terça-feira, 5 de março de 2019

Incompreensível para as massas



Vladimir Maiakóvski

Tradução: Augusto e Haroldo de Campos

Entre escritor
e leitor
posta-se o intermediário,
e o gosto
do intermediário
é bastante intermédio.
Medíocre
mesnada
de medianeiros médios
pulula
na crítica
e nos hebdomadários.
Aonde
galopando
chega teu pensamento,
um deles
considera tudo
sonolento:
– Sou homem
de outra têmpera! Perdão,
lembra-me agora
um verso
de Nadson…
O operário
Não tolera
linhas breves.
E com tal
mediador
ainda se entende Assiéiev
Sinais de pontuação?
São marcas de nascença!
O senhor
corta os versos
toma muitas licenças.
Továrich Maiacóvski,
porque não escreve iambos?
Vinte copeques
por linha
eu lhe garanto, a mais.
E narra
não sei quantas
lendas medievais,
e fala quatro horas
longas como anos.
O mestre lamentável
repete
um só refrão:
– Camponês
e operário
não vos compreenderão.
O peso da consciência
pulveriza
o autor.
Mas voltemos agora
ao conspícuo censor:
Campones só viu
há tempo
antes da guerra,
na datcha,
ao comprar
mocotós de vitela.
Operários?
Viu menos.
Deu com dois
uma vez
por ocasião da cheia,
dois pontos
numa ponte
contemplando o terreno,
vendo a água subir
e a fusão das geleiras.
Em muitos milhões
para servir de lastro
colheu dois exemplares
o nosso criticastro.
Isto não lhe faz mossa -
é tudo a mesma massa…
Gente – de carne e osso!!
E à hora do chá
expende
sua sentença:
– A classe
operária?
Conheço-a como a palma!
Por trás
do seu silêncio,
posso ler-lhe na alma -
Nem dor
nem decadência.
Que autores
então
há de ler essa classe?
Só Gógol,
só os clássicos.
Camponeses?
Também.
O quadro não se altera.
Lembra-me e agora -
a datcha, a primavera…
Este palrar
de literatos
muitas vezes passa
entre nós
por convívio com a massa.
E impige
modelos
pré-revolucionários
da arte do pincel,
do cinzel,
do vocábulo.
E para a massa
flutuam
dádivas de letrados -
lírios,
delírios,
trinos dulcificados.
Aos pávidos
poetas
aqui vai meu aparte:
Chega
de chuchotar
versos para os pobres.
A classe condutora,
também ela pode
compreender a arte.
Logo:
que se eleve
a cultura do povo!
Uma só,
para todos.
O livro bom
é claro
e necessário
a vós,
a mim,
ao camponês
e ao operário.

segunda-feira, 4 de março de 2019

LULA:QUASE 1 ANO NA PRISÃO,QUASE 1 DIA EM LIBERDADE


Helio Fernandes

Iam repetindo a leviandade, parcialidade, inconstitucionalidade, acontecida quando morreu o irmão do ex-presidente. Armaram deliberada confusão ,e quando chegou a decisão final, o enterro já havia terminado. Então, como "compensação", o presidente do STF, DiasToffoli, determinou que o ex-presidente se encontrasse com familiares, num quartel. Inacreditável, logico, Lula recusou.
Agora, os advogados entraram com pedido de autorização para ir ao enterro de um neto. (De apenas 7 anos, paixão do ex -presidente, lindo, lindo, atingido por meningite. Quando Lula foi preso, estava com o neto no colo, foi afastado violentamente pelos irresponsáveis que executavam a operação ).
A defesa foi atendida nas varias instancias, mas espantosamente negado em duas, sendo que numa, concediam, mas queriam que fosse algemado .A decisão positiva surgiu da administração, que liberou até avião para leva-lo até SP, e lá, helicóptero, que o transportou até o velório. Na volta, o mesmo esquema.
Os derrotados ,cheios de ódio, entraram com recurso no STF. O mesmo Dias Toffoli, imediatamente recusou tudo, e ratificou o que estava decidido.
Não houve manifestação, apesar da presença de grandes personalidades, e multidão de amigos e correligionários. Só um discurso emocionante e emocionado, da extraordinária figura de Eduardo Suplicy. Varias vezes senador, de grandeza insuperável.
O carnaval de Lula, ( não de festa, mas de sofrimento) começou ás 7 da manhã, quando saiu de Curitiba, terminou ás 4 da tarde, quando voltou. Por decisão dele mesmo.
PS- Não quis aproveitar seu tempo, ás 15 para ás 4, estava na carceragem.


Sonia Sales_____________________________ Tirsite demais! Acho que ele não vai aguentar.

Evandro Gonçalves de Almeida_______________ Vai sair mais forte, o que não te mata te fortalece.


Kacá Versiani _____________________________Que desgraça esse judiciário, esse desgoverno, essas pessoas que estão destruindo nossas vidas...!
Com total apoio dos fuzis !

Alexandre Lydia _______________________Reaça prefere acreditar que o Lula é culpado mesmo sabendo que não há provas e que a ONU vai denunciar o lawfare que o vitima ainda este ano. Porque reconhecer a inocência do Lula para bolsominions envergonhados é o mesmo que passar um atestado de burrice e canalhice completa. Então continuam fingindo que acreditam que o Lula roubou um apartamento que nunca foi dele e um sítio que pertence ao melhor amigo. Só pra não verem quem são realmente no espelho negro, depois de perseguirem e caluniarem a vida inteira um inocente que nunca lhes fez nada.
Direitista não tem idealismo ou senso de solidariedade como esquerdista. Direitista não acredita no estado como instituição, só pensa em privatizar. Entra na política para fazer carreira e ganhar dinheiro apoiando a pauta dos milionários, praticando aulicismo. pos-quim.com

Guilherme Correa___________________________ Texto triste e preciso.
Mas aí vem a "perguntinha ingênua, inócua e inútil" (royalties para o senhor):
Devolveram o iPad da criança?
Só nessa República de m... um juiz com ajuda da PF rouba doce de criança.
"Manda a PF devolver os iPads dos meus netos", pede Lula a Moro

Alice Weiss__________________ Nosso Lula está tendo muitas provas,mas ve.se q continua íntegro e conserva sua sanidade mental apesar de abatido.Muitas perdas em tão pouco tempo!Quanta dor!Mas esse nordestino é mais forte q toda essa cambada q está assaltando nosso país e não vai ser destruído por esses infames.#Lulalivre
Cesar Fonseca Relatar com competência, eis o vício desse repórter sensacional
Ricardo José Lopes Clemente O aparato policial, armados com fuzis de alto poder, demonstra o povo que os covardes atuais tem de Lula, covardia inédita, se andassem por aí armados como estavam, os bandidos que nos atemorizam por aí, sumiriam de circulação. STF, redima-se com urgência.

Anthony Kudsi Rodrigues ________________ "Senhor, você perdeu, afinal, todo senso de decência?" perguntou o advogado Joseph Welch ao inquisidor-mór Senador McCarthy durante o Macartismo nos EUA , que durou do final dos anos 40 até o início dos anos 60. Quem fará o mesmo aqui no Macartismo tupiniquim, antes que se cometam as mesmas barbaridades como a eletrocussão do inocente casal Rosemberg e as perseguições em todo e estrato social que resultaram em suicídios e outras desagregações sociais?". Boa noite , Boa sorte" , como dizia outro grande combatente deste fascismo americano, o jornalista Ed Murrow.

Helio Fernandes_____________________ Texto muito bem escrito, e dominado por informações privilegiadas. Parabéns e obrigado, Anthony Kudsi Rodrigues.

Andre Gonzaga __________________Mestre Hélio, como pode até hoje não haver uma entrevista com o Lula,?O maníaco do parque deu entrevista, o Marcola deu entrevista, o assassino da luz vermelha, o ator que matou Daniela Peres, Suzana von Richthofen, Fernando beira mar, tantos outros criminosos polêmicos concederam longas e várias entrevistas, antes da condenação durante o processo e depois do trânsito em julgado, por quê o Lula continua incomunicável? Pensei que algum repórter conseguiria se aproximar dele. Isso é comum?

Alice Weiss_______________________ Andre Gonzaga, vc não me perguntou nada ,mas vou dar minha opinião. Tudo relativo a Lula nesse governo é significativo. Nada é comum. Eles nunca darão voz a ele. Querem q o povo esqueça seu herói e q Lula definhe na solidão. Essa postura e para apagar esse elo q existe entre Lula e nós POVÃO ,q conseguimos reconhecer nele o único presidente q se interessou em beneficiar os mais necessitados. Desculpas por me intrometer em sua Helio Fernandes André Gonzaga- Excelente colocação. Muitos jornalistas pediram para entrevista-lo, não recebem nem resposta. Seria sensacional. Na TV, recorde de audiência.

Andre Gonzaga ______________E um esclarecimento necessário à toda a população. Por quê manter o Lula incomunicável?

Fabiana Santos _______________Lula é preso político. Ainda há quem duvide disso... Por isso nada se esclarece à população, nada se explica ao povo neste estado de exceção. Enquanto as elites permanecerem caladas, o que significa apoio, nada mais é levado em conta... seguem olímpicos com o golpe.
Ricardo José Lopes Clemente Ainda não houve o trânsito em julgado da sentença.

sábado, 2 de março de 2019


POEMÍNIMO



já vai?
é tarde ainda
fique mais um pouco
deus me livre!
cansou de mim e de meu canto?
quando jovem era outro papo
a esperança cantava
esporro e sopapo
o fim era só o começo
e mais um tanto
meu destino é meu verso!
ainda imaginas
felicidade ao pôr do sol?
já era o dia
é frio o universo
dura a terra
a coruja pia
tuas pálpebras fecham
diante dos teus olhos
o mundo desaparece

Friedrich Holderlin

por antonio thadeu wojciechowski


TRAZER PRA DENTRO DE SI O CÉU COM UM SORRISO




coração, abre as asas sobre a pequena ave!
é dela o segredo das eras antigas !
bem melhor é saber que já ouvi essas cantigas
quem não as ouve está morto e ainda não sabe

meu pensamento caminha pela amplidão,
inaudito, faminto, sedento, juvenil!
mesmo sendo domingo, onde já se viu?,
depois de jovens, homens se enchem de razão

tomara que eu não seja útil ou decisivo
mas que ame mais do que quem mendiga
não há ninguém tão louco que não consiga
trazer pra dentro de si o céu com um sorriso

E. E. Cummings

por antonio thadeu wojciechowski


Hino menino




Já faz muitos anos, mais de dez, quase quinze. Eu não era nem mãe ainda. Meu pai comentou que a escola fundada por ele não tinha hino, que a escola precisava de um hino. Entendi aquilo como um convite apelo e tomei pra mim o desafio de rabiscar num caderninho um refrão e mais duas estrofes.

Para o campo semântico, escolhi termos que sempre foram caros àquele educador apaixonado: paz, liberdade, abertura, respeito, aprendizado, criatividade, expressão, amizade, cooperação... Não demorou muito e, depois de alguns cortes e substituições de palavras para ajustar métrica e rimas, a letra ficou pronta.

Tentei fazer a melodia também, mas não prestou. Passei, então, a tarefa para o meu irmão mais novo, que rapidinho solucionou o problema, ajeitando ritmo e cifras. Botou inclusive uma pausa bem oportuna, que virou o charme da música.

Já faz alguns anos que a letra do hino vem impressa na agenda dos alunos da escola, mas eu nunca tinha visto as crianças cantando os meus versinhos. Depois de tanta história, finalmente eu tive o prazer de assistir à apresentação do hino pela criançada. Foi na solenidade de aniversário dos 14 anos da escola, que concentrou na quadra mais de 400 alunos de educação infantil e ensino fundamental. As turmas de 3º, 4º e 5º anos, uniformizadas e regidas pela professora de música, fizeram o coro: “Atual é a vontade de aprender. Atual é o desejo de ser feliz...”.

Eu ouvia a harmonia do conjunto, mas meus olhos se fixavam mesmo era numa moreninha do 3º ano: minha caçula, muito tímida, mas demonstrando orgulho de estudar na escola que o vovô e a vovó construíram (hoje administrada com zelo e dedicação pela vovó, pelo tio e pela tia). A minha primogênita também estava participando, toda prosa, lá na plateia.

Quanta emoção! E quanta saudade do meu pai, que estaria hoje com 74 anos. “Quero um mundo criativo e bem aberto (...) Muita paz e muito amor eu vou plantar.”

Maria Amélia Elói

Postado originalmente  no :

http://samizdat.oficinaeditora.com/feeds/posts/default

em : 26 Feb 2019

Es melancolía



Te llamarás silencio en adelante.
Y el sitio que ocupabas en el aire
se llamará melancolía.

Escribiré en el vino rojo un nombre:
el tu nombre que estuvo junto a mi alma
sonriendo entre violetas.

Ahora miro largamente, absorto,
esta mano que anduvo por tu rostro,
que soñó junto a ti.

Esta mano lejana, de otro mundo
que conoció una rosa y otra rosa,
y el tibio, el lento nácar.

Un día iré a buscarme, iré a buscar
mi fantasma sediento entre los pinos
y la palabra amor.

Te llamarás silencio en adelante.
Lo escribo con la mano que aquel día
iba contigo entre los pinos.

Eduardo Carranza. Colômbia, (1913-1985)

Biblioteca Digital Ciudad Seva

Casablanca - As Time Goes By - Original Song by Sam (Dooley Wilson)


terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

DE CABEÇA


Poema de Ocean Vuong, traduzido por Rogério Galindo:



Você não sabe? O amor de mãe
ignora o amor-próprio
como o fogo ignora
os gritos sonoros
daquilo que queima. Meu filho,
mesmo amanhã
você vai ter o hoje. Você não sabe?
Alguns homens tocam seios
como tocassem
o topo de crânios. Homens
que ultrapassam montanhas
levando seus sonhos, seus mortos
nas costas.
Mas só uma mãe pode andar
com o peso
de um segundo coração que bate.
Garoto tolo.
Talvez você se perca em todo livro
mas jamais vai se esquecer de si
como deus esquece
as próprias mãos.
Quando alguém te perguntar
de onde você é,
responda sempre que o teu nome
virou carne na boca banguela
de uma mulher da guerra.
Que você não nasceu
que você rastejou, de cabeça —
rumo à fome dos cães. Meu filho, responda
que o corpo é uma lâmina que se afia
cortando.





"Se vamos à essência da nossa formação, veremos na realidade que nos constituímos para fornecer açúcar, tabaco, alguns outros gêneros; mais tarde ouro e diamantes; depois, algodão e, em seguida, café, para o comércio europeu. Nada mais que isto. É com tal objetivo, exterior, voltado para fora do país e sem atenção a considerações que não fossem o interesse daquele comércio, que se organizarão a sociedade e a economia brasileiras."

Caio Prado Jr., 'Formação do Brasil Contemporâneo'.

Paris, a "capital infame"


Baudelaire e sua relação de amor e ódio com Paris, a "capital infame":

EPÍLOGO

De coração contente escalei a montanha,
De onde se vê – prisão, hospital, lupanar,
Inferno, purgatório – a cidade tamanha,

Em que o vício, como uma flor, floresce no ar.
Bem sabes, ó Satã, senhor de minha sina,
Que eu não vim aqui para lacrimejar.

Como o amásio senil de velha concubina,
Vim para me embriagar da meretriz enorme,
Cujo encanto infernal me remoça e fascina.

Quer quando em seus lençóis matinais ela dorme,
Rouca, obscura, pesada, ou quando em rosicleres
E áureos brilhos venais pompeia multiforme,

– Amo-a, a infame capital! Às vezes dais,
Ó prostitutas e facínoras, prazeres
Que nunca há de entender o comum dos mortais.

Trad.: Manuel Bandeira

El corazón roto



John Donne

Demente está quien afirma
haber estado una hora enamorado,
mas no es que el amor así se desvanezca,
sino que, de hecho, en menos tiempo puede devorar.
¿Quién osará creerme si juro
haber sufrido un año de esta plaga?
¿Quién no se reiría de mí si yo dijera
que vi arder todo un día la pólvora de un frasco?

¡Ay, qué insignificante el corazón,
si llega a caer en manos del amor!
Cualquier otro pesar deja sitio
a otros pesares, y para sí reclama solo una parte.
Vienen hasta nosotros, pero a nosotros el Amor arrastra,
y, sin masticar, nos absorbe.
Por él, como por el infame hierro, tropas enteras caen.
Él es el esturión tirano; nuestros corazones, la morralla.

Si así no fue, ¿qué le sucedió
a mi corazón cuando te vi?
A la alcoba traje un corazón,
pero de ella emergí vacío, desolado.
Si contigo hubiera ido, sé
que a tu corazón el mío le habría enseñado
la compasión.
Pero, ¡ay!, Amor, de una herida lacerante la felicidad
se ha quebrado.

Más la Nada en Nada puede convertirse,
ni sitio alguno puede del todo vaciarse,
así, pues, pienso que aún posee mi pecho todos
esos fragmentos, aunque no estén reunidos.
Y ahora, como los espejos rotos muestran
cientos de rostros más menudos, así
los añicos de mi corazón pueden sentir agrado,
deseo y adoración,
pero después de tal Amor, jamás volverán a amar.

“The Broken Heart”, 1633

sábado, 9 de fevereiro de 2019


A forma como a lei é aplicada é o mais importante termômetro do autoritarismo e do golpismo. Na transição para qualquer ditadura, seja no fascismo italiano, no nazismo alemão, em ditaduras militares cucarachas, chama a atenção a continuidade dos mesmos juízes, da mesma magistratura, dos mesmos tribunais, das mesmas leis, agora personificadas e aplicadas por novas caras de juristas vingadores e oportunistas associados aos novos regimes golpistas autoritários. Como a história ensina, as democracias sempre morrem primeiro pela aplicação instrumental e golpista das leis existentes, retorcidas e desfiguradas para atenderem aos interesses autoritários dos novos regimes de exceção. Só depois de instalado o regime de exceção e depois a ditadura é que podem pensar em algumas mudanças institucionais, caso precisem posteriormente. No caso da Alemanha Nazista, o arquétipo do jurista autoritário como membro orgânico do partido político de direita, nem precisaram mudar a Constituição porque os magistrados e os tribunais já interpretavam e aplicavam as leis como queriam para perseguir opositores e adversários do regime.
RCO


"Não Verás País Nenhum", a distopia de Ignácio de Loyola Brandão, livro lançado em 1981, sempre me impressionou e assustou como o espelho do que podíamos negativamente nos tornar e efetivamente nos tornamos. Uma ficção passada no começo do século XXI, a ditadura militar nunca terminou, os desastres e crimes ambientais, os bolsões de calor, a destruição de museus e reservas.Os miseráveis refugiados, a grande pobreza e desigualdade, as multinacionais e seus interesses coloniais no país, a desnacionalização, a privatização, as grandes cercas físicas e sociais aumentando. Os desencontros das tragédias sociais ampliadas, a destruição da esfera pública e coletiva. Nós, jovens esperançosos do início dos anos 1980, lemos aquilo com um tom de perplexidade, angústia e desconfiança. Lamentavelmente o autor apontou corretamente o nosso futuro, um capitão da ditadura militar entusiasta da tortura e repressão no poder golpista, com seus empresários, governadores, assessores e a ARENA continua no comando, com o atual DEM, no Congresso, sempre continuando a tradição de corrupção, pilhagem e rapina. O "esquema" detalhado e descrito tristemente no livro é a narrativa de Brumadinho, do Ninho do Urubu, as mortes em favelas do "novo-velho"desgoverno na sua imensa ignorância e desprezo pela educação, saúde, direitos trabalhistas, humanos e a raiva das autoritárias elites tradicionais brasileiras pela ideia de moderna cidadania e democracia.
RCO

TRAGEDIA,DRAMA FATALIDADE


Helio Fernandes_______________________Tudo está acontecendo no Rio, a antiga Cidade Maravilhosa. Alem da insegurança total e absoluta,com praticamente toda a população aprisionada, ameaçada e amedrontada, pelo poder paralelo dos traficantes, facções criminosas e milicianos.Os traficantes garantidos pelos barões do asfalto, que remetem as drogas, se acumpliciam e dividem os lucros. Astrônomicos. As facções criminosas, dirigidas discricionariamente de dentro das penitenciarias.(Como aconteceu durante 1 mês no Ceará, impondo destruição, morte e medo, ás tropas enviadas pelo ministro Moro).E as cada vez mais poderosas e dominadoras milicias, altamente protegidas e inatingíveis. Se expandindo como verdadeiro Poder. Nada paralelo. Até um dos filhos de Bolsonaro,(Flavio), diz publicamente,"Milicia ignifica segurança". E como deputado condecora dezenas desses bandidos.Responsabilizado(e também por fraudes financeiras )protesta:"Estou sendo perseguido". Agora é a natureza que está contra o Rio e sua população.
 Na quinta feira, impiedoso temporal e vendaval, que atingiu a cidade inteira.
Na sexta, um incêndio restrito ao centro de treinamento do Flamengo, o famoso e popular " ninho do urubu". 10 mortos e 3 feridos, com a constatação lancinante.Jovens, sonhando com um futuro, que se projetava positivo e auspicioso.Alem dos que desapareceram, toda a comunidade se emocionou.Chorou. Lamentou.Compartilhou. Os jovens viviam ali, morreram em pleno sonho, sem saber o que aconteceu. Os pais, famílias, amigos, receberam o impacto,em pleno coração.

Manuela Frade de Almeida__________________ Mestre Helio Fernandes, perdoe minha ousadia mas meu diagnóstico aponta em outra direção: o golpe de 2016 desmontou todo arcabouço do que seria uma nação ou o que pensávamos que seria, rasgou o véu que nos encobria de nós mesmos e cá estamos nus, revelando nossa incapacidade de gerir nossas necessidades mesmo aquelas elementares de sobrevivência.

O metrônomo




Quem bate
Uma frase de língua
Ao vento do jogo

Neuma do metro
O balancim confia
O tempo à dicção

Ritmo limiar é preciso
Que uma porta de palavras
seja aberta e fechada

Longa breve e pausa
O tempo passa
Ele repassará

Há como no ser
Um ar de família um ar de nada

A corrente de ares
vira as páginas
isso não faz um vinco
mas cinco

Só mais um momento
Senhor leitor
O tempo de uma palavra nua
Entre duas viradas

O que me canta
…….dobra-se
Aos calibres das cores
.

Michel Deguy, trad Marcos Siscar


Quem diz que o problema do Brasil é um Estado inchado delira ou age de tremenda ma fé. Tá faltando médico no posto? Tá faltando vaga na creche? Na universidade? Tá faltando policial na rua? Ou seja, o problema não é um Estado grande, mas pequeno, encolhido, quase invisível.

É verdade que há setores no aparelho estatal visivelmente inchados - não em pessoal mas em custo aos cofres públicos. É o caso do judiciário e do ministério público, por exemplo. Vencimentos totalmente incompatíveis com as mazelas do país -- e vencimentos que já seriam pornográficos mesmo em países ricos, como Suécia ou Japão.

Mas não vejo da parte desse governo que tá aí nenhuma intenção ou vontade de corrigir essas assimetrias. Pelo contrário, em vez de mexer nos salários e aposentadorias nababescos de setores do Estado, vão cortar no trabalhador pobre -- que vai se aposentar mais velho, se se aposentar, e recebendo meio salário mínimo. Enquanto isso, o juiz vai continuar se aposentando com mais de 30 mil e aí, livre do serviço público, vai ganhar ainda mais horrores na banca privada.
OLW



"A forma como a lei é aplicada é o mais importante termômetro do autoritarismo e do golpismo. Na transição para qualquer ditadura, seja no fascismo italiano, no nazismo alemão, em ditaduras militares cucarachas, chama a atenção a continuidade dos mesmos juízes, da mesma magistratura, dos mesmos tribunais, das mesmas leis, agora personificadas e aplicadas por novas caras de juristas vingadores e oportunistas associados aos novos regimes golpistas autoritários. Como a história ensina, as democracias sempre morrem primeiro pela aplicação instrumental e golpista das leis existentes, retorcidas e desfiguradas para atenderem aos interesses autoritários dos novos regimes de exceção. Só depois de instalado o regime de exceção e depois a ditadura é que podem pensar em algumas mudanças institucionais, caso precisem posteriormente. No caso da Alemanha Nazista, o arquétipo do jurista autoritário como membro orgânico do partido político de direita, nem precisaram mudar a Constituição porque os magistrados e os tribunais já interpretavam e aplicavam as leis como queriam para perseguir opositores e adversários do regime."

Ricardo Costa de Oliveira

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019


Avaro,
conto as palavras
com que pretendo dizer
algo
-- quase nada --
do tudo que quisera.

(Raras, as palavras
não vingaram na primavera.)

Vai vir o dia
em que não direi nada,
não serei nada:
partícula abismada no tudo.

Aí tudo estará bem.
Ou nada.

Avaro,
me calo
ante o mistério do nada.

(Nada
é
tudo.

Tudo
é
nada.)

E apago as palavras
em que sobrenado.

Otto Leopoldo Winck

MAUDITS



Mallarmé na cabeça
Rimbaud no coração
eu vou
quebrando a cara
nas quebradas do mundo

o alvo
uma nova constelação
no branco da folha
ou então
obscuros negócios
na Abissínia

o que vale
é virar a última página
do livro burguês
e cair na esbórnia
de signos e sentidos
da comuna de todos os vates

(ó sociedade:
aqui pra vocês)

assim
enquanto eu puder
beberei até a última gota
do doce absinto
do mestre de todos
Charles Baudelaire

Otto Leopoldo Winck


Mallarmé na cabeça
Rimbaud no coração
eu vou
quebrando a cara
nas quebradas do mundo

o alvo
uma nova constelação
no branco da folha
ou então
obscuros negócios
na Abissínia

o que vale
é virar a última página
do livro burguês
e cair na esbórnia
de signos e sentidos
da comuna de todos os vates

(ó sociedade:
aqui pra vocês)

assim
enquanto eu puder
beberei até a última gota
do doce absinto
do mestre de todos
Charles Baudelaire

Otto Leopoldo Winck

Pássara



passarás?

Tuas asas
tuas sobrancelhas
tuas cores
Orlanda.

Flor e país
caveira e acontecimento.
Dia do juízo final.

Não te recolho ao nome
misturo teus gestos
à casa azul.

Metamorfoseio
identidades.

O que és
o que não és
está neste quadro.

Pássara
que fica
Frida.
RTD


Não sei se o teu nome é um véu
ou uma máscara. Uma chave
ou uma lápide.
Sei que em manhãs antigas
eu procurei, na água dos regatos
ou nos seixos da alameda,
o rastro de teus passos por esta parte do mundo.
Sei também -- e como dói a consciência deste saber! --
que tudo passa, ou melhor:
tudo é passagem e passado.
Até a voz com que te grito,
até o gesto com que, de joelhos, me desmereço.
Não, não sei se o teu nome é o véu
que obscurece o céu às seis da tarde
ou o clarão de cem mil sóis
que me cegará um dia.
Sei que é tarde para voltar.
E cedo, muito cedo, para partir.
(Quisera permanecer aqui, e montar uma cabana para mim, outra para ti
e uma terceira para meus medos.)
Mas sei -- e como é cruel este saber! --
que não virás nunca
porque no fundo, lá no fundo,
tu nunca partiste.

Otto Leopoldo Winck


NA BOCA



Manuel Bandeira

Sempre tristíssimas estas cantigas de carnaval
Paixão
Ciúme
Dor daquilo que não se pode dizer

Felizmente existe o álcool na vida
E nos três dias de carnaval éter de lança-perfume
Quem me dera ser como o rapaz desvairado!
O ano passado ele parava diante das mulheres bonitas
E gritava pedindo o esguicho de cloretilo:
- Na boca! Na boca!
Umas davam-lhe as costas com repugnância.
Outras porém faziam-lhe a vontade.

Ainda existem mulheres bastante puras para fazer
[a vontade aos viciados

Dorinha meu amor...
Se ela fosse bastante pura eu iria agora gritar-lhe como
[o outro: - Na boca! Na boca!


quero me cortar
com gilete farpas lascas latas
e cacos de vidro
quero sangrar
chorar estrebuchar dançar
e grafar no muro mais sujo
teu santo nome em vão
quero viver morrer matar
me alistar na legião estrangeira
farcs hezbolah pkk
só pra aflorar
teu instinto maternal
e te ouvir gritar
meu bem meu bem
não vá

Otto Leopoldo Winck



segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019


"A poesia é um exercício para condenados. Os poetas transitam pela rua com o rosto e os gestos dos demais transeuntes e só assim sobrevivem; porque se se vestissem com o traje de amianto e fósforo que lhes corresponde, as pessoas fugiriam a seu passo e o pavor reinaria ao seu redor como uma luminosa coroa justiceira. Os poetas entendem esta situação e aceitam a penosa carga deste mimetismo humilhante. Mas resta uma unidade onde esta condição de vida assinalada pelos sete dedos da lucidez, da beleza, da ira, da intemporalidade, do sonho, da morte e do amor, é inocultável. Esta zona a constituem as palavras do poeta, sua visão e seu trato com os demais condenados.

Alvaro Mutis citado por Floriano Martins

in O Hábito do abismo


Não existe o infinito:


Não existe o infinito:
o infinito é a surpresa dos limites.
Alguém constata sua impotência
e logo a prolonga para além da imagem, na ideia,
e nasce o infinito.
O infinito é a dor
da razão que assalta nosso corpo.
Não existe o infinito, mas sim o instante:
aberto, atemporal, intenso, dilatado, sólido;
nele, um gesto se faz eterno.
Um gesto é um trajeto e uma encruzilhada,
um estuário, um delta de corpos que confluem,
mais que trajeto um ponto, um estalido,
um gesto não é início nem fim de nada,
não há vontade no gesto, somente impacto;
um gesto não se faz: acontece.
E quando algo acontece, não há escapatória:
todo olhar tem lugar num lampejo,
toda voz é um signo, toda palavra forma
parte do mesmo texto.

Chantal Maillard, trad. Adriana Lisboa

*descoberta numa publicação da poeta Raquel Gaio



domingo, 3 de fevereiro de 2019

Em busca da Política


 Zigmunth Bauman

"Quando o estado reconhece a prioridade e superioridade das leis do mercado sobre as leis da pólis, o cidadão transforma-se em consumidor demanda mais e mais proteção, enquanto aceita cada vez menos a necessidade de participar no governo do Estado. O resultado global são as atuais condições fluidas de anomia generalizada e rejeição das normas em todas as suas versões. Aumenta, em vez de diminuir, a distância entre o ideal de democracia liberal e sua versão real, de fato existente. Temos um longo caminho a percorrer antes de sequer pensarmos em alcançar uma sociedade na qual os indivíduos reconheçam sua autonomia junto com os laços de solidariedade." (pág.159)

O QUE OS MORTOS SENTIRAM?




Por Mário Lima Jr.

Quase cem corpos encontrados, mais de duzentas pessoas desaparecidas. Moradias destruídas, árvores derrubadas e plantações devastadas. Por causa da poluição do rio Paraopeba, sua principal fonte de sustento, a sobrevivência da tribo Pataxó Hã-hã-hãe está ameaçada. Os culpados, liderados pela Vale, foram apontados ao longo da semana e devem ser punidos de uma vez por todas. Para impedirmos que crimes como o de Mariana e Brumadinho se repitam, também é fundamental compartilharmos o sofrimento daqueles que se foram.

Jonatas Lima Nascimento tinha 36 anos e está entre os assassinados pela negligência da Vale. Era operador de equipamentos de instalação e passou o primeiro turno de trabalho, do dia 25 de janeiro, pensando na esposa e nos filhos, de 11 e 5 anos de idade. Sabemos disso porque Jonatas ligou duas vezes para conversar com a esposa naquela manhã.

Cansado, talvez depois de abastecer vagões com minérios que seriam transportados de trem, uma das tarefas que desempenhava, Jonatas estava no centro de carregamento – uma área baixa – na hora do rompimento da barragem da Mina do Córrego do Feijão, segundo informações extraoficiais.

A audição deve ter sido o primeiro sentido despertado, pelo barulho da onda gigantesca de rejeitos rompendo a barragem e esmagando o maquinário e tudo o que tinha pela frente. Se havia treinamento frequente para situações de emergência, em milésimos de segundo o cérebro trouxe à memória o procedimento a ser seguido. Mas o mar de lama veio rápido demais para uma reação maior. Muitos não tiveram tempo de correr, como os trabalhadores dentro do refeitório, completamente soterrado. No máximo, trocaram olhares com o colega de trabalho mais próximo, que também morreria em instantes.

Gritos foram abafados de imediato. A força da avalanche, que deslocou construções por centenas de metros, esmagou as vítimas contra paredes e objetos que arrastava, bem maiores do que o corpo humano. Antes da escuridão completa, quem sabe Jonatas sentiu o impacto nas costas e na cabeça, e o corpo imobilizado por um peso tremendo sobre ele.

Os Bombeiros encontraram membros arrancados. Esperamos uma morte instantânea, sem dor, mas aqueles que passaram pela experiência não podem revelar se sentiram o corpo cortado, perfurado, o gosto de terra na boca e o toque da lama entre os dedos. Dois segundos no trajeto do rompimento da barragem significaram um sofrimento insuportável. A podridão entrou pelo nariz, pela boca, e em pouco tempo se tornou impossível respirar.

Com calma e benevolência na voz, Fabio Schvartsman, presidente da Vale, alegou que a empresa aplicou um “esforço imenso” para evitar outra tragédia após Mariana. No entanto, os mortos, bem como o sofrimento dos parentes, são um fato indiscutível que provam o contrário. As sirenes que deveriam ter alertado a população sequer funcionaram. Foram instaladas para cumprir a legislação e nem ao menos testadas. É o relato do seu Manuel, que morava perto da barragem e de uma das sirenes. Ele perdeu a casa e só não perdeu a vida porque a esposa o salvou.




Muito mais dos mesmos. A votação ampliada de Rodrigo Maia, o "Botafogo", na presidência da Câmara, revela a forte continuidade de mando tradicional e fisiológico no poder legislativo. Uma das mais importantes famílias políticas no Rio de Janeiro, na Paraíba e no Rio Grande do Norte, pesquisada pelo nosso colega Marciano Monteiro. Pela mulher de Maia, enteada de Moreira Franco, o "Angorá", ele é quase o genro do genro do genro até Getúlio Vargas ! Na Assembleia Legislativa do Paraná foi reconduzido Ademar Traiano, conhecido por relações de nepotismo na instituição e como vice o deputado Plauto Miró Guimarães, de mais uma família da classe dominante tradicional, de modo que continuamos no poder de famílias originárias do Período Colonial. Isso porque o eleitor pensa que votou, nas eleições de 2018, em nomes "de fora e contra o sistema" na sua ignorância ! Vamos ver como se resolve o conflito no Senado.
RCO

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019


A Humana SúmulaA Piedade deixaria de existir
Se não fizéssemos nós os Pobres de pedir;
E a Compaixão também acabaria
Se a todos, como nós, feliz chegasse o dia.

E a paz se alcança com mútuo terror,
Até crescer o egoísmo do amor:
A Crueldade tece então a sua rede,
E lança seu isco, cuidadosa, adrede.

Senta-se depois com temores sagrados,
E de lágrimas os chãos ficam regados;
A raiz da Humildade ali então se gera
Debaixo do seu pé, atenta, espera.

Em breve sobre a cabeça se lhe estende
A sombra daquele Mistério que ofende;
É aí que Verme e Mosca se sustentam
Do Mistério que ambos acalentam.

E o fruto que gera é o do Engano
Doce ao comer e tão malsano;
E o Corvo o seu ninho ali o faz
No mais espesso da sombra que lhe apraz.

Todos os Deuses, quer da terra quer do mar,
P'la Natureza esta Árvore foram procurar;
Mas foi em vão esta procura insana,
Esta Árvore cresce só na Mente Humana.

William Blake, in "Canções da Experiência"
Tradução de Hélio Osvaldo Alves


Na composição do núcleo militar do Ministério Bolso, todos os generais pertencem a famílias militares, com tradições conservadoras, muitas vezes com pais que atuaram no Golpe de 64 e no serviço da ditadura, com antigos vínculos no pensamento político autoritário de ideologias dos tempos da “Guerra Fria” e da “Doutrina de Segurança Nacional”. Os generais Hamilton Mourão, Augusto Heleno, Fernando Azevedo são todos filhos de oficiais do Exército, o General Santos Cruz e o atual Comandante do Exército, o General Pujol, são filhos de oficiais da Brigada Militar do Rio Grande do Sul. Os militares, ao lado das famílias políticas do executivo, legislativo e judiciário, só podem ser entendidos quando vistos no conjunto de suas famílias. Há forte hereditariedade militar na composição e recrutamento da elite militar brasileira. Os oficiais generais quase sempre possuem vínculos genealógicos com a classe dominante tradicional ou entram pela tradição militar conservadora. A família do General Etchegoyen era um caso de hereditariedade militar. O General Eduardo Villas Boas, um dos responsáveis pelo fracasso da democracia brasileira, é mais um caso. Filho do Coronel do Exército Antonio Villas Boas e de Inalda Dias da Costa. Neto materno de Antonio Joaquim Dias da Costa e de Edith Neves, grandes fazendeiros em Cruz Alta, Rio Grande do Sul e descendentes das principais famílias latifundiárias, escravistas e políticas da Fronteira Sul, Simões Pires, Carneiro da Fontoura e outras. Parece que voltamos à República Velha e suas oligarquias políticas familiares entreguistas, antimodernidade e antidemocracia. O Ministério do Bolso poderia estar em 1929, antes do Movimento de 1930.
RCO



O nepotismo é uma longa corrente hereditária de vantagens e privilégios extraídos do Estado ao longo de várias gerações na classe dominante. Todos leram o caso do filho do general Mourão, Antonio Hamilton Rossell Mourão, repentinamente promovido com salário triplicado a quase 40 mil. O beneficiado é filho e neto de generais do exército, bisneto de desembargador e presidente do TJ do Amazonas, trineto de oligarcas latifundiários do Piauí. Pelo lado materno é filho da primeira esposa de Mourão, Ana Elizabeth, das principais famílias de Bagé, na fronteira do Rio Grande do Sul, neto de Mário Magalhães Rossell e de Zaida Quintana. O estádio de futebol local se denomina Antônio Magalhães Rossel, um dos tios e a família esteve associada com grandes pecuaristas e latifundiários, desde o Visconde de Ribeiro Magalhães, avô materno de Mario Magalhães Rossell e trisavô do sortudo do Banco do Brasil, Antonio Hamilton Rossell Mourão, o que mais uma vez confirma a tese de que política é assunto de famílias e de genealogias das classes superiores, muitas dentro do Estado, desde o Antigo Regime, ao longo de várias gerações e vários séculos. Como citamos o autor Oliveira Vianna no nosso livro Na Teia do Nepotismo: O nepotismo é a fórmula tradicional e geral da nossa vivência política. Para o trabalhador restou o prejuízo de perder oito Reais do seu salário mínimo para poder sustentar todo andar de cima da sociedade do Bolso, seus familiares e associados nas diversas corporações e altas rodas, os que o apoiam, lucram e embalam...
RCO


Nunca se viram as instituições que deveriam ser ou ter aparência de Estado, o sistema judicial, as forças armadas tão aparelhadas, partidarizadas e fazendo há meses campanha aberta para o candidato protegido deles, o Bolso e que venceu de maneira ilegítima, antidemocrática e sem concorrência. O baixo nível das ideias e propostas por eles na educação e saúde nesses dias só mostram que serão sócios e cúmplices do fracasso do desgoverno atual e daí já terão as suas imagens e identidades profissionais tão coladas com Bolso, que afundarão todos juntos na mesma impopularidade, ao lado dos seus parlamentares, juristas, ministros, comandantes, pastores e mídias unilaterais. O primeiro teste será a reforma da previdência em que já se divorciaram completamente da maioria da nação ao pretenderem preservar os seus privilégios corporativos de políticos, juízes, militares, empresários e outros ricos responsáveis pelo verdadeiro déficit do setor. Uma hora a maioria trabalhadora e assalariada perceberá o engodo eleitoral em que caiu.
RCO


E mais um descendente das antigas oligarquias no governo. O general Otávio Santana do Rêgo Barros, novo porta-voz do governo, natural de Recife-PE, filho de Francisco Rodolfo Valença do Rêgo Barros e de Maria Auxiliadora Santana do Rêgo Barros pertence a algumas das mais antigas e principais famílias pernambucanas da antiga açucarocracia, aquelas famílias dos engenhos de Casa Grande e Senzala. Como a cúpula das Forças Armadas possui muitos vínculos com a antiga classe dominante tradicional do "Antigo Regime", enfim, o que as pesquisas revelam das biografias coletivas, a prosopografia das autoridades do "novo-velho" governo... Fato social e político.


RCO

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

Sobre vagueza, ou, quando um monte de areia não é um monte de areia?



Timothy Williamson - tradução de Thiago Melo.

Imagine um monte de areia. Você cuidadosamente remove um grão. Há ainda um monte? A resposta é: sim. Remover um grão não torna um monte em não monte. O princípio pode ser aplicado também quando remove outro grão, e então outro… Após cada remoção, há ainda um monte, conforme o princípio de que remover um grão não torna um monte em não monte. Mas havia, finitamente, apenas muitos grãos para começar, de modo que você se depara com um monte com apenas três grãos, então um monte com só dois grãos, um monte só com um grão, e finalmente um monte com nenhum grão. Mas isso é ridículo. Deve haver algo errado com o princípio. Algumas vezes, removendo um grão, torna um monte de areia num não monte. Mas isso parece ridículo também. Como pode um grão fazer tanta diferença? Esse antigo problema é chamado de paradoxo de sorites, da palavra grega para “monte”.

Não haveria problema se tivéssemos uma boa e precisa definição de “monte” que nos diga exatamente quantos grãos você precisa para um monte. O problema é que não temos tal definição. A palavra “monte” é vaga. Não há um claro limite entre monte e não monte. Na maioria das vezes, isso não importa. Entendemos bem o suficiente para aplicar a palavra “monte” com base nas impressões casuais. Mas se a prefeitura te acusasse de ter despejado um monte de areia num local público, e você negasse que era um “monte”, se você teve qua pagar uma multa grande, essa situação então pode depender do significado da palavra “monte”.

Questões morais e legais mais importantes também envolvem vagueza. Por exemplo, no processo de desenvolvimento humano, desde a concepção, o nascimento, até a maturidade, quando primeiramente passa a existir uma pessoa? No processo de morte cerebral, quando não existe mais uma pessoa? Tais questões importam para admissibilidade de intervenções médicas, como o aborto e o desligamento de aparelhos. Então, para discutir com propriedade, devemos ser capazes de raciocinar corretamente com palavras vagas a exemplo de “pessoa”.

Você pode achar aspectos de vagueza na maioria das palavras do Português ou em qualquer outra linguagem. Em voz alta ou em nossas cabeças, raciocinamos na maior das vezes com termos vagos. Esse tipo de raciocínio pode facilmente gerar um paradoxo tipo o do sorites. Você pode ficar pobre ao perder um centavo? Você pode ficar alto ao crescer um milímetro? A princípio, os paradoxos parecem ser truques verbais banais. Mas, quanto mais rigorosamente os filósofos os estudaram, mais profundo e difíceis se tornaram. Eles levantam dúvidas sobre os mais básicos princípios lógicos.

Tradicionalmente, a lógica tem por base o pressuposto de que toda afirmação (e negação) é verdadeira ou falsa (e não as duas coisas simultaneamente). Isso é chamado de bivalência, porque diz que há apenas dois valores de verdade: verdade e falsidade. A lógica Fuzzy é uma influente abordagem alternativa para a lógica da vagueza que rejeita a bivalência em favor de um contínuo grau de verdade e falsidade, que vai da perfeita verdade de um lado à perfeita falsidade de outro. No meio, uma afirmação pode ser simultaneamente meio verdadeira e meio falsa. Conforme essa visão, quando você remove um grão após o outro, a afirmação “Há um monte” torna menos e menos verdadeira por ínfimos passos. Nenhum passo te leva da verdade perfeita para a falsidade perfeita. A lógica Fuzzy rejeita alguns princípios-chave da lógica clássica, nos quais se baseia a matemática padrão. Por exemplo, o lógico tradicional diz, em cada ponto, “Ou há um monte ou não há”; isso é um exemplo de um princípio geral chamado terceiro excluído. O lógico fuzzy responde que quando “há um monte” é apenas uma meia verdade, então “há um monte ou não há um monte” é apenas meia verdade também.

À primeira vista, a lógica fuzzy pode parecer uma natural e elegante solução ao problema da vagueza. Mas quando você desenvolve suas consequências, ela é menos convincente. Para ver o porquê, imagine dois montes de areia, uma exata cópia de um e outro, um à direita e outro à esquerda. Ao remover um grão de um lado, você remove um grão exatamente correspondente do outro lado também. A cada estágio, a areia da direita e a areia da esquerda são grão por grão cópias exatas uma da outra. Isso é muito claro: se há um monte à direita, então há uma monte à esquerda também, e vice e versa.

Agora, conforme o lógico fuzzy, quando removemos os grãos um a um, mais cedo ou mais tarde chegamos no ponto onde a afirmação “há um monte à direita” é meio verdadeira e meio falsa. Desde que o que está à esquerda copia o que está à direita, “há um monte à esquerda” é meio verdadeira e meio falsa também. As regras da lógica fuzzy então implicam que a afirmação complexa “Há um monte à direita e nenhum à esquerda” é também meio verdadeira e meio falsa, o que significa que podemos estar igualmente propensos entre aceitar e rejeitá-la. Mas isso é absurdo. Devemos rejeitar totalmente esta afirmação, já que “Há um monte à direita e nenhum à esquerda” implica que há uma diferença entre o que está à direita e o que está à esquerda - mas não há essa diferença; eles são grão a grão duplicados. Assim, a lógica fuzzy obtém o resultado errado. Ela perde as sutilezas da vagueza.

Há muitas outras propostas complicadas para revisar a lógica e acomodar a vagueza. Minha visão é que todas elas estão tentando consertar algo que não está estragado. A lógica Padrão, com bivalência e terceiro excluído, é bem testada, simples e poderosa. A vagueza não é um problema sobre lógica; é um problema sobre conhecimento. Uma afirmação pode ser verdadeira sem que você saiba que ela é verdadeira. Existe de fato um ponto em que você tem um monte, você remove um grão, e você não tem mais um monte. O problema é que você não tem meios para reconhecer esse ponto quando ele chega. Assim, você não sabe o ponto em que isso acontece.

Uma palavra vaga como “monte” é usada tão imprecisamente que qualquer tentativa de localizar seus limites exatos não possui solidez e confiança para continuar. Embora a linguagem seja uma construção humana, isso não faz ela ser transparente a nós. Como as crianças que fazemos, os significados que fazemos podem guardar segredos de nós. Felizmente, nem tudo está escondido de nós. Frequentemente, nós sabemos que há um monte; frequentemente, nos sabemos que não há um. Algumas vezes, nós não sabemos se há ou não. Ninguém nunca nos deu o direito de saber tudo!

Timothy Williamson é o professor Wykeham de lógica na Universidade de Oxford. Seus principais interesses de pesquisa estão na filosofia da lógica, epistemologia, metafísica e filosofia da linguagem. Seu último livro é Tetralogue: I’m Right, You’re Wrong (2015).

Texto originalmente publicado no site Aeon: On vagueness, or, when is a heap of sand not a heap of sand?

*Não domino a língua inglesa. Portanto, críticas a esta tradução são bem vindas.

Cortella e Karnal sobre ética




Circula há algum tempo na internet um vídeo em que Mário Sérgio Cortella fala sobre ética, e intitulam o vídeo como sendo uma definição de ética. O que ele diz é muito mais uma posição ética do que uma definição de ética. Ética (ou filosofia moral) é a investigação sobre as normas para que uma ação seja correta. Quando Cortella diz que ética é “um conjunto de princípios e valores sobre o que eu devo, posso e quero” ele já está dando uma reposta ao problema de saber o que é certo fazer. Pois ele admite que há princípios (existe filósofos que discordam) e admite que é o equilíbrio entre as normas, a liberdade e a vontade. Isso vai além da mera definição da área de conhecimento.

Recentemente, Leandro Karnal disse que ética é respeitar a todos, não só quem tem poder. Isso também já é uma resposta ao problema. Há teorias éticas que não aceitam isso.

O trabalho filosófico em ética consiste também em fazer o que Cortella e Karnal estão tentando fazer. Mas é importante ter essas considerações que fiz em mente porque a ética é uma área em aberto, não tendo ainda uma resposta definitiva sobre seu problema principal: o que é uma ação correta?

 Thiago Melo



A misoginia, as minorias e o desrespeito



O número de pessoas que vejo indignadas com o desrespeito às mulheres, aos negros e as demais chamadas minorias vem crescendo. Isso poderia ser uma grande notícia. Mas a quantidade destas mesmas pessoas que também desrespeitam está aumentando. Percebo através de jornais, redes sociais e meu convívio social. Vejo pessoas indignadas com o machismo e elas próprias não respeitam o professor, o colega de trabalho, o colega de sala, o que está em posição social diferente, aquele que pensa diferente etc. Ao mesmo tempo, o número de pessoas que reafirmam seus preconceitos também aumentam. O número de pessoas que reafirmam o machismo, por exemplo, está aumentando.

A explicação para isso está no respeito seletivo. Não dá para escolher as pessoas que você quer respeitar. Muito menos, se você escolhe não respeitar alguém simplesmente por essa pessoa estar fazendo seu trabalho, como é o caso de desrespeito a professores. Isso porque quando o respeito ao próximo vira algo arbitrário, o grupo maior vai ganhar. Se existe mais machistas que feministas, os machistas vão ganhar. E não se pode depois alegar injustiça, pois o respeito foi consensualmente arbitrário. Ambos os lados aceitaram respeitar quem eles acham que deve. Aí ninguém pode determinar quem deve ser respeitado, a não ser o grupo maior ou mais forte.

Você esperneando ou não, o mundo nem sempre segue as nossas normas. Muito menos, se não conseguimos convencer a maioria. E escolhendo quem vamos respeitar, não conseguiremos. Não abra mão de respeitar o próximo. Esse caminho é mais seguro para o respeito a todos os tipos de pessoas.




Thiago Melo

Por que algumas pessoas insistem que uma ideia filosófica depende muito da biografia do filósofo?
Muitos professores de filosofia insistem que o ensino e a análise de ideias filosóficas não podem ser feitos sem levar em conta a vida pessoal e profissional dos filósofos que as conceberam. No entanto, a justificação desta insistência não apresentam. Esta falta de justificativa é a primeira pista para entender a posição que tomam.

Quando não apresentamos justificativas de nossas posições, as pessoas interessadas no assunto vão procurar pontos que possam justificar as posições apresentadas. Fazemos uma retrospectiva da memória que temos da pessoa. Sua história pessoal, as relações que tivemos com ela, se for o caso, o tipo de trabalho que faz etc. Aí, se, por exemplo, a pessoa defende a liberação do uso de drogas, levamos em conta se ele é um usuário, se ela em algum outro momento conversou sobre o assunto, se ela é de esquerda etc. Enfim, procuramos razões para ela defender a ideia que defende na sua biografia. É isso que um historiador da filosofia faz quando filósofos não apresentam razões ou boas razões para as ideias que defende: ele vai procurar na biografia do filósofo. Não é por acaso, portanto, que os professores que mais insistem na importância da biografia de um filósofo são aqueles que estudam ideias filosóficas que não são bem justificadas.

Seguindo esta linha, constatamos que as pessoas que sustentam que o ensino e a análise de ideias filosóficas não podem ser feitos sem levar em conta a vida pessoal e profissional dos filósofos dão como já dado definitivamente que as ideias filosóficas são subjetivas. Isso significa que as ideias filosóficas dependem muito do sujeito que as concebem. Se alguém defende que a definição de conhecimento é X, ela defende isso devido, fortemente ou exclusivamente, a seus interesses pessoais. Assim, as ideias filosóficas, antes de ser sobre o mundo, são sobre as pessoas que as concebem. Por exemplo, Platão defendeu que a definição de conhecimento é X porque é desejo dele que a definição seja essa, não porque ela de fato é essa. Nessa situação, faz todo sentido considerar a biografia de um filósofo como indispensável para entender suas ideias.

Já com relação às ideias de outras áreas de conhecimento, pensam que são objetivas ou possuem graus de objetividade que as filosóficas não possuem. Por isso, não veem dificuldades em ensinar e analisar uma ideia da física ou da matemática independente da biografia do autor.

O problema é que não é definitiva ainda a posição de que as ideias filosóficas são subjetivas e as ideias das ciências naturais e da matemática são objetivas. Este é um problema filosófico em aberto. Muitos filósofos, inclusive eu, defendem que as ideias filosóficas são mais objetivas. Outros são céticos, ou seja, não tomam posição sobre o assunto. Enfim, a resposta para este problema ainda está sendo investigada. E não há uma resposta definitiva ainda.

No mínimo, portanto, as razões que um subjetivista filosófico tem para considerar a biografia de um filósofo são as mesmas que um objetivista ou um cético tem para não considerar. Caso o subjetivista ache que ele tem razões melhores, é preciso apresentar. Apenas expressar uma posição é expor uma mera opinião. E acho que há consenso de que o ensino de filosofia não é o ensino de meras opiniões. Pois seria a disseminação de preconceitos, de ideias sem a devida avaliação crítica.




Por que argumentos circulares são falaciosos?
Uma das maiores dificuldades que enfrentei em sala de aula foi a de convencer os alunos que a falácia da circularidade em argumentos é mesmo uma falácia. Por mais exemplos que você use para mostrar que tais raciocínios não funcionam, sempre ainda fica a dúvida de saber onde está o erro. Os alunos questionam: “E daí? Ainda sim é uma justificativa”. Isso acontece porque nós professores pressupomos que os alunos conseguem reconhecer diretamente que a circularidade argumentativa é um erro - por isso, nos contentamos com exemplos. Mas nem nós professores conseguimos reconhecer diretamente. Para reconhecer a circularidade argumentativa, precisamos dos conceitos de cogência e de justificação última.

A falácia da circularidade acontece quando procuramos justificar uma ideia com outra de mesma força cognitiva. Por exemplo, a proposição “Todos os acontecimentos naturais são regulares” possui a mesma força cognitiva que a proposição “Observamos que os acontecimentos naturais são regulares. Veja a formulação de um argumento envolvendo estas ideias:

 Observamos que os acontecimentos naturais são regulares.

 Logo, todos acontecimentos naturais são regulares.

O que justifica a ideia “Os acontecimentos naturais são regulares” não pode ser a ideia “Observamos que os acontecimentos naturais são regulares”. Isso decorre do fato de que a observação que os acontecimentos naturais são regulares não garante que os acontecimentos são regulares. Pode acontecer de nossa observação ser falha. Podemos falhar, por exemplo, em não constatar que a regularidade vale para alguns acontecimentos naturais e não vale para outros. Nesse caso, não se segue que todos os acontecimentos naturais são regulares. Só alguns são regulares. Aí, não podemos nos convencer da verdade da ideia que usamos para justificar, isto é, da verdade da premissa. Tal fato envolve os dois conceitos já mencionados: cogência e justificação última.

Em raciocínios cogentes, pretendemos justificar a conclusão com base nas premissas. Isso significa que as premissas devem ser mais confiáveis ou mais fortes do que a conclusão, já que é a partir das premissas que procuro garantir a verdade da conclusão. Isso acontecendo, o argumento é cogente. Se a premissa não for mais confiável do que a conclusão, não conseguimos garantir por meio do argumento a verdade da conclusão. No raciocínio formulado acima, a ideia expressa na premissa possui a mesma força cognitiva da ideia expressa na conclusão. Logo, não consegue-se garantir a verdade da conclusão através da premissa. As duas ideias precisam igualmente de uma justificação para acreditar na verdade delas.

No fim das contas, a circularidade é uma falácia porque a premissa não é uma justificativa última, ainda permanece a necessidade de mais uma justificação. No exemplo que estou usando, ainda permanece a dúvida de saber o que justifica a ideia de que os acontecimentos naturais são regulares. Isso quer dizer que a premissa nem sequer cumpre sua função de justificar* a conclusão. Portanto, o argumento é falacioso. Parece haver uma justificativa* para a conclusão, mas não há.

*Comentando sobre este texto no Facebook, Desidério Murcho me lembrou de um ponto muito importante para este assunto. É o da distinção entre justificação e justificação adequada. Como disse ele, “Uma justificação má é ainda uma justificação”. No entanto, não é uma justificação adequada. Os argumentos circulares possuem justificação mas não justificação adequada. Então, aproveito para corrigir o final do texto: isso quer dizer que a premissa nem sequer cumpre a função de justificar adequadamente a conclusão. Portanto, o argumento é falacioso. Parece haver uma justificativa adequada para a conclusão, mas não há.




O que seria melhor?
Às vezes me pergunto se não seria melhor viver uma vida profissional confortável e acadêmica do que essa vida, por um lado, degradante e, por outro lado, desafiadora que vivo na escola pública. Ao ler artigos de alguns professores universitários brasileiros e de grandes nomes estrangeiros como Victor Goldschmidt e Gilles-Gaston Granger, vejo que não. Viver sem saber bem o que está pensando e dizendo, mesmo no maior conforto de Paris, seria uma frustração grave para mim. Uma frustração semelhante a de um engenheiro civil incapaz de construir um prédio minimamente estável. Prefiro viver como Sócrates.

Thiago Melo, professor de filosofia

A censura aos professores do ensino básico



Há um mantra no debate sobre o ensino básico brasileiro de que toda a sociedade deve participar dessa discussão. Clamam por todo tipo de opinião para superarmos os problemas da educação. Vou defender neste texto que esse tipo de ideia é o grande obstáculo para as soluções necessárias, pois acaba por eliminar do debate o principal autor: o professor da educação básica.

A variedade de instituições, órgãos e profissionais que participam do debate para a melhoria da educação brasileira é única no mundo. Participam o Banco Mundial, Unicef, ONGs, empresas, empreendedores, pastores, padres, socialites, banqueiros, professores universitários etc. Muita gente querendo dar seu pitaco. É neste “grande debate” que o professor escolar perde a vez, já que ele é muito desvalorizado por toda a sociedade, não só pelos políticos. Essa desvalorização pode ser vista na ausência dos professores secundaristas na mídia. Peço ao leitor para tentar lembrar ou pesquisar algum colunista de jornal ou revista de grande circulação que seja professor de escolar. Eu não conheço. Alguém lembra se algum professor da educação básica já ocupou o centro do programa Roda Viva, da TV Cultura? Nunca vi sequer participarem da bancada. Em reportagens sobre educação, dificilmente um professor do ensino básica é ouvido para dar opinião e apresentar propostas. Na imensa maioria das vezes, só é ouvido para relatar violências e coisas do tipo. A apresentação de propostas só é concedida para membros de ONGs, celebridades, professores universitários, políticos, psicólogos e os ditos especialistas.

O resultado dessa espécie de censura é o desconhecimento das demandas necessárias para resolver os problemas da educação básica. Isso porque quem dita as ações educacionais não sabe nada ou quase nada do que acontece na escola e em suas salas de aula. Desconhecem, por exemplo, que a escola pública brasileira é administrada para diminuir ao máximo o trabalho de pedagogos, diretores e funcionários de secretarias de educação. E a melhor maneira de se fazer isso é jogar todas as responsabilidades para o professor. Se o aluno tira nota ruim, é mais fácil culpar o professor do que conversar com o aluno e seus pais. Imagine se os pedagogos tivessem de conversar com mais de 50% dos alunos e pais sobre notas ruins. Haja reuniões! É bem mais fácil o professor dar provas mais fáceis. Se o aluno comete indisciplinas em sala de aula, é mais fácil pressionar o professor para suportar o comportamento do aluno do que tentar discipliná-lo. Pois o diretor vai ter de marcar reunião com os pais do aluno, que podem ser muito desrespeitosos. Isso dá trabalho. Como dá trabalho também suspender alunos com indisciplinas graves. Dizem que a secretaria pode “pegar no pé”. Em todas essas situações, o ensino é deixado de lado para dar lugar a outros interesses. Aí, podem contratar os melhores professores do mundo que não darão jeito. Podem comprar tablets, diminuir as disciplinas, implantar métodos de ensino revolucionários que não vai adiantar.

É preciso que o professor escolar seja o condutor maior do ensino básico brasileiro. O autor da aula é o professor. Ele é quem mais tem contato com o aluno no tratamento do conteúdo apresentado. Assim, é ele que tem mais propriedade para apontar as dificuldades de aprendizado dos alunos e propor as medidas adequadas para garantir o aprendizado do conteúdo. Mas o que se vê são outros profissionais e cidadãos ditando as ações educacionais. E, na maior parte das vezes, falam sobre o que não sabem (conteúdo) e sobre o que não veem (atividades dos alunos).

Antes de mais nada, é preciso permitir que o professor exija que o estudante estude. Se o professor não pode cobrar leitura, exercícios e disciplina, não consegue expor conteúdos e orientar os alunos. Nessa situação, o professor não exerce sua função e o estudante não exerce a dele.

Vejam que nem sua função básica a educação brasileira consegue executar. A sociedade quer colocar banco de couro em carro sem chassi. E termina por conseguir duas coisas: permitir todo tipo de maus-tratos para com o professor dentro da escola, com professores sendo sistematicamente desrespeitados e agredidos verbalmente pelos alunos, como também cotidianamente assediados moralmente por pedagogos e diretores; e deformar o intelecto e a moral dos alunos. Os alunos saem da escola analfabetos funcionais e marginais das regras e leis da sociedade.

Thiago Melo
in O básico da realidade



Texto originalmente publicado no jornal Gazeta do Povo: http://www.gazetadopovo.com.br/opiniao/a-censura-aos-professores-da-educacao-basica-ejbhpsmsu2c930nf2v7g8n5fy