segunda-feira, 11 de novembro de 2019

Destronar o império das narrativas


Artigo de Bruno Cava


"O funcionamento escolástico do tomismo é assim: você pode falar à vontade e multiplicar os modos de dizer, desde que não haja dúvida na comunidade dos falantes sobre a mesma coisa do que se diz: é fascismo, é golpe, é neoliberalismo, é violência etc. A liberdade e boa consciência de falar no interior do guarda-chuva da doutrina das analogias é proporcional à sensação de impotência que vem junto, porque os modos de dizer não deixam de ratificar a mesma coisa, que jamais muda", afirma Bruno Cava, pesquisador associado à rede Universidade Nômade (uninomade.net), professor de Filosofia, em artigo publicado por Uninomade, 05-05-2019.
Numa aula sobre Deleuze, apresentava a filosofia de Duns Scoto e um ouvinte lançou a seguinte pergunta: com tantas urgências contemporâneas, qual seria o sentido de perder tempo com um filósofo medieval? Não seria apequenar as preocupações como na velha escolástica, quando se debatia sobre quantos anjos caberiam na ponta de uma agulha?
Eu disse: não. Na verdade, o conceito de univocidade de Duns Scoto é o antídoto para o caráter escolástico-medieval das discussões que é justamente o caráter predominante das nossas discussões contemporâneas.
Tome por exemplo a oposição pela esquerda ao novo governo brasileiro. O que se lê nos muitos artigos acadêmicos ou de jornal, nas redes sociais ou na mesa de bar, são incontáveis variações da mesma proposição: é o fascismo. É um concurso de calouros em que cada concorrente tem 15 minutos para dizer do seu jeito porque Bolsonaro e seu governo são, de fato, fascistas. Você vai multiplicando maneiras de dizer a mesma coisa, num ciclo interminável ao redor do mesmo.
Outro exemplo é neoliberalismo. Foi um conceito relevante na época de sua formulação, nos anos 70, mas não tardou para passar pelo que Willard Quine chama de ascese semântica. Neoliberalismo virou uma válvula de regulagem, uma categoria para clivar o âmbito do discurso. No seu núcleo semântico está sempre a mesma coisa e os usos daí por diante devem atrelar-lhe novos modos de dizer esse mesmo, agregando conteúdos e incidências. Agora, quando “fascismo” se eleva como significante reinante, é preciso conciliá-lo com “neoliberalismo”, tarefa capciosa, pois exige construir uma diarquia de equivocidades.
Ou então o feminismo da segunda geração, surgido nos EUA durante os anos 60, que tem por foco a violência estrutural contra as mulheres. Aqui, uma das palavras ascéticas é “estupro”. As clivagens dependem da fixação do significante: toda manifestação machista embute, enquanto emulação, o ato do estupro. Daí falar-se em cultura do estupro. A operação semântica consiste em ir agregando-lhe referentes: o abuso sexual também se enquadra como estupro, a violência simbólica idem, e isto e aquilo também e assim por diante. Até que o menor gesto de masculinidade performada, por exemplo, um olhar, um comentário, até mesmo um pensamento íntimo, contenha o gérmen do significante mestre, isto é, uma manifestação de um estupro equívoco e onipresente.
Para entender como o conceito de univocidade rompe esse ciclo da linguagem é preciso antes compreender o jogo de forças no século 13. Aquele foi o século do Pequeno Renascimento, um período de uma efervescência cultural no interior da Idade Média, relacionado à intensificação das interações com povos árabes muçulmanos e asiáticos, à tradução de obras clássicas do grego, e à relativa prosperidade econômica decorrente de inovações técnicas e da paz que precedeu a Guerra dos Cem Anos.
O século 13 foi de desenvolvimento extraordinário das universidades e da informal república das letras que se estendia por toda a Europa cristã. Se, por um lado, levou ao florescimento da teologia e da filosofia; por outro lado, suscitou riscos para o monopólio intelectual mantido pela Igreja Católica. Como a autoridade religiosa não tinha mais como conter a produção e distribuição do discurso, a solução encontrada foi deslocar o regime de controle para o interior da própria proliferação de falas e linguagens. Nisso, a obra de Tomás de Aquino (1225-74) — ou talvez certa interpretação oficialista do tomismo — caiu como uma luva.
O debate circundava a questão da relação metafísica entre Deus e o mundo, mas as consequências dele iam muito além da teologia. Uma concepção era a de que o que se falava de Deus não se falava do mesmo modo como se falava das coisas. Se eu digo que Deus é bom, eterno e perfeito, isto não é a mesma coisa do que falar que Manoel é bom, eterno e perfeito. Haveria uma equivocidade em Deus que confere à autoridade religiosa um monopólio absoluto e dogmático. Mas isto estava se tornando insustentável, graças ao Pequeno Renascimento.
A solução salomônica de Tomás é a seguinte: o que se diz de Deus, se diz analogamente das coisas humanas e mundanas. Simplificando bastante: dizemos as mesmas coisas de maneiras diferentes. Ou seja, acolho a liberdade de falar de muitos modos, desde que se aceite a premissa da Mesma Coisa do que falamos. Nossos discursos são análogos ao redor do Mesmo que já estaria dado em primeiro lugar. Os ideólogos da Igreja, que não eram nada burros, homologaram essa doutrina e em consequência o tomismo galgou duradoura fortuna crítica no âmbito das instituições eclesiásticas daí por diante. Isso contemplou um imenso espectro de muitas discussões (muitos modos de dizer), mas os muitos modos de dizer permanecem regulados de dentro do discurso. O tomismo é uma válvula interna de regulagem, a partir do que o exercício do poder de veto e interdição se exercerá, tanto na Primeira quanto na Segunda Escolástica (contrarreformista).

O funcionamento escolástico do tomismo é assim: você pode falar à vontade e multiplicar os modos de dizer, desde que não haja dúvida na comunidade dos falantes sobre a mesma coisa do que se diz: é fascismo, é golpe, é neoliberalismo, é violência etc. A liberdade e boa consciência de falar no interior do guarda-chuva da doutrina das analogias é proporcional à sensação de impotência que vem junto, porque os modos de dizer não deixam de ratificar a mesma coisa, que jamais muda.
Duns Scoto (1265-1308), ao contrário da concepção análoga ou equívoca, afirmava a univocidade do ser. Quer dizer, o que se diz de Deus e o que se diz das coisas finitas e mundanas, se diz do mesmo modo. Só há um modo de dizer das coisas. O que parece restringir a produção do discurso, na verdade provoca uma mutação interna no seu funcionamento. Só existe um modo de dizer das coisas, o que muda, justamente, são as coisas! Cai o imperialismo do significante, a narratocracia escolástica. Deixamos de disputar o significado das mesmas coisas em seus muitos modos de dizer (ascese semântica de Quine), para disputar as coisas mesmas. Não estamos tão preocupados com a narrativas sobre as coisas, mas com elas próprias. A fala e o lugar de fala, os modos de dizer o mesmo, importam menos do que sobre o que se fala em primeiro lugar.
É toda uma inversão. Quando 250 anos depois de Scoto, o furiosamente herético Giordano Bruno afirma a pluralidade de mundos, ele não está simplesmente fazendo uma tese astronômica na esteira de Copérnico. Ele está dizendo que as outras Terras, os outros planetas povoados, são efetivamente outros mundos, de pleno direito, que não podem ser reduzidos a novas versões de nós mesmos, da humanidade cristã. O universo é populoso, porém, mais do que isso, é populoso de diferença, e não de um Mesmo que se repete com variações de narrativa.
É o que Deleuze, afinal, arremata: monismo = pluralismo. O único modo de escapar dos círculos viciosos e imperialismos escolásticos (que ele chama de opiniocracia) não consiste em mudar e multiplicar os modos de dizer, mas em mudar e multiplicar as próprias coisas. Recriá-las novas. Se, para Scoto, tudo o que se diz, se diz do mesmo modo; em Deleuze, o “tudo que se diz” é a própria diferença. O Mesmo é a Diferença.

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