domingo, 5 de julho de 2015

SLOGANS


Marcos Rolim

Acompanhei pela TV a sessão da Câmara Federal que votou o substitutivo à PEC da redução da idade penal. Houve de tudo, menos debate em torno de evidências. É impressionante como as discussões transcorrem no Brasil com os oponentes esgrimindo slogans. Alguém vai à tribuna e diz que “o povo quer a redução da idade penal”. Então, uma deputada, com uma camisa com a imagem do filho assassinado, diz que “chegou a hora de acabar com a impunidade”. Presumo que estas frases sejam suficientes para a maioria dos eleitores.
É curioso ouvir políticos brasileiros clamando contra a impunidade. Sim, porque não há segmento mais impune. Quase um terço dos deputados federais e senadores respondem a processos criminais no Supremo. As acusações vão do desvio do dinheiro público à grilagem, sequestro e trabalho escravo. O que costuma ocorrer é que esta turma não é julgada. Na sessão mencionada, Paulo Maluf se pronunciou. Eu vi, ninguém me contou. Sabem o que ele disse? Que é preciso acabar com a impunidade. Disse também que “os direitos humanos são para os humanos direitos”. Este slogan, uma síntese da aversão ao pensamento, foi criado por Jorge Rafael Videla, um dos facínoras responsáveis pela tortura, assassinato e desaparição de cadáveres na Argentina, razão pela qual foi condenado à prisão perpétua e destituído de sua patente militar. No Brasil, seus colegas golpistas são nomes de rua. Maluf possui várias condenações no exterior por corrupção. Se sair do País será preso pela Interpol. Aqui, responde a dezenas de processos por ladroagens diversas há décadas. Não há uma só sentença com trânsito em julgado contra ele. Talvez seja o caso de se pensar em um novo auxílio aos magistrados brasileiros. Sugiro o “auxílio faxina”, a ser pago cada vez que um bandido rico for condenado. E a deputada que perdeu o filho? Ela é Keiko Ota. O menino Ives Yoshiaki Ota, 8 anos, foi sequestrado, mas terminou sendo morto porque reconheceu um dos bandidos que era policial militar e fazia bico como segurança em loja da família. Os três sequestradores, um motoboy e dois PMs, foram condenados a mais de 40 anos de prisão. A mãe virou deputada e o pai vereador. Ambos defendem o agravamento de penas. Nunca lhes ocorreu lutar pela reforma de uma polícia cujos bons policiais são cada vez mais constrangidos por corruptos e assassinos. O Brasil, desconfio, terminará sendo destruído pelos slogans.

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