quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Os cemitérios 
onde moram meus sonhos
volta e meia ainda 
assombram minha razão
com utopias as quais ,
ao invés de libertar
fazem acorrentar.

Sonhando o mesmo sonho 
se constrói uma certeza?
Os sonhos não são feitos só de beleza
o que não escondem suas vísceras?
Todo sonho que acorda da vertigem
espatiface em pesadelos multifaces
de  ísmos rapaces.

A fortaleza eterna e etérea 
e fantasma da utopia revolucionária.
Lá onde o certo é duvidoso 
e o cetro do centro não é o 
mercado onde as pessoas 
não são escravas  zumbis da angústia do consumo

Blá blá blá não tenho tempo para pensar no amanhã
se não tenho o hoje 
que me fora surrupiado por um piá na praça para pagar o aluguel da alienação.

Wilson Roberto Nogueira


Relendo o livro "a psicanálise dos contos de fadas" de Bruno Bettelheim, para a finalização de um artigo, acho algo que quero compartilhar!
“Para que uma história realmente prenda a atenção da criança, deve entretê-la e despertar a sua curiosidade. Contudo, para enriquecer a sua vida, deve estimular-lhe a imaginação: ajudá-la a desenvolver seu intelecto e a tornar claras as suas emoções; estar em harmonia com suas ansiedades e aspirações; reconhecer plenamente suas dificuldades e, ao mesmo tempo, sugerir soluções para os problemas que a perturbam. Resumindo, deve relacionar-se simultaneamente com todos os aspectos de sua personalidade (...)” (BETTELHEIM, 2007, p. 11)
Fonte: escritora Susan Blum Pessoa

DOENTE DE AMAR




(LOVE SICK - Bob Dylan - vb:IJS)

Vou caminhando
Mortas ruas de cimento
Caminhando
Com você no pensamento
Minhas botas tão cansadas
Minha mente tão cabeada
E as nuvens chovendo

Será que
Escutei alguém mentindo?
Será que
Escutei gritos longínquos?
Falei feito um menino
Você me arrasou só sorrindo
E eu dormindo

Doente de amar
Mas ainda estou lá
Desse jeito de amar
Tão doente de amar

Eu vejo
Vejo amantes pelo prado
Eu vejo
Silhuetas na janela
Assisto a elas e outras
Que me deixam pendurado
Numa sombra

Doente de amar
E o relógio em tique-taque
Desse jeito de amar
Tão doente de amar

Às vezes
O silêncio é qual trovão
Às vezes
Pego a estrada em contramão
Você consegue ser sincera?
Eu só imagino
E acho que não

Doente de amar
Queria nunca ter te visto
Tão doente de amar
Te esquecer já não consigo

Não sei mais que fazer
Daria tudo só
Pra estar com você.
 
Tradução: Ivã Justein Santana


cheguei há pouco do amor (cidade de gaivotas loucas e
luzes cegas). não concordas? eu sei bem sei: vês as coisas
como falésias altas e impossíveis como ameias. cheguei há
pouco do amor e trago comigo esse discurso aprendiz:

o idealismo. desculpe: o que pensa destas palavras dos
começos desse caminho as dóceis letras da promessa?
perdão perdão: há que passar para o outro lado (um

parâmetro de cada vez). se bem me lembro em pequeno
as cigarras podiam ser domesticadas e cada adeus
era um veneno. obrigado obrigado: também me pareceu

ser essa a sua opinião. cheguei há pouco do amor e
vejo as certezas do mundo como uma ilusão. receio pelo
eterno procuro a fantasia mas: é sempre no ventre
dessas gaivotas que se dão os primeiros beijos

(João Luís Barreto Guimarães)


Fui ao mercado dos pássaros
E comprei pássaros
Para ti
Meu amor
Fui à loja das flores
E comprei flores
Para ti
Meu amor
Fui ao ferro-velho
E comprei correntes
Pesadas correntes
Para ti
Meu amor
Depois fui ao mercado dos escravos
E procurei-te
Mas não te encontrei
Meu amor

JACQUES PRÉVERT

EXPOSIÇÃO





Escrever é expor-se.
Revelar sua capacidade
Ou incapacidade.
E sua intimidade.
Nas linhas e entrelinhas.
Não teria sido mais útil silenciar?
Deixar que saibam-te pelo que parece que és?
Que desejo é este que te leva a desnudar-te?
A desmascarar-te?
Que compulsão é esta?
O que buscas?
Será a incapacidade de fazer coisas úteis?
Mais objetivas?
É por isso que procuras o subjetivo?
Para quem a tua mensagem?
Para ti?
Para outrem?
Não sei.
Mais uma que faço sem saber por quê.

Michel Temer

Odes



Colhe o dia, porque és ele
Uns, com os olhos postos no passado,
Vêem o que não vêem: outros, fitos
Os mesmos olhos no futuro, vêem
O que não pode ver-se.

Por que tão longe ir pôr o que está perto —
A segurança nossa? Este é o dia,
Esta é a hora, este o momento, isto
É quem somos, e é tudo.

Perene flui a interminável hora
Que nos confessa nulos. No mesmo hausto
Em que vivemos, morreremos. Colhe
O dia, porque és ele.


- Ricardo Reis, in "Odes" 
(Heterônimo de Fernando Pessoa)