domingo, 2 de setembro de 2018


 “Para dores de amor, nada melhor do que leite de magnésia (…). Na maior parte das vezes, os chamados males de amor, etcétera, são distúrbios digestivos, feijões duros que não digerem, peixe estragado, entupimento. Um bom purgante fulmina a loucura do amor.”

Mario Vargas Llosa, “Tia Júlia e o escrevinhador”.

COM O SUPREMO, COM TUDO




"Permitindo a terceirização irrestrita, o Supremo deu seu aval a mais uma etapa da desproteção total da classe trabalhadora no Brasil - um projeto central do golpe.

Quatro dos sete ministros que viabilizaram este ataque brutal aos direitos do trabalho chegaram à corte por nomeação de governos de um partido dos trabalhadores. É só um lembrete de que a política de menor atrito com os interesses dominantes pode evitar problemas no curso prazo, mas os multiplica depois."

Luis Felipe Miguel


"Luís Roberto Barroso merece ser estudado. Não por ele próprio, mas como uma trajetória emblemática daquilo que leva ao sucesso no campo jurídico-político brasileiro atual.

Por um lado, ele é uma demonstração quase caricata dos atributos do nosso renitente bacharelismo. A vaidade gigantesca e indisfarçável. O discurso pomposo, arrogante e vazio de ideias. O gosto pelas palavras altissonantes. Até mesmo o jeito de torcer a boca para pronunciar nomes estrangeiros.

Barroso também é ilustração perfeita da tese, no entanto controversa, do caráter fake de nossos valores políticos dominantes. Ostenta a toga de herói do liberalismo, mas não esconde seu desprezo pelos direitos e horror a qualquer forma de igualdade. Posa de iluminista, mas é guardião das trevas. Paladino intransigente da moral, defende com unhas e dentes benefícios imorais para o seu grupo e o vale-tudo contra os adversários.

Visto por outro ângulo, ele pode ilustrar a ideia de 'neoliberalismo progressista', colocada em circulação por Nancy Fraser. Há uma adesão a teses progressistas no âmbito da vida privada, que lhe permite manter uma fachada de homem de seu tempo, mas que se combina ao reforço de uma estrutura social extremamente excludente e autoritária.

O mais interessante, porém, é pensar por que, com tantos candidatos ao posto na política eleitoral (está aí o Álvaro Dias que não me deixa mentir), o espírito do lacerdismo decidiu reencarnar em um político togado. Desconfio que isso nos diz bastante coisa sobre a dinâmica recente da política brasileira."

Luis Felipe Miguel

De onde saiu o Barroso ?


Genealogia política e estatal de Luís Roberto Barroso, Ministro do STF. Barroso, natural de Vassouras, Rio de Janeiro, é filho de Roberto Bernardes Barroso e de Judith Luna Soriano. A mãe era advogada e de família de imigrantes de origem sefardita de Salônica. O pai, Roberto Bernardes Barroso, pertencia às principais oligarquias de Vassouras como advogado pela Faculdade Nacional de Direito, vereador e presidente da Câmara Municipal de Vassouras pela UDN. Depois entrou no Ministério Público e foi procurador de justiça. Como mostramos no nosso artigo sobre a Prosopografia dos operadores da Lava Jato, há forte correlação entre conservadorismo e hereditariedade no sistema judicial, mentalidades retrógradas e quase uma casta hereditária jurídica, em vários casos. A esposa de Luís Roberto Barroso é Tereza Cristina Van Brussel Barroso, com notícias de offshore em vários blogs. O avô paterno foi Jorge Coulomb Barroso, também prefeito de Vassouras, filho do Coronel João Antonio Teixeira Barroso, grande fazendeiro e de Francisca Adelia Coulomb. A avó paterna de Luís Roberto Barroso, Haydea Bernardes Barroso, era filha do Coronel Manoel Bernardes Junior - Coletor Federal em Vassouras e residente em Paty do Alferes, um dos principais chefes políticos da região no tempo do coronelismo, com várias denúncias de fraudes e irregularidades eleitorais na Coleção de Anais da Câmara dos Deputados, 16/10/1906 (419) . Estas famílias formam as principais oligarquias políticas familiares da região do período Imperial até hoje. O atual prefeito de Paty do Alferes é o primo Eurico Pinheiro Bernardes Neto, filho do atual deputado federal Eurico Pinheiro Bernardes Junior, que também foi vereador, dirigente da Ceasa e prefeito de Paty do Alferes e de Vassouras. A família do Coronel da Guarda Nacional Manoel Francisco Bernardes, sua esposa Joaquina Maria de Mello Bernardes e familiares possuíram várias grandes fazendas, como a Retiro, a Quindins e representavam muito bem o passado senhorial arcaico das casas grandes, das grandes propriedades das famílias latifundiárias e escravocratas daquela região cafeeira. Vassouras teve quatro ministros do STF, inclusive Sebastião Lacerda, que também foi Ministro de Estado, deputado, pai de Maurício de Lacerda, prefeito de Vassouras e avô de Carlos Lacerda, o Corvo, todos símbolos do antigo prestígio latifundiário, escravista e da mentalidade conservadora, autoritária e golpista de muitos políticos com genealogia naquela região. O mesmo esquema familiar de reprodução com outras formas de nepotismo acontece no Brasil inteiro. Do quilombo de Manuel Congo e das antigas senzalas dos excluídos, em Paty do Alferes e Vassouras, a desigualdade social no Centro-Sul do Estado do Rio de Janeiro a tornou uma das regiões mais pobres e menos dinâmicas, depois de ter sido uma das regiões mais ricas do Brasil escravista do café. A responsabilidade do atraso também é de suas elites políticas e jurídicas, elites provenientes da classe dominante tradicional, socialmente originária do século XIX e de muito antes. A genealogia do ministro do STF Barroso mostra bem quais grupos e classes sociais históricas, quais interesses dominantes, deram o golpe de 2016-2018, para perseguirem modernas lideranças populares e atacarem a democracia com a sua nefasta ditadura judicial do "Antigo Regime", o poder arbitrário, discricionário e pessoal - Poderes sempre associados às velhas oligarquias políticas familiares e suas práticas bacharelescas, arcaicas, patrimonialistas, autoritárias, persecutórias e golpistas.
RCO



Helena de Carlos




O crepitar da resina no bosque dos abetos. O arquejo do milho abafado no porão do navio. O murmúrio dos anfíbios na época da posta. Bagas e mel, açafrão brilhante e pérolas. A colisão estrepitosa das galáxias. O assovio do trem atravessando os laranjais. O adejo do ventilador na casa de Wilsnackerstraβe. O rumor do tempo na caixa do relógio. O derramar do vinho no cálice consagrado: a tigela cheia de espuma, o espelho e a navalha. Os guinchos dos coelhos nas gaiolas do jardim.

Os mergulhos dos pelicanos nas águas doces. A viagem calada do pólen pelo mar do ar. O chamariz agudo do passarinheiro. O ranger de umas pás despedaçadas. O latido do cão quando vislumbra a presa. A viração que infla as velas. O ricochete e o eco das contas ao se espalhar pelo chão. Cartografias do som, matéria de harmonias ocultas, musgo do fonema, câmara do silêncio.

Joan Navarro, “Magrana | Romã”. Tradução para o português: Veronika Paulics. (No prelo, Selo Demônio Negro).

http://zunai.com.br/…/1771547…/torre-de-babel-4-joan-navarro

(DESERTO)




Cada qual com sua voz

ou com seu deserto.

A areia do tempo pede

mais oásis. O regresso

da realidade como miragem

é outra prova especular.

Adolfo Montejo Navas



Olhando o início do horário eleitoral, se não fosse eleição, mas uma novela mexicana, o enredo bem que poderia girar em torno de irmãos gêmeos que foram separados na maternidade: NOVO e PSTU.
O último foi criado pela família do operário de chão de fábrica, enquanto o primeiro, pela família dos donos da empresa, com investimentos em diferentes setores da economia.
Tirando a origem social, os estímulos psicológicos e comportamentos de ambos remetem a uma identidade quase umbilical entre eles.
São contra tudo o que está aí.
Não acreditam na política e querem mudar o mundo todo.
Se não fosse eleição, no dia 7 de outubro os dois descobririam que são irmãos de sangue, depois de passar a campanha toda usando o discurso de que estão cansados, são eternamente explorados - um pelo Estado que cobra impostos escorchantes, outro pela burguesia, que é escorchante por imposição.
Também está presente nos discursos deles, o fato de sentirem-se traídos pelos integrantes do sistema político tradicional.
Até aqui, a grande diferença é a cor da embalagem do discurso e o ponto de partida da revolução que eles defendem. Um crê na revolução de cima para baixo e outro na de baixo para cima para acabar com tudo o que está aí.
Já imaginou a audiência que daria uma novela dessas, bicho?
Só falta o nome.

Emerson Urizzi Cervi

O apoio de jovens à Bolsonaro


Walmir Braga Júnior_________________O apoio de tantos jovens a Bolsonaro é um fenômeno sinistro e misterioso. Penso que é uma hipótese interessante considerar que parte significativa desse jovem eleitorado é formada por quem vivenciou e vivencia mais intimamente os deslocamentos na balança do poder que ocorreram dos anos 2000 pra cá. Flagrados desse ângulo, os jovens eleitores de Bolsonaro coincidem amplamente com a chamada “geração canguru”. Não por acaso esta é formada majoritariamente por homens (60,2%), que tendem a ser mais escolarizados do que os da mesma faixa etária que moram sozinhos, e vivem sobretudo no sudeste (dados da Síntese dos Indicadores Sociais – 2016 – do IBGE). Jovens pessoas que pertencem a certas frações da classe média, e cresceram testemunhando a mudança nas relações de força entre gerações e também na sua mesma geração. Entre gerações porque, devido à inflação dos diplomas, tiveram que continuar morando com a família. Isso frustrou desejos gestados desde a infância e os fez experimentar o aumento do poder dos pais sobre eles, sendo obrigados a prolongar os estudos não por escolha, mas sim necessidade. Na mesma geração porque também foram os mais atingidos pela quebra do quase monopólio que a classe média exercia sobre o capital cultural, sendo os mais envolvidos – e sempre os mais vulneráveis – nas disputas com um outro jovem segmento. Embora pertença à mesma geração, esse segundo é seu diametral oposto, forma uma base importante de apoio as esquerdas, e se constituiu no entrelugar formado entre a classe trabalhadora e a classe média. Uma jovem geração marcada pela mescla entre as duas classes, acumulando o capital cultural recentemente acessado e um dos poucos capitais que a socialização na classe trabalhadora oportuniza: a capacidade de se esforçar árdua e obstinadamente (o que nas disputas contra todo um segmento criado a leite com pera tem lá suas vantagens). São esses recursos contra os diplomas e as redes de parentesco e amizade (ora mais amplas e diversificadas, ora menos) do primeiro segmento que, por sua vez, tem suas frustrações e angústias canalizadas no ódio orquestrado pela extrema direita contra o PT, os direitos humanos, a soberania popular, a cidadania, a constituição cidadã e a justiça social. (Ódio também alimentado por dealers, mídia e judiciário, por tudo o que fizeram assumidamente ou não nos últimos anos, e pela falta de visão de longo prazo e responsabilidade desses atores). A eleição do presidente é um episódio e não o fim de um conflito significativo para se entender o Brasil atual.

Paulo Cintra____________ Acho também Walmir Braga Júnior, que está geração ascendeu a uma classe social sem uma consciência da luta de classes, da real emancipação, apenas de olho nos bens de consumo. Além do fascínio e poder que exerce o porte de armas para os adolescentes das classes populares... apresentado pelo Bolsonaro.