domingo, 13 de outubro de 2013

Vindima


Vamos colher as uvas molhadas pelo orvalho
e tapetar de folhas o ingênuo samburá.

Em cada cacho maduro há uma pupila.

Quem será que ensina a estas aranhas
a tecer o fio frágil do aranhol,
e movimenta à sombra escura da parreira
a dança loura do sol?

Vamos colher as uvas.

Vamos cortar os cachos de efêmero sabor.

As tuas mãos morenas são ágeis como aranhas
e têm carícias gulosas para os frutos.

Prova o sumo sanguíneo.
Tinge os teus lábios no sangue da videira.

No teu cabelo o sol floresce uma coroa.
mergulhando os braços na folhagem,
és uma árvore moça,
és uma vinha selvagem que oferece
cachos de beijos para a minha fome!


- Augusto Meyer, em “Giraluz”, Porto Alegre: Globo, 1928.

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