quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Daniel Jorge Habib

Bom dia amigos,

venho fazer um relato, um breve relato, semelhante ao desabafo de um filósofo. Exercício da minha profissão.

No início de 2010 comecei a perceber umas movimentações estranhas no rearranjo geopolítico global, também em relação ao Brasil. Me perguntava por que certas coisas aparentemente desconectadas estavam acontecendo e dificilmente encontrava respostas em causalidade linear, felizmente disponho de algumas técnicas de diagnóstico de causalidade sistêmica recursiva e em rede. Com o passar dos meses uma espécie de "sombra" foi aparecendo e em meados do ano percebi que era algo próximo a um roteiro estruturado para nova conformação política do/no território brasileiro.

Três razões principais me levaram a essa conclusão:
1- o cenário global de mudanças climáticas combinado ao fluxo massivo de êxodo rural e concentração urbana, que vai expor a quase totalidade dos territórios brasileiros exploráveis para energia solar, além de água, minérios, biodiversidade e terras agricultáveis, com condição muito superior à daqueles países onde uma nova pequena era glacial irá tornar a vida urbana impraticável nas próximas décadas;
2- a oferta crescente de mão de obra tecnicamente qualificada mas filosófica, sociológica, antropológica, política, econômica e cientificamente emburrecida no país, condição extremamente favorável para repetidores de regras não pensadas e, claro, não questionadas;
3- o violento retrocesso percebido nos últimos anos nos atos administrativos entre os três poderes e nas três esferas, quanto ao respeito aos DHESCA (Direitos Humanos, Econômicos, Sociais, Culturais e Ambientais), que abrem caminho para justificar uma coalizão multisetorial e multilateral contra o governo e subgovernos brasileiros, apesar do reconhecimento de avanços em outras áreas.

Percebido esse cenário, pude fazer um exercício retrospectivo (uma espécie de regressão de fatos) que me levou até o processo que desmanchou o Programa Fome Zero, primeiro projeto nacional que se tentou levar a cabo desde o descobrimento, mas foi soterrado pelo próprio governo em acordos intestinos.
Passo a passo desde 2004 até 2010 notei que havia, de fato, uma linha lógica (de causalidade sistêmica, recursiva e em rede) com aquelas bases que mencionei, mas ainda não estava claro como se daria o processo de nova conformação política para o território brasileiro. Só nos primeiros meses de 2011 consegui concatenar os fatos e caminhos, na percepção de que haveria algo próximo ao seguinte roteiro:

1- a criação de um sentimento popular de desgosto e desgaste quanto a toda forma de governabilidade, devido principalmente à frustração pela facilidade de acesso ao crédito bancário sem base microeconômica para suprir as dívidas individuais dos menores estratos de renda (efeito da crise econômica = prejuízo das pessoas, lucro recorde dos bancos);
2- a inauguração de um movimento mundial de reconhecimento das violações de direitos humanos no Brasil, principalmente direitos indígenas (como foi e continua sendo o holocausto indígena no Brasil, que ganhou particular atenção nas redes sociais de todo o mundo com os terríveis episódios contra os Kaiowa no Mato Grosso do Sul);
3- a eclosão de um tipo de movimentação social engendrada com o perfeito fim de construir um sentimento popular de "o gigante acordou" (as marchas de 2013);
4- a descaracterização pública e ridicularização, pela mídia, desse sentimento de "o gigante acordou", fazendo com que se transformasse em revolta contida, fomentando a inflamação que antecede a fúria, aumentada ainda pela sensação de impotência particular e incompetência nacional (como por exemplo, o "evento 7x1");
5- o início da declaração de um golpe branco, onde o reconhecimento da autoridade governamental vai sendo minado aos poucos desde dentro da própria estrutura de governo (a luta fictícia contra o golpe comunista bolivariano);
6- a criação do poder gerador de uma guerra civil, uma luta fratricida, que é a cisão NÓS X ELES, de caráter político (esquerda X direita), religioso (Povo de Deus X Impuros), econômico (pobres x ricos), não culminada nas eleições gerais de 2014, mas em franca ascensão;
7- a expectativa popular de intervenção interna, apoiada e supervisionada por intervenções externas (pedidos públicos de intervenção militar);
8- a consolidação da transferência não constitucional de autoridade sobre o governo, seguida de apoio popular imediato, mas que logo será frustrado (impeachment);
9- o agravamento das condições que geraram a insatisfação popular, culminando no ponto de fúria (possível risco de guerra civil interna - MOMENTO ATUAL);
10- um movimento de coalizão multisetorial/multilateral para intervir politicamente e militarmente junto à população, tomando controle sobre o território, que será negado e rechaçado pela população, agora inflamada;
11- o prologamento da situação de instabilidade política interna, que por justificativa econômica validaria a intervenção multilateral;
12- o esfacelamento da idéia de "território contíguo", em pacto semelhante à partilha da África, constituindo finalmente a nova conformação geopolítica face às mudanças climáticas.


Compartilho essa percepção com vocês, na expectativa de que junto comigo possamos refletir sobre o futuro próximo e distante do nosso país, e também do próprio momento atual da civilização.

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