quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Cadê

Nossa !Que escuro!
Cadê a luz ?
Dedo apagou.
Cadê o dedo ?
Entrou no nariz.
Cadê o nariz?
Dando um espirro.
Cadê o espirro?
Ficou no lenço.
Cadê o lenço?
Dentro do bolso.
Cadê o bolso?

José Paulo Paes
in: Lê com crê. Editora Ática. São Paulo. 2008

Faca no peito

Que região é aquela, de areia e mar
-arco-íris góticos-
tão próxima do céu, sendo ela mesma inferno?
Estavam lá meu pai, minha mãe, já mortos.
Um se queixava e sofria,
outro chorava, consolando-me.
Minha irmã, a pedrada e ódios,
matara nossa irmã de criação.
Uma coisa horrorosa aconteceu,
disse à minha filha moça.
Belas mulheres mergulhavam de uma ilha rochosa
furada de cavernas.
outras masturbavam-se
ouvindo um rapaz charmoso discursar.
todos se lembravam: de algum lugar
o vento trouxera mesmo um cheiro de cadáver.
Mas quem ousaria supor o acontecido?
O vento do mar dobrava uns postes com fios,
gabirobeiras em flor, como noivas,
eram pura alegria,
luz aquecida contra o sonho cru.
Eu dormira com o peito perfurado de culpa
porque negara aos padres a boa fala de sempre.
Apodara-os viciosos, egoístas , aproveitadores do povo.
No sonho, um deles quis dar sua bênção, inconseguiu,
ninguém se ajoelhou, ocupado em frivolidades.
Quem sou eu?
A morta, a assassina, o prevaricador mentiroso ?
Só sei que eram ameaçadoras
claridades, b~ençãos, cavernas.
Meu coração suporta grandes pesos.
Nem em sonhos repousa.

Adélia Prado
in: Terra de Santa Cruz.Rio de Janeiro, 2006, p 62.

O artista incofessável

Fazer o que seja é inútil.
Não fazer nada é inútil.
Mas entre fazer  e não fazer
mas vale o inútil do fazer.
Mas não fazer para esquecer
que é inútil : nunca o esquecer
Mas fazendo o inútil sabendo
que é inútil  e que seu sentido
não será sequer pressentido,
fazer:porque ele é mais difícil
do que não fazer, e difícil-
mente se poderá dizer
com mais desdém, ou então dizer
mas direto ao leitor Ninguém
que o feito o foi para ninguém.

João Cabral de Mello Neto
in: O Artista inconfessável, Rio de Janeiro, Objetiva,2007.