quinta-feira, 17 de março de 2011

Vem!

Vem! Que t’ importa que maldiga o mundo

O amor profundo que nos liga? vem;

Vem, que nos vales de cheirosas flores,

Nossos amores viçarão também.

Vem! de joelhos nos tapiz de nardo

Há de te o brado suspirar idílios,

Cantar-te a face rosejada em pranto,

O orvalho santo do frouxel dos cílios.

Pensa na sombra da floresta virgem…

Nesta vertigem … nest’amor ali!…

Aves felizes no sendal dos ramos

Seremos: vamos, que o serei por ti!

Vamos unidos como a luz ao astro

O amor da Castro na soidão lembrá-lo,

Nas longas plumas que a palmeira agita

A alma palpita de Virgínia e Paulo.

Que mais tu queres, anjo e flor? Escuta:

Quem ama luta? Não lutemos, vem!

Vamos aos vales de cheirosas flores,

Que é flor d’amores meu amor também.

Olha, de tarde quando o sol se esconde

Diz-me tu onde mais poesia viste?

Calam-se os ventos – só a brisa arrula -

O céu se azula – mas o céu é triste.

Pois bem, o bardo na soidão exprime

Na voz sublime dum arcanjo a voz:

Hei de dos seios arrancar os lírios

Dos meus delírios, pra t’os dar – a sós. -

Perdidos ambos no deserto infinito

Que sonho lindo, que visões também!

E o éter puro como véu d’estrelas…

E a chama delas a tremer além!…

“Mas quando um dia desbotar-se o prado?

Quando o valado se cobrir de gelos?

Ai! tu só vives – beija-flor – de orvalhos

Em verdes galhos de sonhares belos!

Qu’ importa o prado de cheirosas flores

Se teus amores morrerão também!”

Quando morrerem, morrerão comigo

E ao céu contigo voarei – Oh! vem!

“Oh! não! Minh’alma se coroa em flores;

Nos esplendores de celeste aurora;

Deus abençoa só amores santos

Cala teus cantos: morrerás agora?”

Rita Barém de Melo


(Rio Grande, julho de 1867)

Fonte:Blog Leituras Favre