quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

A carne e o espírito




O olhar do sociólogo francês Roger Bastide sobre a literatura e as artes

RESUMO

Livro ilustrado dedicado às artes e copioso volume que reúne textos sobre literatura brasileira e francesa mostram Roger Bastide como um crítico arguto e ardoroso, porém indulgente com autores menores. A ideia de “encarnação” permeia seu pensamento crítico e permite compreender sua visão sobre a literatura nos trópicos.



MARCELO COELHO

O SOCIÓLOGO FRANCÊS Roger Bastide (1898-1974) estudou e amou intensamente o Brasil, país onde passou 16 anos de sua vida (de 1938 a 1954), dando aulas na Universidade de São Paulo e fazendo pesquisas pioneiras, em especial sobre o candomblé.

Mas dizer que Bastide gostava do Brasil é dizer muito pouco, e incorrer em certa imprecisão. Na verdade, ele parecia gostar de qualquer coisa que aparecesse à sua frente.

Pelo menos esta é a impressão que deixam as mais de mil páginas da “Navette Literária França-Brasil” [Edusp, 1.348 págs., R$ 172 os dois volumes], coletânea de seus textos críticos para diversas publicações brasileiras e francesas (como “Anhembi”, “Diário de S. Paulo”, Folha, “Mercure de France”), organizada por Gloria Carneiro do Amaral.



Companheiro de atividade jornalística nos anos 1940, Antonio Candido conta ter repreendido Bastide pelo excesso de indulgência. “Eu não faço juízos de valor”, respondeu o francês, “eu faço juízos de realidade”

Ao longo de tantos artigos, alguns bastante circunstanciais, outros importantes, é difícil ver Bastide sem entusiasmo pelo que comenta; são raríssimas as frases negativas saídas de sua pena.

Companheiro de atividade jornalística nos anos 1940, Antonio Candido conta ter repreendido Bastide pelo excesso de indulgência. “Eu não faço juízos de valor”, respondeu o francês, “eu faço juízos de realidade.” E foi assim que se animou, no seu livro sobre “A Poesia Afro-Brasileira” (Martins, 1943), a colocar o simbolista Cruz e Souza no mesmo nível de Stéphane Mallarmé e Stefan George.

Já nas primeiras páginas do volume “Textos de Crítica Literária de Roger Bastide”, vemos o jovem professor tecendo elogios a obscuros escritores de província, como Pierre Calel, André Lamandé, Louis Gratias, Raoul Stéphan…

O que Bastide admira nesses nomes que a história literária francesa esqueceu é sobretudo a capacidade que tinham de retratar, ou “cantar”, as realidades regionais. O “solo místico, ardente” do Quercy é o que fascina Bastide ao ler um romance de Hélène Lémery. Os jogos de bocha e o “vinho ensolarado” do sul da França dão assunto, diz Bastide, aos poemas “saborosos ou crocantes, perfumados ou suculentos” de Eugène Grangié.

O elogio às descrições locais, com seus perfumes, comidas e lavouras, corresponde, na verdade, a um programa de sensualismo literário que serviria para Bastide como instrumento corretivo a outra preocupação constante em sua vida e seus escritos: a religião. Em especial a das montanhas das Cévennes de sua infância, onde o rigor moral protestante podia combinar-se, segundo Bastide, não com o puritanismo burguês, mas com o espírito de independência e de revolta.

Trata-se, grosso modo, do mesmo percurso seguido por André Gide (1869-1955), a cuja obra Roger Bastide dedicou um livro -e alguns artigos presentes na atual coletânea. Gide oscilou, como se sabe, entre as angústias religiosas de “A Sinfonia Pastoral”, por exemplo, e a descoberta transgressiva do prazer terreno, em outros romances como “O Imoralista” e “Os Frutos da Terra”.

Do espírito à carne, ou melhor, à “encarnação” do espírito no corpo: o tema, no qual o jovem Bastide via a verdade essencial do cristianismo, será a chave de seu interesse permanente por outros autores franceses, como François Mauriac, André Chamson e Pierre Jean Jouve, que aparecem várias vezes nas páginas do volume.

Mas os “frutos da terra”, que com tanto empenho foram procurados nas regiões rurais da França, haveriam de eclodir plenamente diante de seus olhos quando Bastide aportou no Brasil em 1938, convidado pela USP a substituir Claude Lévi-Strauss.

Estudando com raro apetite a literatura brasileira, Roger Bastide utiliza com frequência, e mesmo exagero, um procedimento que se poderia chamar de “crítica evocativa”.

Determinado autor (Graciliano Ramos, para citar um dos grandes, ou Dalcídio Jurandir, para citar um menos importante; ou ainda Jacques do Prado Brandão) escreve, por exemplo, sobre a seca, sobre a Amazônia, ou sobre o mar. É o bastante para que o crítico acenda seus fogos de artifício descritivos. Num livro, encontraremos “algas entre os cabelos da amada, fantasmas de mortos fosforescentes”; em outro, “ilhas verdes, madeiras cortadas, ervas de pajés, luzes de choupana”; em outro ainda, “plantas com espinhos que crescem [num] deserto de cascalho e terra queimada”.

Há muitas páginas assim ao longo do livro, o que torna especialmente admiráveis os momentos em que a crítica de Bastide revela seus poderes de análise, discernimento e proporção.

Bastide inovou a crítica machadiana ao notar que, longe de ser um autor blindado para o meio ambiente do Brasil, Machado de Assis fez com que a paisagem fosse absorvida na carne e no espírito de suas personagens

Em primeiro lugar, Bastide serviu, para os brasileiros de 1950, como um guia bastante seguro acerca das novidades intelectuais da França: Sartre, Camus, Ponge, Bachelard são apresentados em artigos informativos e criteriosos.

Mas é sobretudo nos textos mais longos, como o famoso “Machado de Assis, Paisagista”, ou o prefácio à tradução francesa de “A Morte e a Morte de Quincas Berro d’Água”, que essa descomunal coletânea de textos se mostra realmente indispensável.

Outra seleção de textos de Roger Bastide, agora principalmente sobre artes plásticas, sairá pela Imprensa Oficial neste ano.

Trata-se de “Impressões do Brasil” [no prelo], volume mais compacto e belamente ilustrado, com artigos que vão desde um texto meio antiquado (e, para variar, excessivamente elogioso) a propósito do pintor cubista André Lhotte (1885-1962) a esfuziantes análises sobre as portas de igrejas no barroco brasileiro e sobre a “estética” urbana em São Paulo.

Não por acaso, o texto sobre “Machado de Assis, Paisagista” reaparece no livro, organizado por Fraya Frehse e Samuel Titan Jr. Opera-se, nesse estudo, a mais surpreendente sintonia entre o que havia de preocupação pessoal, de fundo religioso e regionalista, por parte de Bastide, e a própria matéria do escritor.

Todo o risco de um fascínio exterior pela sensualidade e pela paisagem, que Roger Bastide não parecia capaz de superar afetivamente, surge resolvido na escrita de Machado de Assis. Sentindo o problema “na pele”, por assim dizer, Bastide inovou a crítica machadiana ao notar que, longe de ser um autor blindado para o meio ambiente do Brasil, Machado de Assis fez com que a paisagem fosse absorvida na carne e no espírito de suas personagens.

Também em Jorge Amado, que surpreendentemente Bastide considera mais “revolucionário” do que Graciliano Ramos ou José Lins do Rego, um fenômeno semelhante ocorreria. Não se trata, diz Bastide, de autor falando “sobre” o povo, mas de alguém que faz o povo falar através dele.

A escrita desses autores “incorpora”, portanto, o meio em que vivem. O termo “incorporação”, como chave para o pensamento de Bastide, foi destacado por Augusto Massi em outra antologia excelente de seus textos de crítica literária (”Poetas do Brasil”, Edusp, 1997), mais curta, e que a edição de Gloria Carneiro do Amaral não duplica.

Poderíamos também falar em “encarnação”, para manter viva a ideia de tensão religiosa que, graças a essa nova coletânea, revela-se presente o tempo todo na obra do sociólogo e do crítico literário francês.

Incorporação ou encarnação, o tema surge de outro ângulo quando Bastide prefigura as questões schwarzianas das “ideias fora do lugar”, ao propor o estudo dos mecanismos da aculturação ou do “transplante” para tratar da influência europeia sobre a literatura brasileira.

No capítulo das omissões, chama a atenção o desinteresse de Bastide por Vinicius de Moraes, justamente alguém que passou da angústia religiosa para a descontração popular.

A ausência de um índice remissivo é o pecado capital numa coletânea tão abrangente como a “Navette Literária”, que vem acompanhada de outro tomo, onde a organizadora traça um roteiro sintético dos artigos que coligiu
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