sábado, 24 de outubro de 2009

Miniatura de Jamshid, rei mítico do antigo Irã (séc. XVI)


© Museu de Arte Contemporânea de Teerã.



Os sete volumes da “História das Civilizações da Ásia Central” abrangem uma região imensa que vai do Mar Cáspio até as fronteiras com a China. Ao elaborar este projeto, o Comitê Científico Internacional dedicou-se em primeiro lugar à delimitação do que, aos olhos da topografia e do habitat, era impossível de circunscrever como região bem definida da Antiguidade.


Do ponto de vista da geografia e da vegetação, a grande planície ou estepe eurasiana, que se estende da Hungria até os montes Tian Shan e Altai, pode ter seu espaço delimitado graças a critérios hidrográficos – os territórios compreendidos entre montes do Ural e a Manchúria Ocidental têm sistemas fluviais e lagos dotados de exíguas bacias e sem saída para os Oceanos Ártico, Pacífico e Índico, que os circundam. A região delimitada deste modo serviu de núcleo central para o Comitê, que, na tentativa de levar em consideração os fatores culturais, comerciais e econômicos, acrescentou-lhe no oeste, sul e leste os territórios das antigas civilizações que, no decorrer da História, estabeleceram com ela relações de proximidade.

O cego olhar dos griôs expressa o poder das palavras africanas.

De viva voz: as palavras dos griôs


Antes de declamar, o griô situa-se no tempo para fornecer o fundamento mais fidedigno à sua palavra. Orador e genealogista, ele relata não só os acontecimentos, mas também as relações entre as pessoas. Convidado a participar de todas as cerimônias, exerce a função de moderador e pode efetuar um “polimento” de sua narrativa para evitar que determinadas afirmações provoquem discórdias. Assim, ele começa por desculpar-se de suas omissões, por vezes voluntárias. Tendo a missão de facilitar a paz social, este “mestre da palavra” também desempenha, portanto, uma função ética. Na África, a palavra de fato tem um valor inestimável, pois, ao ser pronunciada, age como um tiro: é impossível recuperá-la. Por isso, é inconcebível falar à toa. “Deve-se falar apenas quando for necessário e guardar silêncio enquanto não for solicitada sua opinião”, diz um provérbio. Este, aliás, é o sentido de "palavrar".

M. C.

Registro de histórias da tradição oral, Senegal, 1969.

Antigo mapa da Guiné.

A palavra pode ser uma fonte histórica? Quem responde é o historiador guineano Djibril Tamsir Niane, ao mostrar que os arquivos escritos não são as únicas formas de se fundamentar a História. “A tradição oral é um verdadeiro museu vivo que reveste o esqueleto do passado com carne e cores”, dizia o burquinense Joseph Ki-Zerbo.




Tete la asom ene Kakyere: "Coisas do passado ecoam no ouvido". Provérbio akan.
Djibril Tamsir Niane é especialista em Império do Mali. Sua obra principal “Sundiata, ou a epopéia mandinga” (1960) é o resultado de sua coleta de narrativas tradicionais junto a Mamadu Kuyaté e outros griôs (tradicionais contadores de história). O guineano é diretor de Pesquisa do 4º volume da “História Geral da África: a África dos séculos XII a XVI”. Este período, crucial para a história do continente, corresponde ao desenvolvimento dos grandes impérios e dinastias: Mali, Songhay e Almôades, entre outros.

Depoimento registrado por Monique Couratier (UNESCO), coordenadora de “História dos Povos: o passado em revisão”.

“As palavras voam, os escritos permanecem”, diz-se no Ocidente. O senhor pode explicar como a tradição oral tem legitimidade para exprimir a história das culturas africanas?

Essa citação, procedente dos romanos, contribuiu para forjar a opinião segundo a qual uma fonte oral não merece crédito. Ora, os povos da oralidade são portadores de uma cultura cuja fecundidade é semelhante à dos povos da escrita. Em vez de transmitir seja lá o que for e de qualquer maneira, a tradição oral é uma palavra organizada, elaborada, estruturada, um imenso acervo de conhecimentos adquiridos pela coletividade, segundo cânones bem determinados. Tais conhecimentos são, portanto, reproduzidos com uma metodologia rigorosa.
Existem, também, especialistas da palavra cujo papel consiste em conservar e transmitir os eventos do passado: trata-se dos griôs (ver destaque). Na África Ocidental, encontramos aldeias inteiras de griôs, como Keyla, no Mali, com cerca de 500 habitantes. São como escolas da palavra, onde a história de suas linhagens são ensinada às crianças, desde os 7 anos, seguindo uma pedagogia baseada na memorização. Esta faculdade é reativada pelo ritmo do canto ou dos instrumentos de música, como o tamani, o koni e o khalam. As palavras do griô são “hieróglifos falados”, dizia meu amigo burquinense Joseph Ki-Zerbo.

Qual é o papel do griô na sociedade atual?


Na África de hoje em dia, o modelo ocidental de ensino facilita a passagem da cultura oral para a cultura escrita. Temos de reconhecer que as escolas de tradição oral perdem sua força em matéria de transmissão. Todavia, no seio da comunidade, o griô continua desempenhando seu papel conforme a sua casta socioprofissional: assim, ele é o oficiante em todas as cerimônias.

Será possível chamá-lo de historiador?

Graças aos conhecimentos legados por seus antepassados, o griô dispõe de um corpus que constitui a narrativa de base. Segundo as circunstâncias, porém, ele pode limitar sua transmissão a um episódio ou a um resumo. Pode, também, acrescentar conhecimentos adquiridos pessoalmente ao falar com as pessoas, durante suas viagens. Essas supressões e aditamentos não alteram de modo algum a validade histórica da narrativa transmitida de geração em geração por serem claramente indicados em seu relato. À medida que procede à narração, o griô vai ponderando seus elementos. Pode-se dizer que ele assume o papel de historiador se admitirmos que a história é sempre um reordenamento dos fatos proposto pelo historiador.

As tradições orais não estarão ameaçadas pelas interferências decorrentes das transcrições e traduções?

A coleta é feita na língua do griô com a ajuda de um gravador antes de ser retranscrita na mesma língua local. Em seguida, a narrativa é traduzida para uma língua ocidental em um exercício sujeito a restrições semelhantes a qualquer outra tradução! O historiador dispõe sempre da possibilidade de reescutar as gravações originais e, em particular, de registrar as “intermitências” do discurso e os “parênteses” decididos pelo griô.

Durante a preparação da História Geral da África, o senhor chegou a utilizar essas fontes orais?
Em viva voz: as palavras dos griôs

Antes de começar a contar uma história, o griô se situa no tempo para fundamentar suas palavras. Mais
Com certeza. Além das narrativas históricas, é verdade que a tradição oral refere-se à cosmogonia, às lendas… Para levá-las em consideração, o historiador deve comparar suas fontes e confirmar as coincidências. No entanto, convém ter presente que tal método é aplicado, igualmente, com as fontes escritas.

A epopéia de Sundiata é um exemplo. Trata-se da mais antiga das epopéias africanas que relata a formação do Grande Império do Mali por meio do itinerário de seu fundador, Sundiata Keita, que viveu no século XIII e unificou o Sahel, desde o Níger até o Senegal. Sua história foi transmitida até nossos dias graças à tradição oral, mas os fatos históricos são confirmados, também, por arquivos escritos.

A fim de completar alguns detalhes inexistentes nas versões orais, procedemos a comparações com os documentos do século XIV, legados pelo viajante e geógrafo Ibn Batuta (natural de Tanger, 1304) e pelo historiador Ibn Khaldun (natural de Tunis, 1332). Esta operação permitiu-nos datar com precisão a batalha de Kirina (1235), na qual Sundiata venceu seu inimigo, o rei feiticeiro Sumaoro.

Além disso, colocamos em evidência os aspectos comuns às diferentes variantes orais dessa epopéia, oriundas, em particular, de Keyla no Mali, de Fudama na Guiné e de Bangul na Gâmbia. É interessante observar que ela foi perpetuada em diferentes línguas; tal fato acaba tornando o trabalho do historiador ainda mais apaixonante.

A África é conhecida por sua extraordinária diversidade linguística: pelo menos seis das 16 famílias linguísticas catalogadas no mundo seriam africanas. É possível falar de uma identidade cultural na escala do continente?

A África sempre foi um exemplo de diversidade cultural. Voltemos ao império de Sundiata. Ele era composto por múltiplas etnias, cada uma dotada da respectiva cultura, língua e tradição. Seu poder não era, de modo algum, do tipo jacobino, já que havia sido adotado um modelo de descentralização que permitia o desabrochamento da diversidade. E a diversidade linguística não constituía um freio, se levarmos em consideração a liberdade de circulação desses grandes médicos tradicionais que percorriam cada uma das aldeias entre Dakar (Senegal) e Conakry (Guiné).

Convém lembrar que, em toda a África Ocidental, as pessoas podiam circular livremente. Em 1236, Sundiata enunciou o que se designa por “Carta de Kurukan Fuga”, uma espécie de Constituição de seu Estado; além disso, codificou um documento equivalente a uma espécie de carteira de identidade, cuja validade era regional e não nacional.

A diversidade das línguas não implica, portanto, forçosamente a variabilidade dos valores.

Aula de alfabetização para jovens adultos na língua local de Togo (1952).

Costa do Cabo (Ghana), ponto de partida do tráfico de escravos.

Cabeça de estátua de Taharqa (Karnak), 25ª dinastia (cerca de 670 a.C.).

Após o período de sua independência, na década de 1960, os países africanos assumiram a tarefa de atenuar a ignorância reinante sobre o passado de seu continente e de superar os preconceitos discriminatórios. Pela primeira vez, os africanos tinham a possibilidade de escrever a história de seu continente.




Os Ajami, centenas de milhares de arquivos escritos em línguas africanas, ainda são negligenciados hoje.
A maior parte dos preconceitos raciais sobre os africanos tem sua origem na crença oriunda dos discursos que justificavam o tráfico escravagista e a colonização e argumentavam que a África é um continente sem história nem civilização. Exemplo da persistência de tal postura é a seguinte declaração de Hugh Trevor-Roper, eminente professor de História Moderna em Oxford, na década de 1960: “Atualmente, os estudantes pretendem que lhes seja ensinada a história da África Negra. Talvez no futuro eles possam aprender um pouco de história africana, mas por enquanto o que há é a história dos europeus na África. O resto permanece na obscuridade… e o que resta obscuro não é um tema de história”.

Assim, é compreensível, por um lado, a razão pela qual os intelectuais africanos e os afrodescendentes implicados desde o início do século XX na liberação dos povos negros empreendem um combate em favor do que alguns chamam de “descontaminação das mentes”. Por outro, o motivo da demanda apresentada à UNESCO pelos Estados africanos, imediatamente depois de terem conseguido sua independência, na década de 1960, para ajudá-los a enfrentar tal desafio.

Ao decidir o lançamento, desde 1964, do projeto de uma História Geral da África, a UNESCO tinha o objetivo de atenuar, antes de mais nada, a ignorância generalizada sobre o passado deste continente e de superar os preconceitos discriminatórios. Para atingir essa finalidade, a melhor maneira consistia em entregar aos africanos a tarefa de reescrever sua história com as garantias científicas indispensáveis.

Para esse efeito, foi instalado um Comitê Científico Internacional composto por 39 experts, representando diferentes disciplinas das ciências sociais e humanas: dois terços de seus membros eram africanos a fim de facilitar uma perspectiva genuinamente africana que, nem por isso, deixaria de se confrontar com os pontos de vista dos especialistas não-africanos.

Cheik Anta Diop (Senegal), Hampaté Ba (Mali), Joseph Ki-Zerbo (Burkina Faso), Ali Mazrui (Quênia) e Théophile Obenga (República do Congo), para citar apenas os mais conhecidos, empreenderam com seus pares oriundos de outras regiões do mundo, então, um fecundo diálogo intelectual que irá modificar o discurso sobre a África e os povos negros.

Os debates são animados e até mesmo agitados, especialmente quando se trata de recorrer, com finalidade historiográfica, às tradições orais africanas ou aos Ajami – arquivos em línguas africanas transcritos no alfabeto árabe e que ainda são desconhecidos pelo grande público (ver destaque). As discussões mais acirradas, como a que tratava da origem negro-africana da civilização do Antigo Egito, fixada por Théophile Obenga na época da 18ª dinastia (1550-1292 a.C.) e por Cheikh Anta Diop no início do Neolítico (9000 a.C.), foram publicadas no 2º volume.

Abordagem global


Ao renunciar à ambição de uma história exaustiva, o Comitê Científico optou por obras de síntese que permitam expor o estado atual dos conhecimentos, assim como as principais tendências da pesquisa. Decidiu, igualmente, enfatizar a história das idéias e das civilizações, das sociedades e das instituições, além de privilegiar uma abordagem interdisciplinar que se sirva de todas as fontes disponíveis: por um lado, das tradições orais e dos Ajami; por outro, de diferentes disciplinas, como lingüística, musicologia, ciências físicas e naturais. Por último, o Comitê preferiu adotar uma perspectiva continental que considera a África como um conjunto, superando a dicotomia habitual entre a África do Norte e a África Subsaariana.

Publicados entre 1980 e 1999, os oito volumes da coleção percorrem o continente, conhecido como berço da Humanidade, desde a aparição dos hominídeos, há 3 milhões de anos, ao “horizonte de 2000”, passando pelo Antigo Egito, pela dinastia dos fatímidas, pela civilização swahili, pelos reinos do Chifre da África, pelo tráfico escravagista e pela independência dos diferentes países, tudo em cerca de 6.500 páginas.

A obra refuta algumas idéias preconcebidas, como a que defende o isolamento do continente, ao demonstrar que o Saara, longe de constituir uma barreira, sempre representou um espaço de intercâmbios. Mostra, também, que a África manteve contatos permanentes com a Ásia, o Oriente Médio, a Europa e as Américas.

Bem antes do projeto “A Rota do Escravo”, lançado pela UNESCO em 1994, a "História Geral da África" já havia contribuído para quebrar o silêncio sobre o tráfico escravagista e seu impacto sobre as dificuldades conhecidas na África desde então, dedicando-lhe um volume específico na sua coleção anexa de “Estudos e Documentos”.

Mais de vinte publicações complementares, em particular sobre assuntos controversos, como as fontes da História, o povoamento do Antigo Egito e a descolonização da África, fazem parte dessa construção monumental que mobilizou mais de 230 especialistas.

Desde a publicação dos primeiros volumes, a "História Geral da África" ganhou uma repercussão fenomenal nos meios científicos e universitários, dentro e fora do continente africano. Editada integralmente em inglês, árabe e francês, e parcialmente em chinês, coreano, espanhol, italiano, japonês e português, a publicação é considerada uma importante contribuição para o conhecimento da história e da historiografia africanas.

Declínio pedagógico


A obra, no entanto, permanece inacessível ao público em geral e continua insuficientemente utilizada nas escolas africanas, embora uma versão resumida tenha sido publicada em inglês, francês e em três línguas africanas (haussa, kiswahili e peul).

Os compêndios de história publicados na África que se inspiraram nesta coleção ainda são raros. Além disso, o ensino da história africana continua sendo marcado pela perspectiva eurocêntrica. Observa-se mesmo uma tendência de se apresentar, neles, uma visão nacionalista da história, conferindo importância desproporcionada à divisão colonial da África.

Eis o motivo por que, mais uma vez, foi apresentada à UNESCO a solicitação de uma melhor utilização pedagógica desta coleção. Um projeto dotado de US$ 2 milhões foi lançado em 2008 graças a um financiamento do governo líbio. “Conhecer seu passado para preparar melhor seu futuro” é o lema que orienta a elaboração das ferramentas pedagógicas que deverão estar disponíveis no final do próximo ano.

Com que objetivo? Lembrar que, apesar de sua diversidade, a África compartilha uma história e valores comuns a partir dos quais a União Africana teria a possibilidade de construir os Estados Unidos da África.

Seu alvo? A população mais jovem – alunos do primário e do secundário –, que terá à disposição compêndios pedagógicos comuns a toda a África, conciliando temas agregadores como identidade cultural ou cidadania pan-africana, e especificidades nacionais. Os menos jovens serão igualmente beneficiados com uma melhor difusão dos volumes da coleção principal e da versão resumida nos estabelecimentos de ensino superior. Por último, os professores receberão guias, CD-Roms com finalidade didática e um atlas histórico, ferramentas que lhes permitem, por um lado, informar-se sobre os avanços da pesquisa histórica e, por outro, aprimorar o modo e o conteúdo de seu ensino. O público em geral também não foi esquecido e terá acesso a múltiplas informações no portal web da UNESCO.

Qual será o resultado pretendido? Contribuir para que as populações africanas recebam uma informação mais fidedigna sobre a história de seu continente e sobre o aporte de suas culturas para o progresso da humanidade, fornecendo-lhes elementos para enfrentarem, com maior pertinência, os novos desafios do mundo moderno. Eis uma nova tarefa cuja execução é tão difícil quanto o esforço despendido na redação da "História Geral da África".

Ali Moussa Iye, chefe da Seção do Diálogo Intercultural (UNESCO)

Antigo mapa das Antilhas.

Revolta bem-sucedida no navio negreiro Amstad, em 2 de julho de 1839.

Gravura de uma família de índios caribenhos

Graças à História Geral do Caribe, as populações espalhadas nesta região insular do mundo, mas unidas pela cultura, encontram-se pela primeira vez à frente do palco da história não como objetos, mas como sujeitos e atores de seu destino.




Como a aventura começou?
Em dezembro de 1981, o Diretor-Geral da UNESCO, Federico Mayor, convidou 20 pesquisadores caribenhos e europeus para uma reunião em Paris com o objetivo de constituir um grupo de trabalho para a produção de uma história do Caribe, de seus povos e de seu habitat, concebida a partir “de dentro”. Mais
Sondar o terreno histórico in situ e não observá-lo a partir das capitais e dos portos europeus: essa foi a abordagem até então inédita adotada pelo Comitê de Redação da "História Geral do Caribe", em 1983, em Kingston (Jamaica). A equipe de 18 pesquisadores – quase todos do Caribe, mas também vindos da África, dos EUA, da Europa e da Índia – deveria investigar o passado de populações disseminadas pelo Caribe, donas de usos e costumes semelhantes, para torná-las o tema de uma obra de história comum.

Esses povos e culturas até então excluídos ou mencionados de forma acessória nas narrativas históricas, mais como objetos do que sujeitos e atores de sua história, teriam a oportunidade de aparecer à frente do palco. Tratava-se de uma cartada extremamente arriscada.

Antes de mais nada, era necessário fixar os contornos da “região” caribenha. Os pesquisadores começaram, portanto, pelo mar que lhe dá o nome. Em seguida, detiveram-se nos territórios limítrofes e, finalmente, levaram em consideração o conjunto dos agrupamentos humanos que os haviam povoado no norte, sul, leste e oeste, desde a pré-história até nossos dias. Assim, esta História diz respeito tanto às ilhas quanto às regiões litorâneas da América do Sul – da Colômbia às Guianas – e da América Central, banhadas pelo Mar do Caribe. Todos esses territórios foram habitados por populações que compartilham um patrimônio cultural comum, além de experiências similares (às vezes, em épocas diferentes) nos campos da organização política, econômica ou social.

Ponte para uma história em comum



Ao adotar uma abordagem temática, o Comitê de Redação evitava reduzir o projeto a um conjunto de resumos das histórias singulares de cada ilha, já escritas pela elite crioula entre o século XVII e o início do século XX. Os trabalhos dos historiadores europeus e norte-americanos, por sua vez, ficaram limitados à questão dos conflitos e das relações comerciais entre as ilhas e o continente.

Com a ampliação da historiografia nas universidades européias e norte-americanas durante a primeira metade do século XX, assistiu-se à aparição de uma mudança de perspectiva sob a influência dos movimentos em favor da autonomia política. Esses dois fatores inicialmente geraram deslocamentos da ênfase nas histórias distintas e, em seguida, nas histórias que abordavam temas comuns como indústria açucareira, escravidão e suas leis, imigração européia e asiática.

Nas antigas universidades de Cuba e de Porto Rico e em estabelecimentos mais recentes, como a “University of the West Indies”, surgiram os departamentos de estudos caribenhos. Nos dois anos do primeiro ciclo universitário, foi empreendida uma formação sobre literatura, história, cultura e sociedade caribenhas sob o impulso dos pesquisadores, a partir do desejo de se entender melhor as atividades que haviam modelado a região e de isolar os elementos constitutivos da cultura caribenha. Em seguida, os professores envolvidos com esses estudos formaram a “Associação dos Historiadores do Caribe” e a “Associação dos Estudos Caribenhos”. Assim, desde a década de 1980, eram lançados os alicerces para uma história geral temática do Caribe.

Conteúdo da história



Os principais resultados dessas pesquisas refletem-se nos seis volumes que têm início com a apresentação das populações indígenas originárias do Orinoco, cuja presença nestas ilhas antecede em vários séculos a chegada dos europeus.

Situadas no espaço que se tornou a porta do Novo Mundo, elas foram dizimadas no norte pela escravidão, pela barbárie e pelas doenças. No leste, porém, sua habilidade tática fez prodígios para combater os europeus e para adaptar-se a eles, permitindo-lhes sobreviver durante um tempo mais longo, mas seu número não deixou de diminuir. Além disso, no século XVIII, aquelas que ainda ofereciam alguma resistência foram deportadas para Belize. Neste território, fundaram comunidades que ainda subsistem e, nos dias de hoje, transmitem o garifuna, sua língua de origem, aos kalinago das ilhas de Domínica e de São Vicente-Grenadinas.

No norte e no leste do Mar do Caribe, esses migrantes do centro e do sul do continente fundiram-se no decorrer de vários séculos para formar uma população caribenha com cultura caribenha. Eles sobreviveram durante um tempo suficiente para estabelecerem contato com os emigrantes europeus, dando origem a uma “Nova Sociedade”, título do segundo volume da coleção. Nele, é feita a análise dessa sociedade entre 1492 e 1650, do meio ambiente caribenho, dos efeitos da ocupação européia sobre as sociedades autóctones, dos fundamentos da migração forçada, da instalação e da redução à escravidão das populações africanas, além da natureza dos conflitos comerciais e territoriais que provocaram a divisão entre os europeus.

O terceiro volume aborda as “sociedades escravagistas” – em outras palavras, o custo humano da escravidão – e as diferentes formas de resistência observadas em toda essa região: por exemplo, a que resulta na independência do Haiti no começo do século XIX. Seus estudos evocam a interdição do tráfico britânico e, em seguida, os progressos da emancipação que resultou da combinação entre as revoltas dos escravos nas ilhas e a campanha obstinada dos humanitários e dos partidários do livre-comércio europeus.

Os textos do volume IV, que incide sobre “O longo século XIX”, adotam uma abordagem mais temática que cronológica. Os conflitos entre latifundiários e camponeses emancipados levaram os governos a incentivar e a financiar a migração originária da Ásia e, em particular, da Índia. No século XX, as restrições impostas aos contratados e as humilhações inerentes à condição de trabalhador das plantações exerceram uma grande influência sobre o desenvolvimento das sociedades crioulas. As relações sociais e econômicas nas sociedades outrora dependentes da escravidão e dos contratos ficaram marcadas pelos conflitos entre etnias e entre classes. Por sua resistência constante a tais regimes opressores, porém, essas sociedades conquistaram também a dignidade e a autoconfiança dos homens livres. A virada do século XX vive o surgimento dos movimentos autonomistas, além da progressão espetacular dos capitais e da influência norte-americanos em detrimento da supremacia anterior da Europa.

O volume V, dedicado ao Caribe no século XX, aborda a questão da descolonização e do neocolonialismo que transparece na predominância e na persistência das plantações, na onipresença do desemprego e na vulnerabilidade das economias caribenhas, sem deixar de analisar os efeitos da modernização e da comunicação de massa sobre as culturas locais.

O último volume, finalmente, sobre a metodologia e a historiografia do Caribe, volta a analisar as provas históricas e as técnicas utilizadas nesta História. Na conclusão, lembramos a historiografia dos diferentes territórios, a diversidade das escritas da história e fazemos um retorno às mudanças ocorridas na interpretação do passado.

Roy Augier, historiador de Santa Lucia, é o diretor-científico da "História Geral do Caribe"

Igreja barroca San Ignacio de Loyola. Quito, Equador.

Deuses astecas do Codex de Florença (século XVI).

Sacerdotisa do candomblé, religião síntese do catolicismo com o animismo africano.

Uma novidade no plano mundial: a “História Geral da América Latina” aborda com maior ênfase o passado das sociedades e não o passado das nações que ocupam a parte central e meridional do continente americano. O projeto, no entanto, enfrentou a carência de fontes históricas sobre populações indígenas e afro-americanas.




Com a publicação no início deste ano do último volume da "História Geral da América Latina", a UNESCO encerra um amplo canteiro de obras que oferece uma visão global do passado de uma imensa região que se estende por 22 milhões de quilômetros quadrados. A envergadura desta História Geral – são mais de 5.600 páginas – é excepcional tanto por seu tamanho quanto pelo número de autores que colaboraram no projeto. De acordo com Germán Carrera Damas, historiador venezuelano e presidente do Comitê de Redação, esta obra de referência marca uma inovação fundamental por constituir a primeira tentativa no sentido de escrever a História das Sociedades, e não das Nações, do Continente Latino-Americano.

“Esta obra encarna o esforço despendido pelas sociedades latino-americanas para se compreenderem a si mesmas”, declara Carrera Damas. É isso que a faz original. “Na realidade, já existiam histórias gerais da América Latina. Elas, no entanto, estavam muito mais focalizadas nos Estados e nas nacionalidades em vez de levarem em consideração as sociedades. Foram estas, precisamente, que constituíram o núcleo de nosso estudo”. Enquanto uma história factual nacional segue o fio cronológico do passado de determinado país, a obra publicada pela UNESCO adota uma abordagem temática que vai além das fronteiras nacionais: o capítulo dedicado às ditaduras latino-americanas depois de 1930, por exemplo, trata este tema em sua globalidade, sem se limitar a um único país ou somente a uma parte do continente.

Entre as inovações da obra, Damas destaca a que integra a história do Brasil em uma visão global da história do continente, sem deixar de dedicar capítulos específicos a esse país.

Ele ressalta outra particularidade desta coleção: o universalismo. “Há pouco tempo, a história do mundo continuava sendo escrita em países como França e Inglaterra. Hoje em dia, porém, esforçamo-nos por elaborar uma história realmente universal.” Os nove volumes desta história são o resultado da colaboração de 240 historiadores da América Latina, da Europa e dos EUA. Damas também recorda a criteriosa observação de um historiador chinês quando a “História do Desenvolvimento Científico e Cultural da Humanidade”, da UNESCO, era elaborada. “Vocês falam de ‘Renascença’, mas quando ela ocorreu na Itália, os chineses já tinham passado por quatro decadências e três renascenças!”

Para o historiador venezuelano, a UNESCO desempenhou um papel primordial na realização dessa operação científica de longo prazo. “Aliás, ela era a única organização capaz de empreender tal tarefa ao garantir a liberdade científica e o tempo, assim como os recursos humanos, científicos e materiais indispensáveis. Uma empresa privada não teria condições de realizar sequer o trabalho de redação, que seria extremamente onerosa mesmo para uma instituição universitária.”

Paradoxalmente, porém, os aspectos mais positivos deste projeto, como a dimensão multicultural da equipe de redação e o financiamento de uma organização internacional, geraram alguns problemas: vários autores, entre os mais reputados, faleceram antes de concluírem seus estudos. O projeto também teve de superar inevitáveis vicissitudes econômicas, distâncias geográficas e número insuficiente de reuniões entre os membros da equipe, sem contar com as restrições de ordem tecnológica (no início, a comunicação acontecia por meio de correio postal e faxes).

História: questionando o passado

Será que o próprio título da coleção e o reduzido espaço reservado aos povos indígenas justificam a crítica de que a obra está marcada por eurocentrismo? Depois de explicar que a denominação “América Latina” é simplesmente o qualificativo mais corrente, o presidente do Comitê de Redação acrescenta: “Convém não esquecer que esta História Geral foi escrita com o objetivo de ser divulgada. Sendo assim, a utilização de uma linguagem incapaz de traduzir a realidade acaba por isolar os conhecimentos em vez de facilitar sua difusão”. Na introdução da obra, também é chamada a atenção para o fato de que a redação da história das sociedades latino-americanas é historicamente acompanhada pela afirmação da hegemonia dos crioulos latino-americanos.

O presumível crioulocentrismo da História Geral da América Latina é enfatizado pelo equatoriano Enrique Ayala Mora, membro do Comitê de Redação, ao lembrar que a historiografia se limita a traduzir a situação concreta. Em seu entender, a carência de estudos elaborados por experts indígenas sobre a história dos respectivos povos e a ausência ainda mais notória de pesquisas sobre as sociedades afro-americanas empreendidas por seus próprios membros têm a ver com a realidade que, aliás, é sublinhada na obra. “Sabíamos desde o início que um espaço desproporcionado seria atribuído à história mestiça, considerando a carência de fontes de informação sobre as sociedades autóctones”, explica Mora. “Assim, por mais criticável que possa ser tal situação, esta obra culmina em uma história da continuidade crioula na América Latina pelo simples fato de não existirem outras abordagens historiográficas escritas sobre a realidade latino-americana. Esta História Geral, no entanto, traz esclarecimentos sobre a situação mais recente dos povos indígenas e afro-americanos.”

Segundo o historiador equatoriano, o fato de ter dedicado um volume ao período pré-colombiano e os oito restantes à época posterior à chegada dos europeus não deveria ser interpretado como uma tendência em atribuir importância demais ao mundo crioulo. “As questões amplificam-se à medida que nos aproximamos do presente. Por exemplo, reservamos apenas dois volumes ao período colonial e quatro ao período republicano, diz ele. “Cada um dos volumes relativos ao período colonial abrange mais de 100 anos, enquanto a duração de estudo de cada volume do período republicano é, em média, de 60 anos. O volume dedicado aos povos pré-colombianos, por sua vez, abrange dois milênios. A História é um questionamento do passado.”

Em vez de se preocupar com o número de volumes dedicados à história dos povos indígenas, ele opina que o essencial consiste em conhecer os volumes desta História Geral abordando o período posterior à conquista. Eles também fazem menção às populações indígenas que ainda vivem no continente americano. "A presença dos povos autóctones é importante em vários volumes e mais limitada em outros. Essa situação se deve especialmente à ausência de trabalhos de pesquisa a respeito desse assunto. De acordo com a regra adotada, porém, os autores foram levados a abordar temas cujo estudo ainda não havia sido empreendido ou o foi de forma precária."



Espírito pan-americano

Pode-se dizer que a redação desta história contribuiu para a formação de historiadores latino-americanos “generalistas”. “Antes, contávamos com monografias nacionais ou, na melhor das hipóteses, de estudos comparativos que incidiam sobre dois ou três países”, explica Ayala Mora. “Os historiadores têm tendência a evitar os temas gerais, preferindo estudar questões específicas. Por exemplo, a extração de minério em Potosí (Bolívia), no século XVII. Pois não foi nada fácil encontrar um historiador para escrever sobre a industrialização em todo o continente, entre 1880 e 1930.” Assim, a obra teve o mérito de desempenhar um papel de “escola”,ao sensibilizar historiadores para assuntos latino-americanos, incentivando-os a empreender pesquisas sobre processos comuns aos países do continente.

Para concluir, o historiador equatoriano destaca outro aspecto importante da obra: “Ela serve de eco às aspirações pan-americanistas, atualmente na moda em alguns países da América Latina”. Ele também evoca a existência centenária destas aspirações: “Já em 1781, com a rebelião indígena de Tupac Katari no território da atual Bolívia, surgia a afirmação de uma identidade autóctone peculiar que se concretizaria no momento das independências. O interesse por uma história latino-americana comum será fortalecido pelas pretensões integracionistas em alta nos anos 60 entre os economistas da Comissão Econômica para a América Latina (CEPAL) e os teóricos da dependência, entre eles o futuro presidente brasileiro [1995-2002], Fernando Henrique Cardoso”.

Niels Boel, jornalista dinamarquês. Os depoimentos de Germán Carrera Damas e de Enrique Ayala Mora, respectivamente presidente e membro do Comitê de Redação da História Geral da América Latina, foram registrados na Venezuela e no Equador.

Cúpula da mesquita Sheykh Lotfollah, em Ispahan (Irã).

Alhambra, em Granada (Espanha): símbolo da glória de Al Andalus, do séc. VIII ao séc. XV.

Ponte construída no séc. XVI por Akbar, imperador Mogol que governou a Índia de 1556 a 1605.

A fé em Deus e no homem permitiu que o islã contribuísse amplamente para a edificação da civilização humana. Em vez do “fixismo” de uma ordem imposta, sua força provém da permanência de um modelo que tem de ser continuamente recriado a partir da inspiração divina e das exigências momentâneas.




O espaço geocultural islâmico constituiu, durante a Idade Média, um pólo de atração universal que exerceu sobre seus vizinhos uma influência indiscutível. Mais
Babel linguística, extravagância étnica, mosaico geográfico, caleidoscópio político – o mundo muçulmano apresenta uma extraordinária diversidade doutrinal e cultural. Se Alá é único, o islã é múltiplo por ser diferente em cada país e passar por alterações no decorrer do tempo.

É errôneo pensar que o islã realizou sua missão de uma só vez e que só consegue tirar partido de seu passado. Se reconhecermos que ele contribuiu amplamente para a edificação da civilização humana em áreas tão variadas quanto a filosofia, a geografia, a matemática, a astronomia, a medicina e a arte, devemos aceitar igualmente que sua missão, renovada incessantemente, está sempre atualizada. Também devemos estar vigilantes para reatualizar o sentido da fé corânica de acordo com o convite do versículo 148 da 2ª surata: “Cada um tem um objetivo para o qual se dirige seu olhar. Na prática das virtudes, estejam prontos a proceder cada vez melhor”.

À semelhança de qualquer outra, a fé islâmica só tem sentido quando comprometida com o presente. A fé é tanto um exercício individual quanto uma abertura para o outro. Para o islã, o homem é um “objeto” na natureza privilegiado por ser sujeito – de Deus, evidentemente. Um sujeito autônomo capaz de fazer escolhas e, portanto, responsável.

Integração do sagrado na vida social




Selecionados entre nossos melhores especialistas, os autores do volume “O indivíduo e a sociedade no islã”, sob minha orientação, tentaram mostrar em 16 capítulos como os direitos, as responsabilidades e a liberdade conseguiram libertar, em um equilíbrio frágil constantemente quebrado e logo restabelecido, o indivíduo nas sociedades islâmicas. O apaziguamento de nossos medos e de nossas angústias constituiu uma missão prioritária, apesar do rigor de alguns textos fundadores e dos interesses impreteríveis de uma sociedade quase sempre confinada.

Aproveitando a grande quantidade de informações tradicionais e recentes, abordamos as questões de fundo ao levar em consideração a dialética sutil, sem deixar de ser determinante, entre os princípios desenvolvidos pelo Alcorão e pela Suna [conjunto das afirmações pronunciadas ou tacitamente aprovadas pelo Profeta] e as vicissitudes do cotidiano.

Em vez de efetuarmos uma exposição da doutrina islâmica, acompanhamos sua inserção na história das sociedades para compreender o modo como ela exerceu influência sobre seu sentido e como ela constituiu uma inspiração relevante e unificadora em um amplo espaço geográfico, social e cultural. Enfim, como o ensino corânico foi compreendido e traduzido em atos.

Religião e cultura vivas


Desde a Idade Média até nossos dias, o Corão é a matriz a partir da qual têm sido definidos os regulamentos jurídicos, assim como as atitudes coletivas e as condutas individuais de povos que, desde o Mar da China até o litoral atlântico da África, haviam abraçado o islã. Continuidade criadora e missão agregadora são, portanto, as duas especificidades do islã.

Sabemos que a criação dos valores e sua inserção na vida concreta encontraram um campo de expressão imensa que abrange os domínios jurídicos, assim como os psicológicos, sociais, políticos, econômicos e artísticos. Convém reconhecer que essa força organizadora do islã não resulta do “fixismo” de uma ordem imposta, mas da permanência de um modelo que deve ser recriado incessantemente, a partir da inspiração divina e das exigências momentâneas: a um islã imobilizado em sua elaboração medieval, deve ser oposto um islã vivo, capaz de inventar soluções renovadas como a vida.

O sentido da fraternidade islâmica culmina na fraternidade universal, necessária para a defesa e para o esclarecimento do homem e de todos os homens: preparar a criança para as tarefas de adulto, estar a serviço dos direitos humanos, organizar as relações intercomunitárias, enfrentar a transgressão, as injustiças, as desigualdades, a opressão… A fé islâmica tem, portanto, a missão de realizar uma tarefa agregadora que diz respeito a todos os homens, quaisquer que sejam suas crenças, línguas ou filiações étnicas.

Contrariamente a uma visão caricatural da cultura islâmica, nossa obra mostra como a lei foi submetida ao processo da dialética – e continua a sê-lo – para fornecer ao homem em confronto com desafios renovados, assumidos e superados, os meios de viver sua religião e de viver em seu século. Esta História lembra que o vazio espiritual de nossa época não pode ser preenchido por fanatismos, nem pela omissão, nem por maledicências.

Abdelwahab Bouhdiba, sociólogo, é presidente da Academia Tunisiana das Letras, Ciências e Artes (Baït el Ikma)

O Grande Buda de Bamiyan(Afeganistão ),antes e depois da destruição pelos Talibãs, em 2003

Domo de mesquita em Samarcanda (Usbequistão).

Caça ao falcão nas estepes do Quirguizistão

Estepes e a Rota da Seda

Espaço de encontros e de intercâmbios, a Ásia Central também passou por períodos de isolamento. A “História das Civilizações da Ásia Central” mostra que, a despeito das barreiras ideológicas, os vínculos históricos e culturais entre as populações dessa região acabaram gerando uma identidade que lhes é peculiar.





Quando a entidade histórica não corresponde à área geográfica

Os sete volumes da "História das Civilizações da Ásia Central" cobrem o vasto território do Mar Cáspio à fronteira chinesa. Mais
Samarcanda, Bucara, Herat… cidades que nos fazem sonhar. Gengis Khan, Tamerlão, Akbar… personagens que marcaram a História. Avicena, Khayyam, Ulugh Beg... pensadores que mudaram a visão do mundo. No decorrer dos séculos, todos esses nomes balizam um espaço que, apesar de não constituir uma região bem definida no mundo antigo, ainda assim corresponde a um território de permanentes intercâmbios entre os povos: a Ásia Central. Desde a Antiguidade, os citas, os xiongnu e os membros do reino Khitai percorreram este espaço, que se estende do Mar Cáspio à fronteira com a China, lançando os alicerces das grandes civilizações da Ásia e da Europa.

A “História das Civilizações da Ásia Central” abrange esse imenso território que, até o século XVI, foi dominado amplamente pelo pastoreio e por uma agricultura cujos espaços mais acolhedores eram constituídos por raros oásis. Desta forma, os testemunhos originais da vida e da cultura humanas são igualmente modestos. Em compensação, por sua posição no centro do continente asiático, a região transformou-se em um corredor excepcional de circulação para diferentes povos, religiões e ideias, assim como para a cultura e a arte. No sul e no leste, determinadas regiões dotadas de maiores recursos e mais sedentárias – Oriente Próximo, Irã, Índia e China – deram origem, no decorrer dos últimos quatro ou cinco milênios, a religiões e civilizações que exerceram uma grande influência sobre a evolução desse núcleo central da Ásia.



A região das estepes serviu de ponte entre as grandes civilizações do sudoeste, sul e leste da Ásia que, durante muito tempo, haviam permanecido isoladas por cadeias de montanhas e por desertos. Basta pensar na famosa Rota da Seda que, nas vésperas e durante os primeiros tempos da expansão do cristianismo, foi tomando forma para atravessar, pela Ásia Central, todo o continente, desde o Extremo Oriente até o Irã, o Oriente Próximo e os mundos greco-bizantinos. Através dessa rota, tecidos preciosos da China eram encaminhados para o Mediterrâneo Oriental e, daí, para a Europa. No sentido oposto, a prataria sassânida da Pérsia tinha acesso à Sibéria e à atual Rússia, além do ouro romano que chegava à Ásia Central e ao noroeste da Índia.

As influências greco-romanas também foram um importante fator de desenvolvimento artístico, especialmente na região de Gandhara, nos limites atuais do leste do Afeganistão e do noroeste da Índia. Mais tarde, na época islâmica, outros produtos chineses de luxo, como as cerâmicas, empreenderam a longa e arriscada viagem através da Ásia Interior até os mercados de Nishapur, Rey, Ispahan, Bagdá e outras grandes cidades do califado e dos Estados que lhe sucederam, complementando assim o tráfego marítimo do Oceano Índico.
No plano das ideias, grandes religiões do mundo antigo disseminaram-se através da Ásia Central antes de abordarem outras regiões do continente. O zoroastrismo espalhou-se do Irã para a Transoxiana (que corresponde aproximadamente ao atual Uzbequistão) e para o Khwarezm (território entre os atuais Uzbequistão e Turcomenistão). O budismo saiu da Índia para conquistar a China e a Mongólia. Os negociantes sogdianos da Ásia Ocidental difundiram o cristianismo nestoriano e o maniqueísmo através da Ásia Central até o Turquestão Oriental (atual Xinjiang) e o norte da China.

Em seguida, foi a vez de a propagação da nova fé professada por Maomé passar pela Pérsia até as estepes e mais além, desencadeando frequentes processos sincréticos com crenças e rituais preexistentes, como os do xamanismo.

Do isolamento à abertura



A História das Civilizações da Ásia Central foi concebida, portanto, para restituir a este território aureolado de mistério por longos tempos a posição que lhe é devida por sua condição de entidade distinta da história humana, de cruzamento de civilizações e de passarela milenar entre o Oriente e o Ocidente.

Atualmente, esta região passa por um período de abertura exponencial depois da severa reclusão imposta pela dominação soviética e pelas rivalidades resultantes da Guerra Fria. Formada em grande parte por um território de amplos espaços abertos, ela constituiu em outros tempos o cenário para influências externas e movimentos de população. Na virada do século XX, porém, pesquisadores, arqueólogos, amadores de arte e outros entusiastas oriundos de diferentes horizontes desafiaram distâncias e a lentidão das comunicações e revelaram ao resto do mundo os fabulosos tesouros culturais, literários e artísticos dos povos da Ásia Central.

Depois, durante decênios, os fanatismos ideológicos e os distúrbios políticos isolaram esta região do mundo exterior. Nenhum organismo ou instituto de pesquisa – e, por maior força de razão, nenhum pesquisador ou grupo de pesquisadores – sentiu-se capaz de empreender a elaboração de uma história geral da região, desde a pré-história até a época contemporânea. Finalmente, na década de 1980, a UNESCO conseguiu reunir uma rica paleta de especialistas para delinear os planos da presente História das Civilizações da Ásia Central que mobilizou cerca de 180 autores.

Nesse meio tempo, quatro repúblicas da Ásia Central de etnia e língua turcas emergiram na cena internacional: Cazaquistão, Quirguizistão, Uzbequistão e Turcomenistão, além do Tajiquistão, na vertente iraniana. Independentes desde o início da década de 1990, estes Estados assumiram atualmente o controle de seus recursos, entre eles os minerais, e estão em condições de desempenhar um papel decisivo no comércio e na indústria em escala mundial. E o melhor: descobriram a continuidade cultural que os liga à sua periferia, em particular às repúblicas da Turquia e do Azerbaijão, assim como às repúblicas islâmicas do Irã e do Afeganistão. Durante algum tempo, eles foram dissuadidos ou até mesmo impedidos de tecer tais vínculos.

A “História das Civilizações da Ásia Central”, da UNESCO, revelará que o território outrora visto como região pouco conhecida do continente eurasiano e que adquiriu em alguns séculos sua identidade própria está, agora, preparado para participar plenamente das questões mundiais.

C. Edmund Bosworth professor emérito em estudos árabes na Universidade de Manchester. Com M.S. Asimov, dirigiu o volume IV da "História das Civilizações da Ásia Central".