Entretanto, a Palestina sempre voltava ao centro da discussão: a terra originária dos judeus, onde os representantes da comunidade judaica começaram a comprar terras e a estabelecer-se, a partir do fim do século 19. Em 1914, no início da Primeira Guerra Mundial, os judeus formavam apenas 15% da população da Palestina, na época de 690 mil habitantes. Destes, 535 mil eram muçulmanos, 70 mil cristãos e 85 mil de origem judaica.

A carta do chanceler Balfour refletia, porém, muito mais os interesses geopolíticos de Londres na região do que um apoio sem reservas do Reino Unido ao movimento sionista. A Primeira Guerra Mundial tinha eclodido, e a Inglaterra contava com o apoio dos judeus – tanto dos que viviam na Palestina, quanto dos que estavam espalhados por outros países do mundo – na luta contra o Império Otomano.

Por isso, Londres prometeu algo que não estava em condições de realizar: uma pátria para os judeus numa região que ainda não estava sob o seu controle.
Resistência palestina

A responsabilidade sobre o território palestino foi transferida para o Reino Unido somente no dia 24 de julho de 1922, sob a forma de um mandato da Liga das Nações. Parte da Declaração de Balfour pertencia ao preâmbulo do contrato que regia o mandato, o que se transformou logo num grande empecilho para a administração da região. A resistência dos palestinos árabes à imigração de judeus já tinha começado há algum tempo, crescia paulatinamente e levava, entre outros, a campanhas antijudaicas.

O Reino Unido, situado entre as duas frentes, tentava evitar a violência dos dois lados e limitar cada vez mais a imigração judaica para a região. Em 1939, ficou estabelecido que somente mais 75 mil judeus poderiam instalar-se na Palestina. Na época do Holocausto nazista, tratava-se de uma decisão completamente fora da realidade. A partir de 1944, o estabelecimento de judeus na Palestina foi oficialmente vetado, a fim de assegurar aos Aliados o apoio dos palestinos árabes na guerra.

Antes da transferência do mandato da Liga das Nações, em junho de 1922, o Reino Unido deixara claro que a Declaração de Balfour nunca fora uma resposta positiva à criação de um Estado judeu. O então ministro das Colônias, Winston Churchill, observou que a declaração não se referia a toda a região histórica chamada Palestina, mas apenas à margem ocidental do Rio Jordão (a Cisjordânia).

Churchill acentuou ainda que os ingleses nunca tinham pensado em conceder aos judeus o poder sobre os outros habitantes da região. A comunidade judaica que ali vivia deveria apenas poder desenvolver-se livremente.

Tais posições não puderam ser sustentadas por Londres durante muito mais tempo, uma vez que os conflitos entre árabes e judeus tornavam-se cada mais frequentes. Em 1947, a ONU deliberou a divisão da Palestina em dois Estados: um para os judeus e outro para os árabes. O Reino Unido abdicou do seu mandato em maio de 1948, quando foi proclamado o Estado de Israel.

Autoria Peter Philipp (sv)


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1938: Pânico após transmissão de "Guerra dos mundos"

No dia 30 de outubro de 1938, um programa de rádio simulando uma invasão extraterrestre desencadeou pânico na costa leste dos Estados Unidos.



Orson Welles ao microfone

Parecia uma noite normal naquele 30 de outubro de 1938, até que a rede de rádio CBS (Columbia Broadcasting System) interrompeu sua programação musical para noticiar uma suposta invasão de marcianos. A "notícia em edição extraordinária", na verdade, era o começo de uma peça de radioteatro, que não só ajudou a CBS a bater a emissora concorrente (NBC), como também desencadeou pânico em várias cidades norte-americanas. "A invasão dos marcianos" durou apenas uma hora, mas marcou definitivamente a história do rádio.

Dramatizando o livro de ficção científica A Guerra dos Mundos, do escritor inglês Herbert George Wells, o programa relatou a chegada de centenas de marcianos a bordo de naves extraterrestres à cidade de Grover's Mill, no estado de Nova Jersey. Os méritos da genial adaptação, produção e direção da peça eram do então jovem e quase desconhecido ator e diretor de cinema norte-americano Orson Welles. O jornal Daily News resumiu na manchete do dia seguinte a reação ao programa: "Guerra falsa no rádio espalha terror pelos Estados Unidos".

Pânico coletivo

A dramatização, transmitida às vésperas do Halloween (dia das bruxas) em forma de programa jornalístico, tinha todas as características do radiojornalismo da época, às quais os ouvintes estavam acostumados. Reportagens externas, entrevistas com testemunhas que estariam vivenciando o acontecimento, opiniões de peritos e autoridades, efeitos sonoros, sons ambientes, gritos, a emoção dos supostos repórteres e comentaristas. Tudo dava impressão de o fato estar sendo transmitido ao vivo. Era o 17º programa da série semanal de adaptações radiofônicas realizadas no Radioteatro Mercury por Orson Welles.

A CBS calculou, na época, que o programa foi ouvido por cerca de seis milhões de pessoas, das quais metade o sintonizou quando já havia começado, perdendo a introdução que informava tratar-se do radioteatro semanal. Pelo menos 1,2 milhão de pessoas acreditou ser um fato real. Dessas, meio milhão teve certeza de que o perigo era iminente, entrando em pânico, sobrecarregando linhas telefônicas, com aglomerações nas ruas e congestionamentos causados por ouvintes apavorados tentando fugir do perigo.

O medo paralisou três cidades e houve pânico principalmente em localidades próximas a Nova Jersey, de onde a CBS emitia e onde Welles ambientou sua história. Houve fuga em massa e reações desesperadas de moradores também em Newark e Nova York. A peça radiofônica, de autoria de Howard Koch, com a colaboração de Paul Stewart e baseada na obra de Wells (1866-1946), ficou conhecida também como "rádio do pânico".

Precursor da ficção científica moderna

O roteiro fora reescrito pelo próprio Welles (1915-1985). Na peça, ele fazia o papel de professor da Universidade de Princeton, que liderava a resistência à invasão marciana. Orson Welles combinou elementos específicos do radioteatro com os dos noticiários da época (a realidade convertida em relato).

Herbert George Wells, por sua vez, foi um dos precursores da literatura de ficção científica. O livro A Guerra dos Mundos, publicado em 1898, era uma de suas obras mais conhecidas, tendo Londres como cenário. Ele escreveu num estilo bastante jornalístico e tecnologicamente atualizado para sua época. A transmissão de A Guerra dos Mundos foi também um alerta para o próprio meio de comunicação "rádio".
Ficou evidente que sua influência era tão forte a ponto de poder causar reações imprevisíveis nos ouvintes. A invasão dos marcianos não só tornou Orson Welles mundialmente famoso como é, segundo cientistas de comunicação, "o programa que mais marcou a história da mídia no século 20".

Autoria Jens Teschke (gh)



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terça-feira, 31 de outubro de 2017


Lembrei-me da  afirmação  com que Aristóteles inicia a sua Metafísica: “Todos os homens têm, por natureza, um desejo de conhecer: uma prova disso é o prazer das sensações, pois, fora até de sua utilidade, elas nos agradam por si mesmas e, mais que todas as outras, as visuais...”.

Acho que Aristóteles errou. Isso não é a verdade dos adultos. Os adultos já foram deformados. Acho que ele estaria mais próximo da verdade se tivesse dito: “Todos os homens, enquanto crianças, têm, por natureza, desejo de conhecer...”.

Para as crianças o mundo é um vasto parque de diversões. As coisas são fascinantes, provocações ao olhar. Cada coisa é um convite.

Aí a Dinéia sumiu. Pensei que ela tivesse voltado para a mãe. Engano. Alguns minutos depois ela voltou. Estivera examinando uma coleção de livros. “Sabe aqueles livros, todos de capa parecida? Os
11
três primeiros livros estão de cabeça para baixo.” Retruquei: “Pois
ponha os livros de cabeça para cima!”.

Ela saiu e logo depois voltou. “Já pus os livros de cabeça para cima.” E acrescentou: “Sabe de uma coisa? O livro com o número 38 está fora do lugar”. Aí aconteceu comigo: fui eu quem ficou estupi- dificado... Ela, que não sabia escrever, já sabia os números. E sabia mais, que os números indicam uma ordem.

Fiquei a imaginar o que vai acontecer com a Dinéia quando, na escola, os seus olhinhos curiosos forem subtraídos do fascí- nio das coisas do mundo que a cerca, e forem obrigados a seguir aquilo a que os programas obrigam. Será possível aprender sem que os olhos estejam fascinados pelo objeto misterioso que os desafia?
Pois sabe de uma coisa? Acho que vou fazer com a Dinéia aquilo

que Joseph Knecht tinha vontade de fazer...

Teresa Oliveira 
Todo conhecimento começa com o sonho.
O sonho nada mais é que a aventura pelo mar desconhecido, em busca da terra sonhada. Mas sonhar é coisa que não se ensina, brota das profundezas do corpo, como a alegria brota das profundezas da terra. Como mestre só posso então lhe dizer uma coisa. Contem-me os seus sonhos para que sonhemos juntos.

Rubem Alves


Há escolas que são gaiolas e há escolas que são asas.



Escolas que são gaiolas existem para que os pássaros desaprendam a arte do voo. Pássaros engaiolados são pássaros sob controle. Engaiolados, o seu dono pode levá-los para onde quiser. Pássaros engaiolados sempre têm um dono. Deixaram de ser pássaros. Porque a essência dos pássaros é o voo.
Escolas que são asas não amam pássaros engaiolados. O que elas amam são pássaros em voo. Existem para dar aos pássaros coragem para voar. Ensinar o voo, isso elas não podem fazer, porque o voo já nasce dentro dos pássaros. O voo não pode ser ensinado. Só pode ser encorajado.


Rubem Alves

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Na grande sala de renovação de passaportes da polícia federal de Curitiba com a TV no programa de Ana Maria Brega, Rede Globo !

Na grande sala de renovação de passaportes da polícia federal de Curitiba com a TV no programa de Ana Maria Brega, Rede Globo ! Parece ser a emissora privada e oficiosa de algumas mentalidades por lá. Mais do que nunca precisamos de boas TVs e emissoras públicas, educativas, comunitárias e universitárias para enfrentarmos a atual barbárie e ignorância. A hegemonia das mídias dominantes sempre foi construída, garantida e assegurada por interesses e privilégios privatistas de dentro do Estado. Se retirassem essas grandes vantagens estatais esses conglomerados poderosos de mídias bilionárias voltariam a ter um papel mais plural, simples, moderado e modesto, como nas sociedade democráticas e modernas.


RCO
Tensão Pré-Eleitoral (TPE). Se forem Lula e Bolsonaro para o segundo turno em 2018, o que você acha que os tucanos de hoje em dia iriam fazer, excluindo a possibilidade do muro, ou seja, voto nulo, que seria uma posição quase suicida para a legenda? Digo "tucanos de hoje em dia" porque nos tempos do Covas essa pergunta sequer faria sentido. Complicado dilema para uma sigla cuja principal aposta para ganhar as eleições em 2018 parece consistir em torcer para que a Vaza Jato elimine todos os concorrentes e declare o Geraldo vencedor por W.O....

Sérgio Braga
O ex-presidente da Calatunya, equivalente a governador de Estado aqui, Carles Puigdemont, vai ter que se refugiar em Bruxelas. Isso pq ele tomou uma medida populista de propor e levar adiante uma medida inconstitucional de separar da Espanha a região autônoma que ele governa. Com seu discurso populista e inconsequente seu governo levou a Catalunya a uma divisão social sem antecedentes (ela sempre foi distante do resto da Espanha, agora está dividida internamente) e a prejuízos econômicos gigantescos com a transferência de sedes de empresas que estavam em Barcelona para outras regiões espanholas. Dois bancos sediados lá também apresentaram grandes perdas na bolsa de valores nas últimas semanas. A população percebeu o beco sem saída a que foi levada, teve maturidade para reconhecer o erro e voltar atrás. Enfim, político inconsequente, que propõe a divisão do país, acaba sofrendo as consequências devidas por lá. Isso, desde que as instituições funcionem de verdade. Agora, quando as instituições estão a serviço de interesses outros, discursos faccionistas, inconsequentes, de caça às bruxas e exagerados levam não apenas à cisão social, como ao aprofundamento da crise econômica. Espero que em algum momento a gente comece a responsabilizar os puigdemonts brasileiros da nossa história recente, viu.

Emerson Urizzi Cervi
Das duas uma: essa tal "independência da Catalunha" ou foi coisa de Napoleão de Hospício, ou uma "trap" para encurralar o Podemos, que felizmente não parece ter caido na arapuca e se conduziu relativamente bem durante o processo. Tudo indica que foi a primeira opção. De qualquer forma, o governo capenga e impopular do Rajoy saiu fortalecido dessa batalha de Itararé. O velho Brizola já advertia contra os porra-loucas de todos os matizes que gostam de fortalecer os conservadores e legitimar suas políticas. Eles sempre aparecerão como cogumelos após a chuva e não só no Facebook...

Sérgio Braga
Que país precisa de Goebbels ou de um governo como o da Coreia do Norte para fazer propaganda, se tem um emissora com cem milhões de espectadores, muito mais eficiente, soft, moderna e travestida de plural, equilibrada e representante da verdade e da racionalidade?
Assistam à reportagem do Fantástico sobre a Revolução Russa para entenderem de forma ainda mais precisa o que escrevo. É didática.
A doutrinação das democracias liberais ocidentais é muito, mas muito, mais poderosa do que a de qualquer outro modelo de propaganda e de controle autocrático da História. Tão poderosa que aceita publicações como esta, porque as considera necessárias para seus planos e inócuas no nível estrutural, incapazes de fazer frente à sua máquina de construção do mundo. Ou seja, ao contestar, eu só alimento a máquina de propaganda pós-moderna.
O Brasil se constrói como periferia ralé do liberalismo global mas, precisamos reconhecer, para manter-se nesta condição e não ameaçar ninguém, desenvolveu uma das mais impressionantes máquinas de propaganda, de distorção da realidade e de produção de idiotas de todos os tempos, um dia a História reconhecerá."

Leonardo Valente


Capitalismo cartorial para principiantes. Eis aí um exemplo de como as corporações de ofício, cartéis e os capitalistas brasileiros são predatórios; não diria burros porque afinal estão ganhando algo. Antes do UBER e outros aplicativos, praticamente não se gastava com Taxi aqui em casa. Agora, já é um dos principais itens de despesa do cartão. Ou seja: diminui-se o preço e a margem de lucro, mas os gastos (e lucros) brutos aumentam devido ao aumento da demanda. Por que será que as praças de pedágio e outras empresas, para não falar nos sofridos bancos, não fazem o mesmo? Eis aí um assunto relevante a ser estudado pelo economistas...


Sérgio Braga

sábado, 28 de outubro de 2017

Ao ser amigo, eu deixo de ser singular, tenho regras, mesmo que implícitas, de conduta, de comportamento, de afeto. Amizades fazem com que as pessoas consigam administrar um tipo de vida, ter projetos como indivíduo, atuar e cumprir seu destino na sociedade.

Mauro Koury
Professor da UFPb, antropólogo, coordenador do Grem.
"O maior roubo da história do Brasil aconteceu hoje [ontem]; não vai ter destaque na mídia, são mais de 800 bilhões. 75% desse dinheiro iria para a educação e 25% para a saúde mas a lei de autoria de José Serra, votada após o golpe mudou o regime de partilha para um leilão. E o Brasil vendeu tudo por quase 200 vezes menos que o preço de mercado.
Ah, também foi aprovada uma MP que isenta de impostos as petroleiras que compraram, e a Petrobras vai emprestar a tecnologia que desenvolveu para a retirada do petróleo.
Isso mesmo: nós entregamos tudo por menos de 1% do valor de mercado, isentamos de imposto e ainda damos a tecnologia para extração.
Quer mais? Pois tem, o BNDES vai emprestar dinheiro caso as petroleiras precisem. Um total de mais de 20 bilhões. Isso mesmo, nós vendemos por 6 e damos 20 a eles.
Mas o problema são os recibos do Lula, né bolsominions retardados mentais, paneleiros e coxinhas?"

Thiago dos Reis
Tudo indica que o Ministro Luis Roberto Barroso é a estrela ascendente do STF neste momento. A sua posição em relação à corrupção começa a ter influência na corte. Ainda assim, acho que o bate boca de ontem é revelador de mais coisas. Em primeiro lugar, do fato do STF ser uma corte sem nenhuma forma de controle externo. As disputas ou mesmos os crimes se pensarmos as comunicações entre Gilmar Mendes e Aécio Neves ficam restritas a um bate boca entre ministros e não tem nenhuma solução institucional. Como fica bastante claro do entrevero, o judiciário só discute os crimes do sistema político, mas é amplamente leniente em relação aos seus próprios delitos.

Leonardo Avrizer
"Historiadores (ou psicanalistas?) algum dia explicarão um país em que os que não têm como pagar por serviços privados apoiam a destruição dos serviços públicos."

Mario Madureira

O judiciário brasileiro é um dos principais responsáveis pelo atraso nacional, pela crise política e pelo golpe de 2016

. Além dos graves problemas do executivo e do legislativo, como o familismo, a corrupção e os interesses privados, o corporativismo no judiciário é o pior dos três poderes. Hoje mesmo observamos o STF, pelo ministro Lewandowski, rejeitar investigações no documentado esquema da JBS para compra de decisões no STJ por meio da advogada Renata Araújo, filha da desembargadora Maria do Carmo Cardoso. Também hoje mais uma turma do STJ rejeitou mais um pedido de suspeição do juiz Moro feito pela defesa de Lula, mesmo depois de inúmeras provas, evidências, declarações, fotografias e interceptações telefônicas completamente ilegais e reveladoras, o que desmoraliza ainda mais o judiciário, o legislativo e o executivo golpistas, sempre protegendo os mais corruptos e réus confessos, como Temer, Aécio e seus familiares e cúmplices menores na caricata República de Bananas que se tornou o Brasil com esse bloco golpista no poder. Não existe nem a propalada autonomia do direito burguês e nem do judiciário do Estado burguês nessa conjuntura explicitamente golpista. A sociologia crítica explica os flagrantes esbulhos e isenções porque boa parte dos juízes pertence à mesma classe alta, a mesma elite hereditária da classe dominante tradicional, os portadores de foros especiais, privilegiados e inimputáveis pelo sistema deles. Somente ingênuos, desinformados e ideologicamente engambelados pensavam que um juiz seria um herói republicano, um justiceiro meritocrático vindo e defendendo uma classe média que nunca foi. Boa parte dos magistrados e ministros do judiciário representam os interesses da classe alta, servem uma justiça seletiva, corporativa e politicamente dirigida aos interesses de sua própria classe dominante e de suas agendas políticas extorsivas. Tal como na análise de outros componentes da elite brasileira, a hereditariedade é muito importante para o núcleo duro do judiciário brasileiro, boa parte filhos e netos das altas burocracias estatais e privadas, gente sempre no poder, com altos rendimentos e acostumados às mordomias e aos privilégios nababescos dos que sempre viveram há gerações, nas bolhas de privilégios estatais e privados dos poderes estabelecidos do status quo dominante.
RCO


Partidos políticos de direita no Brasil quase sempre morrem depois de "grandes vitórias" impopulares desgraçando a Nação



Partidos políticos de direita no Brasil quase sempre morrem depois de "grandes vitórias" impopulares desgraçando a Nação. A UDN acabou com a "vitória" de 1964. A ARENA começou a terminar depois do pacote de abril de 77 e da "vitória" de 78. O PDS começou a morrer depois da "vitória" contra a emenda Dante de Oliveira-Diretas Já em 84. Neste ano de 17 as "vitórias" de Temer e de seus desgraçados apoiadores acarretarão a morte, ou substantivas mudanças do PMDB, PSDB e DEM, que podem já ir procurando outros nomes, outras legendas, outras siglas, para tentarem mais uma vez fugirem dos eleitores profundamente indignados com mais esse golpe contra a vontade democrática da grande maioria. A direita vai ter que se reciclar no pós-Temer, tal como tentou se reciclar no pós-FHC, pós-Collor, pós-Sarney, pós-Figueiredo. Já a sigla do PT está hoje muito mais forte do que esteve em qualquer momento do Governo Dilma. Mais um golpe de direita fracassado miseravelmente no Brasil, que sina nós temos !
RCO
Ao fim desta frase,
começa a chover
Pela margem da chuva
um barco.

Derek Wallcot
Vejo muito aqui no Paraná e se aplica aos outros estados. Um empresário muito rico, do interior e de origem imigrante, com um patrimônio de 500 milhões, um novo rico na classe alta-alta, é ideologicamente menos perigoso, venenoso e arcaico para a modernização do que 50 altos burocratas da capital, com patrimônios de 10 milhões, com redes sociais, culturais e políticas de muitas gerações bem instaladas na classe alta-baixa no mesmo Estado. Um capitalista dinâmico, arrojado, da nova burguesia, explorador dos baixos salários de seus funcionários e predador de matérias primas, amanhã poderá não estar mais exatamente lá com as flutuações e instabilidades do mercado. O grande rico emergente não terá o peso da inércia e da continuidade institucional dos pequenos ricos, herdeiros do velho estamento, como no caso de um Desembargador casado com a filha de um Almirante, descendentes do velho senhoriato escravista e com mentalidades reacionárias. Conhecemos mais no Brasil os nomes, atividades e papéis sociais dos 100.000 mais ricos, a elite da elite do dinheiro, os donos do grande capital, do que os 2 milhões de menos ricos logo abaixo, a elite operacional e executiva do sistema desigual. Um dos segmentos menos estudados na estrutura social brasileira é a classe alta-baixa, isso mesmo, o segmento quantitativamente significante e qualitativamente reprodutor do sistema social, a camada gestora assalariada com altas remunerações e heranças da classe dominante tradicional. O que também acontece frequentemente são os emergentes, na economia ou na política, ou seus familiares casarem com a velha ordem e reproduzirem as velhas estruturas. Precisamos é de mais pesquisas empíricas sempre difíceis de serem obtidas.


RCO

A universidade brasileira como o microcosmo nacional da apatia, prostração e desinteresse político na oposição aos golpistas.


A universidade brasileira como o microcosmo nacional da apatia, prostração e desinteresse político na oposição aos golpistas. Quando um editorial reacionário de um jornal oligárquico-familiar afirma que temer está “forte” e só existe oposição virtual nas redes sociais e nos partidos de oposição, trata-se de leitura superficial, tendenciosa, momentânea e conjuntural causada pela direção dos grupos políticos oposicionistas ao PT entre 2003-2015. Precisamos entender o ano político nas universidades. O reitor da UFSC se suicidou e o ex-reitor da UFPR só não foi perseguido pelo sistema judicial e pela polícia federal, em outro escândalo interno, porque era de uma família de direita empresarial, mas a realidade profunda está em movimento nas correntezas não percebidas nas superfícies. Em primeiro lugar a fraqueza, fragilidade e esvaziamento do ANDES-CONLUTAS, com grandes divisões e a fragmentação da extrema esquerda rumo ao Partido do Só Tem Um (PSTU), rachas dos rachas. Durante treze anos fizeram oposição implacável de terra arrasada contra os governos populares do PT, da mesma maneira que um Aécio Neves, quando perdeu a eleição junto com os DEM, PSDB e a direita golpista, hoje instalada autoritariamente no ministério da educação que não lhes pertence. Pouco se importavam que o ciclo de Lula e do PT fossem os melhores anos da história da universidade pública, com aumentos de recursos, investimentos, ganhos salariais, progressões de carreira, ampliações, criações de IFES, UFs, IFETs, ingressos de novas camadas populares no ensino superior. Críticas sempre são necessárias, mas jamais uma “santa aliança” entre os grupelhos de extrema esquerda, pequenos, com uma grande base social conservadora, elitizada e de direita na comunidade universitária, que possuíam apenas a palavra de ordem – Delenda PT e com mais ódio ainda contra a primeira mulher Presidenta - Delenda Dilma. Esta “santa aliança” de PT-haters reunia desde trotsquistas, ultra-esquerdistas, monarquistas, tucanos, extremistas de direita, fascistas, viúvas da ditadura militar, MBAs, capitalistas, neoliberais e outros elementos antissociais, todos contra quem mais fazia historicamente pela universidade brasileira no legado de Lula. Neste caldo de cultura política, hoje já superado e muito dividido, brotou o atual imobilismo, descaso e apatia na luta contra os golpistas de 2016. Isto vai mudar com um novo pensamento crítico e com novas forças sociais a partir do ano que vem de 2018 porque Lula, o PT e grupos de esquerda ativos estão mais fortes e vivos do que nunca nas intenções de votos populares.

Concluindo a reflexão sobre o marasmo nas universidades . Hoje é o Dia do Servidor Público. Quem realmente perdeu no golpe? Ouvi muitos professores e alguns dirigentes do ANDES-CONLUTAS e muitos técnicos da FASUBRA-CONLUTAS (leões valentes contra Dilma e cordeirinhos mansos contra o golpista Temer) com o mesmo diagnóstico de desarranjo político-ideológico, declaravam que pouco se importavam, tanto fazia, que Temer era igual e mesmo seria menos pior do que Dilma porque estavam cansados de perderem eleições presidenciais nos 13 anos democráticos do PT. Diziam fora todos e patrocinaram inertes a pior direita no poder. Muitas dessas lideranças sindicais eram ex-petistas emocionalmente ressentidos, rancorosos por não terem conseguido seus objetivos anteriores e como ex-raivosos prejudicavam uma análise de conjuntura das políticas possíveis com a correlação de forças realistas entre 2003-2016. Hoje, um ano e meio de golpe depois, a situação só não é pior justamente devido ao grande crescimento e as gorduras acumuladas da Era do PT. Hoje só acontecem cortes, reduções, congelamento, diminuição salarial, perdas, retirada de direitos e mesmo rotinas burocráticas normais como simples progressões estão ameaçadas. E novamente cadê a tal CONLUTAS, um ano inteiro sendo golpeados sem uma única oposição firme e sem uma única grevezinha para enfrentar, ou pelo menos resistir aos golpistas! Agora essas lideranças afirmam que suas bases não querem mais lutar, eles não querem e não podem mais lutar e antes contra Lula-Dilma e seus avanços todos queriam e podiam ? Depois de longas greves quase anuais contra os progressos do PT, agora o silêncio envergonhado do bloco da extrema esquerda com a direita, que vociferavam o tempo todo contra os governos do PT e hoje são apenas sombras deprimidas se arrastando, sem quase nenhuma base combativa e sem a agressividade sindical anterior contra os governos populares sabotados e derrubados pelos embusteiros. O ambiente preparatório do golpe foi construído por anos a fio com auxílio desses setores pseudo-radicais. Agora na mega-corrupção filmada, registrada de temer, muitos agem como os paneleiros, nada mais falam e engolem a sua antiga indignação e revolta, que só serviam contra os governos populares e desaparecem na catástrofe atual da perda de direitos, salários e completa deterioração das condições de trabalho na pax golpista. Pouco se importam se os trabalhadores mais pobres, os camponeses, sem-terras, índios, quilombolas e escravizados estão sendo massacrados pelos golpistas nas periferias da nossa sociedade. ANDES-FASUBRA-CONLUTAS produziram e passaram durante anos uma mensagem equivocada para os professores, técnicos, servidores e estudantes: que o grande inimigo e alvo do ódio deles era o governo do PT, faziam sempre o jogo da direita, não lucraram eleitoralmente coisa nenhuma com o golpe dessa mesma direita a quem sempre beneficiaram ingenuamente, como nas farsas jornadas de 2013, porque sempre perdiam no voto popular eleitoral. Quem mais perdeu com o golpe foram os jovens, os jovens doutores, os jovens técnicos, os mais novos estudantes, todos que ficaram sem concursos nas IFES, concursos ampliados no ciclo anterior. Quem perdeu com o antipetismo primitivo desses setores foram os interesses populares, quem ganhava bolsas nas universidades, quem dependia de alimentação no RU, livros nas bibliotecas, apoios aos congressos para docentes, tudo que os golpistas cortam bastante hoje com o golpe. As perdas salariais só começaram porque o golpe ainda não teve tempo de arrochar e roubar salários, retirar direitos trabalhistas, como o ciclo de FHC fez ao longo de muitos anos. Agora que despolitizaram e equivocaram toda uma geração na universidade simplesmente não fazem nada e não conseguem fazer nada, nenhuma luta, zero à esquerda, nada. Tudo pode ser diferente no ano que vem porque tudo se transforma, já escrevia Heráclito, nada do que foi será e tudo é movimento. Novos ciclos e novos atores surgirão, o novo sempre vem !



RCO

Démons et merveilles


De colinas y vientos
de cosas que se denominan para entrar
como árboles o nubes en el mundo

De enigmas revelándose en las lunas
rotas contra el aljibe o las arenas
yo he dicho y esperado

Creo que nada vale contra esta caricia
abrasadora que sube por la piel
Ni el silencio, ese desatador de sueños

Vivir
oh imagen para un ojo cortado
boca arriba perpetuo

Júlio Cortázar


Canción

Muerto de fatiga y sueño,
vuelve un soldado del monte
labio duro, duro ceño.
i Que lejos el horizonte
donde el hierro lo desciña
y el caballo lo desmonte !

Nicolás Guillen


quinta-feira, 26 de outubro de 2017

EL LIBRO TU AMIGO



Sencilla las letras
Una antecediendo a las otras
Edificando un significado
Porque avanzando por delante
Las que dejan las marcas
Ellas son antesalas son puentes
Andenes por las que pasan
Ojos tanteando sus texturas
Bebiendo sorbo exquisito
De sabia suculenta
Una letra germinando
Reacción en cadena
Féculas de maíz brotando
Asentadas en comal ardiente
Una letra un párrafo
Paginas y paginas sucediendo
Llegando y cubriendo libros
Y quienes con sus ojos
Absorbiendo sorbo a sorbo
Los nutrientes llegando
Y por vía rápida a sus
Mentes y almas
¡El Libro tu amigo!

José Abraham Guevara Chamorro

Gevarachamorrojosé@


EMPEQUEÑECIDO



Llano liso que seco está
Las manos ambas planchando su cara
Rebuscando versos sin hallarlos
Quietud delirante pasividad
En callejón el cuerpo y el tope
Golpes contra las tapias terco
Torpe soñador sus pies levitando
Azorado intenso el malestar de todos
Granjeándose reojos que pequeño le disecaban
Desdoblado rostro desencajado marchito
Sonando una música llegado desde lejos
Siendo su ser un trapo arrugándose
Untado de bálsamo hundiéndose en agujero
En el día despedazada su piel los rayos solares
De la noche agonía en insomnio infinito de tribulaciones
Un cuerpo un ser un humano una desdicha
Objeto cuerpo imán atrayendo cachivaches
Todas las maldiciones entrillándosele
Le llovía escupitajo por el aire cayendo en su mollera
Reverenciando de costumbre cabeza sin horizonte
Solo las piedras del suelo conocía de memoria
Estaban sus faroles atentos a los orificios
Una zanja una hendidura una grieta un abismo
Un lugar de donde disponer y desaparecer…


 José Abraham Guevara Chamorro

j.a.g.ch.chamguejim.@


Volte para o seu lar

Aqui nesta tribo ninguém quer a sua catequisação
Falamos a sua língua  mas não entendemos seu sermão
Nós rimos alto, bebemos e falamos palavrão.
Mas não sorrimos à toa
Não sorrimos à toa
Aqui neste barco ninguém quer a sua orientação
Não temos perspectiva mas o vento nos dá a direção
 A vida que vai à deriva é a nossa condução
Mas não seguimos à toa
Não seguimos à toa.

Arnaldo Antunes.
Pertencemos a uma comunidade única chamada espécie humana; cujo futuro é indivísivel. Em todos os estágios da vida - ecologia, economia, saúde-esta comunidade de destino é uma realidade.
Devemos traduzi-la agora em uma realidade cultural, assumi-la deliberadamente no que eu chamaria uma politica da vida.

François Miterrand.
Correio da Unesco . Julho de 1983. Ano 16/ n VII

Filipicas II

Os bens mal adquiridos esvaem-se de mau modo.
Male parta male dilabuntun.

Cícero.

A Cidade

A cidade não permite fáceis adjetivações
Aqui o vento passa ao largo turvo como boca de cão
e o sol com seus enxames  não se demora
a povoar o diálogo das janelas
Seus cubos não terminam de nos convencer
da vida numerada que estas paredes rotulam
há postes isto sim para fazer luzir as pistas
nos tabuleiros do horizonte
onde as distâncias se tornam imaginárias
Advertimos a retidão dos verdugos
nas linhas cruzadas de sua grande mão
e ao presente que a duras penas se desloca
sem deixar marca em
A cidade não admite vãs adjetivações.


Juan Calzadilla

(A Condição Urbana. p 47 )

Toda cultura nasce da mistura , do encontro, dos choques. Do contrário, é do isolamento que morrem as civilizações.

Octávio Paz.
"Gilberto Freyre disse que o Brasil era mestiço e que isso era bom.Depois veio o Darcy Ribeiro, com suas maluquices, e proclamou que o mestiço é que é bom. Criou um racismo ao contrário. O Brasil
ainda não conseguiu evacuar o problema da raça. "

Evaldo Cabral de Mello, Historiador.
Folha de São Paulo. 17 de Abril de  2000
Nossos desejos e os fatos podem ir em direção tão contrárias
que todas as estratégias caem por terra. Nossos pensamentos
nos pertencem, nossas ambições nem um pouco. As nossas ambições
pertencem  aos outros e os outros é que vão julgar.

Wiliam Shakespeare

terça-feira, 24 de outubro de 2017

1917: Apresentado o projeto da Lei Seca nos EUA


Em 8 de setembro de 1917, foi apresentado à Câmara dos Representantes nos EUA o projeto da 18ª emenda constitucional sugerindo a completa proibição de bebidas alcoólicas. A Lei Seca entraria em vigor dois anos depois.


Com o projeto apresentado no dia 8 de setembro de 1917 à Câmara dos Representantes, e que só entraria em vigor dois anos depois, começou uma nova era na história dos Estados Unidos, caracterizada pela proibição das bebidas alcoólicas.

A lei que vigorou no país por quase 14 anos condenava "a fabricação, a venda, o transporte, a importação e a exportação de bebidas alcoólicas em toda a área dos Estados Unidos e dos territórios judicialmente submetidos a eles".

Implementada com o propósito de proteger os cidadãos dos perigos gerados pelo consumo do álcool, a chamada Lei Seca acabou por provocar a disseminação de um mal ainda mais perigoso: o crime organizado. Bebidas alcoólicas passaram a ser traficadas em grande escala. Bandos rivais de criminosos de Nova York e Chicago controlavam cadeias de destilarias e bares no país. A prostituição acompanhava com frequência o consumo ilegal do álcool.

Pode-se dizer que um grupo de mulheres foi responsável pela introdução da Lei Seca nos Estados Unidos. Ainda em 1874, as participantes da conservadora União Feminina de Temperança Cristã invadiam bares e restaurantes do país como guerrilheiras carregando a bandeira da proibição do álcool. Com machados e porretes em punho, elas destruíam todo líquido que viam engarrafado.

Produtores rurais e Igrejas puritanas

Brevemente essas mulheres encontrariam o apoio dos homens às suas ideias através da Liga Antibares, formada por produtores rurais conservadores, liderados pelas Igrejas puritanas. No final do século 19, a Associação Republicana dos Abstinentes já havia conseguido implantar leis contra o álcool em alguns estados norte-americanos.

Apesar de todas as proibições, a vontade de consumir bebidas alcoólicas não foi banida dos EUA, mas apenas levada à ilegalidade. A partir da entrada em vigor da Lei Seca, uma pessoa morria por dia na guerra das quadrilhas controladoras do tráfico. A indústria de bebidas clandestinas proliferou por todo o país.

A eclosão da Primeira Guerra Mundial colocou, no entanto, o argumento decisivo na boca dos inimigos do álcool. Segundo eles, cereais, levedo, malte a açúcar eram alimentos básicos e não poderiam ser desperdiçados na fabricação de bebidas alcoólicas em tempos de guerra. Além disso, cerveja e vinho seriam produtos típicos da Alemanha inimiga. Seu consumo, logo, um ato pouco patriótico.

Elite universitária e contrabando

Entre as várias maneiras encontradas pelos cidadãos para burlar a proibição ao consumo do álcool destacou-se a reação dos estudantes da aristocrática Universidade de Yale, que trataram de fazer com que gângsters importassem para eles um estoque de uísque escocês para os 14 anos seguintes.

Conhecidos como bootlegger (cano da bota, numa referência à maneira como os pioneiros haviam um dia traficado álcool para os índios), os contrabandistas ampliavam cada vez mais seus negócios. O grande chefão, Alfonso "Al" Capone, entraria para a história como um dos maiores criminosos de todos os tempos. No entanto, não foi possível à Justiça norte-americana provar nenhum de seus atos. Al Capone, que se auto-intitulava "vendedor de móveis antigos", foi processado uma única vez – por sonegação de impostos.

Em dezembro de 1933, o então presidente dos EUA Franklin Roosevelt reconheceu a insensatez da proibição de bebidas alcoólicas no país. A medida, que seu antecessor Herbert Hoover havia chamado de uma "grande experiência social e econômica", foi abolida por Roosevelt em 5 de dezembro de 1933, levando boa parte do crime organizado à falência.

Autoria Catrin Möderler (sv)


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1956: Rebelião popular na Hungria


Em 23 de outubro de 1956 irrompeu na Hungria a rebelião popular contra o regime stalinista. O reformista Imre Nagy tornou-se primeiro-ministro, iniciou mudanças no país e anunciou a retirada do Pacto de Varsóvia.

 Integrantes do protesto que levou à rebelião na Hungria (d.) passam por tanque soviético no centro de Budapeste

A rebelião na Hungria em 1956

No início de 1956, o presidente soviético Nikita Khruchov havia condenado os métodos da era Stalin, reaquecendo as esperanças de mais autonomia nos países-satélites. Em solidariedade aos trabalhadores poloneses que protestavam nas ruas, os universitários húngaros derrubaram uma estátua de Josef Stalin, numa manifestação em 23 de outubro. O protesto estudantil culminou em rebelião popular contra o domínio soviético.

Até partes das Forças Armadas e da polícia húngara participaram dos violentos protestos. Cem mil manifestantes invadiram a central do Partido Comunista, exigindo eleições livres e o fim do stalinismo. Até aí, as tropas soviéticas estacionadas em Budapeste apenas observavam os acontecimentos.

Retorno do reformista Imre Nagy

Por simbolizar "um novo rumo" do socialismo em Budapeste, o reformista Imre Nagy – que já fora primeiro-ministro de 1953 a 1955 – foi pouco a pouco conquistando o controle da população rebelada, assumindo novamente a chefia do governo.

No começo de novembro, Nagy abriu as fronteiras, introduziu o pluripartidarismo, extinguiu a censura e anunciou a retirada da Hungria do Pacto de Varsóvia, a aliança militar dos comunistas durante a Guerra Fria. Nesse momento, as tropas da repressão soviética já estavam a caminho de Budapeste. Moscou de forma nenhuma toleraria a escapada de um de seus satélites.

Resistência dentro do próprio governo

János Kádár, primeiro-secretário do Partido Comunista e membro do gabinete de Nagy, revogou os poderes do primeiro-ministro e começou a negociar com Moscou. A resistência contra o Exército Vermelho durou dois dias e custou a vida de 3 mil pessoas. Em vão, Nagy invocou o apoio das Nações Unidas, mas a comunidade internacional estava então voltada para a crise no Canal de Suez.
No dia 7 de novembro, Kádár retornou a Budapeste como novo chefe de governo. Nagy e alguns assessores e ministros refugiaram-se na embaixada da então Iugoslávia, onde passaram três semanas cercados por tanques soviéticos. Eles só deixaram a embaixada porque Kádár lhes prometeu impunidade. Promessa falsa, porque Nagy foi preso pelo KGB e deportado para a Romênia por negar-se a renunciar ao cargo que ocupava em Budapeste.

Reabilitação tardia de Nagy

Num processo sumário, ele e alguns ministros foram condenados e executados em 16 de junho de 1958. Para que ninguém o venerasse na sepultura, ele e outras 2 mil pessoas foram enterrados em vala comum. Imre Nagy só foi reabilitado e sepultado numa cerimônia oficial em 1989, após o fim do regime Kádár.

O longo governo de Kádár trouxe estabilidade e crescimento à Hungria. A liberalização da economia a tornou precursora da Perestroika, o programa de reformas adotado em meados dos anos 1980 pelo presidente soviético Mikhail Gorbatchov. (rw)



1958: Execução do então primeiro-ministro húngaro Imre Nagy
No dia 16 de junho de 1958, foi executado o ex-primeiro-ministro da Hungria, Imre Nagy. 

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Assuntos relacionados Zsa Zsa Gabor, Puskas, Massacre em Manaus

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1968: Martin Luther King é assassinado



No dia 4 de abril de 1968, o Nobel da Paz de 1964, Martin Luther King, morre ao ser baleado em Memphis, nos Estados Unidos.


Em dois atentados anteriores, o reverendo Martin Luther King conseguira escapar por pouco da morte. O negro que tanto se engajou pela igualdade de direitos nos Estados Unidos nas décadas de 1950 e 1960 alcançou apenas os 39 anos de idade.

No dia 4 de abril de 1968, foi assassinado com um tiro na sacada de um hotel em Memphis. O autor do disparo teria motivos supostamente racistas. Em dezembro de 1999, no entanto, um processo civil no Estado do Tennessee chegou à conclusão de que sua morte foi planejada por membros da máfia e do governo norte-americano.

Que homem era este que conseguiu dividir uma nação e ser amado e odiado ao mesmo tempo? Para melhor entendê-lo, precisamos nos situar no contexto dos Estados Unidos em plena década de 50: uma superpotência em plena Guerra Fria, uma nação rica, um país racista.

O país que se considerava modelo de democracia e liberdade, mas seus habitantes eram classificados de acordo com a raça. Os negros eram discriminados em todos os setores: na política, na economia e no aspecto social.

Boicote de ônibus

Os negros norte-americanos não podiam votar, eram chamados pejorativamente de "nigger" e "boy", seu trabalho não era devidamente remunerado, e as agressões dos brancos eram rotina. Até que, em dezembro de 1955, em Montgomery, a costureira negra de 52 anos Rosa Parks resolveu não ceder seu lugar num ônibus para um passageiro branco.

Parks foi presa e, em decorrência, Martin Luther King, pastor da cidade, conclamou um boicote dos negros aos ônibus. Em um ano, tornou-se tão conhecido no país que assumiu a liderança do movimento negro norte-americano.

O boicote aos ônibus foi apenas o começo. Seguiram-se as marchas de protesto de King e milhares de defensores dos direitos civis em todo o país, acompanhadas de violações conscientes da legislação racista. Usavam, por exemplo, as salas de espera e os restaurantes reservados aos brancos. Nem a violenta repressão policial enfraqueceu o movimento.

"Temos que levar nossa luta adiante, com dignidade e disciplina. Não podemos permitir que nosso protesto degenere em violência física", advertia o pastor batista, não se deixando provocar pela ordem pública.
EUA divididos para brancos e negros

Ele manteve esta filosofia, mesmo quando os 1.100 participantes do movimento negro radical exigiram a divisão dos Estados Unidos em dois, para brancos e negros, na Black Power Conference, em 1967.

Vinte e quatro horas antes de sua morte, Martin Luther pronunciou o célebre discurso em que anunciava ter avistado a terra prometida. "Talvez eu não consiga chegar com vocês até lá, mas quero que saibam que nosso povo vai atingi-la", declarou ele, como se previsse a proximidade da morte.
Seu assassinato provocou consternação internacional. As inquietações raciais se agravaram em Chicago e Washington. Depois de anunciar o fim dos bombardeios no Vietnã e sua desistência de se recandidatar à Casa Branca, o presidente Lyndon Johnson chegou a adiar uma viagem ao exterior.
Em memória a King, no ano de 1983, os Estados Unidos tornaram feriado nacional a terceira segunda-feira de janeiro (ele havia nascido em 15 de janeiro de 1929).

1955: Rosa Parks se recusa a ceder lugar a um branco nos EUA 

Autoria Rachel Gessat (rw)

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1931: Al Capone era condenado por sonegação de impostos


Em 24 de outubro de 1931, Al Capone foi condenado a 11 anos de prisão e multa de 50 mil dólares por sonegar impostos. O filho de imigrantes italianos ascendeu a líder entre as gangues do submundo norte-americano.


Al Capone em 1931

Nascido a 17 de janeiro de 1899, no Brooklyn, em Nova York, filho de imigrantes da Sicília, Alphonse "Al" Capone foi um dos mais famosos chefões da máfia nos Estados Unidos. Cercado de miséria e criminalidade, conheceu cedo a violência e a brutalidade. Uma cicatriz adquirida numa briga com facas valeu-lhe o apelido de "Scarface".

Quando o pai faleceu, em 1920, Al Capone mudou-se para Chicago, onde queria tentar a sorte ao lado do poderoso chefe de gangue italiano Johnny Torrio, que explorava o comércio ilegal de bebidas alcoólicas, a prostituição e salões de jogos.

Capone cresceu rapidamente e, em pouco tempo, tornou-se um mito entre os criminosos americanos. Seus grandes inimigos eram os bandos irlandeses do norte da cidade, com os quais os italianos travaram uma verdadeira guerra em meados dos anos 1920.

O ferimento de Torrio numa destas brigas, com um bando de Bugs Moran, trouxe-lhe a aposentadoria prematura. Al Capone, entrementes o homem mais poderoso do submundo do crime, jurou vingança. No dia 14 de fevereiro de 1929, assassinos profissionais executaram sete membros importantes do bando de Moran.

Profissão: vendedor de antiguidades

A polícia logo desconfiou de quem poderia estar por trás dos crimes, mas não tinha provas. Al Capone tinha um álibi para o momento do crime. Durante vários dias, o assunto ocupou a imprensa norte-americana. A Casa Branca resolveu, então, encarregar o chefe do FBI pessoalmente de investigar todos os detalhes dos negócios de Al Capone. Oficialmente, ele era vendedor de antiguidades. Sabia-se que faturava mais de três milhões de dólares por ano, mas não pagava impostos.

Os investigadores reviraram a contabilidade do gângster para, em 1931, chegarem à conclusão de que Al Capone devia mais de 200 mil dólares ao fisco. Para o que a promotoria pediu 34 anos de prisão. Os advogados de Capone tentaram em vão a redução da pena junto ao juiz James Wilkerson, que não se deixou subornar. Até a tentativa de compra dos jurados falhou, pois o juiz substituiu todos eles na última hora.

A sentença contra "o rei de Chicago", no dia 24 de outubro de 1931, foi de 11 anos de prisão por sonegação de impostos. Dois anos foram cumpridos num presídio em Atlanta, depois ele foi levado à prisão de segurança máxima de Alcatraz, onde os médicos atestaram que tinha sífilis. Por causa da saúde precária e de sua boa conduta, foi posto em liberdade em 1937.

Ele morreu em 1947, em Miami, na Flórida, mas foi enterrado em Chicago. Na sepultura, as palavras: "Alphonse Capone, 1899-1947, My Jesus Mercy (Misericórdia, meu Jesus)".
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Autoria Jens Teschke (rw)
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segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Poucos sabem que Carlos Alberto Richa, o Beto Richa, piloto de corridas e governador do Paraná é primo de Rafael Greca de Macedo, prefeito de Curitiba. Ambos descendem do Capitão Manuel Ribeiro de Macedo, um potentado local escravista do início do século XIX no Paraná. Beto descende do clã Macedo pela genealogia da sua mãe, Arlete Vilela Richa, o que é mais um elemento para ajudar na explicação da ascensão do político imigrante, governador na redemocratização de 1982, José Richa, além da grande virtù política e carisma desse ator emergente. Como escrevemos no nosso livro coletivo sobre "Nepotismo, Parentesco e Mulheres" - Na verdade as mulheres estão em todos os lados, atrás, do lado e muitas vezes na frente da estratégia social dos emergentes e dos novos atores econômicos e políticos. Rosangela Moro, a esposa do juiz Sérgio Moro, é outra prima e descendente do Capitão Manuel Ribeiro de Macedo, bem como boa parte da cúpula histórica do poder executivo, legislativo, judiciário, empresarial e cultural do Paraná. Assim podemos entender as mentalidades, práticas políticas e a classe dominante tradicional em uma região brasileira. O próprio Capitão Manuel Ribeiro de Macedo foi acusado de corrupção em escandaloso processo pelo primeiro presidente da Província do Paraná. Pela família sempre foram "inocentes". Eu já sou parente distantíssimo deles pelo título Borges de Cerqueira, um dos troncos genealógicos seiscentistas da Genealogia Paulistana, no Paraná e em Santa Catarina, conectando as velhas famílias do Litoral Sul como um todo. Lembremos sempre que a estrutura social em boa parte é estrutura genealógica. Quem quer conhecer a política brasileira e paranaense também deve analisar as famílias do poder e suas dinâmicas.

RCO

sábado, 21 de outubro de 2017

1985: Wallraff lança "Cabeça de Turco"


No dia 21 de outubro de 1985, o escritor e jornalista alemão Günter Wallraff lançou o livro "Cabeça de Turco", em que descreveu as dificuldades enfrentadas pela mão de obra estrangeira na Alemanha.
 Künstler rufen zur Verteidigung des Urheberrechts auf – Aktion: Wir sind die Urheber (dapd)
"Estrangeiro forte procura emprego. Pode ser trabalho pesado, sujo e mal pago." Com este anúncio, publicado em vários jornais alemães em março de 1983, o jornalista Günter Wallraff começou uma investigação que iria abalar a Alemanha.

Foi o início da longa reportagem publicada no livro Cabeça de Turco, em 1985. Disfarçado de turco, Wallraff sentiu na pele e denunciou de forma contundente a discriminação contra os imigrantes no cotidiano alemão.

O autor descreveu detalhadamente o que vivenciou, sob o pseudônimo Ali, em uma empresa mediadora de mão de obra, na metalúrgica Thyssen e num restaurante McDonald's.

Ele desceu ao submundo da sociedade alemã para denunciar as brutais jornadas de trabalho de 16 a 24 horas por dia impostas aos estrangeiros na época, o tratamento desumano dispensado a trabalhadores braçais e pouco qualificados e a falta de segurança nos locais de trabalho, principalmente para operários turcos.

Ignorado pela mãe

Seu disfarce foi tão perfeito que Wallraff sequer foi reconhecido pela mãe. O resultado foi um "livro-bomba", que já nas seis primeiras semanas após o lançamento vendeu mais de um milhão de exemplares. A Promotoria Pública alemã abriu inquérito contra o grupo Thyssen, desencadeando uma verdadeira avalanche de processos contra empresas que discriminavam ou maltravam imigrantes.

Na época do lançamento, Cabeça de Turco foi considerado "o melhor livro alemão do pós-guerra". O livro não só foi um sucesso inédito de vendas como teve consequências em vários países europeus. Por sugestão de Wallraff, jornalistas franceses escreveram uma obra semelhante, denunciando o racismo contra os trabalhadores árabes na França. A mesma linha investigativa norteou uma publicação sobre a situação da mão de obra estrangeira na Holanda.

Denúncias de efeito regional

Na Dinamarca, o Parlamento criou uma comissão para investigar a situação dos estrangeiros no país, o que provocou uma série de transformações. Era o que o autor esperava que acontecesse também na Alemanha. "Mas, aqui, as denúncias tiveram apenas efeito regional. Por empenho pessoal, o secretário de Trabalho e Assistência Social da Renânia do Norte-Vestfália, por exemplo, descobriu dezenas, centenas de casos graves de discriminação. Talvez fosse necessário publicar uma obra destas por ano", comenta o jornalista.
O método de investigação jornalística usado por Wallraff foi sido criticado desde o início. Muitos adversários ou empresas denunciadas – como Thyssen e McDonald's – o enfrentaram até por via judicial, mas, salvo raras exceções, o autor saiu vitorioso dos processos. Desde a publicação de Cabeça de Turco, o nome Günter Wallraff é sinônimo de jornalismo investigativo na Alemanha.

Um dos precursores do estilo de Cabeça de Turco foi o escritor inglês Graham Greene (1904–91). Na crônica "Tocando Realejo" (1928), em que relata sua perambulação por Hertfordshire disfarçado de mendigo, ele fez uma espécie de antecipação do jornalismo praticado por Wallraff.

Antes da publicação do livro alemão, também o jornalista brasileiro José Hamilton Ribeiro já havia usado a técnica do disfarce para desvendar a realidade dos operários do ABC paulista, em reportagens para a revista Realidade.

Autoria Maren Hellwege (gh)


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