sábado, 28 de janeiro de 2012

Uma atordoante distopia

Ousadias e desencanto marcam ‘A Visita Cruel do Tempo’, de Jennifer Egan





Jennifer, que foi eleita uma das 100 pessoas mais influentes do mundo no ano passado



Manoela Sawitzki – O Estado SP

Para escrever seu quinto livro, a norte-americana Jennifer Egan afirma que se serviu de referências surpreendentemente distintas: Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust, Pulp Fiction, filme de Quentin Tarantino, e Família Soprano, uma série televisiva de sucesso. O resultado arrebatou o júri do Pulitzer Prize, que deu ao romance A Visita Cruel do Tempo (A Visit From the Goon Squad, no original) o prêmio de melhor ficção de 2011. A obra também recebeu outras premiações importantes, como o National Book Critics Circle, e tem se desdobrado numa profusão de traduções e vendagens substanciosas. Mas dizer isso tudo é somente sublinhar o que o leitor entenderá por si se deixando tragar pelo caleidoscópio humano de Egan.

A escritora ousa e se arrisca ao suspender noções cartesianas de espaço e tempo. Passado e futuro coexistem na alternância aparentemente caótica de episódios. Porções de um período estão contidas no outro, mesmo que sob o viés da contradição. A memória revela a argamassa original, matéria a partir da qual sujeitos são moldados e deformados. É construída assim uma narrativa fragmentada, polifônica, que subverte as fronteiras pacificadoras entre continuidade e descontinuidade de discurso. E há algo de autêntico, franco na forma como as muitas histórias e vozes ali contidas se desvelam e entrelaçam que garante uma unidade singular ao livro. Embora nem sempre o texto se mantenha fluente, o vigor narrativo acaba por se impor. Isto porque Jennifer Egan sabe ousar e se arriscar numa medida rara.

Resumir sem reduzir os saltos e conexões desse exercício de fabulação notável é tarefa inglória. Dividido em duas partes, A e B, compostas por pequenos capítulos, A Visita Cruel do Tempo dá conta de cerca de quatro décadas e mais de duas dezenas de personagens. Valendo-se ora da terceira, ora da primeira pessoa (e conseguindo utilizar a segunda com destreza em um trecho comovente do livro), a narração retrocede e avança por diferentes etapas dessas vidas com cortes precisos. Ao longo de 13 capítulos, coadjuvantes tornam-se protagonistas (e vice-versa). Cada capítulo possui tom próprio, cada época compõe seu elenco.

Começamos com Sasha, ex-assistente de Bennie Salazar, importante executivo da indústria musical americana. Diante do analista, ela discorre sobre um recente episódio envolvendo seu “problema” e a noite de sexo casual com Alex, jovem recém-chegado a Nova York que conheceu pela internet. Seu “problema” é a cleptomania. Na década anterior foi namorada de Drew e melhor amiga de Rob, que tentou o suicídio e parecia não estar de acordo com nada no mundo à sua volta. Bennie, aos 40 e poucos anos, se recupera do divórcio, salpica flocos de ouro em xícaras de café – receita afrodisíaca obtida num livro sobre medicina asteca – e ainda se embaraça com os vexames do passado, desde quando era o péssimo baixista da banda punk Flaming Dildos. Nessa época conheceu Lou, um produtor musical que tenta fugir do impacto da velhice cercando-se de namoradas e esposas muito jovens. Stephanie trai a juventude roqueira tornando-se parceira de tênis de uma loira republicana no Country Club de um bairro esnobe. Enquanto isso, Jules, seu irmão, jornalista especializado em celebridades, condenado à prisão por atacar uma jovem atriz de Hollywood durante uma entrevista, é solto. Músicos fazem sucesso, frequentam o ostracismo, engordam e ensaiam retornos – um deles assumidamente suicida. A assessora de imprensa Dolly é banida dos meios sociais e acaba trabalhando a imagem de um ditador genocida. A menina Alison inventaria o cotidiano da família Blake num diário escrito em PowerPoint. E ainda não estamos perto de abranger uma parte substanciosa da trama. De um safári na África de 1973, a um concerto de rock ao ar livre em uma Nova York futurista, repleta de helicópteros, o fôlego de Jennifer Egan parece inesgotável.

A Visita Cruel do Tempo trata da distopia de uma geração forjada em meio ao cenário musical underground dos anos 70, que chega despreparada à explosão consumista e à tirania do retoque do século 21, e terá que se confrontar com os novos parâmetros da cibercultura. E toma pelas mãos os herdeiros, crianças que crescem sob o impacto desse emaranhado de incertezas e reelaborações. Ao se questionar sobre que tipo de evento simbolizará o mundo novo que se desenha à sua frente, por exemplo, Dolly sabe que a resposta já não está consigo, mas com Lulu, sua filha. “Se existem crianças deve existir futuro, certo?”, quer acreditar Alex.

Entre encontros, separações, vidas perdidas e destinos às vezes magicamente reorganizados, um personagem é onipresente, central e contínuo em sua missão: o tempo. “O tempo é cruel, não é? Vai deixar ele intimidar você?”, pergunta Bennie ao guitarrista aterrorizado, incapaz de voltar ao palcos. “O tempo venceu”, ele responde. O esquadrão que nos impõe sua marcha sempre vencerá.

TRECHO

“Bennie deixou-o descer do carro e lhe deu um forte abraço. Como sempre, Chris se imobilizou em seus braços, mas Bennie nunca sabia dizer se estava aproveitando ou suportando o abraço. Ele recuou e olhou para o filho. O bebê que ele e Stephanie tinham afagado e beijado agora era aquela presença dolorosa, cheia de mistério.”

A VISITA CRUEL DO TEMPO
Autora: Jennifer Egan
Tradução: Fernanda Abreu
Editora: Intrínseca (336 págs., R$ 29; e-book: R$ 19,90)

MANOELA SAWITZKI É AUTORA DO ROMANCE SUÍTE DAMA DA NOITE (RECORD)

Para escapar do cárcere do real

A partir da análise de ‘Os Miseráveis’, de Victor Hugo, ‘A Tentação do Impossível’, de Mario Vargas Llosa, reflete sobre as ambições que norteiam a arte da escrita
28 de janeiro de 2012



Ensaio de Vargas Llosa é o testemunho de seu fascínio pela cultura francesa – Justin Lane/EFE – Arquivo



Carlos Granés – O Estado SP

A julgar pela vastidão da obra que deixou, pareceria que a vida de Victor Hugo se consagrou exclusivamente a compor poemas, redigir ensaios, escrever peças de teatro e planejar suas imensas criações literárias. Assim parece porque quem quisesse esgotar sua bibliografia teria de gastar pelo menos dez anos lendo seus romances e as milhares de páginas que foi redigindo com facilidade invejável desde que descobriu sua vocação literária, antes dos 15 anos de idade. O surpreendente é que não foi assim. Victor Hugo também teve tempo para participar dos acontecimentos que marcaram o curso do século 19 francês, e viver grandes aventuras amorosas com mulheres de todas as condições sociais, de damas da alta sociedade até criadas, às quais seduzia ou pagava para satisfazerem seus caprichos eróticos.

Tudo isso e muito mais é contado por Mario Vargas Llosa em A Tentação do Impossível, seu ensaio sobre Os Miseráveis, a obra maior de Victor Hugo e do romantismo francês. Publicado originalmente em 2004, o ensaio de Vargas Llosa é o testemunho de seu fascínio pela cultura francesa e pelas criações literárias caracterizadas pela ambição descomunal, pelo desejo de recriar toda a vida em seus grandes e pequenos detalhes por meio da palavra escrita.

Três ideias fundamentais fazem deste um livro fascinante. A primeira é que Os Miseráveis marca o fim do romance clássico, isto é, aquele em que o narrador participa ativamente da história dando sua opinião sobre os acontecimentos ou explicando ao leitor por que as coisas sucedem tal como sucedem. Esse narrador consciente de si mesmo desaparecerá no romance moderno, inaugurado por Gustave Flaubert com Madame Bovary, no qual ele se fundirá com os eventos narrados para perder o protagonismo humano e ganhar clarividência divina: não o veremos, mas ele estará em todas as partes determinando tudo.

A segunda ideia fundamental diz respeito à maneira como o escritor transforma a realidade em material literário. Nenhum romance digno do nome, mesmo que narre episódios reais, pretende substituir a história vivida. O romancista emprega essa matéria-prima para criar uma realidade autônoma, irreal, fictícia; um cenário no qual poderá explorar não o que ocorreu na realidade, mas os dramas humanos, os dilemas morais, as perguntas fundamentais da vida que o perturbam e obcecam, e que são o tema essencial do romance. Se a história, a sociologia e a antropologia se ocupam dos fatos reais, o conhecimento que o romance projeta tem a ver com os anseios, ilusões, desejos, paixões e frustrações que assaltam homens e mulheres em determinado momento e em determinado lugar. No caso de Os Miseráveis, esse anseio é a perfeição humana, a redenção pelo sofrimento e a luta para alcançar o infinito, para tocar a divindade.

Essa última observação nos remete à terceira ideia cardeal que Vargas Llosa ressalta em A Tentação do Impossível. Inicialmente, Os Miseráveis não foi recebido pelos críticos como a obra imortal que hoje lemos, mas como um livro terrivelmente perigoso, escrito para provocar descontentamento e insatisfação nos leitores. Nada mais delicado, dizia o escritor Alphonse de Lamartine, um desses críticos, que criar um mundo literário povoado de personagens ideais, capazes de se comportar como santos laicos ou heróis justiceiros, porque o contraste entre essa ficção e a imperfeita realidade poderia causar tamanha frustração, tamanha irritação, que despertaria o desejo imperativo de revolta contra a sociedade.

Não é casual o fato de Vargas Llosa ter explorado esse tema na obra de Victor Hugo. Não o é porque entender o papel que tem a ficção na vida humana, entender por que romances são escritos e são lidos, entender esse impulso poderoso que move ele mesmo e outros romancista a desafiar a realidade real antepondo-lhe uma realidade fictícia, foi uma das grandes obsessões do escritor peruano. E a resposta que obtemos a essa interrogação em A Tentação do Impossível é tão sugestiva como a análise pormenorizada que seu autor faz de Os Miseráveis. Criamos ficções porque, por meio delas, saímos do cárcere do real e vivemos as mil vidas que de outra forma não poderíamos viver. Ademais, como antecipou Lamartine, porque no ir e vir da ficção vemos as imperfeições do mundo real e se afina nossa consciência crítica, a ferramenta que impede que as sociedades se paralisem na resignação e na apatia. Aspirar ao impossível, como fazem Victor Hugo e, em maior ou menor grau, todos os grandes criadores de ficção, é um antídoto contra o conformismo e a indolência. Esta é a razão de ser do romance, esta é a razão pela qual há escritores – entre os quais Vargas Llosa – que põem todo seu empenho em se deixar tentar pelo impossível.

Esse ensaio literário, como os muitos outros que Vargas Llosa escreveu ao longo de sua dilatada carreira, é uma chave extremamente útil para entender sua própria concepção de romance e os temas e problemas que lhe interessa abordar em seus projetos narrativos.

Se em 1975, quando publicou um ensaio sobre Flaubert e Madame Bovary intitulado La Orgia Perpetua, ele refletia sobre o desejo individual e a possibilidade de vencer os determinismos sociais, temas que apareceriam em seus romances seguintes, em 2004, ao mergulhar em Os Miseráveis, Vargas Llosa nos revela sua paixão pelas personagens exacerbadas que desafiam a condição humana com condutas extremas e paixões inquebrantáveis. Essas personagens enfeitiçam Vargas Llosa porque, como Flora Tristán, Paul Gauguin ou Roger Casement, protagonistas de O Paraíso na Outra Esquina e O Sonho do Celta, dois de seus últimos romances, não se rendem às exigências da realidade e se empenham em viver, sem se importar com as consequências, de acordo com seus sonhos e ideais. Nesses romances aflora esse traço humano, a possibilidade de viver uma vida iluminada pela ficção ou por princípios morais inquebrantáveis. Com eles, Vargas Llosa explorou as venturas e desventuras que vivem, e os benefícios e tragédias que produzem essas personagens que vão além da realidade tentando transformar o mundo para que se pareça mais com os sonhos e fantasias tecidos pela imaginação. Isto é, o que ocorre quando alguém, cuja finalidade não é escrever romances, se nega a se render à realidade e cai sob o influxo sedutor do impossível. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

CARLOS GRANÉS É DOUTOR EM ANTROPOLOGIA SOCIAL PELA UNIVERSIDADE COMPLUTENSE DE MADRI E AUTOR, ENTRE OUTROS, DE LA IMAGINACIÓN – ANTROPOLOGIA DE LOS PROCESOS CREATIVOS: MARIO VARGAS LLOSA Y JOSÉ ALEJANDRO RESTREPO (CONSEJO SUPERIOR DEINVESTIGACIONES CIENTÍFICAS DE MADRID)